sábado, 26 de novembro de 2016

Ainda se caçam Pokemons?




Escrevi num post anterior que, quando passei por França, no mês de agosto, só se falava de dois assuntos, nos telejornais: o problema do burkini e a polémica da caça aos Pokemons. Não que alguém quisesse impedir esse singular desporto da era digital. Falei com vários jovens sobre o assunto e todos me declaravam enfaticamente que era muito saudável caçar Pokemons porque os fazia caminhar quilómetros e interagir com outros caçadores. Aceito o argumento, embora me pareça que era a mesma coisa se corressem na marginal ou andassem de bicicleta...
Nas noites quentes de verão, encontravam-se às centenas por Lisboa, desde Belém até ao Parque das Nações. Os caçadores de Pokemons eram facilmente reconhecíveis. Caminhavam geralmente em grupos, todos mais interessados nos seus telemóveis do que na conversa com o vizinho do lado. De vez em quando, agrupavam-se em certos locais: parece que aí havia mais pokemons à solta, ou ginásios para os ditos fazerem qualquer coisa que nunca percebi bem... Enfim, pareciam inofensivos.
Em França, a polémica centrava-se na caça aos Pokemons em sítios ou monumentos históricos. Alguns presidentes de Câmara proibiram mesmo o jogo nesses locais. E a polémica instalou-se, com uns contra a proibição, outros a favor. Apesar de eu achar a caça aos Pokemons uma brincadeira um bocado tola mas inofensiva, também não me agradava essa mistura, essa diluição de fronteiras. Brincar aos caçadores no Parque das Nações é uma coisa, procurar Pokemons no Mosteiro dos Jerónimos ou na Torre de Belém é outra totalmente diferente. São locais que se devem visitar pelo que significam, em termos estéticos ou históricos, e não para descobrir algum Pokemon escondido atrás de uma coluna ou debaixo de um canhão.
Enfim, a polémica não chegou a ser mais violenta porque, aparentemente, a moda passou. Não me lembro de deparar com caçadores de Pokemons nos últimos meses. Entretanto, vieram os festivais de verão e as praxes universitárias, os jogos de futebol e a Web Summit, e a malta distraiu-se com outras coisas. Tal como todas as modas nesta época do superficial e do efémero, esta também passou. E a malta que quer estar em forma, voltou a correr ou a andar de bicicleta...

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

A minha liberdade condicional


Eu não sabia, mas cometi um crime: estou doente. Desenvolvi uma tendinite no ombro direito que me tem dado muito que fazer! Depois de meses a tentar conciliar as aulas com os tratamentos, a correr para não deixar nada para trás, a dormir mal com as dores e com a ansiedade, a minha médica disse: Basta! E pôs-me de baixa. Veredito: braço em repouso e fisioterapia, de preferência, diária.
A baixa médica transformou-me logo num suspeito, aos olhos do Estado. A nossa elite legisladora, que sabe bem como contorna a lei quando lhe dá jeito, julga-nos a todos pelo seu próprio exemplo. Daí a suspeição! Eu podia utilizar a pequena fortuna com que o Estado me remunera mensalmente (especialmente em situação de baixa) para, por exemplo, ir apanhar sol para a República Dominicana, ou, pelo menos, para deambular pelos centros comerciais, a comprar as prendas de Natal... Sendo suspeita de defraudar o meu empregador, sou sujeita a uma medida de coacção: termo de identificação e residência. Medida leve, um degrau abaixo da prisão preventiva! Tenho de me manter em casa durante dois períodos no dia, em três dias da semana, para a minha entidade empregadora mandar fazer a verificação domiciliária da minha baixa. Afinal, quase não tenho tempo para fazer a fisioterapia! As caminhadas recomendadas pela fisioterapeuta são para esquecer... e já nem falo das compras domésticas, quem quiser que as faça... Será que posso pedir para me porem, em alternativa, uma pulseira eletrónica no tornozelo? Dava-me mais liberdade e também impedia a minha fuga para a República Dominicana!
A situação de baixa médica torna-nos suspeitos, aos olhos do Estado. Eu já olho para o futuro, ansiando pelo momento em que serei premiada com a liberdade condicional... Para ir trabalhar, claro!

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

A viagem de balão que eu (não) fiz...



Terminou neste fim de semana o 20.º Festival de Balões de Ar Quente, que pôs, mais uma vez, dezenas de balões a colorir os céus do Alentejo. É sempre um espetáculo magnífico e eu lá rumei até terras alentejanas, para voar ou, simplesmente, apreciar as vistas...
Eu não me sentia com muita coragem para essas esperas, mas os anúncios falavam também de vouchers, com voos garantidos. Como tenho amigos no Alentejo, pedi para me comprarem os vouchers. E paguei-os de boa vontade, já que eram vendidos pelos bombeiros e o seu valor revertia para as suas corporações.
E, no sábado, lá fomos para o Alentejo! Às 14h e 30, a fila já começava a formar-se. Uma rapariguita, com ar desembaraçado mas com claras deficiências no que toca a organização de eventos, gritava informações e orientações para as pessoas, que se agrupavam pacificamente, numa espera tranquila. Uma fila para os possuidores de vouchers, outra fila para os que não possuiam vouchers e apostavam numa viagem gratuita. De repente, as coisas começaram a tornar-se estranhas. Os organizadores resolveram perguntar aos da fila gratuita quem queria comprar uma T-Shirt com voucher. Várias pessoas avançaram, em corrida. E as coisas desorganizaram-se. A rapariguita esganiçada decidiu colocar esses recém chegados no início da fila. E eu, que sou desconfiada, comecei a não gostar do ambiente...
Chegou a hora de entrar nos balões. O tempo estava instável, alguns balonistas estavam com medo de levantar e parecia haver menos lugares disponíveis. O mais lógico seria dividir logo as pessoas pelos baões disponíveis, fazendo grupos pela ordem da fila. Mas foi então que a tal rapariguinha, com o aparente aval da organização, mostrou toda a sua falta de competência. Os gritos eram agora para todos os que esperavam: "Três pessoas para aqui!" Avançavam três. "Agora seis pessoas levezinhas!" Corria lá de trás um grupo de raparigas, algumas bem avantajadas... Perdeu-se a ordem, desapareceu o critério. E, de repente, não havia mais lugares nos balões! E as pessoas que se tinham mostrado mais educadas e respeitosas da organização da fila de espera, ficaram em terra, com um voucher de "voo garantido" na mão!
Algumas explicações da rapariguita, sem um pedido de desculpas! Uma total falta de respeito pelas pessoas, tratadas como um monte de bonecos! Uma organização deplorável, que transformou uma festa numa inesperada e inexplicável frustração para várias pessoas. Portugal merece melhor!
E foi assim que eu fiquei, na tarde de sábado: a ver navios, que é como quem diz, a ver balões!

domingo, 6 de novembro de 2016

O caos em Lisboa




Este início do ano letivo, que corresponde também ao final das férias para muitos portugueses, tem sido especialmente penoso para os lisboetas. As obras em várias zonas da cidade, assim como a degradação do serviço público de transportes, tem trazido o desespero e uma fúria resignada a todos os que têm de se deslocar para trabalhar ou fazer qualquer outra coisa na capital.
Já se tem ouvido falar dos problemas do metropolitano de Lisboa. Não os entendo bem. Nos últimos anos, havia greves dos trabalhadores do metro semana sim, semana não, alegadamente em defesa de um melhor serviço para os passageiros; e, no entanto, tudo parecia funcionar bastante bem. Agora, a situação é caótica mas não se ouvem protestos. Será que o serviço está melhor? Parece-me bem que não! Não me lembro de chegar à linha azul e ver que o próximo comboio só parte dali a vinte minutos. Esperas de quinze, dezassete minutos tornaram-se vulgares. O resultado é evidente: estações cheias e comboios apinhados.
Fugir do metro para andar de autocarro pode não ser uma boa ideia. Cá por cima, o trânsito arrasta-se penosamente, por entre buracos e pó. Há ruas cortadas e passagens limitadas a um automóvel. Da Graça ao Cais do Sodré, de Entrecampos ao Arco do Cego ou ao Campo das Cebolas, o panorama é o mesmo. As obras esventraram Lisboa e a paciência dos lisboetas. Um trajeto que se fazia em vinte minutos demora agora uma hora ou mais. Os autocarros andam constantemente atrasados e invariavelmente cheios.
O outono está aí. Talvez a Câmara Municipal de Lisboa tenha sorte e não seja muito chuvoso! Juntar as habituais inundações a estes estaleiros a céu aberto, por onde se tentam esgueirar automóveis e transeuntes, parece elevar a um grau apocalíptico um cenário já caótico.
Seria necessário fazer todas estas obras ao mesmo tempo? Estaríamos todos assim tão desesperados por mais uma ciclovia ou mais um metro de passeio? No próximo ano, depois de se fazerem todas as devidas inaugurações, quando forem depositar o voto nas urnas das eleições autárquicas, talvez os lisboetas já se tenham esquecido deste ano de pesadelo! Ou talvez não! 

domingo, 16 de outubro de 2016

Uma caldeirada na Trafaria



Um destes dias, convidaram-me para ir até à Trafaria, comer uma caldeirada. É um daqueles convites que são irrecusáveis... Aproveitar os últimos dias de sol... Cruzar o Tejo num ferryboat dos antigos, um cacilheiro a sério, amarelo, onde ainda podemos apoiar-nos na amurada, a sentir o vento e as ondas do rio... Saborear um peixinho fresco, cozinhado das formas mais tradicionais... Que bom programa!
Há muitos anos que não ía à Trafaria e estava com curiosidade em ver como estava aquela pequena vila, fronteira a Lisboa. Parecia-me talhada para ser um ponto de referência turística: a vinte minutos da capital, com saída da estação fluvial de Belém e cruzando o Tejo num passeio muitíssimo agradável! Os seus restaurantes são conhecidos, os pratos são recomendados. Esperava ver uma vila mimosa, cheia de esplanadas, com restaurantes de decoração marítima e tradicional, com jardins e passeios cuidados até ao porto fluvial.
Infelizmente, enganei-me. Encontrei uma aldeia de subúrbio, com um ar abandonado e desengraçado. Em algumas paredes, a decoração era feita com grafitis e palavras de ordem do PCP e do Bloco de Esquerda. Não  havia flores nem passeios cuidados. Detetava-se um ambiente geral de falta de brio e de ambição. Esplanadas, poucas: meia dúzia de mesas, desalinhadas. Os restaurantes estavam cheios, alguns com fila de espera à porta. A decoração dos interiores, em geral, era pobre e sem graça. Os empregados, poucos, vestidos de forma descuidada, sem qualquer noção de serviço de mesa. Os preços não são tão baixos que não suportem, pelo menos, uma toalha de mesa aos quadrados...
Salvou-se a caldeirada, que estava magnífica!

sábado, 10 de setembro de 2016

Postal de Lisboa XXV - Os azulejos de Lisboa




Hoje, passámos a manhã a passear por Lisboa, de nariz no ar, a observar os azulejos das fachadas dos prédios. Todos deviamos fazer isto mais vezes, tirar tempo para olhar à nossa volta, com vagar. Muitas vezes, é aquilo que está ao pé de nós, que vemos todos os dias, que mais nos escapa! É o caso dos azulejos.
Todos nós, em Lisboa, nascemos e crescemos rodeados de azulejos. Eles estão nas fachadas e nos interiores. Nos cafés e nas igrejas. Nas casas de banho e nas escadarias nobres. Atapetam prédios inteiros ou são apenas frisos, à volta das janelas ou no topo dos edifícios. São multicolores ou monocromáticos. Têm padrões geométricos ou motivos florais. São tantos e tão diversificados que já não lhes damos importância nenhuma.
A arte do azulejo é uma das nossas heranças mouras. A partir do século XVI, XVII, atinge aqui em Portugal, no entanto, um esplendor quase único. Um século depois, salta do interior para o exterior e cobre fachadas inteiras. E, quando Lisboa cresce e se expande, no século XIX, esta cobertura azulejar cobre as ruas da capital.
Naquela época, havia várias fábricas de azulejos, tanto na zona de Lisboa como do Porto. Era uma cobertura relativamente barata, duradoura e termicamente adequada. A segunda metade do século XX, no entanto, assistiu a um abandono do centro da cidade e, com ele, a um desprezo por esta nossa característica decorativa.
Nós não prestámos atenção, mas os turistas sim. E começou a venda dos nossos azulejos para o estrangeiro, a altos preços, muitas vezes ilegalmente retirados dos locais a que pertenciam. Calcula-se que sairam do país milhares de azulejos por ano. Hoje, voltou a valorizar-se o azulejo como parte do nosso património, e também do património universal. Há projetos de salvaguarda e valorização, como o Projeto SOS Azulejo, que vale a pena conhecer.
Hoje, andámos a passear por Lisboa, observando essa paisagem cultural tão característica. Descobrimos pormenores em que nunca tinhamos reparado e descobrimos que alguns prédios cobertos de azulejos (geralmente dos finais do século XIX) tinham sido demolidos recentemente, desaparecendo com eles a cobertura das suas fachadas, os frisos florais, os painéis decorativos. Quem sabe onde estarão? 

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Igualdade, em pequenos lances

Arranjei um problema num ombro, complicado, doloroso. As causas são um tanto obscuras: o médico fala de situações de tensão continuada e maus posicionamentos relacionados com a atividade profissional. A consequência foi só uma: tratamentos de fisioterapia até... sabe-se lá quando!
Felizmente, a minha fisioterapeuta é muito simpática. É jovem, risonha, muito profissional. E gosta de conversar enquanto trabalha. Diz que ajuda a descontrair os pacientes... provavelmente tem razão. 
Foi assim, nessas conversas, que eu fiquei a saber que ela tem um hobby pouco vulgar: é árbitro de futebol. Não deve ser tarefa fácil, num meio em que ainda impera a testoesterona. Provavelmente, teriam de mudar o tipo de insultos que os adeptos dirigem aos árbitros. E, sinceramente, não sei se impõem mais ou menos respeito em campo.
Segundo parece, as árbitros (ou árbitras? tenho de lhe perguntar!) ainda são poucas. Arbitram principalmente jogos do Campeonato Feminino de Futebol, embora possam arbitrar também jogos masculinos. E já o vão fazendo, nos campeonatos de juvenis e juniores. E os seniores, os jogos dos grandes? Lá chegarão! 
Daqui a dez ou quinze anos, provavelmente, este meu espanto já não terá fundamento e será normal ver uma mulher nas equipas de arbitragem. Pouco  a pouco, passo a passo, qualquer mulher terá tanto direito a detestar futebol como a praticá-lo ou arbitrá-lo. E é essa igualdade de oportunidades que assim, em pequenos lances, se constrói.





domingo, 4 de setembro de 2016

Noites de música

Ontem à noite, a EGEAC ofereceu outra vez aos lisboetas, e a quem quis assistir, um espetáculo de elevadíssima qualidade. A noite estava tépida e aprazível e o Terreiro do Paço encheu-se com milhares de pessoas de todas as idades e feitios que quiseram ouvir música. Era o concerto de inauguração da temporada da Orquestra Gulbenkian. A música foi escolhida a dedo: o encanto e exotismo das danças do Prince Igor, de Borodin; o romantismo do Peer Gynt, de Grieg; e a elegância da Rhapsody in Blue, de Gershwin, tocada com o talento de Mário Laginha. Foi muito bom ouvir a música, mas também foi muito bom perceber a educação daqueles milhares de pessoas, que souberam quando aplaudir e quando estar em silêncio. Parabéns à EGEAC, é assim que se leva a música às pessoas e as pessoas à música!

Durante o serão, lembrei-me muitas vezes das quentes tardes de verão e das longas viagens de carro em que eu e os meus filhos inventavamos histórias, inspirados por algumas destas músicas. Uma delas, das nossas preferidas, era precisamente o Peer Gynt...


"Morning", de Peer Gynt, de Grieg... Morning is the victory over the night... Morning is the new beggining... Morning is the hope...

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

A alma das flores

- O que é que tem hoje, D. Adília?
Abriu a boca para dizer qualquer coisa, talvez o costumeiro "não é nada", mas ficou com o gesto suspenso. Passado um momento, meneou a cabeça, sem conseguir dizer uma palavra.
- Está aí com uns olhos tristes, a cabeça encostada na mão... passa-se alguma coisa!
- Nem sei como explicar.
Os anos, já mais de oitenta, pareciam pesar-lhe mais do que o costume. Suspirou. Como explicar o que lhe ia na alma?
- Andam a limpar a fachada do meu prédio. Fazem a limpeza com jactos de areia e temos de ter as janelas e as varandas desocupadas. Comecei a tirar os vasos de flores, mas não tenho onde os pôr. A minha casa é pequenina, não tenho sítio para as minhas flores. Já comecei a dá-las, mas acho que algumas vão morrer. Custa tanto separar-me das minhas flores! Tenho umas sardinheiras vermelhas, grandes, carnudas... e uma buganvília, linda! O que vai ser das minhas flores?
Limpou uma lágrima e voltou a suspirar.
- A minha filha já ralhou comigo, disse que era uma palermice e que me comprava outras flores novas. Mas ela não compreende. Eu tenho aquelas flores há muito tempo. A partir de uma certa idade, nós pegamo-nos às coisas, é como se elas tivessem uma alma e fossem nossas amigas.
Eu, que estou a ouvir a conversa, penso que a filha compreende, sim, mas tenta desvalorizar essa relação que nos prende aos objetos e às coisas que nos rodeiam, para ajudar a mãe. Quando os anos passam, essas relações são pequenas âncoras que nos prendem à vida. Ganham uma alma, sentidos ocultos. E não faz sentido cortar esses laços de alma.


Nota: Esta pequena história é real, como outros retalhos da vida que eu vou apanhando e trazendo para o blogue. Mas o nome da mulher é inventado. Escolhi-o em recordação de outra mulher, também já com mais de oitenta anos, e que sempre gostou de flores.

domingo, 28 de agosto de 2016

Burkini ou não, eis a questão

Mulher muçulmana, usando um burkini, faz surf numa praia da Califórnia

Durante as férias que agora vão terminando, um dos países por onde passei foi a França. Como, mesmo em viagem, mantenho o hábito de ir ouvindo as notícias logo de manhã, apercebi-me que havia dois assuntos que dominavam os noticiários franceses: um deles era a polémica do burkini. Ao outro assunto voltarei, aqui, noutra oportunidade.
Para quem anda mais distraído, o burkini é uma espécie de pijama de mangas e calças compridas, que inclui um toucado ou lenço para a cabeça e destina-se às mulheres muçulmanas que querem ir a banhos. Vou ser muito sincera: não tenho qualquer espécie de simpatia por um regime político ou uma religião que subalternize a mulher. Essa subalternização pode ser feita de muitas maneiras, desde impedindo-as de ir à escola até à obrigação de se esconderem atrás de uma fatiota disforme e uniforme, que as despersonaliza e retira da visibilidade social. Recordo-me de ter visto algumas dessas mulheres no Mar Morto, tomando banho, com os seus fatos pretos boiando à sua volta como aves de mau agouro. Face a essa imagem, tendo a simpatizar com o burkini. Afinal, é uma forma de lhes garantir alguma liberdade de movimentos, alguma alegria e até alguma personalidade diferenciada. Dominadas por uma pressão religiosa e social que não lhes reconhece o direito à alegria, o burkini fornece-lhes uma pequena arma de transgressão socialmente aceite. 
Há outro aspeto que não é negligenciável, na sociedade francesa como em qualquer sociedade ocidental: a liberdade. Esse é, provavelmente, o maior valor que as revoluções liberais nos deixaram, a intangibilidade das nossas liberdades individuais. E nós exercemos alegremente o direito a fazer o que bem nos apetece ou a vestir o que bem queremos. Lembro-me, quando era miúda, de ver as senhoras mais idosas na praia, todas vestidas mas, mesmo assim, felizes, a molhar os pés ou a dar a mão a um neto à beira-mar. Elas não usavam fato de banho. Por pudor. Por cultura. E se um polícia chegasse ao pé delas e as obrigasse a despir? Acharíamos bem? Ou a nossa defesa da liberdade é diferente, quando se aplica a outros ou a nós próprios?
O argumento dado pelos municípios franceses que proibiram o burkini também me faz confusão. Ver mulheres de burkini faz as pessoas sentirem-se inseguras, porque as associam ao terrorismo islâmico e aos atentados? Então, a melhor maneira de lutar contra o terrorismo islâmico é escondendo os muçulmanos? Nada disto faz sentido. Ou talvez só faça sentido se for integrado na grande desorientação que grassa nas nossas sociedades. Mas que não nos deve fazer esquecer os nossos valores fundamentais, aqueles que fazem a nossa diferença.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

História na paragem do autocarro


Estava calor, na paragem do autocarro. O sol batia diretamente na chapa e, naquele meio de tarde, a paragem parecia uma estufa. Um senhor idoso, de cor escura, sentou-se ao lado de uma senhora idosa, de cor clara. Mas voltou a levantar-se do banco, dizendo que estava demasiado quente. Por razões incompreensíveis, a senhora idosa sentiu-se ofendida e protestou: 
- Não estava mais calor, lá de onde veio?
O homem retorquiu-lhe sem demoras:
- E como é que a senhora sabe de onde é que eu venho? Acha que eu venho de África por causa da cor da minha pele? Eu sou tão português como a senhora! Aposto que a senhora também não sabe de onde vieram os seus antepassados! Houve muitas invasões de povos e a senhora não sabe quais são as suas origens! As pessoas não sabem História!
Comecei a ouvir atentamente aquela defesa da História, entrecortada de pronúncias e acentos variados. A senhora tentava desculpar-se com argumentos inúteis, que já iam nos seus antepassados transmontanos, o homem contra-atacava com múltiplas invasões de povos, das quais baralhava um pouco as datas.
Ao meu lado, uma senhora de meia-idade desabafava:
- Quando eu vivia em África, tratavamos os negros com mais respeito, embora eles fizessem os mesmos trabalhos que nós fazemos hoje. Eu vivia em Moçambique e tinha criados e cozinheiros. Agora, eu é que trabalho num hotel. Eu era portuguesa, vivia bem. De repente, deram-nos 48 horas para sair de Moçambique, ou perdiamos a nacionalidade. De repente, o Samora Machel era um herói e nós não pertencíamos a sítio nenhum. Nunca percebi o que foi que nos aconteceu. Mudou tudo, de repente ficámos sem nada. O que é que aconteceu?
O homem idoso de cor escura, que entretanto já tinha apanhado o seu autocarro, tinha razão: as pessoas não sabem História. E assim não se consegue perceber porque é que estamos nesta situação ou noutra, o que nos trouxe aqui, que ventos sopraram e alteraram a nossa vida. A História também nos ensina outra coisa: todos nós somos joguetes, peões, num jogo muito mais amplo, onde se jogam interesses mais abrangentes e, muitas vezes, mais mesquinhos. No século IV como no século XX ou XXI, a nossa vida é uma peça minúscula num jogo de interesses que nos manipula e nos ultrapassa. E pode ser abalada de repente, por uma simples mudança na direção dos ventos.

terça-feira, 5 de julho de 2016

Em Timor festejou-se a vitória de Portugal




Depois da emoção que foi, para muitos portugueses, a passagem da seleção portuguesa às meias-finais no Euro 2016, tivemos outro momento não menos emocionante: as imagens dos festejos em Timor Leste. Eram 6h 30 da manhã em Dili quando o jogo finalmente acabou, depois do prolongamento e dos penalties. E dezenas de bandeiras de Portugal sairam à rua, empunhadas por muitos timorenses, a pé ou de motocicleta, que percorreram as ruas de Dili festejando a vitória de Portugal, como se fora a sua própria.
Estas imagens são emocionantes, porque nos mostram a ligação emocional que ainda existe entre um território longínquo, parte de um império colonial vasto e disperso, e esta cabeça do império, tantas vezes desorganizada e pouco eficaz. 
Penso, por vezes, que sofremos de um qualquer complexo em relação ao nosso passado colonial. Umas vezes, incensamo-lo, exageramos os heroísmos e os nacionalismos. Outras vezes, deixamos pesar mais os complexos de culpa e só recordamos a exploração e a escravatura. Algures no meio estará um olhar mais limpo e descomplexado sobre a nossa história. 
Estas manifestações de alegria nas ruas de Dili fizeram-me lembrar um artigo do professor Paulo Pinto, historiador e investigador da Universidade Nova de Lisboa, sobre "Descobrimentos e Memória". Lembrava o professor Paulo Pinto o silêncio que envolveu os 500 anos da chegada dos portugueses a Timor, tradicionalmente datada de 1515. A jovem república de Timor-Leste celebrou a data, com pompa e festejos públicos, ao mesmo tempo que festejava os 40 anos da sua declaração de independência. O governo português juntou ao silêncio a ausência nas cerimónias oficiais em Dili, fazendo-se apenas representar pelo Presidente do Tribunal Constitucional.
Esta miopia na forma como se olha para o nosso passado origina estas situações. Pelo contrário, acarinhar os laços emocionais que se estabeleceram poderá potenciar laços culturais duradouros e, seguramente, valiosos.


sexta-feira, 1 de julho de 2016

Na paragem do autocarro

- Posso sentar-me aqui?
Distraída como sempre, tinha-me sentado e colocado a mala ao meu lado, ocupando um assento no banco da paragem. Quem se dirigia a mim, sorrindo, era uma senhora idosa, e eu respondi-lhe também com um sorriso, pondo imediatamente a mala ao colo.
- Claro que sim, desculpe, estava distraída.
- Se eu não fosse já velhota não lhe dizia nada, mas custa-me estar em pé, sabe?
- Mas fez bem, tinha direito ao lugar, nem que tivesse dezoito anos.
- Ah, se eu tivesse dezoito anos...
E começou a cantarolar: Ai quem me dera, ter outra vez vinte anos...
- Isto era um fado do meu tempo. Como é que se chamava a fadista? 
A senhora fazia um esforço para se recordar do nome, mas não conseguia. Sei bem o que isso é, também já me vai acontecendo... Voltei a dirigir-lhe um sorriso:
- Se tivesse vinte anos, lembrava-se do nome!
- Às vezes, até tenho medo de me esquecer do meu próprio nome. Olhe, menina, digo sempre o meu nome e a minha morada aos motoristas dos autocarros. Todos os motoristas por aqui me conhecem. Eu vivo sozinha, não tenho ninguém. Então, saio de casa e apanho um autocarro. Se me acontecer alguma coisa, o motorista sabe quem eu sou!
E, com outro sorriso, levantou-se e apanhou o seu autocarro.
Estratégias para iludir a solidão!



sexta-feira, 24 de junho de 2016

Brexit...


E pronto, a Grã-Bretanha lá decidiu abandonar um espaço onde nunca esteve de coração, a União Europeia. Mesmo que não tivesse nenhuma ideia definida sobre o assunto (o que não é o caso), bastar-me-ia ver quem festejou os resultados do referendo inglês para temer pelo nosso futuro coletivo. Começando em Donald Trump e acabando em Marine Le Pen, passando por todos os partidos europeus, pequenos ou grandes, que não partilham dos ideais europeístas. Os extremistas e nacionalistas exultam... e o discurso demagógico vai ganhando terreno. Quando é que já vimos isto?
Há muitas questões em cima da mesa, que vão da economia à situação de regiões como a Escócia, a Irlanda, Gibraltar. Há o pano de fundo do discurso xenófobo ligado à imigração e aos refugiados. Haverá com certeza muitas coisas inesperadas nos próximos tempos. E, de repente, o nosso mundo já não parece o mesmo...
A União Europeia tem estado de costas voltadas para os problemas concretos dos cidadãos europeus. Tenho alguma esperança que este Brexit sirva de despertador para os outros vinte e sete estados e que a União Europeia se fortaleça, em vez de se fragmentar e soçobrar. Em todo o caso, penso que a União, melhor ou pior, lá fará o seu caminho.
Talvez o Reino Unido se desintegre mais depressa do que a União Europeia. E o tal Dia da Independência não passe do canto de cisne do grande Império Britânico!




terça-feira, 21 de junho de 2016

O festival de carne de cão



É na China, é claro! Inicia-se hoje o célebre Festival de Yulin, na província de Guangchi, onde o principal pitéu é a carne de cão. 
Há já anos que se organiza este festival, sempre na altura do solstício de verão e sempre acompanhado de protestos e petições vindos de todo o mundo. Como parece evidente, as autoridades de Yulin são perfeitamente indiferentes aos protestos e continuam a organizar o festival, que é um sucesso. Só nas edições de 2014 e 2015, estima-se que tenham sido mortos e consumidos cerca de 10.000 cachorros por ano. Muitos desses cães são caçados e até roubados, para serem cozinhados no festival. 
As opiniões dos chineses dividem-se: alguns dizem que comer carne de cão é um gosto, mas não uma tradição; mas muitos outros, num país conhecido pelos seus estranhos hábitos gastronómicos, consideram que é uma tradição daquela província, que não se deve quebrar.
Confesso que estou a escrever tudo isto e a sentir calafrios. O cão não é como outro animal qualquer, e mesmo em relação a qualquer animal as preocupações de bem estar já são uma constante no mundo civilizado. Mas, o cão? Acompanha-nos há milénios. Foi o primeiro animal a ser domesticado pelo homem, não como animal de criação, mas como companheiro de caça e guarda dos acampamentos. A nossa relação com o cão é uma relação especial.
Um cão compreende os nossos sentimentos e sabe expressar os seus. É o melhor amigo que se pode ter, leal, fiel, de uma dedicação a toda a prova. Um cão ama incondicionalmente o seu dono. Quem já teve um cão sabe do que falo. 
Por tudo isto, ver as imagens do festival de Yulin provoca-me os tais calafrios. E, por tudo isto, prefiro inserir aqui uma imagem de um homem, um milionário chinês, que já resgatou mais de cinco mil cachorros de serem mortos e cozinhados.
Não se pode desculpar tudo com a tradição. Se assim fosse, ainda andavamos escravizados, a arrastar grilhões.

domingo, 19 de junho de 2016

Os adeptos portugueses

Não, não vou aqui escrever sobre futebol, os meus conhecimentos sobre o assunto são risíveis. Por maioria de razões, também não vou tecer qualquer tipo de comentário sobre o jogo de Portugal com a Áustria, ontem. Deixo isso para os inúmeros "doutores do futebol", que nos massacram durante horas seguidas com previsões sobre os jogos, seguidas de outras tantas horas com análises exaustivas sobre os mesmos. Procuro seriamente não os ouvir, mas é difícil não prestar alguma atenção ao que se passa à volta dos jogos.
Não me lembro de um campeonato de futebol com tanta violência. Não dentro do campo, mas nas bancadas, à volta dos estádios, no centro das cidades onde decorrem os jogos. Quase todos os dias vemos imagens de adeptos, alcoolizados ou não, que se envolvem em tumultos. São ingleses, ou croatas, ou russos, ou ucranianos... Às vezes, são manifestações de força organizadas, protagonizadas por energúmenos de corpos tatuados e murros prontos. Vemos cargas policiais e praças vandalizadas. Suspeita-se de proteção, quando não de instigação, de alguns estados às ações dos seus adeptos. 
E os adeptos portugueses? Envolvidos em bandeiras, pintados de verde e vermelho, cantam canções pimba e fazem churrascadas. Isto é, fazem do futebol aquilo que me parece que ele deve ser: uma festa. Cantam e riem, sofrem e choram pela sua seleção, mas não andam aos murros. 
Li nas notícias que Portugal pode sofrer um processo disciplinar na sequência do jogo de ontem, porque um adepto invadiu o campo depois do jogo, para tirar uma selfie com Cristiano Ronaldo... Depois das imagens de violência a que temos assistido, isto até me dá vontade de rir... Os adeptos portugueses, às vezes, podem ser palermas, mas não passa daí.
Ontem, quando o jogo acabou, os adeptos portugueses sairam do estádio tristes, seguramente, mas com civismo. Parabéns, portugueses!



sexta-feira, 10 de junho de 2016

Outra vez 10 de junho...

Quem me conhece, sabe que não morro de amores por este feriado, muito pelo contrário! Já aqui escrevi sobre isso, há dois anos atrás. Enfim, é feriado... e isso sabe sempre bem!
Este ano, no entanto, há aspetos diferentes. Se, por um lado, as comemorações se centraram nos desfiles militares no Terreiro do Paço, a fazerem lembrar as comemorações de antigamente, por outro lado, abriram-se de novo ao povo português, e isso agradou-me muito.
Gostei de saber que os condecorados deste ano eram pessoas comuns que se tinham distinguido ao serviço dos outros, sejam militares sejam civis, como as porteiras de Paris, que ajudaram desinteressadamente todos os que lhes apareceram à porta, naquela noite terrível de atentados. Nunca aderi àquelas condecorações maciças de jovens (ou menos jovens) empreendedores. Nada tenho contra os empreendedores, sejam eles estilistas ou empresários industriais. Agem para o seu próprio lucro e benefício, no que fazem muito bem! Mas... condecorados, porquê?
Também gostei de ouvir os recados do presidente da República. Foram ao encontro do que eu penso e a História nos ensina: o povo português é resiliente, esforçado, mas as elites que nos têm governado ao longo do tempo têm deixado muito a desejar... Mais preocupados com agendas pessoais e partidárias do que com o bem comum, têm colocado o país à beira do abismo demasiadas vezes! Não me refiro apenas às elites políticas, mas também às elites económicas e culturais. Completamente centrados nos seus umbigos e nos seus egos hipertrofiados, vão fazendo os seus percursos através de jogos de interesses, satisfeitos com as suas pequenas vitórias, desinteressados do serviço à comunidade. 
Alguns elementos dessas elites estavam no próprio Terreiro do Paço, mas não tenho muita esperança de que reflitam  e interiorizem as palavras do Presidente da República.


(Imagem António Cotrim - Lusa)

domingo, 29 de maio de 2016

Pessoas que não se calam

Há um certo tipo de seres humanos que, numa viagem, são totalmente insuportáveis: as pessoas que não se calam...
Geralmente, no meio da lufa-lufa do dia a dia, não damos muito por elas. Mas, quando nos sentamos num autocarro ou num comboio para uma viagem mais ou menos longa e temos a pouca sorte de ter uma pessoa assim como companheiro de viagem, não temos escapatória. Começam por esboçar um sorriso ou tecer qualquer comentário amável e, quando damos por isso, já estão lançadas em monólogos imparáveis. Como somos, em geral, pessoas bem educadas, não temos a coragem de as mandar logo às urtigas e aguentamos estoicamente, fingindo algum interesse por todos os pormenores com que esses faladores nos vão bombardeando...
Podemos tentar, de quando em vez, transformar o monólogo em diálogo e dizer algumas palavras. Mas é um esforço inglório. Essas pessoas estão tão centradas em si mesmas que rapidamente interrompem para voltar ao seu discurso. Contam tudo, falam de uma vida que pode ser real, ou imaginada, ou ligeiramente pintada com cores mais alegres... Quem sabe? Se falarem muito, até podem acreditar no que dizem...
Regularmente, esboçamos algumas tímidas tentativas de fuga: abrimos o livro que trazíamos na mala, ou fechamos os olhos por momentos... mas a verborreia do falador regressa na primeira oportunidade.
A geração mais nova já descobriu aquela que me parece ser a defesa mais eficaz contra esses faladores: é pôr os phones e deixá-los a falar sozinhos! Bendita tecnologia!


domingo, 15 de maio de 2016

Postal de Lisboa XXIV - A Mesquita de Lisboa


A entrada principal da mesquita
A mesquita de Lisboa foi inaugurada em 1985. Construída na colina que sobe de S. Sebastião, a sua arquitetura destaca-se no meio do casario lisboeta, mas não são muitos os não-muçulmanos que lá entram.
Ontem, a mesquita abriu mais uma vez as suas portas, para uma visita aberta a todos, crentes e não crentes, organizada pela Um Outro Olhar, Divulgação Cultural. Guiados pelo Sheik Munir, há muitos anos à fente da Comunidade Islâmica de Lisboa, os visitantes puderam percorrer todos os espaços da mesquita.

A Sala de Orações
Uma mesquita é, acima de tudo, um espaço de oração. Por isso, o espaço mais importante é a grande sala de orações, de uma beleza contida, com o seu nicho apontando a direção de Meca, o seu enorme candelabro, os painéis de azulejo com versículos do Corão ou simplesmente motivos florais. Todo o chão está coberto de tapetes, já que os crentes devem rezar descalços, sobre um local limpo. Os azulejos estão muito presentes, lembrando que a nossa tradição de azulejaria é, na realidade, uma herança árabe.

Os azulejos com versículos do Corão
Mas o espaço da mesquita inclui muito mais do que a sala de orações. Há salas para conferências e palestras e espaços para as aulas corânicas. No piso inferior, situa-se a sala mortuária, com o espaço para as lavagens rituais do morto, mas também a grande sala para celebração de casamentos, já que, em qualquer dos casos, se come e se bebe. 

Na sala mortuária

No último piso, encontra-se ainda uma grande sala de conferências e um recinto desportivo, com bancadas e tudo, que pode ser utilizado pela comunidade, seja ou não muçulmana.
O centro de todo o complexo é, como em qualquer mesquita tradicional, o pátio, rodeado de colunas e ladeado pelo alto minarete.

O Pátio com o seu minarete

O Sheik Munir foi dando todas as explicações, respondendo a todas as perguntas, com paciência e sentido de humor. Agradeceu a presença de todos, frisando que é através do conhecimento mútuo que se fazem desaparecer os medos. A ignorância é a mãe de todos os radicalismos. E o Sheik Munir mostrou-nos um Islão moderno, tolerante e esclarecido, bem integrado na cidade. 

As pequenas cúpulas que ladeiam o pátio

Lisboa nem sempre foi uma cidade tolerante, mas foi sempre uma cidade feita de diversidades e é essa a sua riqueza. Espero que possamos continuar a conhecer-nos e a aceitar-nos mutuamente. E que Deus, seja qual for o seu nome, nos abençoe a todos.


Azulejos com alguns dos nomes de Deus

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Turismo vs. Vandalismo



Ontem à tarde, tive de ir à Baixa fazer umas compras. Caminhava sem pressas, a apreciar o sol, que não nos tem brindado muito com a sua presença nestes últimos tempos! Vinha do Rossio para os Restauradores e o meu olhar foi irresistivelmente atraído para o espaço vazio onde, até à semana passada, estava a estátua de D. Sebastião, antes de ser destruída pela vã glória de uma foto. Uma figura relativamente pequena, num nicho entalado entre dois arcos em ferradura, na frontaria da Estação do Rossio. Dois arcos em ferradura, talvez a lembrar-nos do cavalo branco que deveria trazer-nos de volta, numa manhã de nevoeiro, aquele pequeno rei. 
Não sou grande admiradora de D. Sebastião. Foi um rei pequeno, na estátua e na História, um rei sonhador e aventureiro, que levou Portugal para uma aventura sem lógica e sem glória, cujo final é de todos conhecido. O jovem Sebastião e os seus sonhos foram o resultado de um determinado contexto político, social, religioso e ideológico, dir-me-ão, mas... não é isso que acontece com todos nós? 
Eu caminhava, perdida nestes pensamentos, enquanto passava ao lado das colunas do Teatro D. Maria II. Aí, no meio das desvairadas gentes que por ali costumam poisar, um grupo de três homens chamou-me a atenção. Eram altos, fortes, de traços nórdicos. Um deles tinha a cabeça rapada, apenas com umas madeixas no topo, de um loiro sujo. Bebiam cerveja, em tronco nú, aproveitando também o sol. De repente, o das madeixas levanta-se e, sem qualquer problema, chega-se a uma coluna e alivia o excesso de cerveja. Mesmo ali, como um cão, e com o mesmo grau de consciência do dito animal. 
Não tenho absolutamente nada contra os turistas. Pelo contrário, trouxeram animação, euros e variedade. Mas há que ter cuidados redobrados na preservação do que é o nosso património! Penso que deveria haver mais polícias, especialmente nas zonas históricas, a vigiar discretamente e a multar exemplarmente estas atitudes idiotas. Não importa que o idiota em causa seja lusitano ou estrangeiro! Não, não se pode pendurar nas estátuas! Não, não pode urinar nos monumentos! E por aí fora...
Pelo que vejo, era uma forma eficaz de encher os cofres do Estado, que bem precisados estão...

quarta-feira, 27 de abril de 2016

O Mistério das Peúgas Desaparecidas

É um mistério que me acompanha desde há muitos anos. De vez em quando, depois de uma lavagem de roupa, lá aparece uma peúga desemparelhada! O que aconteceu? Para onde fugiu a outra peúga? Sem resposta para o enigma, vai aumentando o montinho de meias solitárias, na prateleira da despensa... Eternamente à espera do seu par...
Sempre desconfiei que este enigma não intrigava apenas a mim. Lembro-me de um filme que vi já há muitos anos, em que uma criança explicava, de forma simples, o que achava que acontecia às meias perdidas: haveria um Céu das Meias para onde iam todas as meias desaparecidas e, quando morrermos, voltaremos a encontrar todas elas, muito bem arrumadas num grande cesto. Pareceu-me uma explicação encantadora, mas pouco convincente.
Aparentemente, o mistério das meias desaparecidas continuou a fascinar várias pessoas. 




O matemático especialista em estatística Geoff Ellis e o psicólogo Simon Moore desenvolveram até uma fórmula que, asseguram, prevê o risco de perdemos meias: [L (pxf) + C (txs)] – (P x A).Sendo que L é o ‘tamanho da máquina de roupa’, que se calcula multiplicando o número de pessoas da casa (p) pela frequência de lavagens que se realizam por semana (f); C é a ‘complexidade da lavagem’, que se calcula multiplicando o número de diferentes lavagens (branco e coloridas) que se fazem numa semana (t) pelo número de meias que se lavam por semana (s); o P é a ‘positividade’ com que fazemos a máquina de roupa - que se mede numa escala de 1 (‘forte rejeição’) a 5 (‘grande prazer’) e o A é a ‘atenção prestada’, que se mede como o número total de precauções que tomamos em cada lavagem para evitar que as meias se percam, como desenrolá-las ou aparelhá-las antes.Quanto maior for o resultado deste cálculo, maior será o número de meias que perdemos.
Respeito este estudo, claro, embora esteja convencida de que foi feito quando estes dois cientistas não tinham absolutamente nada de mais relevante para estudar! Mas, previsões à parte (e quem quiser que faça as contas às meias que vai perder até ao fim da vida), provavelmente as meias perdidas jazem atrás de algum armário, ou no quintal, por baixo do estendal da roupa, ou algures, levadas pelo vento. Ou talvez eu as vá reencontrar todas no paraíso...

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Não percam a esperança




"Não percam a esperança!" foi esta a mensagem que o Papa Francisco deixou aos refugiados do campo de Moria, que visitou este fim de semana na ilha de Lesbos. Sim, não percam a esperança, porque muitas vezes é só o que lhes resta. Já perderam a casa e os amigos, perderam o trabalho e as recordações de uma vida inteira, perderam familiares, perderam sonhos. Entalados entre fronteiras, apanhados entre jogos de poder e hipocrisias, não lhes resta mais nada. Não percam a esperança!


sábado, 16 de abril de 2016

Amadeo de Souza Cardoso, o modernista esquecido

Amadeo em Paris

Em boa hora vai realizar-se em Paris, no Grand Palais, uma grande exposição que reúne e divulga a obra de Amadeo de Souza Cardoso. 
Como portuguesa e frequentadora do Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, a obra de Amadeu sempre me foi familiar. Lembro-me também de uma grande exposição que a Gulbenkian organizou, aqui há anos, com a retrospetiva do pintor, e que foi um tremendo sucesso. Mas fora de Portugal o seu nome é quase desconhecido e isso é uma enorme injustiça.

Entrada

Esta semana, foi a anteestreia do filme/documentário Amadeo Souza Cardoso, o segredo mais bem guardado da arte moderna. Realizado pelo francês luso-descendente Cristophe Fonseca, mostra-nos o percurso do pintor, desde a sua infância minhota, até à sua morte precoce, em 1918. E permite compreender melhor a dimensão da sua obra e as razões do seu esquecimento. Através da tela, seguimos o autor para Paris, onde conhece e se torna amigo de alguns dos grandes nomes da arte nesses inícios do século XX: Brancusi, Modigliani... Acompanhamos os seus primeiros sucessos, as primeiras exposições. Conhecemos Lucy, a sua paixão. Amadeu pinta muito e as suas telas vendem bem, mesmo na sua primeira grande exposição em Nova Iorque, ao lado de colegas como Picasso.

 A rapariga dos cravos

E, de repente, a 1.ª Guerra Mundial. Todos estão convencidos de que vai ser um conflito rápido e continuam a fazer planos... uma segunda exposição em Nova Iorque... Mas a guerra eterniza-se. Souza Cardoso volta para Manhufe, e é aí que a gripe espanhola o apanha. Estavamos em 1918 e o pintor tinha 30 anos!
Lucy, a viúva inconsolável, guarda o seu espólio. A visão medíocre e avessa ao modernismo do Estado Novo não projeta a sua obra. A família queima alguns desenhos, considerados muito arrojados, que tinham permanecido em Manhufe. E o esquecimento cai sobre o seu nome!

Azenhas

Nos anos 50, quase a medo, o Museu de Amarante expõe algumas das suas telas. O Museu Gulbenkian segue-lhe o rasto e começa a divulgação da sua obra.
Em boa hora o Grand Palais faz, até julho deste ano, uma grande retrospetiva da obra de Amadeo de Souza Cardoso, expondo cerca de 300 obras do grande pintor modernista português. Mais uma vez pela mão da Gulbenkian... É tempo de levantar o manto de esquecimento!

 Corpus Christi

domingo, 10 de abril de 2016

D.I.Y. - Do it yourself


Uma horta de temperos na varanda

Vivemos num mundo cada vez mais massificado e plastificado. Fazemos todos mais ou menos as mesmas coisas, que nos são sugeridas pela comunicação social ou pelas redes sociais, mais ou menos da mesma maneira. Muitas vezes fazemo-lo sem qualquer pensamento crítico; outras vezes, percebemos que vamos com o rebanho, mas não temos tempo ou disponibilidade para fazer outras escolhas.
Compramos os móveis do IKEA, mesmo sabendo que ao fim de três ou quatro anos já se estarão a desfazer. Compramos comida feita, ou pronta a fazer, apesar de termos noção de que nada bate uma sopa feita na hora. Compramos roupa barata, fechando os olhos e a consciência ao modo como ela é confecionada, lá para Oriente. E por aí fora...
Provavelmente por todas estas razões e mais algumas, está a afirmar-se a tendência para o Do it yourself. Tem a ver com a produção de coisas com as nossas próprias mãos, segundo técnicas antigas e artesanais, mas principalmente com uma afirmação individual. A Internet está cheia de ideias e exemplos, desde os blogues que ensinam a cozinhar as mais variadas coisas até às dicas para bricolage. Ensina-se a fazer sabonetes artesanais, a fazer uma hortinha de plantas aromáticas na varanda, a recuperar a cómoda dos avós. Voltou a encontrar-se encanto nos móveis antigos - que já duraram cem anos e prometem durar mais cinquenta, pelo menos - agora pintados e renovados, misturados com peças mais modernas. Há muitos jovens a tentarem fazer as suas próprias roupas ou a personalizarem as que compram. Outros fazem jóias ou outros acessórios. E cada uma dessas peças é única e esse é o seu encanto.
A vida atual não é fácil e todos andamos a correr e a tentar agarrar o que é mais barato, mais rápido, mais fácil. Eu tento encontrar algum equilíbrio entre a pressão da vida e os prazeres simples das coisas feitas pelas nossas mãos. Gosto de tricotar, fazer camisolas para os membros mais jovens da família. Demoro muito tempo, mas não me importo, ninguém corre atrás de mim. Não prescindo da sopa caseira, feita com todos os legumes que tiver à mão. Gosto de fazer doces com as frutas da época, com que depois me delicio barrados nas torradas diárias. Quando tenho tempo, gosto de fazer pão, ou um simples bolo de iogurte, que todos devoram cá em casa. E eu fico com a certeza de que não estão a comer ovos liofilizados ou outros produtos conservados e processados...
Sim, eu sei que podia encontrar todas estas coisas no supermercado mais próximo. Mas, como dizia o anúncio publicitário, podia, mas não era a mesma coisa!

A minha marmelada caseira


quinta-feira, 24 de março de 2016

Domingo, para mim, é um dia assim-assim...



Enfrentando o novo desafio da Chica para esta semana, tenho de fazer uma frase com a palavra domingo. E dou por mim muito dividida...
Domingo, dia do Senhor, por isso dia de descanso para os cristãos. Durante muito tempo, o único dia de descanso semanal. Um dia abençoado, portanto! Ainda hoje, passamos a semana a desejar o fim de semana, a ansiar por aquele dia, especial entre todos, feito para descansar. E, no entanto, é um dia esquisito, porque funciona como uma espécie de ponto prévio da semana que se vai iniciar. Quantas vezes passamos o domingo a preparar o que vai ser necessário durante a semana? Às vezes, são os cozinhados que têm de ficar meios alinhavados, porque durante a semana não há tempo para cozinhar. Outras vezes, há que adiantar trabalhos, relatórios, documentos. Há que ir às compras, ou passar a ferro... ou tantas outras coisas a que a vida nos obriga! E, à medida que o dia vai passando, vai-se avolumando a sensação de que se aproxima mais uma semana de trabalho, stresse e correria.
Então, eu prefiro o sábado e aquela outra sensação, maravilhosa, de que amanhã é outra vez dia de descanso!

Domingo, para mim, é um dia assim-assim...



domingo, 20 de março de 2016

Corpo das mulheres, campo de batalha

Andamos por vezes tão distraídos com as nossas guerrinhas intestinas, ou com as que nos batem à porta, que nos esquecemos de olhar para o lado. Aqui perto, no Sudão do Sul, a guerra mais bárbara dilacera um país que nasceu apenas em 2011. A ONU relata massacres, destruição e violações em massa. A Unicef regista milhares de crianças utilizadas como soldados. Contam-se mais de dois milhões de refugiados, fugidos para regiões vizinhas em condições precárias, como são sempre as condições de quem foge da sua casa, sem mais nada do que tem no corpo.
Razões? Já ninguém as discute, entre acusações de tentativa de golpe de estado e confrontos entre etnias rivais. O costume, as razões tristemente habituais...

Mulheres no Sudão do Sul
Na última semana, atingiu-se o auge do absurdo: o governo terá autorizado as violações das mulheres nas zonas de guerra como forma de pagamento dos soldados, como parte do salário. Infelizmente, estamos todos habituados a ouvir notícias de violações em situações de guerra. Dá ideia que o corpo das mulheres é mais um campo de batalha de que é necessária a apropriação, nem que seja pela violência. Como se o corpo das mulheres fosse um campo de milho, ou uma aldeia, ou um moinho... O facto de ser o próprio governo a autorizar esta prática repugnante, acrescenta-lhe legitimação. Como é possível que assistamos de braços cruzados a mais esta banalização da violência sobre as mulheres? 
O Sudão do Sul é o mais jovem país do mundo. Parece-me que não tem muito futuro.

quarta-feira, 16 de março de 2016

Quando o pé foge para o chinelo...




Era uma frase que se ouvia frequentemente, durante a minha infância. Significava que se estava a fazer qualquer coisa que não era apropriada para quem se assumia como uma senhora, ou um cavalheiro. Quando se fazia barulho na rua, quando se ria alto, ou se utilizava calão, ou se diziam asneiras, ou, de alguma maneira o nosso comportamento não era dignificante... estava o pé a fugir para o chinelo! Era a velha oposição entre uma Senhora e uma Mulher da Rua, metaforicamente simbolizadas pela oposição entre o sapato e o chinelo. 
Lembrei-me desta frase a propósito da brincadeira que a Chica lançou: uma palavra por semana; e cada um, se quiser entrar na brincadeira, constrói uma frase que inclua essa palavra! Sem ultrapassar as sete palavras! Parece mais fácil do que realmente é!
A palavra desta semana? Chinelo, é claro! Mas, atualmente, o chinelo já não significa qualquer diferença social. Há chinelas para todos os gostos e todos os preços! E quando, hoje, dizemos que nos foge o pé para o chinelo, isso só significa que nos apetece relaxar! Provavelmente, está um calor de abrasar, e um chinelinho numa esplanada, a comer um gelado ou a beber uma cervejinha bem fresca, é mesmo o que de melhor nos pode acontecer! Felizmente!