domingo, 30 de dezembro de 2012

Justiça divina para o século XXI

Aqui há dias, falou-se de Deus no autocarro. Não daquela forma douta e piedosa dos círculos de estudos bíblicos, onde se desfolham evangelhos e versículos, mas da maneira simples como as pessoas também simples se agarram a uma tábua de salvação. Passo a explicar.
O autocarro passava junto à porta de um ministério, na zona do Terreiro do Paço. Uma mulher, com olhos de bolsos vazios, lançou o primeiro lamento: "Cambada de ladrões! Deus há-de os castigar!"
Não foi preciso mais. Ergueu-se imediatamente um coro concordante.
- Só vão para o governo para se encherem, à nossa custa!
- Eu trabalhei a vida toda, desde os onze anos. Eles sabem lá o que isso é!
- Dizem que gastamos demais. Nós? E eles?
- Estudam e depois usam os estudos para vigarizarem toda a gente!
- Mas Deus vai castigá-los! Hão-de arder no fogo do inferno!
Um senhor bem posto, de fato e gravata e pasta na mão, interrompeu o coro.
- Então, vamos ter de esperar pela justiça divina? E se começassemos nós a fazer justiça?
Foi acolhido com um silêncio e olhares de desânimo e incredulidade.
- Ó amigo, em que mundo é que você vive?
- Não sabe que eles se safam sempre? A justiça é só para nós, não é para eles. 
- Eles safam-se e entalam-nos a nós!
- Mas hão-de ser castigados por Deus!
Não sei quem eram "eles", esse pronome às vezes tão indefinido. Mas, sabe-se lá porquê, lembrei-me de todos os nomes, largamente divulgados, dos que utilizaram créditos bancários do BPN que agora todos temos de pagar! 
Quando saí do autocarro, a conversa ainda não terminara. Mas fiquei com a ideia de que aquelas pessoas se voltavam para a justiça de Deus por estarem completamente descrentes da justiça terrena. 

Desejo a todos um bom ano de 2013! E, se Deus nos estiver a ouvir e não estiver muito ocupado, que nos mande um bocadinho de justiça e de esperança. Nós merecemos!

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Coisas que eu detesto III - A Popota


Já toda a gente percebeu que eu gosto do Natal. E até considero que tenho algum sentido solidário. Mas a Popota consegue exterminar o meu espírito natalício!
Aceito qualquer boneco - desde o Pai Natal à Leopoldina - que nos venha lembrar que é Natal, tempo de pensar mais nos outros, especialmente nos que têm menos do que nós. Mas será preciso arranjar uma boneca que parece saída de um bar de alterne de terceira categoria? Dos fatinhos que enverga até aos meneios com que dança, tudo me faz lembrar uma estrela decadente (atenção, eu escrevi decadente e não cadente, estrelas cadentes seriam bem mais belas e natalícias!) de algum Ritz Club de centro comercial!
Como diria aquela personagem tenebrosa da telenovela: "Jesus, Maria, José! Será que o PornoChic já chegou ao Natal?"


segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Internamento informático

E pronto, o meu computador teve de ser novamente internado!
Parecia de boa saúde, foi uma doença súbita que, inesperadamente, o fez ficar paralisado. Levei-o à Clínica, onde ficou internado, para fazer exames. Devo declarar que não paguei taxa moderadora, mas calculo que a conta final deve ser simpática!
Não sei quando terá alta, ainda espero por notícias do seu estado de saúde. 
Até lá, só intermitentemente tenho acesso à blogosfera, quando me apodero momentaneamente de algum computador amigo que me passa por perto!

Desejo as suas melhoras rápidas. E que não me veja obrigada a dar uma prenda de Natal inesperada a mim própria: um irmão gémeo do doentinho!

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Cloud Atlas

Há muitas razões que nos podem levar a uma sala de cinema, para ver um filme. No meu caso, fui ontem ver o filme Cloud Atlas levada pela disparidade das críticas que li a respeito. De Fabuloso! a Insuportável! encontrei de tudo. Um crítico de cinema dá-lhe uma estrela, outro dá-lhe quatro! Em que ficamos então? Nada como ir ver e formar a minha própria opinião. Um filme que desperta emoções tão extremadas tem, pelo menos, de ser interessante.
E foi! O enredo do filme, baseado num best-seller do escritor inglês David Mitchell, transporta-nos para vários momentos no tempo, que vão do século XIX à atualidade, continuando para um futuro imaginado no século XXII e indo mesmo até um futuro pós-apocalíptico. Mas todos esses momentos se interligam, de alguma forma, embora os espectadores só comecem a perceber as ligações lá para o meio do filme. Não dei pela passagem das três horas do filme, a intensidade dramática prende-nos da primeira à última cena. E gostei muito. Tem alguns momentos um bocadinho lamechas, talvez, mas o que somos nós sem um pouco de sentimentalismo? Fica a mensagem, belíssima: do útero ao túmulo, todos estamos ligados e as nossas ações, sejam boas sejam criminosas, repercutem-se sempre no futuro. Devemos olhar para nós com os olhos do outro!
Já agora, um conselho: não saiam do cinema a correr, mal aparecerem no ecrã as palavras "The End". Todos os atores principais, Tom Hanks, Halle Berry, Jim Broadbent, Hugh Grant, encarnam vários personagens de ambos os sexos, nos diferentes momentos da história. É divertido descobri-los, no final do filme. Estou certa de que nem o mais experiente cinéfilo os conseguiria reconhecer a todos! 



sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Coisas que eu detesto II - Papás hiper-babados



Todos os pais normais amam os seus filhos e tentam protegê-los. Eu não sou exceção, até sou um bocadinho mãe-galinha (mas só um bocadinho!). No entanto, creio que nunca perdi o sentido das proporções.
Mas há uma subespécie dos pais normais que é verdadeiramente insuportável, os hiper-babados! Encontramo-los por todo o lado: olham benevolentes, enquanto os filhos fazem birras, gritam, atiram com os brinquedos, enfim, incomodam toda a gente; entopem as ruas junto às escolas, para levar os filhos à porta da escola, não vão os meninos partir-se se caminharem cem metros; não os deixam brincar no parque, mas saturam-nos de atividades extra-escolares, encontrando capacidades artísticas ou desportivas extraordinárias na energia normal das crianças; aborrecem toda a gente nas reuniões de amigos, com as histórias ininterruptas dos seus fantásticos rebentos; não os contrariam, nem corrigem as respostas mal-educadas, para não coartar a espontaneidade das criaturinhas; e, quando começam a ser chamados à escola para serem informados do mau comportamento dos descendentes, disparam em todas as direções, considerando que a culpa é dos amigos, que são más companhias, dos professores, que não os compreendem ou tomam de ponta, da escola, que não os corrige. Dão-lhes tudo, passando por vezes necessidades para proporcionarem aos filhos bens completamente supérfluos. Acham-nos encantadores. 
Quando percebem que criaram uns seres egoístas, exigentes e egocêntricos, geralmente, já é tarde de mais.


terça-feira, 4 de dezembro de 2012

A histeria do fim do mundo


Com o início do mês de dezembro, entrou em velocidade de cruzeiro a histeria do fim do mundo. Eu costumo dizer que o mundo acaba todos os dias, para quem morre. No entanto, para as pessoas com angústias apocalípticas, este anúncio do fim do mundo está a gerar situações de histeria. 
Quando os Maias organizaram o seu calendário, previram o fim do mundo, como seria natural numa civilização que encarava o devir histórico como circular. Seria o fecho lógico de um ciclo. Mas fizeram essa previsão para um ponto no tempo que lhes era incomensuravelmente distante. Os produtores cinematográficos trouxeram essa previsão para a atualidade, com o filme "2012" (trailer acima, para quem estiver interessado). E agora há quem viva angustiado com a perspetiva.
Segundo parece, é na Rússia que estão a surgir os fenómenos mais extremos de histeria coletiva, com pessoas a fazerem aprovisionamentos de bens essenciais, desde açúcar a fósforos e velas. Os responsáveis do governo russo viram-se mesmo obrigados a fazer um comunicado oficial, explicando que não há qualquer fundamento científico para esta previsão. 
Já os empresários hoteleiros do México esfregam as mãos de contentamento: pelos vistos, há quem queira acabar o mundo em grande, nas praias mexicanas por onde os Maias também passearam. Os hotéis estão quase esgotados.
Entretanto, a data prevista para o fim do mundo foi atualizada, de 21 para 23 de dezembro. Achei ótimo, sempre nos deixa passar o fim de semana descansados!
Por cá, segundo parece, o único açambarcamento de bens essenciais de que tive conhecimento, foi nos armazéns do Banco Alimentar, durante o último fim de semana. Antes assim!

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Coisas de que eu gosto II - As iluminações de Natal

Eu sei que o país está em crise, que o dinheiro não abunda. Sei isso muito bem, sou professora, funcionária pública! Mas fiquei muito feliz por ver acenderem-se as luzes das iluminações de Natal em Lisboa. 
Nunca fui uma entusiasta do Natal consumista. Na verdade, sempre embirrei um bocadinho com as grandes ostentações de prendas, como quem diz: "Deixa ver quem dá a prenda maior!" ou, pior ainda: "A minha prenda é mais cara do que a tua!" A crise veio deitar abaixo este castelo de cartas, deixando apenas o Natal simples, do amor e da partilha. Tudo tem um lado bom, até a crise!
Também tenho de confessar que me irritava entrar o mês de outubro e começar a encontrar bolas coloridas, anjinhos e árvores de Natal em cada canto. Quando chegava dezembro, já estava saturada de espírito natalício!
Mas havia sempre uma coisa que me encantava, um momento pelo qual esperava o ano inteiro: um passeio com os meus filhos pequenos na Baixa de Lisboa, toda enfeitada e colorida, cheia de luzes que afastavam o frio e, às vezes, a chuva daqueles fins de tarde. Passeavamos, brincavamos, comiamos gaufres de chocolate,  com os olhos cheios de luz. Benditas tardes de dezembro, que ficaram para sempre como memórias doces!
Ainda hoje gosto de passear na Baixa de Lisboa, e deixar-me fascinar pelas cores e pelas luzes. A crise não nos pode tirar tudo, não podemos entrar numa depressão coletiva, temos de preservar algum encanto nas nossas vidas.
Segundo ouvi, o dinheiro gasto nas iluminações de Natal é inferior ao dinheiro gasto na última frota de automóveis de um grupo parlamentar. E dá muito mais prazer aos lisboetas!


Para recordar, outros Natais!

sábado, 1 de dezembro de 2012

A Maria e o Pai Natal

Entrou dezembro e começa a sentir-se a aproximação do Natal. Fazem-se contas para que, pelo menos as crianças, continuem a ter algumas prendas debaixo da árvore de Natal. As iluminações lá vão aparecendo, bolas, luzes, presépios, Pais Natais, que trazem alegria e esperança a este inverno.
A filha de uma amiga minha, a Maria (vamos chamar-lhe assim), era uma fã incondicional do Pai Natal. Não ligava muito aos Pais Natais de pacotilha que pululavam pelos centros comerciais. Ela tinha o dela, o único, o verdadeiro, que ía pessoalmente lá a casa levar as prendas, na véspera de Natal.  Às vezes, parecia-lhe reconhecer os olhos bondosos do tio, por trás de umas longas barbas brancas, mas não se deixava influenciar. Chegou a bater-se na escola primária, em defesa do seu ídolo.
- Tu és parva, são os pais que compram as prendas!
- Não, eu sei que é o Pai Natal que as traz!
- Mas como é que ele entra? Tu nem tens lareira!
- O meu Pai Natal é moderno, sobe as escadas e toca a campainha!
Não havia como demovê-la. A Maria tinha respostas prontas e triunfantes a todos os argumentos dos colegas da escola.
A dada altura, os pais começaram a prepará-la para o desaparecimento do "seu" Pai Natal. 
- Olha, Maria, o Pai Natal não consegue ir a todas as casas. No próximo ano, se calhar, vai a outra casa em vez de vir à tua.
A Maria não disse nada, mas manteve-se atenta. Quando chegou a véspera de Natal, as prendas lá apareceram debaixo da árvore. Quem as tinha trazido? A mãe respondeu-lhe:
- Desta vez, o Pai Natal mandou um ajudante.
A Maria correu para a janela, a varrer o céu com os olhos.
- Vai ali! Vai ali!
- Estás a ver o Pai Natal?
- Não, já não vi o Pai Natal, mas ainda vi o trenó das renas!
A nossa imaginação não tem limites. E vemos o que queremos ver!


sexta-feira, 30 de novembro de 2012

A violência do costume


Mais uma vez, o relatório anual sobre a violência doméstica apresenta os números terríveis desta realidade que continua tão presente e tão escondida. Só neste ano, já foram assassinadas trinta e três mulheres e este número, já de si chocante, não nos pode fazer esquecer todos os outros casos de violência que não chegaram a resultar na morte da vítima, ou que nem sequer foram reportados à polícia. É um problema transversal a todos os grupos sociais e nem é monopólio português, é um problema generalizado, observado e monitorizado em todos os países da União Europeia, como se pode ler aqui
Nada disto é novo, já se discutiu e alertou, eu própria já escrevi sobre esta negra realidade noutros posts. No entanto, todos os anos os resultados do relatório me atingem com o mesmo espanto, dor e incredulidade, como um murro no estômago. A violência doméstica só está presente para quem a sofre ou com ela contacta. De resto, desaparece nos subterrâneos da vida social, por vezes bem camuflada.
Há uns anos atrás, uma aluna minha, com doze anos acabados de fazer, veio ter comigo no final de uma aula. Estavamos a meio do ano letivo. Ela chegou-se a mim e abraçou-me, com força. Ri-me.
- Então, que é isto? Parece que vais fazer alguma viagem!
Ela aproximou a boca do meu ouvido e disse baixinho:
- Vou mesmo!
- Ah sim? E para onde vais?
- Não sei, a minha mãe diz que ninguém pode saber.
Depois de olhar à volta, como a certificar-se de que ninguém a poderia ouvir, continuou a susurrar:
- A minha mãe diz que temos de sair de repente, sem levar nada. Para o meu pai não desconfiar. Para ele não conseguir descobrir-nos, nunca mais.
Não precisei de ouvir mais nada. Abracei-a também. Depois, ela voltou-se e despedimo-nos, sem palavras, que elas às vezes não servem para nada. Só com um sorriso.
Nunca mais a vi.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Mulheres e marionetas

Fui assistir, quase por acaso, a um espectáculo interessante e diferente: "Marioneta meu amor" junta a música  de Amílcar Vasques-Dias a uma demonstração, feita pelo marionetista Manuel Dias, de como os bonecos podem ganhar expressão e quase mostrar sentimentos e emoções. O acompanhamento, ao piano, feito pelo próprio compositor, partiu do recente CD de Amílcar Vasques-Dias "Desnudo", baseado na poesia feminina hispano-árabe dos séculos XIII e XIV. Cada boneca ganha vida nas mãos do marionetista, criando momentos de grande intimidade onde temos um vislumbre de como eram essas mulheres. As poetisas que aqui são recordadas eram mulheres muçulmanas que viviam no Al-Andaluz. Eram cultas, interessantes, faziam poesia, falavam dos seus amigos e amantes. E não eram mortas por isso.

(O compositor, o marionetista, e uma das suas bonecas)

Aqui há dias, a Teté, no seu blogue Quiproquó, lembrava o drama da adolescente que foi atacada pelos talibãs por ter a coragem de reclamar para as raparigas o direito à educação. Lembrei-me dos poemas dessas mulheres que viviam no Al-Andaluz muçulmano, há tantos séculos atrás. Como é possível que a condição feminina tenha sido tão reprimida, tenha retrocedido tanto, como se a história tivesse andado para trás e não para a frente? A culpa não é com certeza da religião muçulmana, mas dos que a interpretam, com talas nos olhos e uma pedra no coração, como acontece com todos os fundamentalismos. 
Como mulher, sofro por todas as mulheres que são obrigadas a esconder o seu corpo e a sua personalidade, por medo, atrás de uma qualquer burka. E temo que, para as mulheres muçulmanas, a chamada Primavera Árabe, que tantas esperanças levantou há um ano atrás, não venha a ser mais do que um outono. Ou mesmo um ocaso.

sábado, 24 de novembro de 2012

Música pela manhã

Clara parou no semáforo e, como fazia todas as manhãs, aproveitou o tempo para ligar o rádio. Hum, Tina Turner, perfeito para injetar energia na manhã fria. Começou a cantarolar, enquanto tamborilava com os dedos no volante. Parou um carro ao lado e Clara olhou automaticamente para a direita. O condutor era um homem bem parecido, de têmporas grisalhas e ar desportivo a emergir de um blusão de cabedal, com um cachecol enrolado ao pescoço. Também parecia murmurar qualquer coisa. Olhou para Clara, no carro ao lado, no momento em que ambos cantavam "What's love got to do with it?" Ouviam a mesma estação de rádio, cantavam a mesma canção. Riram com gosto e Clara ainda sorria quando o semáforo ficou verde e seguiu para o trabalho.
No dia seguinte, à mesma hora, no mesmo semáforo, voltaram a ver-se. Reconheceram-se, acenaram, sorriram. Ao fim de uma semana, Clara já antecipava aquele momento. Havia sempre um sorriso, uma piada, umas palavras a propósito do tempo ou do trânsito. E uns olhares intensos, que deixavam antecipar outras coisas.
No sétimo dia, o carro parou no semáforo, como usualmente. Lá dentro, o mesmo condutor, o mesmo cachecol displicente, as mesmas têmporas grisalhas. Mas nem um olhar para o carro ao lado. Clara espreitou, havia uma companhia feminina, uma mulher de cabelo loiro e óculos escuros a protegerem da luz matinal. O homem olhava fixamente em frente, umas palavras ocasionais para a companheira. Nem um olhar para o carro do lado.
"Estupor!" Desabafou Clara, dirigindo-se a um ponto indeterminado, algures entre o limpa pára-brisas direito e o espelho retrovisor. E, nesse dia, foi mal disposta para o trabalho.
Na manhã seguinte, viu-o chegar, enquanto sintonizava o rádio. Cat Stevens, ótimo para começar o dia. Olhou para o lado, ele sorriu e piscou-lhe o olho. Clara endereçou-lhe o seu sorriso mais cativante, enquanto pestanejava com ar ingénuo. Depois, vagarosamente, ergueu a mão direita, estendendo o dedo do meio. Ainda vislumbrou o sorriso dele a desfazer-se na surpresa, enquanto ela arrancava com o carro, cantando a plenos pulmões: "Oh baby, baby, it's a wild world!"

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Os culpados de qualquer coisa

Andar de autocarro é sempre uma experiência pedagógica e edificante. Aqui há dias, meti-me num autocarro (por acaso, nem era o que eu queria, veja-se o que é o destino!) que foi dar uma grande volta até chegar à paragem onde eu precisava de sair. Percebi logo o engano, mas resignei-me e acomodei-me junto a uma janela.
Umas paragens à frente, entraram duas miudinhas da escolas. Cerca de dez anos, mochilas à costas. Caminhavam para a parte de trás quando, a um solavanco do autocarro, uma delas caiu sobre a perna de um homem idoso que vinha sentado, acompanhado de uma senhora também de bastante idade. O homem começou a barafustar, zurzindo a rapariguinha com todas as ofensas, desde desastrada a desrespeitadora dos mais velhos. A miúda só disse: "Desculpe, desequilibrei-me!" e não respondeu mais. Mas umas raparigas mais velhas tomaram a sua defesa, acusando o velhote de ser insensível. Uma acusou-o mesmo de ser racista e de atacar a miúda por ter aspeto de cigana. O homem ofendeu-se, a senhora que o acompanhava começou a contar a quem a queria ouvir as mazelas do marido e da sua operação à perna. As raparigas contestavam, que ninguém podia saber que aquela perna estava doente ou magoada. O homem continuava a protestar com a falta de educação das miúdas. Nesta altura, a discussão já se tinha generalizado no autocarro, entre os apoiantes do homem e os defensores da miúda. As vozes e as ofensas subiam de tom.
- Se fosse minha filha, você levava uma lambada nas trombas!
- Olha, você a falar de educação e veja lá como fala!
- Ninguém me diz como é que devo falar!
Temi que se envolvessem todos à pancada. Felizmente, alguém mudou a agulha à conversa:
- A culpa é da escola, os professores não lhes dão educação!
Ah pronto! Todos se puseram de acordo. A culpa, seja do que for, não é dos próprios, nem dos pais, tios, avós, nem dos vizinhos do bairro, nem da sociedade em geral. A culpa é dos professores, que não dão educação às crianças!
Estamos todos mais descansados! É tão reconfortante ter um bode expiatório!


Lisboa - O Rossio visto do Elevador de Santa Justa (Fotografia de Teresa Diniz) 

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Coisas que eu detesto I - Telemóveis nos transportes públicos

Antigamente, podia-se andar sossegado nos transportes públicos. Podia-se sonhar, ler um livro, até dormitar um bocadinho. Eramos embalados pelo rolar do autocarro, as conversas em surdina dos vizinhos, as brincadeiras dos miúdos da escola, um ou outro incidente na rua, que todos espreitavam com interesse. 
Depois, apareceram os telemóveis!... E começamos a ser bombardeados com as telecomunicações a toda a hora. A qualquer momento, surge uma musiquinha irritante. É o sinal de chamada. Alguém atende e, geralmente falando alto, para sobrepôr a voz ao barulho surdo do autocarro (ou do comboio, ou do metropolitano...), responde à primeira pergunta sacramental: "Onde estás?"  
Depois, seguem-se as conversas que todos seguimos voluntaria ou involuntariamente. Ficamos a saber do almoço dos filhos e dos pormenores da consulta médica. Ouvimos discussões conjugais e coscuvilhices. Percebemos intimidades e desculpas esfarrapadas. Não há como fugir, as confidências entram-nos pelos ouvidos dentro.
Há pouco tempo, ainda consegui subir a um novo patamar de involuntária bisbilhotice, quando um indivíduo surdo encetou uma longa conversa colocando  o telemóvel em alta voz, embora junto ao ouvido! Lamento as dificuldades auditivas, mas dispensava a conversa!
Para os metediços e apreciadores da vida alheia, abriu-se um novo mundo de delícias. Mas eu não gosto de me meter no mundo dos outros, gosto de andar embrenhada no meu! 


terça-feira, 20 de novembro de 2012

Coisas de que eu gosto I - Sopa

Quando o outono avança, de mansinho, e começam a chegar os dias de frio e de chuvinha miúda, poucas coisas me sabem tão bem como uma sopa! Uma daquelas sopas a sério, que são cozinhadas devagar, e ainda guardam o sabor dos legumes e do azeite. Deve haver poucas comidas tão simples, mas tão nutritivas, saudáveis e reconfortantes como uma sopa! 
Confesso que, nas minhas andanças lá por fora, não encontrei sopas tão boas como as portuguesas. Pelo menos lá para o norte da Europa as sopas são uns caldinhos deslavados, que não se atrevem a competir com um belo caldo verde! Por cá, temos uma variedade fantástica, dos mais delicados consomés a uma sopa de pedra, daquelas que se comem de faca e garfo. Eu gosto particularmente das sopas de legumes, e quanto mais legumes tiverem, mais saborosas são e melhor me sabem. 
Nunca percebi bem a aversão da Mafaldinha dos cartoons pela sopa. De certeza que não gostava por não ser portuguesa!

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Da vida e da morte de Saramago

Faria hoje noventa anos. Uma bela idade, uma vida longa que se extinguiu algum tempo antes desta meta. 
O que dizer de José Saramago, que não tenha sido já dito centenas de vezes, por muitos outros, muito melhor do que eu diria? Podia lembrar o meu deslumbramento quando descobri o "Memorial do Convento", há quase trinta anos. Podia escrever sobre a avidez com que, durante anos, agarrei os livros que iam saindo, para me entregar a uma escrita original, densa, sempre surpreendente, embora nem sempre fácil. Podia recordar algumas desilusões com obras que não me pareciam dignas do autor de "O ano da morte de Ricardo Reis" ou da "História do Cerco de Lisboa"; mas também o fascínio do meu filho, quando começou a ler comigo, numa longa viagem de metropolitano, "As intermitências da Morte". Podia discutir as polémicas, as entrevistas, as decisões. Mas não vale a pena. Dele, já se disse tudo e não adianta nada.
O que interessa são as palavras que ficaram. E, porque o Saramago poeta é menos conhecido do que o Saramago prosador, aqui deixo um poema que ele escreveu, talvez - quem sabe? - a pensar em mim.

Palma com palma

Palma com palma,
Coração e coração, e gosto de alma
No mais fundo do corpo revelado.
Já a pele não separa, que as palavras
São todas espelhos rigorosos da verdade 
E todas se articulam deste lado.
Linhas mestras da mão abram caminho
Onde possam caber os passos firmes
Da rainha e do rei desta cidade.

(Provavelmente Alegria, 1985)


José Saramago escreveu um dia:
Cada um de nós é por enquanto a vida. Isso nos baste.

A ele não lhe bastou. Porque quem escreve palavras como estas viverá sempre na nossa memória.


quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Dificuldade com as comunicações

Não, creio que não tenho nem nunca tive dificuldades de comunicação. No entanto, no que diz respeito às telecomunicações, devo ter um problema de incompatibilidade qualquer. Talvez tenha a ver com a fibra ótica!
A causa deste desabafo é simples. Mudei de casa e, por estranho que pareça, mais difícil do que mudar os tarecos, trapinhos e caixotes, foi o processo de migração do meu contrato MEO, para a nova morada. Durante mais de quinze dias lutei com a PT para que me fosse instalado o serviço. De início, tudo parecia fácil! Devia ter desconfiado! Por duas vezes me marcaram a instalação, alterei a minha vida profissional para poder estar em casa à hora prevista, e por duas vezes falharam, com as desculpas mais esfarrapadas. Falei com mais de dez técnicos (ou atendedores de call-center, não consegui distinguir), e a única coisa que descobri foi que a PT tem tantos departamentos quanto técnicos (ou atendedores de call-center) e nenhum sabe rigorosamente nada sobre o que disse o outro técnico, que pertence invariavelmente a outro departamento. 
Por fim, lá consegui que o serviço da Meo fosse instalado. Os técnicos não se deram ao trabalho de levar os equipamentos anteriores consigo, ainda tenho de ser eu a levá-los para uma loja da PT. Aparentemente, pertencem a outro departamento!
Fiquei com a sensação que a PT despreza os seus clientes. Nos novos contratos sim, tudo se passa com rapidez e eficácia. Mas, quanto aos contratos mais antigos, o desinteresse parece total. Francamente, senhor Zeinal Bava, com tantos lucros, podiam ter menos departamentos e mais consideração pelos que pagam os vossos serviços!
Enfim, cá estou de novo, cheia de fibra. Pelo menos, ótica!


Para festejar o meu regresso a casa.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Divertimento de coveiro

A espécie humana não pára de me surpreender. Umas vezes pelas melhores razões, outras vezes, demasiadas, pelas piores razões. 
Imaginem-se quatro rapazes, uns mais velhos outros mais jovens. Provavelmente, todos com um baixo nível de escolaridade, oriundos de meios desfavorecidos, talvez provenientes de famílias disfuncionais. Talvez até consumam drogas, quase de certeza que bebem uns copos a mais quando calha! Arranjaram um emprego, não é seguramente o emprego dos seus sonhos, mas foi o que apareceu: tornaram-se coveiros num cemitério dos subúrbios. E o que fazem para se distrairem, nas horas vagas, enquanto não há ninguém para enterrar? Praticam tiro ao alvo com as ossadas da vala comum! Parece um filme negro, dos irmãos Cohen, ou semelhante? Filme de terror, série B? Não, aconteceu mesmo, no cemitério de Belas, concelho de Sintra. Foi revelado hoje pelo presidente da Junta de Freguesia de Belas, como se pode ler aqui.


Não faço ideia do que pode levar quatro pessoas a tal atitude. Inventei-lhes um percurso de vida plausível, mas que não pode ser desculpabilizante. Mas podem ter uma história e umas razões completamente diversas. Uma coisa é certa: há valores básicos, relacionados com a decência e o respeito pelo nosso semelhante, que lhes passaram completamente ao lado! E isso é assustador!

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Gigões e anantes


Não tenho a intenção de transformar este blogue num espaço de efemérides. Mas Manuel António Pina dizia que a melhor maneira de recordar um poeta era lendo-o. Parece-me bem...
Gigões e anantes. Todos somos, uns dias mais, outros dias menos. Hoje, sente-se um gigão ou um anante?

Gigões são anantes muito grandes.
Anantes são gigões muito pequenos.
Os gigões diferem dos anantes:
uns são um bocado mais, outros um bocado menos.

Era uma vez um gigão tão grande, tão grande,
que não cabia. - Em quê? - O gigão era tão grande
que nem se sabia em que é que ele não cabia!
Mas havia um anante ainda maior que o gigão
e esse então nem se sabia se cabia ou não!
Só havia uma maneira de os distinguir:
era chegar ao pé deles e perguntar.
Mas eram tão grandes que não se podia lá chegar!
E nunca se sabia se estavam a mentir!
Então a Ana, como não podia
resolver o problema, inventou uma solução:
xixanava com eles e o que ficava
xubiante ou ximbipante era o gigão,
e o anante o que fingia que não.

A teoria nunca falhava porque era toda
com palavras que só a Ana sabia.
E como eram palavras de toda a confiança
só queriam dizer o que a Ana queria.
Manuel António Pina in "Gigões & Anantes" (1974)


quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Erasmus falido?

Quando eu andava na faculdade, ainda não existia. Para quem ansiava por outros horizontes, as viagens eram caras e difíceis. Depois, há vinte e cinco anos atrás, surgiu o Programa Erasmus, um programa de intercâmbio de estudantes universitários . Para milhares e milhares de jovens, foi a oportunidade de conhecer e estudar noutro país, contactar com uma realidade diferente, tomar o pulso à Europa. Por vezes, foi a oportunidade para encontrar um mercado de trabalho pouco acessível de outro modo. Em qualquer caso, para esses milhares de jovens, foi a maneira de sairem dos seus pequenos mundos, fazerem outros amigos e tornarem-se um pouco mais europeus. O Programa Erasmus parecia uma prova palpável do sonho europeu.

Será que o sonho acabou? Alain Lamassoure, eurodeputado, garante que o Fundo Social Europeu está "falido". Segundo parece, nem os países estão em condições de cumprir a sua parte do acordo (cerca de 30% do valor das bolsas), nem a própria União Europeia tem verbas disponíveis para cobrir esses gastos. 


A crise chega a todo o lado. Talvez seja mais um sonho bonito que se esgotou. Tenho muita pena!...

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

As mulheres, a justiça e o resto...


Foi nomeada uma nova Procuradora Geral para a República, Joana Marques Vidal. Depois de anos de pachorrenta inércia, espero que esta senhora consiga voltar a dar aos portugueses razões para acreditarem na justiça para todos, independentemente da sua riqueza, posição social ou influência política. A Procuradora Joana Marques Vidal tem um currículo promissor. Especializada na área de Direitos da Família e Menores, a procuradora é desde 2010 presidente da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima.
Mas, perdoem-me, fico feliz por ser uma mulher a obter, pela primeira vez, esse cargo cimeiro. As mulheres fizeram um largo caminho em Portugal, nos últimos cinquenta anos. Numa geração, as mulheres passaram de quase analfabetas ao maior grupo de licenciados no país. No entanto, as desigualdades de género persistem. As mulheres, em geral, ganham menos do que os homens, e não ocupam cargos de chefia em consonância com o seu peso nas diversas profissões. Da área da investigação aos orgãos de soberania, as mulheres podem estar bem preparadas, mas são secundarizadas quando toca a escolher quem manda. E, no entanto, elas são sensatas, organizadas e eficientes, pelos menos tanto como os homens. E ninguém as considera incompetentes. O que se passa então?
Os estudos apontam para uma explicação mais prosaica. Anália Torres, por exemplo, que desde há muito tempo estuda a sociologia de género em Portugal, declara: "As mulheres foram capazes de ocupar o espaço masculino, mas os homens não fizeram o movimento em sentido contrário. A mulher aparece como menos disponível, por ser a principal cuidadora da família, não por ser menos competente."
Será que o trabalho na esfera pública é inconciliável com o cuidado da família? Parece-me que não. O segredo está na partilha, claro. E na aceitação de que uma reunião não tem de ser marcada para as 20 horas, pode ser realizada a uma hora razoável sem deixar por isso de ser eficaz.
Joana Marques Vidal tem uma tarefa espinhosa à sua frente, especialmente porque os portugueses estão sedentos de justiça. Desejo-lhe o maior sucesso. Até por solidariedade feminina.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

A moda da bifana


Aqui há uns tempos, o gastrónomo e viajante americano Anthony Bourdain fez um programa em Lisboa. Até escrevi sobre isso aqui. Durante a sua estadia na capital, provou bifanas. Achou "awesome"! Repetiu e lembeu-se com as nossas bifaninhas. Teria sido por isso? A verdade é que a bifana virou moda, virou mania, virou franschising. 
De repente, começaram a aparecer nos centros comerciais, revestidas de condimentos, mostarda, molho de alho, chutney de manga. Uma casa alentejana lançou a moda, quando lançou o franschising. A McDonald's foi a última a render-se à bifana, mas aí está a McBifana anunciada em todos os cartazes!
Segundo li, em dia de jogo do Benfica, a Casa Original do Centro Comercial Colombo vendeu mais de mil unidades. Podia ser mazinha e dizer que é uma iguaria barata, o que dá sempre jeito. Podia ser cínica e lembrar que, antes de virar moda, a velha bifana vendia provavelmente o mesmo número de unidades nas roulotes que rodeiam os estádios em dias de jogo, acompanhadas de umas sandes de couratos.
Mas não vou escrever nada disso, porque eu própria sou fã incondicional das bifanas. Daquelas vendidas nas tascas à moda antiga, fritas numas grandes frigideiras junto à montra, a fazer crescer a água na boca a quem passa. Sim, daquelas que escorrem o molho para o pão, acompanhadas de uma imperial bem fresca!


É melhor parar por aqui, este post está a dar-me uma vontade enorme de trincar um lombinho de porco grelhado, bem macio! Ou, como quem diz, uma bifana!

terça-feira, 9 de outubro de 2012

E daqui a 50 anos?

Decorreu em Portugal um encontro de reflexão e um ciclo de debates com um tema fundamental: como será Portugal em 2030? A questão que estava em cima da mesa era a demografia. Qual será previsivelmente a composição da população portuguesa daqui a 20 anos ou a 50 anos? 
Podemos ver aqui as principais conclusões dos estudos agora apresentados. As projeções apresentadas são aterradoras. O nosso índice de fecundidade é baixíssimo. Será apenas uma questão de cultura? Não me parece. Como mãe, sei bem que a nossa sociedade não protege nem ajuda a maternidade. Embora a licença de maternidade tenha sido alargada no tempo, a mãe trabalhadora não tem direito a apoios que lhe permitam conciliar o trabalho e a maternidade de uma forma razoável. E todos sabemos que ter um filho na creche é tão dispendioso (ou mais!) do que ter um filho na Universidade.
Também sabemos que a esperança média de vida aumentou significativamente. E, se isso é uma boa notícia para todos nós, também temos de ter consciência de que representa um aumento exponencial de encargos, isto se quisermos que os nossos idosos mantenham uma qualidade de vida aceitável.
Estes dois fatores juntos configuram um país inviável, a prazo. Pode não ser o défice a ditar o apagamento do nosso país, nem tãopouco a austeridade, mas sim a evolução demográfica. Nenhum país tem viabilidade económica e social com um racio de cerca de 250 idosos por cada 100 jovens. 
O que fazer então? Esperar pelo fim, chorando os privilégios perdidos? Parece-me que isso não é solução. Talvez seja altura de rever profundamente as nossas prioridades políticas. Há duas áreas onde me parece que é possível atuar. Uma poderá ser o desenvolvimento de políticas natalistas e um apoio muito mais abrangente à maternidade, que altere desde a legislação laboral, até à rede de creches. A segunda terá de passar por políticas ativas de imigração, que protejam os imigrantes e os façam sentir desejados e necessários. Porque são mesmo!
Poder-me-ão dizer que não há dinheiro para nada, quanto mais para isso! Mas, tal como afirmei acima, é uma questão de escolha de prioridades, na hora de tomar as decisões. E, em última análise, de sobrevivência!



(e, no entanto, a Europa continua a fechar portas aos imigrantes, em especial os da África subsaariana e do Magrebe...)

domingo, 7 de outubro de 2012

Música e mais música!


(Percussões da Metropolitana - ontem, no Largo de São Carlos)

Com a comemoração do Dia Mundial da Música, Lisboa fechou com chave de ouro um verão cheio de cultura e especialmente de música, muita música. Para quem andou atento e com alguma disponibilidade, não faltaram programas para preencher os fins de tarde e os fins de semana. A música encheu as praças e as esplanadas. Houve concertos de cordas, sopros e percussões. Houve apresentações de coros e de orquestras. Houve ópera, tango, fado. Houve jazz e música africana. Houve clássicos e música alternativa. 
Ouviu-se música no Largo do São Carlos como no Largo do Intendente. Nas ruínas do Carmo como na Tapada das Necessidades. E cobriu as esplanadas e as ruas de sons e de sorrisos.
A Mouraria renasceu, orgulhosa da sua multiculturalidade como das suas raízes identitárias. O fado encheu a rua do Capelão e o Largo da Severa, mas os sons inundaram também o Martim Moniz, pondo toda a gente a dançar.
Lisboa agradece esta explosão de alegria. Dizem que sorrir e dançar são as maneiras mais eficazes de combater a crise e prevenir a depressão...

(Coro Lisboa Cantat - ontem, nas Ruínas do Carmo)

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

50 anos depois

Foi há cinquenta anos. No dia 5 de outubro de 1962, os Beatles lançaram o seu primeiro single, mudando para sempre a história da música e da cultura popular. Lembro-me bem da primeira vez em que ouvi falar deles. Tinha cinco anos e, aqui em Portugal, não se ouvia muita música moderna estrangeira. Vivia-se na época do "nacional-cançonetismo". Mas o meu pai foi a Londres, por razões de saúde, e regressou carregado de objetos, pins, cartazes, daquele grupo inovador. Dizia que em Londres estava tudo maluco com os Beatles, só se falava deles, só se ouviam as suas canções. E trouxe um pequeno disco, daqueles de 45 rotações, com este tema, Love Me Do.
Cresci com as músicas deles, entrelaçadas na minha vida. Cantei muitas vezes Yesterday, ou Hey Jude, ou o Yellow Submarine, sentada em rodas no chão do liceu, à volta de um qualquer colega que trazia uma guitarra. Tive muita pena quando se separaram, lamentei profundamente quando um louco assassinou John Lennon. E ainda hoje acho Let it be (ou outras que aqui poderia invocar!) das mais belas canções do século XX.

Há claramente uma época antes e outra depois dos Beatles. Por isso, devia-lhes esta singela homenagem.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Error - Democracy not found!


"Assim como os monárquicos haviam aberto o caminho à República, os republicanos abriram-no à ditadura. (...) Tudo se conjugava para criar no País um ambiente propício à ideia generalizada de que era preciso qualquer coisa para substituir aquilo."
                           (Maurício de Oliveira Diário de um Jornalista 1926-1930)



Sim, a manifestação do passado sábado, dia 29 de setembro, foi grande. Não vou entrar aqui na polémica dos números e do cálculo de quantas pessoas cabem no Terreiro do Paço, por metro quadrado. Estava lá muita gente. Mas nada que se comparasse com a grande manifestação que varreu o País no dia 15. Creio que a razão para a diferença reside no facto de a manifestação de dia 15 ter nascido da sociedade civil, através da internet e das redes sociais. Foi um grito de alma, uma afirmação dos cidadãos, que sentiram necessidade de dizer que existiam, que não se limitavam a entrar em estatísticas, a pagar impostos, e a adquirir importância de vez em quando, nas campanhas eleitorais. Na época da caça ao voto todos são importantes. Durante o resto do tempo, os partidos esquecem-se de quem os elege. Afundam-se no compadrio, nos esquemas mais ou menos escuros. Nenhum partido da nossa cena política sai bem na fotografia dos últimos trinta anos, em que os interesses do país são atirados para trás das costas sempre que convém, em favor de agendazinhas partidárias ou mesmo passoais.
Eu disse que a manifestação de dia 15 foi um grito de alma, por isso foi supra-partidária, ou mesmo anti-partidária, já que os partidos têm mostrado vezes de mais que não têm alma! 
Aprendemos na ciência política que não há democracia sem partidos. O que sobra quando são os próprios partidos a pôr em causa a democracia? Neste contexto de crise política e social, os nossos partidos políticos, com as suas propostas estafadas, estarão a abrir o caminho a quê?


(Fotografias retiradas do site da TVI)

domingo, 30 de setembro de 2012

A arte e a dona Cecilia

Este ano letivo, tenho uma turma gira, de miúdos interessados e questionadores. No início das aulas, damos sempre uma vista de olhos aos conteúdos curriculares previstos e, ao depararmos com os percursos da arte no século XX - e depois dos comentários habituais, do estilo "Fazem um risco num quadro e dizem que é arte! - um aluno interroga-se: "Mas, afinal, o que é que transforma uma obra numa obra de arte?"  Resolvi pegar na questão, para os pôr a debater e a refletir.
Falámos do autor, do nome, do percurso. Da inovação, da intencionalidade, da harmonia, do questionamento. Até que um aluno se lembra do quadro da catedral de Borja, em Espanha, recuperado pela senhora dona Cecilia Jimenez. Foi gargalhada geral! Quem não se lembra do "Ecce Homo", transformado pelas mãos da dona Cecilia num fenómeno de popularidade, que correu pela internet e pelas redes sociais como um virus?


Uma aluna lembrou-se:
- Eu já vi um quadro de Picasso em que ele alterava um quadro mais antigo. (Devia referir-se às Meninas de Velasquez) Mas, como era de Picasso, ninguém achou mal.
- Ele fez um quadro a gozar, mas não estragou o antigo. (Boa resposta, pensei eu!)
- Alguém se lembra do nome do autor do quadro original?
Silêncio na sala.
- Aposto que, numa galeria de arte, o quadro da dona Cecilia é vendido por mais dinheiro do que um quadro do autor original. (Miúdo esperto!)
- Afinal. o que é que dá valor a uma obra de arte?
Deixei a pergunta a pairar no ar.
Senti vontade de telefonar à dona Cecilia a sossegá-la. Não valia a pena entrar em depressão. Ao fim e ao cabo, a sua restauração tinha atraído milhares de turistas a Borja, o que não é desprezível, nesta época de crise.
Ainda tinha tido o efeito colateral de pôr os meus alunos a pensar sobre o objeto artístico e o mercado da arte. E sobre a valorização que este nosso mundo faz do que é efémero e insignificante.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Casas em Movimento

Podem faltar muitas coisas aos lusitanos, mas aí não se incluem seguramente a criatividade, a imaginação, a capacidade de adaptação. Damos constantemente provas disso, nem que seja a iludir a crise, embora nem sempre a comunicação social dê o eco devido.
Vem isto a propósito de uma casa em movimento projetada por um jovem estudante de arquitetura português, Manuel Vieira Lopes, que está a ter um enorme sucesso, estando agora em exibição num Salão Internacional em Madrid. De resto, é a primeira vez que uma candidatura portuguesa é aceite na prestigiada feira tecnológica solar Decathlon, em Madrid. É uma casa que se pauta pela inovação, o arrojo e a adaptabilidade. Completamente coberta de placas de aproveitamento da energia solar, que a recobrem como uma segunda pele, é uma casa auto suficiente em termos energéticos, com a vantagem de que todos os seus componentes se podem levantar, baixar ou rodar de modo a melhor aproveitar a luz solar. A própria casa, como um todo, pode ser movida para outro local, o que constitui uma enorme vantagem: se precisarmos de emigrar, pelo menos podemos levar a casa connosco!


Esta casa pode ser visitada em Guimarães, no âmbito da Capital Europeia da Cultura, durante o mês de outubro. A não perder, por quem andar pelo norte do país!

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Ontem, num semáforo...

Ontem, parei num semáforo numa avenida muito concorrida de Lisboa. Pelo canto do olho, reparei num homem que, no separador central, empunhava um cartão com frases escritas. Confesso que não liguei muito, estamos habituados a ver gente a pedir, com as mais variadas estratégias. Por vezes, até já encolhemos os ombros, percebemos que o dinheiro que se pede é para alimentar o vício. 
Mas houve qualquer coisa que me fez olhar duas vezes. Aquele cartão era diferente, era um murro no estômago. Consegui ler: "Aceito qualquer trabalho. Tenho dois filhos para alimentar". Lembrei-me de cartazes idênticos da época da Grande Depressão, dos anos 30. As imagens de pobreza, desolação, desespero, que associamos a essa crise, vieram-me à memória. Aprendemos que as crises são cíclicas. Mas as pessoas existem aqui e agora. 
O sinal verde acendeu-se e eu afastei-me do homem e do seu cartaz. Na minha memória apareceu outro cartaz da época da Grande Depressão, que reclamava: "Somos cidadãos, não somos apenas transeuntes!" Apeteceu-me voltar atrás, e ficar ao lado do homem com outro cartaz onde poderia ler-se: "Somos cidadãos, não somos apenas contribuintes!" 
Mas continuei o meu caminho.


quinta-feira, 20 de setembro de 2012

A Greve ao Sexo

Lisistrata é a personagem principal de uma famosa comédia de Aristófanes. Para quem tem a cultura clássica mais esquecida, relembro que Aristófanes foi um autor grego de peças cómicas, que viveu há mais de dois mil e quatrocentos anos. Pois conta ele que Lisistrata, uma mulher ateniense, concebeu um plano para obrigar Atenienses e Lacedemónios a fazerem a paz, num momento em que os exércitos já se encontravam acampados nos campos de batalha. Qual era a arma de Lisistrata? O sexo! As mulheres de Atenas iriam vestir-se de túnicas transparentes e convidativas, provocar os seus maridos mas, no momento final, recusar o sexo até que eles decidissem fazer a paz. 
Lembrei-me de Lisistrata nestes últimos tempos. Na telenovela "Gabriela", Maria Machadão e as suas meninas do Bataclã decidem fazer uma greve de sexo até que os coronéis lhes permitam participar na procissão e oferecer um manto à santa da sua devoção, Santa Maria Madalena. Também no Togo, imagine-se, há um apelo idêntico. Lideradas por Isabelle Ameganvi, as mulheres dos partidos da oposição e de alguns movimentos cívicos, lançaram uma campanha contra o regime que domina o Togo há mais de quarenta anos, apelando a que as suas compatriotas não façam amor com os seus maridos até que haja reformas políticas. 
Se bem me lembro, a iniciativa das meninas do Bataclã teve sucesso. Já quanto à das mulheres do Togo, fico ansiosa por saber o resultado. Não sei quantas delas terão lido Aristófanes. Mas o que eu acho extraordinário é que os anos e os séculos passaram, mas as armas femininas permanecem as mesmas...



segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Postal de Lisboa XXIII - Nas pegadas da Severa

(Fado frente à Igreja de Nossa Senhora da Saúde)

É uma associação nascida e desenvolvida dentro do bairro. Chama-se "Renovar a Mouraria" e tem feito um trabalho muito positivo e meritório em várias áreas, desde o enquadramento dos jovens até à revalorização da multiculturalidade, que é um traço distintivo do bairro. 
Com o apoio do Museu do Fado, decidiram organizar passeios guiados pela Mouraria. Não podia perder e lá fui, num fim de tarde de sábado. E que fim de tarde bem passado! Guiados pelos próprios habitantes do bairro, percorremos as ruelas estreitas, vimos a casa onde viveu a Severa, mas também a da Maria Albertina ou do Fernando Maurício. O fado parece estar entrelaçado nas próprias pedras das ruas que pisamos, com nomes evocados nos fados mais conhecidos, como a Rua do Capelão. Por isso, o fado acompanha-nos. Ouvimos fado frente à Igreja da Saúde, depois mais à frente, no Largo da Severa. Os habitantes acenam das janelas, marcam lugar nos bancos para ouvirem os fados, espreitam de tascas e barbearias que parecem saídas de um filme dos anos 40. Contam pequenas histórias que só eles conhecem, mostram o consultório de medicina chinesa, apresentam-nos a gata Severa (o gato chama-se Marialva, mas não quis aparecer!), guiam-nos o olhar para a fachada manuelina com duas colunas postas, por engano, de capitel para baixo e base para cima! Mas mostram-nos também, com orgulho, as marcas da modernidade que começa a passar por ali, visível, por exemplo, nos pequenos restaurantes que entraram na moda.


(A observar quem passa...)

É uma iniciativa da sociedade civil que é digna de apreço e apoio. 
Acabamos a tarde no Largo do Martim Moniz, a explorar as tasquinhas de sabores do mundo. Há música e animação e uma "flashmob" põe mais de cem pessoas a dançar. 
É um verdadeiro programa anti-crise. Em primeiro lugar, porque nada se paga, a não ser o que quisermos consumir. Depois, porque é impossível não sorrir e sair dali bem disposto. E esse é o melhor remédio para conseguirmos ultrapassar a tempestade que se abateu sobre todos nós.
A não perder, até ao fim do mês de setembro.


(A gata Severa)

(Fotografias de Rita Fernandes)

domingo, 16 de setembro de 2012

A Cidade da Tolerância

No Largo de São Domingos, uma parede inteira afirma que Lisboa é a Cidade da Tolerância.


Há coisas que não deviamos tolerar.


(Fotografias de Teresa Diniz)

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

O Elefante na sala de estar

Ultimamente, houve duas notícias, quase seguidas, de ataques mortais de cães. Num caso, a vítima foi uma criança, no outro foi uma mulher. Porque gosto muito de cães, tenho-me interrogado sobre estas situações: quem serão os verdadeiros responsáveis? Não serão os donos os potencialmente perigosos?
Encontrei este texto, escrito por um médico veterinário preocupado com o bem-estar animal, que reflete muitas das minhas interrogações. Vale a pena ler e refletir.


O ELEFANTE NA SALA DE ESTAR
É um “perigo” falar do que não se sabe ou pouco se sabe, mas que muito se sente.

Vem isto a propósito de um tema que, pelas piores razões, se tornou assunto do dia-a-dia: o dos cães perigosos e potencialmente perigosos.
Por definição técnica e jurídica cão perigoso é todo o cão que ataca e agride… mesmo que inadvertidamente lhe pise a cauda e ele(a) lhe devolva uma dentada. Não importa se é um pinscher anão ou um rottweiller (aliás cães do mesmo grupo, dos 10 grupos de classificação da Federação Cinológica Internacional).
De acordo com a mesma base técnica e jurídica, cão potencialmente perigoso é todo aquele que tenha corpulência, capacidade muscular para morder e agressividade… mesmo que lhe pise a cauda e ele(a) NÃO lhe devolva uma dentada. Não importa se é de raça ou rafeiro basta que tenha tamanho, potência de mandíbula e comportamento agressivo.
Dos potencialmente perigosos resolveu o legislador “estigmatizar” umas quantas raças; em Portugal são sete.

Seria conveniente que os órgãos de comunicação social usassem esta metodologia evitando confusões e desinformação, como por exemplo a referência a raças perigosas, pois tal não existe.
Esta falta de clareza, além de eticamente deixar a desejar, conduz a distorções graves de que me preocupam, sobretudo, três:

Primeiro a “criminalização” de certas raças, cujos animais não têm qualquer culpa… mesmo! É que não está provado que esta ou aquela raça, por simples desígnio genético, morda ou ataque mais do que outra qualquer, nem mesmo as ditas potencialmente perigosas… embora pareça, porque cada vez que uma “raça maldita” ataca e morde é sempre notícia. Os jornais ainda andam à volta do tema.
As estatísticas em Portugal deixam a desejar, mas nos países em que o tratamento de dados merece mais recursos, a realidade fala por si: na Europa assiste-se a um retrocesso e consequente revogação da legislação incidindo em raças potencialmente perigosas.

Em segundo lugar porque se retira o enfoque de todo o debate daquilo que é verdadeiramente essencial: não existe um programa global de educação, com base em princípios orientadores, dirigido a donos e detentores, criadores, familiares e crianças.
Entre o desejo (legítimo) de ter um cão de companhia, geralmente ditado por factores puramente emocionais, e a capacidade para cuidar, educar e treinar esse cão, existe um enorme fosso que só desaparecerá depois de uma grande mudança na mentalidade dos lusitanos.

Por último, a distorção causada pela comunicação social está na origem do fenómeno d’”o elefante na sala de estar”.
Sendo uma generalização, certas raças de cães, geralmente do tipo pit bull são detidas irresponsavelmente, como símbolos de masculinidade e de virilidade, em certos casos por cadastrados por agressão, consumo de álcool, posse de estupefacientes e violência doméstica.
É esse o “elefante na sala de estar” que não se quer ver! Ao invés criminalizamos, na lei e nos jornais, raças de cães, escamoteando duas coisas muito importantes: apesar de tudo a relação entre os “piores” donos e cães “malditos”, favorece o companheirismo, previne o stress e é geradora de alguma empatia; e que, donos “potencialmente perigosos” que não possam deter esses cães, sempre poderão usar um outro qualquer, mesmo que não seja de raça, mas igualmente agressivo e susceptível de alimentar o mesmo ego macho e viril (mesmo que o detentor seja uma mulher!).

(Cachorro Rottweiler - imagem da net)