sexta-feira, 1 de julho de 2016

Na paragem do autocarro

- Posso sentar-me aqui?
Distraída como sempre, tinha-me sentado e colocado a mala ao meu lado, ocupando um assento no banco da paragem. Quem se dirigia a mim, sorrindo, era uma senhora idosa, e eu respondi-lhe também com um sorriso, pondo imediatamente a mala ao colo.
- Claro que sim, desculpe, estava distraída.
- Se eu não fosse já velhota não lhe dizia nada, mas custa-me estar em pé, sabe?
- Mas fez bem, tinha direito ao lugar, nem que tivesse dezoito anos.
- Ah, se eu tivesse dezoito anos...
E começou a cantarolar: Ai quem me dera, ter outra vez vinte anos...
- Isto era um fado do meu tempo. Como é que se chamava a fadista? 
A senhora fazia um esforço para se recordar do nome, mas não conseguia. Sei bem o que isso é, também já me vai acontecendo... Voltei a dirigir-lhe um sorriso:
- Se tivesse vinte anos, lembrava-se do nome!
- Às vezes, até tenho medo de me esquecer do meu próprio nome. Olhe, menina, digo sempre o meu nome e a minha morada aos motoristas dos autocarros. Todos os motoristas por aqui me conhecem. Eu vivo sozinha, não tenho ninguém. Então, saio de casa e apanho um autocarro. Se me acontecer alguma coisa, o motorista sabe quem eu sou!
E, com outro sorriso, levantou-se e apanhou o seu autocarro.
Estratégias para iludir a solidão!



2 comentários:

  1. Miguel Lemos Fernandes1 de julho de 2016 às 10:22

    É uma sorte ter alguém que escreva estas coisas, que emocionam, acordam para a vida, relativizam vaidades e mesquinhices do dia-a-dia.

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  2. Que lindo encontro e c0onmversa numa parada, esperando ônibus! Triste a solidão,mas parece que ela a sabe bem levar! bjs, chica

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