quinta-feira, 1 de agosto de 2013

O Hojismo


Já todos fomos crianças. Viviamos a achar que o futuro é que era bom! "Ah! Quando eu tiver 12 anos... Quando chegar aos 15, já posso sair à noite..." Imaginavamo-nos com 18 anos, crescidos, lindos, cheios de coisas interessantes para fazer! As crianças são os campeões do amanhãzismo. Projetam-se no futuro, confiantes de que ele lhes vai trazer tudo o que antecipam nos seus sonhos.
Depois, o tempo vai passando, invariavelmente. À medida que envelhecemos, começamos a olhar para trás, a reviver com nostalgia os tempos da infância e da juventude. Gostamos de contar e recontar as mesmas histórias, às vezes retocadas pelo tempo. Mas este ontemzismo não é monopólio dos idosos. Conheço muita gente mais nova que vive mergulhada num passado qualquer, numa época dourada, blindada ao presente pelos esplendores do passado. E também os há que vivem projetados no futuro, muito depois de terem passado a infância. Esquecem-se de viver o dia a dia, mergulhados em responsabilidades profissionais ou pessoais, que levam muito para lá do razoável. Projetam-se no futuro, esquecendo que o caminho para esse amanhã é atapetado de muitos hojes que merecem ser vividos plenamente.
Vivemos entalados entre o ontem, que não é mais do que um hoje que já passou, e um amanhã, um hoje nebuloso e incerto, que ainda não chegou. 
E foi assim que eu me tornei adepta do hojismo. Aprender com o passado, sim, preparar o futuro, claro, mas acima de tudo viver o presente, o dia de hoje. Com o espanto do primeiro dia e a determinação do último. O dia de hoje é o que aí está, para ser usado e abusado, gozado com desmesura, apreciado em cada minuto.
O dia de hoje está cheio de coisas fantásticas. O sol e o rio, um livro a ler à sombra, um refresco numa esplanada, a música na rua. Uma gargalhada partilhada, uma confidência. Cantar alto, mesmo desafinado, dançar sozinho, mesmo desajeitado. Um abraço, umas mãos dadas, um telefonema inesperado. Um sorriso, sempre!
Desejo a todos umas boas férias e muitos hojes cheios de alegria!

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Lisboa em tempo de guerra

(Sentinela da Legião Portuguesa em serviço no Terreiro do Paço)

No início dos anos 40, a Europa vivia o caos da Segunda Guerra Mundial. A Alemanha avançava em todas as frentes e temia-se um ataque também a Portugal. Sabe-se que esteve planeado, seria a Operação Félix. Salazar organiza então a defesa da cidade de Lisboa, através da Legião Portuguesa. Há monumentos nacionais protegidos por tapumes, os feixes de luz varrem os céus, os tesouros da arte portuguesa são encaixotados e resguardados.
Um país neutral no meio de uma Europa em guerra, Portugal é também local de encontro de espiões de todos os lados do conflito, e plataforma giratória de refugiados que aqui procuram um porto seguro mas, principalmente, um local de passagem para outros destinos. 
Os que aqui chegam encontram um país de contrastes, em muitos aspetos parado no tempo. À volta do eixo definido pela Avenida da Liberdade e Avenidas Novas, surgiam os bairros pobres, onde a sobrevivência era uma luta diária. Uma cidade onde coexistiam lavandeiras e vendedores de galinhas montados em burros, com o esplendor da recém inaugurada Exposição do Mundo Português, que enaltecia o Portugal Imperial. Mas os refugiados também contribuiram, com os seus costumes e as suas indumentárias modernas, para a evolução e a mudança de mentalidades do Portugal conservador e fechado sobre si próprio.
Apesar de todas as limitações, Lisboa era, naqueles tempos, a última fronteira da paz, um local cheio de luz numa Europa de trevas.
São as imagens desses tempos, de uma cidade na fronteira entre a paz e a guerra, que nos são trazidas pela exposição Lisboa em tempo de guerra, agora patente no Torreão Poente do Terreiro do Paço. Um exposição imperdível! O seu encerramento está previsto apenas em dezembro, mas eu aconselho uma visita durante o verão: as janelas abertas proporcionam vistas magníficas sobre o Terreiro do Paço, de cara acabadinha de lavar. A estátua de D. José e o Arco da rua Augusta terminaram as limpezas, já estão destapados e estão lindos! Garanto uma tarde bem passada!

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Dos Livros

(Kansas City Public Library, Missouri - fotografia do Google)

Desde sempre associei o verão aos livros e às leituras. Não sei bem porquê. Talvez porque no verão, nas férias, tenho mais tempo para ler. Ou talvez porque estar debaixo de um chapéu de sol, com uma brisa agradável e uma bebida fresca, acompanhada por um bom livro, é um dos meus ideais de bem estar! Seja como for, dei por mim a pensar em livros. E lembrei-me daquela magnífica biblioteca pública, em Kansas City, cuja fachada é composta por lombadas de livros, agrupados como numa gigantesca prateleira, enormes, poderosos! 
Isto de estar de férias é assim mesmo! Temos tempo e disponibilidade mental para pensar no que nos apetecer! E fiquei a pensar, para comigo, que livros escolheria se me fosse dada a possibilidade de organizar uma fachada assim, para uma biblioteca, uma feira do livro, ou qualquer outro sítio dirigido aos amantes da leitura.
O primeiro de que me lembrei foi o D. Quixote. Confesso aqui que tenho um fraquinho por aquele cavaleiro de Triste Figura, em luta contra moinhos de vento e gigantes que só ele vê, o campeão das causas romanescas e perdidas. Diz Cervantes que ele perdeu o juízo por pouco dormir e muito ler. Pareceu-me que merecia um lugar de honra na minha fachada!
Não podiam faltar os grandes cultivadores da língua portuguesa. Dois ou três livros de António Lobo Antunes, que amei e me doeram até hoje. Um de Saramago, talvez As Intermitências da Morte. Mais alguns exemplos, de escolha difícil, Teolinda Gersão, Hélia Correia, Vergílio Ferreira.
Aqui incluo também os que reinventam a língua portuguesa noutros locais da lusofonia, Mia Couto, Pepetela. E poesia, muita poesia, porque a poesia faz bam à alma!
Não podiam faltar os autores brasileiros que acompanharam a minha adolescência, Erico Veríssimo e Olhai os Lírios do Campo, Jorge Amado e a sua Gabriela, Cravo e Canela
E os livros que falam do amor pelos livros, também têm de lá figurar: A Sombra do Vento, de Zafón, e Firmin, de Sam Savage, por exemplo.
Acho que não ía resistir e incluía uns livros dos Cinco, e um romance policial de Agatha Christie! 
E, evidentemente, bem no centro, O Principezinho, o livro que nos ensina a olhar o mundo com os olhos do coração!
Bem, a minha escolha parece que já dava para uma fachada bem grande! Mas gostava que me ajudassem e dessem sugestões. Quais seriam as vossas escolhas para figurarem na prateleira especial dos livros da nossa vida?

quarta-feira, 24 de julho de 2013

A Fonte Luminosa - adenda!

Em novembro do já distante ano de 2009, ainda este blogue era um infante, escrevi sobre a Fonte Luminosa que, abandonada e seca, tinha deixado há muito de ser fonte, quanto mais luminosa! Está aqui, para quem quiser recordar. Está mais do que na altura de fazer uma correção a esse post. É justo e devido! Porque a fonte já foi recuperada e voltou a jorrar água, e aí está, imponente e bonita, a marcar o topo da Alameda D. Afonso Henriques, em Lisboa.
As obras de reabilitação incluíram a recuperação das estruturas construtivas, a limpeza da pedra e proteção das cantarias, o restauro da estatuária, a reparação dos sistemas hidráulicos e mecânicos. Foram introduzidas novas bombas e quadros elétricos e um sistema computorizado que permite diferentes efeitos cenicos dos jogos de água e de luz e programar as horas de funcionamento. Tudo isto custou cerca de 1,3 milhões de euros, desta vez muito bem utilizados!
A fonte, inaugurada em 1940 para comemorar a entrada das águas canalizadas na zona oriental da cidade, voltou a funcionar no dia 20 de dezembro de 2012. Estive lá nesse fim de tarde, ansiosa por rever os jogos de água da minha infância. No entanto, a inauguração atrasou-se (na verdade, quem se atrasou foram as entidades políticas que iam proceder à inauguração!) e, como a hora do jantar se aproximava, tive de lá voltar depois. Mas valeu bem a pena! 
Agora, a fonte funciona durante a hora do almoço e as primeiras horas da noite. Os jogos de luz e água são esplendorosos. E tornou-se um ponto de encontro e atração para lisboetas e turistas. Aos fins de semana, acotovelam-se os fotógrafos de ocasião. Mas, durante toda a semana, os lisboetas voltaram a usufruir de uma zona que, devido à fonte monumental, se tornou mais bela e mais fresca. Há sempre muita gente nos bancos que rodeiam a esplanada, a ler, a namorar, ou simplesmente a descansar um pouco. Há concertos na esplanada por cima da fonte, nos fins de tarde de verão. Há aulas de ginástica nos relvados fronteiros à fonte. De resto, quem quiser pode utilizar os aparelhos de ginástica que lá foram colocados. E há sempre clientes! Continuam ali os reformados a fazer os seus jogos de sueca e dominó, mas também há senhoras a treinar tai-chi sob a sombra das árvores. Há muitos miúdos a jogar à bola na relva, que para isso é que ela é mesmo boa! 
Contou-me uma amiga que, há alguns dias atrás, quando o calor esmagava a cidade, houve pessoas, novos e velhos, que se meteram dentro da fonte. Não me admiro, estava ali,  apetitosa e refrescante. Uma senhora saiu de lá com um pé cortado, porque havia vidros de garrafa partidos dentro da fonte. Temos de merecer o que a cidade nos oferece. É isso o civismo! Não vale de nada reivindicar, se não somos capazes de merecer o que temos!


(Fotografia roubada a Rafael Martins)

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Das baratas

Há qualquer antagonismo entre as mulheres e esses insetos que dão pelo nome genérico de baratas. É uma aversão atávica, ancestral, uterina... Não sei qual é o seu fundamento científico, mas não há dúvida de que é facilmente comprovável!
Aqui há dias, fui a um supermercado no interior de um centro comercial da capital. É um pequeno supermercado, dentro de um centro comercial insuspeito, e eu entrei apenas para comprar uma alface e mais alguns produtos de mercearia. Quando me dirigi à caixa e pus os produtos no tapete rolante, vi que saía do saco de plástico da alface um bicho com a aparência de uma barata. Se não era uma barata, era um membro da família que, como todos sabem, é muito vasta. A barata parou na borda do saco e ali ficou, com ar provocador. Eu sei que isso não tem problema nenhum, e que no campo há bichos, e que um bicho se pode meter num saco, e por aí fora... Mas entre a compreensão e a reação, há uma distância infinita de incapacidades! Fiquei paralisada, a olhar para a barata...
Quando chegou a minha vez, confidenciei à rapariga da caixa: "Estou com um problema! Está ali um bicho na borda do saco e eu não sou capaz de lhe pegar!" Ela olhou e respondeu: "Já somos duas! E agora?" Olhámos uma para a outra, a rir. A rapariga, então, chamou o segurança e explicou-lhe o problema. O rapaz pegou num guardanapo de papel e tirou o bicho do saco. Sem um comentário, mas com um meio sorriso que expressava tudo o que lhe ía na alma. Apenas soltou um "Já está!" que me pareceu idêntico ao que Hércules teria bradado depois de matar o leão de Neméia.
Quando ele voltou costas, e enquanto fazia as contas, a rapariga disse-me, com ar cúmplice: "Os homens sempre servem para algumas coisas!" Rimo-nos, claro, da frase, mas principalmente de nós próprias.
Abençoados sejam os homens! E que haja sempre um à mão quando é preciso!


quarta-feira, 10 de julho de 2013

Das previsões meteorológicas

Não foi assim há tanto tempo! Foi talvez no final da primavera, quando suspiravamos por uns dias de sol e calor e o S. Pedro só nos brindava com chuviscos e temperaturas invulgarmente baixas para a época. E a previsão espalhou-se: segundo os meteorologistas franceses, iamos ter o verão mais frio desde 1816! Quem tinha marcado férias lá para setembro, talvez tivesse sorte! Antes disso, era dizer adeus à praia e às esplanadas e às cervejolas geladas!
Talvez o S. Pedro se tivesse enchido de brios, não sei!
A verdade é que o calor veio em força, até com uns exageros dispensáveis! Não me apetece escrever, nem pensar muito! Só me apetece preguiçar, de preferência à beira mar, ou num local aprazível, com largos horizontes. 
Ainda bem que, nestes estranhos tempos que correm, nem as previsões meteorológicas são irrevogáveis!

(Na Herdade do Esporão - Fotografia de... Teresa Diniz)

sexta-feira, 5 de julho de 2013

A carreira de mãe

Ser mãe é uma carreira. Longa e exigente. Uma daquelas funções com isenção de horário, que exige dedicação total, mesmo que a remuneração não seja grande.
Não é uniforme, tem escalões, e nós lá vamos subindo na carreira conforme podemos. No início, quando entramos em funções, somos como um trabalhador inexperiente, inseguro. Temos medo de fazer alguma coisa mal, lemos tudo sobre o nosso trabalho, nem dormimos com medo que alguma coisa dê para o torto!
Depois, vamos adquirindo prática e tudo se torna mais fácil. Definem-se procedimentos. Estabelecem-se rotinas. A pouco e pouco, começamos a delegar tarefas, e descobrimos que, de simples trabalhadoras indiferenciadas, passámos a chefes de divisão. Damos orientações, mantemos o rumo. Quando é necessário, fazemos uma admoestação. Sempre que podemos, distribuimos elogios.
Quando damos por nós, somos uma espécie de CEO da empresa. Já tudo funciona independentemente de nós. A empresa cresceu, os funcionários seguiram o seu caminho, e trouxeram mais-valias que nós nem tinhamos imaginado. Mas não se esquecem que fomos nós que lhes demos o impulso para crescer! Quando há uma festa, fazem questão que estejamos presentes. E, se há um problema, é para nós que se voltam, em busca de conselho, de experiência, de colinho! E nós damos o ombro, claro, de braços abertos e sorriso rasgado. Às vezes, com uma lagrimazita ao canto dos olhos!
Porque aqui não há lugar para reformas antecipadas! A carreira de mãe não termina nunca!

(imagem da revista Elle)

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Seguindo os rebanhos


Desde tempos imemoriais, os pastores do interior de Portugal subiam à Serra da Estrela no início do verão, para procurar as melhores pastagens. Quando os tempos frios se avizinhavam, voltavam a descer a serra, fazendo os mesmos precursos em sentido contrário.
A este movimento pendular chama-se transumância. Gosto desta palavra. Etimologicamente, advém da junção do radical trans, que significa para além, com a palavra humus, terra. Isto é, designa o movimento que leva para lá da terra, cruzando culturas e experiências à cadência da passagem dos rebanhos.
Neste fim de semana, foi recriada a Grande Rota da Transumância, entre Seia e as pastagens na zona do Sabugueiro. E nós fomos convidados a seguir os rebanhos pela serra acima, por caminhos seculares. O momento é de festa. Cada rebanho é conduzido pelos seus pastores, vestidos a rigor. Os bodes e os carneiros são enfeitados com bolas de lã coloridas e com grandes chocalhos, que se fazem ouvir a distância. Nas aldeias, as pessoas vêm às portas e às varandas, acenar. Nas paragens, ouvem-se as concertinas, e come-se pão de centeio acompanhado de presunto e queijo da serra.
Foi um passeio pedestre, mas diferente, que aliou o gosto pela caminhada a uma tradição milenar, que teima em não desaparecer. Como um rio subterrâneo, que corre sempre, embora às vezes com pouca visibilidade, indiferente ao ritmo da modernidade, aos avanços tecnológicos, às auto-estradas e às pontes aéreas, à troika, ao FMI ou às guerrilhas partidárias.
São manifestações de um Portugal rural, genuíno, que sobrevive. Apesar de tudo.


(Fotografias de Teresa Diniz)

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Os Antónios de Lisboa

Estão quase a terminar as chamadas festas juninas, isto é, as festas em honra dos santos populares que decorrem, um pouco por todo o país, durante o mês de junho. Em Lisboa, como se sabe, a animação organiza-se à volta de Santo António, o nosso santo que viveu entre Lisboa e Pádua, deixando uma marca indelével nas duas cidades.
Outros Antónios marcaram e marcam ainda a cidade. De muitos, não reza a história. Viveram, labutaram e desapareceram, deixando um rasto mais ou menos profundo. No entanto, durante o século XX, outro António viveu em Lisboa, lá para São Bento, governando daí todo o país. Também marcou indelevelmente o sentir português, de tal maneira que inspirou quadras populares, como esta que corria em voz baixa entre os lisboetas de há cinquenta anos. Seguindo o modelo ingénuo e um pouco brejeiro das quadras dos mangericos, remetia para a situação política e o mal-estar social que, já nessa altura, se fazia sentir.


Dos dois Antónios
de que Lisboa desfruta
um é filho da Sé
e o outro... também é.


Ainda hoje temos um António à frente dos destinos da cidade de Lisboa, mas não me consta que já lhe tenham feito quadras populares...

(Painel de azulejo com milagres de Santo António)

quinta-feira, 20 de junho de 2013

O que pensamos vs. o que dizemos!

Por muito que nos consideremos honestos, francos, sinceros, há sempre ocasiões em que aquilo que dizemos não reflete aquilo que estamos a pensar no momento.
Geralmente, nem é por maldade, antes pelo contrário, pode ser por comiseração, piedade, enfado... Imaginemos aquela situação confrangedora em que uma amiga nos diz, com ar triste: "Estou um pote! Engordei imenso este inverno!" Qualquer pessoa tende a consolá-la, com um "Não, que ideia! Ganhaste uns quilinhos, nada que uns dias de dieta não curem!" Isto apesar de acharmos que não deve ter, lá em casa, um bikini que lhe sirva! Também pode acontecer que vamos com a mesma amiga às compras e, depois de a vermos a provar quarenta e sete pares de calças, já damos por nós a afirmar com o nosso ar mais convicto, embora sem sinceridade nenhuma: "Leva essas, ficam-te lindamente!"
Há também aquelas pessoas que não suportam não saber seja o que for. Se alguém fala de um filme de Tarantino, ou do prémio atribuído a Mia Couto, balbuciam qualquer coisa genérica mas que pareça inteligente, enquanto pensam: "Não faço ideia do que estás a falar, mas estou a parecer que sim!" Claro que há uns mais difíceis. Se alguém falar de Aronofsky a uma destas pessoas, desencadeia um aceno de cabeça misterioso e sabedor, que esconde um "Mas quem será este gajo?" É que, com um nome destes, tanto pode ser um realizador de cinema como um romancista russo do século XIX ou a última contratação do Vitória de Guimarães!
Evidentemente que os mais perigosos são aqueles que dizem, não o que pensam, mas sim aquilo que sabem que nós queremos ouvir. São manipuladores e atrativos. Tendemos a identificá-los com os predadores sexuais que, a coberto de falsos perfis, utilizam a internet para pescar vítimas indefesas. Mas existem em muitas outras atividades, como a política. E nós vamos atrás das palavras atraentes, esquecendo que, por vezes, os que as usam não são sinceros nem querem realmente o nosso bem!...
Rir ainda é o melhor remédio. Por isso, este video é imperdível. Luis Filipe Borges mostra-nos em que pensa um par, no seu primeiro encontro, enquanto prossegue uma conversa aparentemente banal. A ver, com sinceridade!

sexta-feira, 14 de junho de 2013

O Zé dos Cornos

 (O Beco dos Surradores)

O Beco dos Surradores é uma rua estreita e típica de um dos bairros mais típicos de Lisboa: a Mouraria. Mesmo no início do beco, fica esta tasca - porque é disso mesmo que se trata, uma tasca daquelas à moda antiga! 
Tem duas salas, uma ao nível da rua, outra na cave, mas são pequenas e quase entramos diretamente para cima das mesas. Estas, as mesas, são corridas, e nós sentamo-nos onde houver lugar. As conversas correm pelas mesas, como o pão, e erguem-se com a mesma descontração para quem anda ali a apontar os pedidos e a servir: "Ó Chico! Então o meu entrecosto?" O Zé e o filho, mais a patroa, que está na cozinha, apressam-se de um lado para o outro, e vão respondendo naquela pronúncia gingada, característica dos alfacinhas de gema! E, no fim da refeição, a conta é feita num pedaço de papel arrancado da toalha, com prova dos nove e tudo.
Aqui não há nouvelle cuisine, nem menu do chef: os pratos são portuguesíssimos! Mas o entrecosto, a entremeada, os carapaus fritos, o arroz de feijão, são de comer e chorar por mais! E não se pense que só ali entra o pessoal do bairro. A inclusão desta tasca na Rota dos Restaurantes e Tascas da Mouraria, trouxe turistas que não compreendem as conversas, mas apreciam o espaço com olhos curiosos e não ficam indiferentes ao calor humano.
Creio que é por causa de sítios como este que Lisboa está cada vez mais na moda como destino turístico. Ainda se encontram espaços assim, genuínos, não plastificados, que não são iguais a milhentos outros por essa Europa fora. 
E o nome? De onde vem afinal o Zé dos Cornos? Claramente, de um grande e retorcido par dos mesmos que, pendurado na parede logo em frente à porta, constitui quase a única decoração da sala principal! Não tive coragem foi de perguntar a origem daqueles cornos, ou ainda me arriscava a ouvir uma graçola brejeira, bem à moda da Mouraria!

(Os ditos cujos!)

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Santo António Casamenteiro

Hoje, mais uma vez, dezasseis casais de Lisboa deram o nó abençoados por Santo António. Uns casaram-se civilmente, outros optaram pelo ato religioso. Depois de uma voltinha por Lisboa em "tuk-tuk", seguiu-se a festa, na Estufa Fria. Os chamados Casamentos de Santo António tiveram início em 1958, por iniciativa do jornal "Diário Popular". Interrompidos em 1974, foram retomados em 1997 pela Câmara Municipal de Lisboa.
Tenho uma certa ternura por esta celebração e pela vontade da Câmara de ajudar jovens casais a concretizar os seus sonhos. Mas... porquê sob a égide de Santo António? Só porque é o Santo padroeiro de Lisboa?
Não, há boas razões para isto. Santo António tem um rol imenso de patrocínios. É considerado padroeiro dos amputados, dos animais, dos estéreis, dos barqueiros, dos velhos, das grávidas, dos pescadores, agricultores, viajantes e marinheiros; dos cavalos e burros; dos pobres e dos oprimidos; é padroeiro de Portugal, e é invocado para reencontrar coisas perdidas, para conceber filhos, para evitar naufrágios, para conseguir casamento.
E... como aparecem os casamentos no meio desta lista, entre amputados, grávidas, cavalos e burros, naufrágios? A origem está num milagre atribuído ao Santo. Conta-se que uma jovem muito linda, mas cansada de esperar por um noivo, já desesperada de encontrar marido, pediu ajuda a Santo António. Adquiriu uma imagem do santo, benzeu-a e todos os dias a enfeitava com flores que colhia no jardim. Além disso, orava com regularidade para que Santo António lhe arranjasse um noivo. Mas, passou-se muito tempo e o noivo não aparecia. 
 Certa vez, pôs-se a lamentar a ingratidão do santo; desapontada, pegou a imagem e, no auge do desespero, atirou-a pela janela fora. Passava na rua, naquele momento, um jovem cavaleiro e a imagem acertou-lhe na cabeça. Apanhou-a intacta e subiu a escada para devolvê-la. Quem o recebeu foi a formosa donzela. O cavaleiro apaixonou-se por ela e algum tempo depois casaram-se, naturalmente por milagre do santo.
Voltando aos noivos de Santo António, apetece-me dar-lhes os parabéns por este ato de esperança no futuro. Souberam aproveitar a ajuda da Câmara Municipal para fazerem uma festa que talvez não pudessem realizar de outra forma. Por vezes com dificuldades, alguns no desemprego, apostaram na vida, na família, na felicidade. Fizeram bem e desejo-lhes as maiores felicidades! Só espero que não comecem a voar imagens de Santo António das janelas e varandas da cidade!






terça-feira, 11 de junho de 2013

Mais um 10 de junho...

E pronto, lá passou mais um 10 de junho! Não gosto particularmente deste feriado, a não ser pelo facto, muito agradável, de ser feriado! Mas, para mim, não tem grande significado. 
Começou a ser festejado com grandiosidade durante o Estado Novo, pois antes era um simples feriado municipal, que lembrava o génio de Camões. Mas Salazar aproveitou para juntar ao nome de Camões, que morreu na miséria e tão maltratado pela sua Pátria, a comemoração de Portugal e da Raça. Era assim que se chamava na minha infância, Dia de Portugal e da Raça, que isto da Raça era levado com muita seriedade nos anos 30 do século passado, e com resultados bem tristes, como todos nos lembramos!
Recordo-me bem dos dias 10 de junho da minha meninice. Havia intermináveis paradas militares no Terreiro do Paço, pontuadas por discursos que eu não entendia e só me pareciam aborrecidos. Pelo meio, eram condecorados os militares que se tinham distinguido em combate na Guerra Colonial. Muitas eram condecorações póstumas, recebidas por mulheres ou mães em lágrimas. 
Também havia festas e desfiles promovidos pela Mocidade Portuguesa. Ainda me lembro de ter participado numa dessas festas: estava incluída numa coreografia de ginástica, com fitas, e o que recordo melhor é o calor que se abatia sobre nós nessa tarde no estádio que hoje se chama 1.º de maio.
Talvez por isto tudo, é um feriado que não me diz muito! Gostaria mais que o Dia de Portugal fosse o dia 1 de dezembro, que relembra o dia em que recuperámos a nossa independência. Mas, por qualquer razão, achou-se que essa data era descartável! Considerou-se que mais valia manter o dia da raça, manter os desfiles e as paradas, manter as condecorações...
Valha-nos a comemoração de Camões, pois claro!
E valham-nos as sardinhas assadas, os caracóis, os copos de três e os bailaricos, isto é, valham-nos os Santos Populares! Em sua honra, prometo que daqui ao fim do mês de junho só vou escrever sobre coisas agradáveis!


(Desfile das tropas portuguesas em Luanda, no 10 de junho de 1969 - Fotografia retirada daqui)



sábado, 8 de junho de 2013

Festa de divórcio


Uma amiga minha (muito mais nova do que eu, diga-se de passagem!) disse-me, aqui há dias, que tinha ido a uma festa de divórcio.
E eu, entre o surpreendido e o ingénuo:
- Festa de divórcio? O que é isso?
E ela, entre o divertido e o pedagógico:
- É uma festa que se faz quando as pessoas se divorciam, claro! Tal como reunem os amigos para dar conhecimento da sua união, também comunicam aos amigos a sua separação.
E eu, ciente de que a minha provecta idade me faz ver estas coisas com alguma reserva:
- Mas uma separação não é uma coisa muito divertida, pois não? Por melhores que sejam as razões, é sempre um passo difícil, doloroso...
E ela, convencida da superioridade das suas razões:
- Também não tem de ser um trauma!
Pois não, é certo. Especialmente se forem jovens e ainda não houver crianças pelo meio, como parece que era o caso. Fiquei a saber que, tal como na festa de noivado, também houve troca de anéis, mas desta vez tratou-se da devolução das alianças de casamento.
Enfim, modernices! Qualquer dia, apanhamo-los a fumar!

terça-feira, 4 de junho de 2013

O que fazer com os últimos dias?


O que fazer quando nos confrontamos com o diagnóstico de uma doença fatal, que só nos dá mais algum tempo de vida? É uma pergunta terrível, à qual não sei responder. Provavelmente, a reação depende da nossa força interior, mas também do apoio que temos, da família, dos amigos, de uma religião que nos ofereça um caminho. Mas também é verdade que esse caminho é sempre solitário e necessariamente doloroso.
E quando esse diagnóstico terrível nos apanha na juventude, naquela idade em que nos achamos invencíveis, temos todo o futuro para conquistar à nossa frente? Foi o que aconteceu com Zach Sobiech. Confrontado com um osteosarcoma fatal, que só lhe dava meses de vida, Zach decidiu dedicar os seus últimos tempos à música. Compôs esta canção, Clouds, que dedicou a todos os seus amigos e familiares. Achei-a tocante, com uma melodia simples mas que fica em nós, e uma letra que nos interpela. If only I had a little bit more time...
Zach Sobiech faleceu no passado dia 20 de maio. Tinha 17 anos. Fica aqui a canção que compôs, como uma homenagem a todas as crianças que sofrem e enfrentam com força e coragem os dias que lhes restam.


domingo, 2 de junho de 2013

Coração em Post-its

Hoje em dia, no amor como em todos os outros domínios da vida, é tudo rápido. Ama-se e desama-se com muita facilidade. As curtes duram o tempo de uma noite, ou nem tanto. Declara-se uma paixão no facebook, acaba-se uma relação da mesma forma.
Mas o amor é o amor, o sentimento mais forte e mais espantoso que move os seres humanos e os faz ter as atitudes mais inesperadas. Neste fim de semana, quando saí de casa, deparei com um carro todo enfeitado de post-its de várias cores. Claramente, havia ali vários bloquinhos e, reparei depois, o trabalho de várias horas. Cada folhinha tinha uma frase, uma só: "Amo-te!" Algumas folhas tinham o desenho de um coração. Mas o que ali dava nas vistas era o grito, repetido em todas as partes daquele velho Renault : Amo-te! Amo-te! Amo-te!
Achei muita piada àquele grito de amor! Nesta época de amores rápidos, é bonito encontrar alguém que se expõe e perde tempo para dizer que ama outro alguém. 
Não sei quem era o ou a destinatária daquela declaração (seria alguém do meu prédio?), mas espero que tenha, pelo menos, sorrido e acarinhado quem põe assim o seu coração em público, em post-its!



sábado, 1 de junho de 2013

No meu peito não cabem pássaros


Gosto muito de ler e ando sempre com um livro (ou dois, ou três) atrás de mim. Quando acabo de ler um livro, no entanto, não costumo ter esta urgência em escrever ou falar do que li. Mas este livro é diferente. Peguei nele porque o autor, Nuno Camarneiro, tinha ganho o Prémio Leya 2012. Tinha uma expectativa aberta, esperava que fosse bom sem saber bem o que me daria.
A sinopse do livro perguntava: "Que linhas unem um imigrante que lava livros num dos primeiros arranha-céus de Nova Iorque a um rapaz misantropo que chega a Lisboa num navio e a uma criança que inventa coisas que depois acontecem? Muitas. Entre elas, as linhas que atravessam os livros."
O rapaz que chega a Lisboa é Fernando Pessoa, a criança que inventa coisas e histórias é Jorge Luis Borges, o imigrante em Nova Iorque é alegadamente Franz Kafka. As histórias que ali nos surgem são imaginadas, mas consigo encontrar as palavras de Borges e os sonhos de Pessoa. De Kafka, perdoem-me a ignorância ou a falta de competências literárias, não encontro absolutamente nada no Karl que lava janelas ou limpa os copos do bordel onde também encontra o amor. Não encontrei Kafka, nem o percurso de vida nem os dilemas e os absurdos que povoam o seu  universo.
A marca temporal é dada por um cometa que passa nos céus da Terra, em 1910, causando espantos e histerias. Traz um fogo atrás de si, que talvez toque aqueles génios em construção. Mas a sua passagem no romance é tão ténue que, sem aviso na contracapa, talvez não dessemos por ele.
Poderá então concluir-se que não gostei do livro? Não, pelo contrário, gostei muito. Não precisava porém dos nomes sonantes dos pretensos protagonistas. São três histórias, de três meninos que se fazem homens. Histórias que caminham paralelas até ao final. Pequenos capítulos que se entrecruzam, cada um perfeito no seu todo e na parte que lhe cabe. A linguagem é tão perfeita que chega a ser brilhante e acutilante, como um diamante. As ideias e imagens são-nos reveladas em frases cheias de cores e de sentidos. Às vezes, tão plenas que nos chamam para nova leitura, e mais outra e mais outra. Sempre a convocar-nos para novas reflexões e emoções.
Porque hoje é Dia da Criança, deixo aqui um excerto do livro, um texto belíssimo sobre a perda de uma avó, que é como quem diz, de uma parte importante de nós próprios e da nossa infância:

"O que vai numa avó que vai: partes boas da infância chegada ao lume, uma certa forma de falar que já ninguém pratica, a memória ridícula e livre de ter sido ingénuo, insolente e parvo, cheiros de comida feita de ingredientes que nunca mais se voltarão a juntar, a face possível do passado, um calor de encher casas, nomes de pessoas que só ali permaneciam reais, as horas que não terminavam nunca.
Coisas que ficam de uma avó que vai: um epitáfio vago, a crença em deus por respeito e procuração, uma saudade inútil e imprescindível, o súbito envelhecimento de pai e mãe, um passo dado na fila do tempo.
A avó que morre é um livro deixado a meio, é todos os livros deixados a meio. Quem pode agora segurar tantos passados?"

quarta-feira, 29 de maio de 2013

A minha proposta para a reforma do Estado


Muito se tem falado ultimamente de reforma do Estado. No meio da retórica da reforma e das medidas que vão surgindo, apercebi-me de que essas medidas têm caído quase exclusivamente sobre os funcionários da Função Pública. Estou certa de que isso só acontece por falta de imaginação. Por isso, decidi dar o meu contributo. E, porque todos concordamos que o exemplos devem começar pelo topo, a minha proposta debruça-se sobre a Presidência da República.
Pensando em termos de poupança económica, proponho uma alteração na idade mínima para um cidadão se candidatar ao mais alto cargo da Nação. Os 75 anos parecem-me uma idade razoável, por várias razões.
Em primeiro lugar, vai ao encontro do aumento da esperança média de vida, que tem servido de argumento para o aumento da idade da reforma dos comuns mortais.
Em segundo lugar, diminuía claramente, e por razões óbvias, os gastos a que os nossos presidentes continuam a submeter os contribuintes após a sua saída do cargo. O espírito republicano, de que tanto falam, não os impede de continuarem com gabinetes e secretárias, seguranças e motoristas. Por vezes, durante muitos e bons anos. Neste momento, quantos ex-presidentes continua o Estado Português a manter? A minha proposta, adiando para uma idade um pouco mais tardia o acesso a esse cargo, diminuiria também esses encargos posteriores.
Dir-me-ão: ah e tal, nessa altura da vida, mais sujeito a doenças e outras diminuições de capacidades, não irá o Presidente da República enfraquecer a qualidade da sua intervenção democrática? Bem, com sinceridade, penso que ninguém iria notar a diferença!

domingo, 26 de maio de 2013

Bizantinices do futebol

Há mil e quinhentos anos atrás, a cidade de Bizâncio, a que chamavam a Roma do Oriente, dominava o Mediterrâneo. E, na capital do Império Bizantino, lado a lado com o Palácio dos Imperadores e a Igreja de Santa Sofia, impunha-se o Hipódromo. Era uma enorme construção, capaz de albergar até 40 000 pessoas sentadas, rodeada de outras pequenas construções, dedicadas ao alojamento dos funcionários e armazéns. Os espetáculos eram gratuitos, subsidiados pelo Estado; assistir aos jogos, aos combates, às corridas de carros eram as grandes distrações da população.
Havia uma grande competição entre as fações do Hipódromo, os Azuis e os Verdes, que chegava a provocar intrigas políticas e motins. Os corredores de carros, particularmente, eram idolatrados pela  cidade e os azuis e os verdes opunham-se apaixonadamente no apoio aos seus ídolos.
Hoje passa-se exatamente a mesma coisa. Os azuis, os verdes, os vermelhos, os laranjas, os brancos, competem e sofrem com a competição entre os seus ídolos, agora organizados em clubes. Os jogadores de futebol, em especial, são adorados e pagos principescamente. Estão a anos-luz das multidões que os seguem. Fazem parte de uma lógica de mercado que gera enormes lucros para os seus clubes-empresas. E, no entanto, as pessoas identificam-se com eles e com os clubes onde eles jogam, como se disso dependesse a sua vida. É um estranho sentimento de pertença, este. Os adeptos sofrem e regozijam-se com derrotas e vitórias que lhes são completamente alheias: não contribuem para elas e nada ganham ou perdem também com elas. E, no entanto, sentem-nas como suas, como se fizessem parte de alguma coisa que é maior do que eles próprios. 
No dia seguinte, a vida continua, os problemas não desapareceram, as dívidas continuam por pagar, a saúde não melhorou, mas, se a vitória sorriu aos seus ídolos, o mundo parece mais alegre. Houve risos, brindes e algumas bebedeiras. Só os jogadores ganharam prémios de jogo, mas cada adepto parece ter ganho qualquer coisa. 
Assim são as paixões, hoje como há mil e quinhentos anos em Bizâncio.


quinta-feira, 16 de maio de 2013

Palavras de amor de Nuno Júdice



  • "Estar contigo ao acordar, ver como
    se abrem as tuas pálpebras, cortinas
    corridas sobre o sonho, sacudir dos
    teus lábios o silêncio da noite para
    que um primeiro riso me traga o dia:

    assim, amor, reconheço a vida que
    entra contigo pela casa, escancara
    janelas e portas, deixa ouvir os pássaros
    e o vento fresco da manhã, até que voltas
    para junto de mim, e tudo recomeça."
    Hoje é um dia feliz para a Poesia portuguesa. Nuno Júdice ganhou o Prémio Rainha Sofia de poesia ibero-americana. É o segundo português a conquistar este galardão, depois de Sophia de Mello Breyner o ter ganho em 2003.
  • "Se eu definisse o tempo como um rio,
    a comparação levar-me-ia a tirar-te
    de dentro da sua água, e a inventar-te
    uma casa. Poria uma escada encostada
    à parede, e sentar-te-ias num dos seus
    degraus, lendo o livro da vida. Dir-te-ia:
    «Não te apresses: também a água deste
    rio é vagarosa, como o tempo que os
    teus dedos suspendem, antes de virar
    cada página.» Passam as nuvens no céu;
    nascem e morrem as flores do campo;
    partem e regressam as aves; e tu lês
    o livro, como se o tempo tivesse parado,
    e o rio não corresse pelos teus olhos."

    (Nuno Júdice, Tempo fluvial)


  • Amo a forma como os poetas brincam com as palavras e os seus sentidos!
    Fico muito feliz com este prémio, há muito tempo que me deleito com a poesia de Nuno Júdice. Dizem que Portugal é um país de poetas. E de românticos incuráveis! Mas poucos souberam, como Nuno Júdice, juntar o amor e a beleza das palavras com estes resultados!
    "É nos teus olhos que o mundo inteiro cabe,
    mesmo quando as suas voltas me levam para longe de ti;
    e se outras voltas me fazem ver nos teus
    os meus olhos, não é porque o mundo parou, mas
    porque esse breve olhar nos fez imaginar que
    só nós é que o fazemos andar."


segunda-feira, 13 de maio de 2013

Pedaços do mundo na World Press Photo

Está novamente patente em Lisboa a exposição das fotografias premiadas no prestigiado concurso internacional da World Press Photo. Nos últimos anos, tenho tentado não perder, é sempre uma ronda pelo nosso mundo.
Fui hoje ver a exposição. Tem, como sempre, imagens impressionantes. Da faixa de Gaza à batalha por Alepo, da luta das mulheres por reconhecimento, seja no Irão, seja na Somália, das imagens do Japão depois do tsunami às lixeiras onde sobrevivem milhares de pessoas, o que sobra é a marca do sofrimento. Também as fotografias da vida quotidiana têm a mesma marca: é o sofrimento da doença de Alzheimer, a luta pela sobrevivência nas favelas do Rio de Janeiro, os rostos de pessoas marcadas por doenças estranhas e raras. Não consigo deixar de pensar que parece haver um estranho e mórbido fascínio pela morte e pela violência, pela destruição e pela dor. Claro que o fotojornalismo cumpre, entre outras, uma função de denúncia. Mas, neste nosso mundo, não há só dor e sofrimento. Também há momentos de alegria e de celebração da vida, mesmo entre as populações com mais carências. E isso é tão extraordinário e digno de nota como o resto!
Este ano, havia mais uma razão para ir ao espaço do Museu da Eletricidade. Uma das fotografias premiadas era de um jovem fotógrafo português, que representa bem a sua geração: está desempregado! Mas o seu olhar sobre um jogo de futebol entre miúdos, na Guiné, embora a preto e branco, é das imagens mais carinhosas da exposição.
Sai-se dali com um sentimento difuso de depressão. Apesar de tudo, ficaram-me na retina as imagens de um jovem professor que, na India, dá aulas a miúdos sem posses debaixo de uma ponte,com um quadro negro pintado numa parede. É a luta por um mundo melhor, a capacidade de resiliência, a coragem. 
Valham-nos as fotos, belas e poderosas, dos pinguins imperadores no Mar de Ross, na Antártida. Longe dos seres humanos, por isso em paz.

(Batalha por Alepo, fotografia de Fabio Bucciarelli)

sexta-feira, 10 de maio de 2013

As Provas do 4.º ano e as Borboletas

Decorreram esta semana, pela primeira vez desde há muitos anos, as provas finais do 4.º ano. Na 3.ª feira, foi a prova de Português. Hoje, foi a vez da Matemática. Calhou-me vigiar uma sala e a prova pareceu-me acessível. Aos alunos da minha sala, também. Estavam calmos e compenetrados, cientes da sua responsabilidade. Sentiam-se crescidos.
Os meninos chegaram, acompanhados pelos seus professores, que os ajudaram a encontrar as salas. Os professores também estiveram presentes no intervalo da prova, para os vigiarem e orientarem no recreio. Tudo decorreu com normalidade. Não houve choros nem desmaios, nem nenhum dos cenários negros traçados pelas confederações de pais.
Há algum tempo atrás, um amigo falava-me das crisálidas e das borboletas. Explicava-me ele que as jovens borboletas tinham de fazer um grande esforço para romper os casulos, mas que esse esforço era necessário para fortalecer as asas. Era o próprio esforço que lhes permitia, mais tarde, voar. Se alguém, cheio de boas intenções, lhes abrisse os casulos, as borboletas não teriam as asas prontas para voar e, a prazo, morreriam.
Os esforços, os desafios, preparam-nos para a vida. Temos de aprender a cair e a levantar-nos outra vez. A persistir nas tarefas e nos nossos objetivos, mesmo quando parece difícil. A enfrentar pequenos desafios, umas vezes com sucesso, outras não, mas continuando sempre a caminhar em frente. A isso, chama-se crescer. Quando os pais, cheios de amor, tentam aplainar os caminhos dos filhos, afastando todas as dificuldades, não os ajudam a crescer.
Hoje, os nossos meninos do 4.º ano foram às escolas dos grandes fazer as suas provas finais e portaram-se muito bem. As suas asas tornaram-se um bocadinho mais fortes.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Dos abraços


No passado fim-de-semana, tive de ir ao aeroporto buscar uma pessoa que não é da família, mas é como se fosse! No espaço das chegadas, com tempo disponível e sem nada para fazer, pude dedicar-me ao meu passatempo favorito: observar as pessoas. E dei comigo a pensar na importância dos abraços. É um bom local para refletir sobre isso, porque deve ser o local em Portugal onde se dão mais abraços por metro quadrado.
O abraço é uma invenção extraordinária da espécie humana. Através de um gesto, duas pessoas juntam-se numa só forma. Partilha-se carinho, amizade, conforto, cumplicidade. Sem palavras, dizem-se coisas muito importantes, como “Tinha saudades tuas!” ou “Estou aqui para o que tu precisares!” Ou simplesmente “Gosto de ti!”
O espaço das chegadas do aeroporto é um espaço cheio de emoções positivas. Há os burocratas que chegam e partem com a mesma cara, a pensar nos seus problemas e a falar ao telemóvel. Mas também há homens e mulheres que se reencontram. Netos que correm para os avós. Amigos que se revêem. Há sorrisos e uma ou outra lágrima furtiva. E há abraços, muitos abraços.
Devíamos dar mais abraços, faz bem à alma. Talvez devesse haver mais espaços de chegada, na nossa vida. 


domingo, 5 de maio de 2013

E depois... há a arte urbana!

No último post, escrevi sobre os atos de vandalismo que, disfarçados de grafitis, desfeiam e destroem o nosso património. Parece-me que ficou claro que não têm nada de comum com os desenhos, por vezes muito interessantes e imaginativos, que surgem em alguns locais da cidade. 


Não aparecem em qualquer lado. Os artistas, porque neste caso é disso que se trata, escolhem um local ou são convidados para preencher um espaço. Geralmente, são espaços degradados ou desvalorizados da cidade. Às vezes, são prédios à espera de recuperação. Outras vezes, são muros ou espaços vazios. Os desenhos são criativos, dinâmicos. Enfim, é arte urbana. Rápida, efémera, mas arte, mesmo assim!


Infelizmente, uma pesquisa rápida na internet traz-nos sites que baralham as coisas e metem na mesma gaveta grafitis artísticos e os rabiscos que conspurcam os nossos espaços. E essa confusão não é saudável para ninguém. Creio que se devem admirar uns enquanto se condenam duramente os outros. E acho até que se deviam procurar os delinquentes e fazê-los limpar ou pagar pela limpeza. Os últimos rabiscos que foram feitos na estátua do Marquês de Pombal vão custar-nos mil euros em limpeza. Se multiplicarmos isto por todos os rabiscos que sujam as paredes da cidade, temos uma ideia do nosso prejuízo!


Mas, porque o que é bonito é para se ver, antes que o tempo o degrade, trouxe aqui alguns exemplos de criação artística através da técnica do grafitti. São dos meus preferidos e forçam-nos um sorriso quando por ali passamos. Só por isso, já têm valor!


segunda-feira, 29 de abril de 2013

Coisas que eu detesto IV - Tags


Chamam-se tags ou, em português, grafitos. Eu chamo-lhes borradelas nas paredes. Nascem nas paredes e nos muros, a coberto da noite, poluem os bairros e a cidade. Em qualquer lado por onde se ande, estes rabiscos agridem os edifícios e o nosso sentido estético. Não respeitam nada, tanto aparecem num tapume abandonado como numa porta de garagem, como num edifício histórico. 
Se há uma coisa que me revolta é ver edifícios recém recuperados, lindos, pintadinhos de fresco, borrados por escritos de grande profundidade filosófica como orc, mau, ou simplesmente coisas como amo-te André. Às vezes, são letras e rabiscos indecifráveis. Surgem em paredes pintadas, mas também nas pedras dos monumentos, onde são muito mais difíceis de remover. Não consigo entender o que pensam ou sentem as pessoas que assim degradam o nosso património. O que lhes passa pela cabeça? Que as suas borradelas são mais importantes do que as paredes de um edifício histórico? 
Senti ontem essa revolta, mais uma vez, ao passar no belo relógio do Cais do Sodré, acabadinho de recuperar, uma autêntica jóia. Mas alguém já borrou a parede, com rabiscos negros, incompreensíveis, provavelmente uma marca de um gang. A mesma coisa no fim de semana, ao subir a Calçada da Glória: desde o elevador, monumento nacional e património insubstituível da cidade de Lisboa, até às paredes circundantes, tudo está sujo, rabiscado, pintalgado. São as paredes das escolas. São os comboios urbanos e suburbanos. Alguém me explica porque temos obrigação de aturar isto? Penso nas belas cidades do centro da Europa e interrogo-me: o que acharão disto os turistas que, felizmente, continuam a eleger Lisboa com um destino de férias predileto? E, acima de tudo, porque têm os lisboetas de aguentar estas manifestações de mau gosto e falta de civismo? Não há nada a fazer? Não há uma lei qualquer que penalize os crimes contra o património?
Algumas pessoas, falam em liberdade de expressão artística e em arte urbana. Não vamos confundir as coisas. Há arte urbana, que se pode exprimir em locais vagos do espaço urbano, criando até, por vezes, uma mais valia no ambiente, com as suas explosões de cor e criatividade. Há esses exemplos, claro. E há o vandalismo, puro e simples. 

(Grafiti no Bairro Alto)


Este ano, o vereador da Câmara Municipal de Lisboa prometeu começar a limpar os grafitos das paredes, começando por alguns dos bairros mais vandalizados, Bairro Alto, Penha de França, Benfica. Acho muito bem! Estamos todos à espera, Sr. Vereador Sá Fernandes!

sexta-feira, 26 de abril de 2013

O Chico

                                       


Chama-se Chico. A dona não sabe bem que idade lhe atribuir. Foi o marido que lhe trouxe o papagaio, quando andava embarcado, no rio que agora vem lamber o fundo da calçada. E foi uma paixão que já dura há muitos anos. O Chico é a sua companhia, agora que o marido se foi. E é um papagaio conversador, fala muito, especialmente quando percebe que a dona não lhe está a dar a atenção toda.
- Quem és tu? O que estás a fazer? E logo a seguir desinteressa-se, não espera pela resposta, rodando a cabecita para outro lado.
A dona dá-lhe todos os mimos, como se fosse um netinho. Conta-nos com ar enternecido que o Chico gosta de chocolate e de pastéis de nata. Ela compra-lhe um pastel de nata por semana e ele come, guloso, mas só o creme! E ela, preocupada com os diabetes do papagaio, leva-o à médica de família, que lhe diz para não abusar dos doces. Também gosta de nêsperas.
- Já lhe comprei duas nêsperas, este ano. Para mim, ainda não comprei, estão muito caras!
Pois estão, tal como os chocolates e as outras guloseimas! E eu fico a pensar quem irá comprar nêsperas para o Chico, no dia em que a dona desaparecer...

sábado, 20 de abril de 2013

O vagabundo na avenida

Encontro-o de vez em quando, logo de manhãzinha, a deambular na avenida. Vagueia, com um ar meio perdido, por entre os carros que se desviam, felizmente poucos naquela quase madrugada em que o encontro. Também sigo devagar, desviando o carro, se necessário. Nem sei o que lhe diria, se o atingisse, inadvertidamente.
- Onde é que mora?
- Não sei, minha senhora.
É alto mas não é forte, é mais balofo, com umas bochechas que lhe caem dos lados da cara escura. Não lhe adivinho a cor, só consigo vislumbrar um bocado da cara, escura de suja. E os olhos, uns olhos avermelhados e mortiços. Tem um gorro enfiado na cabeça, do qual se escapam umas ripas de cabelo de tom igualmente escuro e indefinido. Usa um blusão e umas calças, manchadas e com ar de não verem água há muito tempo. Tem aquele ar de não ter ninguém que se ocupe dele, uma mãe, uma mulher, uma irmã...
- Olha, não vais para a rua nessa figura, pois não?
Não, ninguém se interessa, a não ser os voluntários que, de vez em quando, talvez lhe dêem comida ou o levem a um balneário público.
Imagino o que o terá levado até àquele ponto. Pelo meio de qualquer história de carência e desespero, encontraria com certeza o álcool ou outra droga, a desolação.
Ele pára no meio da avenida, o olhar perdido em qualquer ponto dentro de si. Eu sigo, e o meu dia vai ser um pouco mais triste. Não tanto como o dele, no entanto...
O nobre vagabundo - Charlie Chaplin

terça-feira, 16 de abril de 2013

Uma imagem luminosa

Ontem, como acontece todas as segundas feiras, lecionei seis aulas, seguidas. Terminei, como sempre, exausta. Sentia-me cansada de andar de bloco para bloco, cansada de falar, de explicar, mas também cansada de lutar contra a indiferença, os olhos vazios de curiosidade, a resistência passiva. Cansada de mandar guardar telemóveis escondidos debaixo das carteiras e "head-phones" disfarçados debaixo dos capuzes. Cansada de tentar fascinar e captar para o saber, mentes totalmente absorvidas por questões como roupas, facebook, futebol ou namoricos (que agora se chamam "curtes"). E não pude deixar de me lembrar de uma imagem que andou aí pela internet.


Olhei para esta imagem e, de repente, não a entendi. O que faziam aqueles rapazes, ali sentados, de noite, com um livro nas mãos? Depois, vinha a explicação. Aquele local era o estacionamento do Aeroporto Internacional de G'Bessi, na Guiné-Conacri. Quando começa a anoitecer, o passeio enche-se de estudantes, que se agrupam ali por ser dos únicos locais com luz artificial e, por isso, onde podem estudar depois de escurecer. Os rapazes mais velhos sentam-se nos pilares de cimento, os mais novos nos separadores da estrada. As raparigas também chegam, acompanhadas por um irmão, ou outro adulto. Às vezes, caminham durante uma hora, para poderem estudar junto a uma luz. Os que aqui estão consideram-se sortudos. Outros têm de procurar a luz de uma bomba de gasolina, ou de uma casa mais abastada. Eles percebem bem o valor da educação, do estudo!
Somente 5% da população de Guiné-Conacri, na África, conta com Eletricidade, e mesmo esse pouco sofre com cortes de eletricidade freqüentes. Segundo dados das Nações Unidas em média um Guineense consome 89 kilowatts por hora ao ano. Isto é o equivalente a ter um ar condicionado ligado durante 4 minutos por dia.
Volto a pensar na maioria dos meus alunos. Têm a mesma idade destes rapazes que estudam junto aos postes de eletricidade do aeroporto de G'Bessi. E, no entanto, há um mundo a separá-los. Falta a uns o que aos outros sobeja. Seja a luz elétrica, seja a luz do espírito.
 

domingo, 14 de abril de 2013

Três em um

Há muito boas razões para ir, num sábado ou domingo próximo, até à Fundação Calouste Gulbenkian. Desde logo, as duas exposições que aí podemos visitar.
A exposição 360º Ciência Descoberta leva-nos numa viagem fascinante pela ciência ibérica no século XVI. Um mergulho numa época em que explorámos novos mundos, descobrindo e dando a conhecer novas terras e novos mares, novas plantas, animais, produtos e culturas, novas estrelas e constelações. Nada por acaso, "indo a acertar", mas fruto de um cuidado planeamento e aturados estudos de astronomia e matemática. Com o cuidado de, mesmo afrontando os ensinamentos universalmente aceites dos antigos, perseguir a verdade, através da observação e da experiência.
Saímos da exposição com a noção da importância do contributo português para o desenvolvimento económico e científico. E com a certeza de que a falta de jeito dos portugueses para a matemática é um mito recente! Mais ligado à preguiça de pensar, provavelmente!
A outra exposição é sobre a vida e a obra da escritora brasileira Clarice Lispector. De origem russa, viveu no Brasil desde criança e produziu uma obra densa, pouco conhecida em Portugal. A exposição está concebida de forma muito interessante, já que cada sala se apresenta com um formato visual diferente. Imperdível, especialmente para quem não conhece Clarice Lispector, e pode percorrer as diversas salas com o deslumbramento da descoberta.
Mas, não eram três as razões para ir até à Gulbenkian? perguntarão os mais atentos. Sim, é que é sempre um prazer passear pelos jardins da Gulbenkian num dia de primavera!
 
 

sábado, 13 de abril de 2013

O Corredor Verde

Chega o sol e começam a ver-se ciclistas a enxamear as ciclovias de Lisboa, os parques, os espaços ribeirinhos. Vêem-se famílias, pais e filhos, mas também muitos ciclistas com todo o ar de fazerem a sua vida diária de bicicleta. É uma realidade nova, em Lisboa. Durante muito tempo, argumentou-se que Lisboa era uma cidade cheia de colinas, altos e baixos, subidas e descidas, portanto, pouco amigável para os ciclistas. Mas isso é um mito, já que se refere apenas ao centro da cidade. Há muito por onde pedalar...
Há cerca de 30 anos, o arquiteto Gonçalo Ribeiro Telles apresentou um projeto inovador para a cidade, falando, pela primeira vez, num corredor verde, arborizado, ciclável, que ligasse o centro da cidade ao seu pulmão verde, o parque de Monsanto. Na altura, todos acharam o projeto inviável e o seu autor, um sonhador. Mas o mundo avança com os sonhos. E o tempo veio a dar forma a esse corredor verde, que hoje liga o Parque Eduardo VII a Monsanto, integrado numa rede de ciclovias que já conta com 47 quilómetros!
O arquiteto Gonçalo Ribeiro Telles foi esta semana galardoado com o prémio Jellicoe, considerado o prémio Nobel da Arquitetura Paisagista, que homenageia toda a sua carreira, sempre ligada à defesa da terra e do ambiente e à integração sustentada do Homem no meio que o rodeia. Quase não vi referências a esta distinção nos meios de comunicação, particularmente na televisão. Infelizmente, os nossos jornalistas estão sempre mais preocupados com os espirros dos políticos ou as constipações dos futebolistas. Não faz mal. Cada ciclista que passeia no corredor verde de Lisboa é uma homenagem a Ribeiro Telles. Mesmo que não o saiba!
 
 
Mais informações sobre a rede de ciclovias de Lisboa disponíveis aqui: