sexta-feira, 8 de julho de 2016

História na paragem do autocarro


Estava calor, na paragem do autocarro. O sol batia diretamente na chapa e, naquele meio de tarde, a paragem parecia uma estufa. Um senhor idoso, de cor escura, sentou-se ao lado de uma senhora idosa, de cor clara. Mas voltou a levantar-se do banco, dizendo que estava demasiado quente. Por razões incompreensíveis, a senhora idosa sentiu-se ofendida e protestou: 
- Não estava mais calor, lá de onde veio?
O homem retorquiu-lhe sem demoras:
- E como é que a senhora sabe de onde é que eu venho? Acha que eu venho de África por causa da cor da minha pele? Eu sou tão português como a senhora! Aposto que a senhora também não sabe de onde vieram os seus antepassados! Houve muitas invasões de povos e a senhora não sabe quais são as suas origens! As pessoas não sabem História!
Comecei a ouvir atentamente aquela defesa da História, entrecortada de pronúncias e acentos variados. A senhora tentava desculpar-se com argumentos inúteis, que já iam nos seus antepassados transmontanos, o homem contra-atacava com múltiplas invasões de povos, das quais baralhava um pouco as datas.
Ao meu lado, uma senhora de meia-idade desabafava:
- Quando eu vivia em África, tratavamos os negros com mais respeito, embora eles fizessem os mesmos trabalhos que nós fazemos hoje. Eu vivia em Moçambique e tinha criados e cozinheiros. Agora, eu é que trabalho num hotel. Eu era portuguesa, vivia bem. De repente, deram-nos 48 horas para sair de Moçambique, ou perdiamos a nacionalidade. De repente, o Samora Machel era um herói e nós não pertencíamos a sítio nenhum. Nunca percebi o que foi que nos aconteceu. Mudou tudo, de repente ficámos sem nada. O que é que aconteceu?
O homem idoso de cor escura, que entretanto já tinha apanhado o seu autocarro, tinha razão: as pessoas não sabem História. E assim não se consegue perceber porque é que estamos nesta situação ou noutra, o que nos trouxe aqui, que ventos sopraram e alteraram a nossa vida. A História também nos ensina outra coisa: todos nós somos joguetes, peões, num jogo muito mais amplo, onde se jogam interesses mais abrangentes e, muitas vezes, mais mesquinhos. No século IV como no século XX ou XXI, a nossa vida é uma peça minúscula num jogo de interesses que nos manipula e nos ultrapassa. E pode ser abalada de repente, por uma simples mudança na direção dos ventos.

8 comentários:

  1. Gostei tanto de ler este teu artigo!
    Beijinho.

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    1. Obrigada amiga!
      Estamos ambas atentas ao que se passa à nossa volta, cada uma à sua maneira!
      Beijinho.

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  2. Concordo absolutamente com o que escreves sobre a História e a mudança de ventos. Mas era tão bom ser jovem, sentir que se tinha a vida toda pela frente e ter a "certeza" que íamos mudar o mundo... :)

    Beijocas

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    1. Pois é, mas no essencial o mundo mudou muito pouco...
      Beijinhos

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  3. Olá, Teresa

    O desconhecimento da História: um mal de que muita gente padece.
    E quando o vento da mudança sopra apanha-nos desprevenidos.
    Uma história que retrata tantas vidas...

    Bj

    Olinda

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  4. Olá, Teresa

    Adorei o seu post em "Olhares Viajantes, Belgrado e São Sava".
    Não comentei porque não me entendo muito bem com os dados que aí são exigidos.Sorry.

    Bj

    Olinda

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    1. Olá Olinda

      Obrigada! Mas, diga-me, que dados são exigidos? Não faço ideia! Há cada coisa...
      Bjs

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  5. A historia de ter vivido em Moçambique com criados fez-me lembrar as historias da minha avo :)
    Gostei muito de ler este post!
    Beijos!
    ____________
    Todo o caminho é uma aventura e uma forma de coleccionar momentos
    Blog Jess&Rose | Youtube

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