sábado, 24 de novembro de 2012

Música pela manhã

Clara parou no semáforo e, como fazia todas as manhãs, aproveitou o tempo para ligar o rádio. Hum, Tina Turner, perfeito para injetar energia na manhã fria. Começou a cantarolar, enquanto tamborilava com os dedos no volante. Parou um carro ao lado e Clara olhou automaticamente para a direita. O condutor era um homem bem parecido, de têmporas grisalhas e ar desportivo a emergir de um blusão de cabedal, com um cachecol enrolado ao pescoço. Também parecia murmurar qualquer coisa. Olhou para Clara, no carro ao lado, no momento em que ambos cantavam "What's love got to do with it?" Ouviam a mesma estação de rádio, cantavam a mesma canção. Riram com gosto e Clara ainda sorria quando o semáforo ficou verde e seguiu para o trabalho.
No dia seguinte, à mesma hora, no mesmo semáforo, voltaram a ver-se. Reconheceram-se, acenaram, sorriram. Ao fim de uma semana, Clara já antecipava aquele momento. Havia sempre um sorriso, uma piada, umas palavras a propósito do tempo ou do trânsito. E uns olhares intensos, que deixavam antecipar outras coisas.
No sétimo dia, o carro parou no semáforo, como usualmente. Lá dentro, o mesmo condutor, o mesmo cachecol displicente, as mesmas têmporas grisalhas. Mas nem um olhar para o carro ao lado. Clara espreitou, havia uma companhia feminina, uma mulher de cabelo loiro e óculos escuros a protegerem da luz matinal. O homem olhava fixamente em frente, umas palavras ocasionais para a companheira. Nem um olhar para o carro do lado.
"Estupor!" Desabafou Clara, dirigindo-se a um ponto indeterminado, algures entre o limpa pára-brisas direito e o espelho retrovisor. E, nesse dia, foi mal disposta para o trabalho.
Na manhã seguinte, viu-o chegar, enquanto sintonizava o rádio. Cat Stevens, ótimo para começar o dia. Olhou para o lado, ele sorriu e piscou-lhe o olho. Clara endereçou-lhe o seu sorriso mais cativante, enquanto pestanejava com ar ingénuo. Depois, vagarosamente, ergueu a mão direita, estendendo o dedo do meio. Ainda vislumbrou o sorriso dele a desfazer-se na surpresa, enquanto ela arrancava com o carro, cantando a plenos pulmões: "Oh baby, baby, it's a wild world!"

11 comentários:

  1. As vinganças femininas são tramadas, hehehe...

    ResponderEliminar
  2. Já um homem não pode fazer uma boa acção?
    A "mulher de cabelo loiro e óculos escuros" que ele transportava, era "apenas" a sua irmã. Esta tinha vindo visitá-lo e ele fazia questão de lhe mostrar como era o seu dia-a-dia, bem diferente de uma cidade de província, daí a levar logo pela manhã para o seu local de trabalho...
    Não querendo fazer juízos precipitados, parece-me que a Clara se precipitou.
    :)
    Esta música é ótima!!!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. E nem um sorrisinho, nem uma piscadela de olho?
      Ok, Rui, se calhar é verdade, mas as mulheres reagem instintivamente. É isso que as torna tão cativantes!... :)

      Eliminar
  3. O sentimento de posse é que estraga tudo!
    Ela reagiu como uma namorada ofendida :))))
    xx

    ResponderEliminar
  4. Ahhh... as mulheres têm um talento muito próprio para sair por cima em todas as situações... =) gostei muito, Teresa... Do pormenor da coincidência da música no semáforo, dos sorrisos atrevidos e da desilusão loira de óculos escuros... que história linda!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Não sei se saiu por cima; saiu para a frente, sim, o que é muito feminino.

      Eliminar
  5. As mulheres são tramadas e super possessivas. Se agiu assim não havendo qualquer ligação entre eles ( bem os sorrisos cúmplices...) como seria se tivessem ido mais adiante?

    ResponderEliminar
  6. Volto só para acrescentar que o homem também demonstrou a sua dose de estupidez. Então só porque ia acompanhado já não podia acenar à Clara?
    Portanto, o remate final do meu comentário é:
    Há mulheres tramadas e possessivas que às vezes encontram na rua fulanos idiotas. Para bem da Humanidade, é melhor que nunca passem dos acenos mútuos.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Ah ah ah! Gostei mesmo da sua conclusão.
      E concordo, mas uma estória é mesmo assim, não apresenta pessoas perfeitas, senão não tinha graça nenhuma, nem nos fazia refletir.

      Eliminar