segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

The happiest time of the year

Na manhã do dia de Natal, fui buscar uns familiares que viriam almoçar a minha casa. A rádio do carro só passava músicas de Natal, claro. Uma delas tinha este refrão: it's the happiest time of the year! Fui o resto do caminho a pensar na música... e na minha vizinha viúva que, ainda na véspera, chorava abraçada a mim, segredando que ninguém se lembrava dela... e na minha amiga que me confidenciava que estava cansada, que o Natal era só uma trabalheira em que ninguém a ajudava, e que isso a punha tão triste... e na minha prima, em que a lembrança de outros natais mais felizes a colocaram  num estado de ansiedade que a levou ao hospital... e na minha outra amiga que, desde que perdeu os pais, só deseja que esta quadra passe depressa para voltar à sua rotina tranquilizadora...
Será mesmo a época mais feliz do ano? Não sei... Quando tudo à nossa volta são brilhos e toques de sinos, quando tudo nos grita que temos de ser muito felizes, é nesses momentos que os nossos problemas e as nossas fraquezas se avolumam e nos parecem insuportáveis.
Às vezes, é a época mais triste do ano... the saddest time of the year...








sábado, 26 de dezembro de 2015

As greves natalícias

Quando se aproxima o Natal, tão regular como o trenó do Pai Natal, chega uma greve natalícia. Às vezes, é a recolha do lixo. Outras vezes, são os transportes urbanos ou a CP. A verdade é que há sempre um sindicato qualquer que acha uma boa ideia marcar uma greve para este período do ano, de especial sensibilidade, em que as famílias se tentam reunir e conviver.
Neste Natal, para não variar, foi a CP. Independentemente das razões que lhe assistem (e que já ninguém discute nem recorda, tantas já foram as greves!), o sindicato respetivo marcou uma greve para o próprio dia de Natal. Parece-me até acintoso... São as pessoas com menos possibilidades económicas que se deslocam de comboio, nestas alturas; os que mais podem, utilizam o automóvel. Como é possível que sindicatos ligados a partidos de esquerda demonstrem tamanha insensibilidade social? 
As televisões passaram em rodapé que o sindicato anunciou uma adesão de 20% à paralização (o que nos leva a poder garantir que foi bastante menos...). Parece-me um bom sinal. Já ninguém tem paciência para estas greves, nem os próprios ferroviários...


sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

A melhor prenda de Natal



Este ano, cheguei à altura do Natal num estado de cansaço difícil de ultrapassar. O trabalho multiplicou-se, semanas a fio, e eu comecei a encarar os dias do Natal com receio. Aproximavam-se dias de muita agitação e de trabalho, a somar à exaustão que eu já vinha acumulando. Será que eu ia dar conta de tudo, como sempre tinha feito?  "Não te preocupes, mãe! Nós tratamos de tudo! Tu vais descansar, ajudas no que quiseres, mas não te preocupas com nada!" 
Pela primeira vez, não me preocupei com entradas e doces, não fiz listas de compras, não escolhi o bacalhau, não fui buscar o perú... E, no dia certo, lá estavam todos a fazer a sua parte! Não faltou o perú recheado, nem os doces, este ano um pouco diferentes do habitual! 
Definitivamente, a minha família é o meu melhor presente de Natal!


segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

O renascimento do Sol Invencível

Festeja-se no próximo dia 22 o solstício de inverno. É o dia mais pequeno do ano e eu, que reajo mal à diminuição da luz solar, contraditoriamente, gosto deste dia por isso mesmo: a partir de agora, os dias vão recomeçar a aumentar. Primeiro devagar, timidamente, mas no final de janeiro já se notará a diferença.
Já os antigos conheciam e festejavam esta data. Os romanos festejavam o dia do Sol Invicto no dia 25 de dezembro, três dias depois do solstício, quando o sol começava visivelmente a nascer mais cedo. 
Data dos tempos romanos um santuário, atualmente a ser escavado num pequeno promontório junto à Praia das Maçãs, dedicado ao sol e à lua. O lugar era especial. Era o sítio onde o sol se punha e a terra reconhecidamente acabava. Não se conhecia mais nada para ocidente! 
Mencionado em textos do início do século XVI, a propósito de umas escavações, a localização do santuário perdeu-se da memória das gentes. No início do século XXI, os arqueólogos voltaram ao terreno e, em 2007, mostraram os primeiros resultados. 
No sábado, no Museu Arqueológico de São Miguel de Odrinhas, com a orientação do Professor José Cardim Ribeiro, fez-se a primeira apresentação ao público de uma ara recém encontrada no sítio arqueológico do Santuário. Falou-se sobre o significado do culto ao Soli Invictus e da localização do santuário. Não consigo imaginar uma maneira melhor de festejar o solstício de inverno.

Local do  Santuário, no Alto da Vigia, junto à Praia das Maçãs
(fotografia de Raul Losada)


Para saber mais sobre este santuário, visite o site do Portugal Romano.

sábado, 19 de dezembro de 2015

A alucinação das grelhas ou o pesadelo do diretor de turma


Chega esta época do ano e, quando toda a gente normal se preocupa com presentes, perús e rabanadas, os professores mergulham num gigantesco delírio burocrático! Se forem diretores de turma, o delírio aumenta até se transformar num verdadeiro pesadelo...
As grelhas de excel ocupam o lugar de honra. Ali, os alunos são convertidos em milhentos números parciais. Que notas teve nos testes? E nos trabalhos? Fez os trabalhos de casa? Chegou atrasado? Foi sempre educado? Trouxe o material escolar? Colaborou com os colegas? E faltas, houve? De que tipo? Presença, pontualidade, material, TPC, disciplinar? Para quem tem 200 alunos, ou mais, este exercício é um autêntico delírio, em que as minúsculas partes fazem às vezes esquecer o todo!
Mas não ficamos por aqui. Depois, há que transpor todas as informações para as variadas fichas e plataformas. Mas isso não chega: há que voltar a ir buscar as mesmas informações para elaborar outra dúzia que relatórios parciais que nunca mais ninguém vai ler...
Há mais inimigos à espreita: chamam-se PAAPI e MRI, PEI ou CEI, e multiplicam-se à nossa volta, até já os baralharmos uns com os outros e trocarmos alguma indicação, da que nos foi facultada em várias fichas de instruções, que tentam pôr alguma ordem no que é inordenável... Não faz mal, ninguém vai dar por isso...
Pronto! Finalmente, as reuniões sucedem-se e as notas finais vão sendo lançadas em pauta. As atas vão sendo escritas, penosamente, porque ainda é preciso que aí apareçam relatórios de todos os aspetos que foram já tratados noutros suportes e grelhas.
E o resultado final? Vou-vos contar um segredo! É um segredo de Polichinelo, porque todos o sabemos: o resultado é nulo! No meio de tanta grelha e de tanta papelada, o aluno ficou esquecido! Não sobrou tempo para, com calma, pensar bem nos alunos, nas suas dificuldades ou capacidades, para planear atividades que lhes permitam melhorar e gostar de aprender!
Por isso, se virem por aí algum professor, cheio de olheiras, de cabelos em pé, balbuciando frases sem nexo, tenham paciência com ele: provavelmente, acabou de ser grelhado, e levará algum tempo a recuperar!


segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Viver sem primeira-dama

Palácio de Belém, residência oficial do Presidente da República

Parece inevitável: ganhe quem ganhar nas próximas eleições presidenciais, não teremos em Belém uma primeira-dama. Considerando os principais candidatos, é esse o cenário. Marcelo Rebelo de Sousa é divorciado e vive com uma senhora que não tem a mínima intenção de deixar a sua profissão para o acompanhar. O mesmo se passa com Sampaio da Nóvoa, embora casado. Maria de Belém é casada, mas quanto muito o marido poderá representar o papel de primeiro-cavalheiro, ou outro título assim. E eu acho isso bastante refrescante.
Vamos lá pôr as ideias no lugar. Numa monarquia, toda a família real tem um papel a representar. Um papel institucional e simbólico. Mas nós vivemos numa república e parece lógico que a eleição para um cargo não abranja a família toda. As funções do Presidente da República são desempenhadas por ele próprio, vamos deixar de as enfeitar com o simbolismo monárquico. 
Já agora, vamos também relembrar que, numa república, todos os cargos são temporários. E se todos temos direito a uma pensão de reforma, melhor ou pior, já me parece mais duvidoso que o cargo de presidente da república dê direito a privilégios para o resto da vida. Carro e motorista. Secretária e segurança. Espaços especialmente concebidos para trabalho e utilização, para o resto da vida. Privilégios vitalícios são o contrário do espírito republicano. Era bom que os que tanto o apregoam, fossem também os primeiros a adotar-lhe a essência.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Hitler: publicar ou não publicar, eis a questão!




No dia 1 de janeiro de 2016, isto é, daqui a pouco mais de um mês, o livro de Hitler Mein Kampf cai no domínio público. Até agora, a sua edição na Alemanha estava totalmente proibida e a sua transcrição bastante restringida. Com o levantamento desta proibição, prevêm-se várias edições e uma ampla divulgação desta obra incendiária do nazismo e do anti-semitismo. Muitos temem esta publicação e acham-na perigosa. Mas... o que é que realmente muda? Qual é o perigo real?
O mundo atual é muito diferente do mundo dos anos 40 ou 50 do século passado. Nessa época, proibir uma publicação tinha uma eficácia razoável. Sabemos que é difícil fazer desaparecer um livro, ele arranja maneira de continuar a circular, subterraneamente, clandestinamente. Hoje é bem diferente. Todos os textos, por mais proibidos que sejam, circulam livremente na internet. E, se for necessário, passam para a chamada deep web, como se constata atualmente com os textos panfletários do Estado Islâmico.
Por princípio, não simpatizo com censuras ou com textos proibidos. Sabemos que os frutos proibidos são os mais apetecidos. E estes textos fortes vão ser sempre apelativos para alguns. Então, como atuar? Publicar ou não publicar? Na minha opinião, o Mein Kampf deve ser publicado, sim. Mas muito bem acompanhado, contextualizando claramente as afirmações ali incluídas. É importante que, ao lado do texto, se percebam as incoerências e as falsidades científicas. E, principalmente, que se estabeleça a relação, clara e direta, entre as teorias que ali se tecem e as consequências terríveis que tiveram para a humanidade. 
Por mim, fazia uma edição oficial comentada. Daquelas que se fazem das obras teóricas que marcaram uma época e que estudamos com distanciamento, como qualquer outra fonte histórica. E ponto final.

sábado, 21 de novembro de 2015

Vinyl de chocolate

Ultimamente, as notícias têm-nos deixado com um travo amargo na boca... Talvez por isso, resolvi trazer aqui uma novidade verdadeiramente doce. 
Um DJ francês, chamado Breakbot, editou um disco chamado By your side. Não sei se as canções são doces. Mas Breakbot decidiu editar um vinyl em... chocolate! Foram feitas apenas cem cópias comestíveis deste álbum que, apropriadamente, se vende na loja de chocolates Colette. 
Parece-me uma ideia excelente. Se não gostarmos da música, podemos sempre partir o disco e comer os pedaços! Ou, dito de outra forma, é uma música que nos deixará sempre uma boa recordação!



domingo, 15 de novembro de 2015

Podia ser eu...

Quando fui visitar o campo de concentração de Auschewitz, confrontei-me com uma fotografia que me emocionou profundamente. Num corredor de um dos edifícios-prisão, as paredes estavam cobertas com fotografias de pessoas que tinham estado presas no complexo e ali tinham morrido. Fui percorrendo o corredor, vendo aquelas faces, lendo as informações sobre as suas profissões, idades... De repente, houve uma fotografia que me chamou a atenção. Uma mulher de idade indeterminada, cabelo rapado, olhar de quem já desistiu de compreender. O nome Krystyna, a profissão professora. Podia ser eu... Entrou no campo de concentração no final de 1942, morreu cerca de cinco meses depois. Podia ser eu... Alguém prendeu uma flor no canto da fotografia. Um parente? Um antigo aluno?
Aquela fotografia ficou comigo. Penso naquela mulher muitas vezes, com empatia e emoção. E voltei a lembrar-me dela neste fim de semana, após os atentados de Paris. Devemos sempre lutar contra a barbárie, por todas as razões, até pela mais egoísta de todas: as vítimas não são os outros, pode ser qualquer um de nós...


quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Da TAP...

Não quero saber se a TAP é uma empresa pública ou privada. Se pertence ao Estado português, aos chineses ou aos marcianos! Desde que funcione bem, e sirva eficientemente os passageiros, está bem para mim... Gosto da TAP por outros motivos. Gosto da TAP porque os aviões têm nome próprio. Aqui há dias, voei num avião chamado Malangatana...
Também suponho que é a única companhia aérea que serve favas com chouriço às onze horas da manhã...


quarta-feira, 4 de novembro de 2015

A árvore que mudou de sexo


© cyocum | Via Flickr

Localiza-se na Grã-Bretanha, mais precisamente na Escócia, no adro da igreja de Perthshire. Dizem que é a árvore mais antiga da Europa. É um velho teixo e, até agora, sempre se considerou do sexo masculino: fertilizava outras árvores, produzindo pólen. Recentemente, a velha árvore surpreendeu todos os estudiosos começando a dar frutos. Isto é, em termos botânicos, a árvore mudou de sexo.
Têm sido avançadas algumas explicações. A árvore poderia estar a reagir a uma espécie de stress ambiental. Ou poderia estar a garantir a continuidade da espécie, assumindo também a parte feminina.
Tenho para mim que esta árvore decidiu finalmente assumir a sua verdadeira identidade. A liberdade de orientação sexual pode ter enfim chegado ao reino da Botânica.

domingo, 1 de novembro de 2015

China - o efeito bebé...


Cartaz apelando ao cumprimento da planificação familiar imposta pelo Estado

Soubemos nesta semana que, finalmente, a China decidiu pôr fim à sua política de filho único. O Comité Central do Partido Comunista Chinês emitiu um comunicado permitindo que as famílias tenham dois filhos. Apesar de ser uma decisão que devia ser do foro íntimo e familiar, e não depender de uma decisão política, fico feliz com essa pequena vitória. Todos os que se interessam um pouco por aquilo que vai acontecendo pelo mundo sabiam que esta proibição do Partido Comunista Chinês, fosse qual fosse a sua causa, teve como grande consequência o desequilíbrio demográfico, com a valorização dos filhos, dos rapazes, do filho varão. Coitados dos filhos varões, que hoje não encontram noivas numa China com muitos milhões a mais de habitantes do sexo masculino!
Mas o mais confrangedor eram os números. Os números, secos mas gritantes, dos infanticídeos de meninas, das filhas que eram rejeitadas à espera do filho varão, dos orfanatos cheios de meninas vítimas da mesma distorção cultural. E das mulheres obrigadas a abortos não desejados.
E, enquanto eu estava nestas cogitações entre o ingénuo e o esperançoso, na China havia efeitos muito mais rápidos da decisão do Partido Comunista Chinês. Na Bolsa de Pequim, houve uma valorização imediata das ações das empresas produtoras de fraldas e de leite para bebés. E também houve uma desvalorização das ações das empresas que produzem preservativos... É engraçada, a economia!

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Vamos outonear?

E pronto, o outono chegou e instalou-se de vez. O frio ainda não aperta, mas vai chovendo e os dias são cada vez mais curtos. Não sou fã desta estação do ano, a diminuição da luz diária tem um efeito direto na minha disposição. Apetecia-me hibernar, como alguns bichinhos. E sei que este efeito é muito mais comum do que se pensa...
Mas temos de reagir e... outonear! Encontrei esta palavra e resolvi adotá-la. Outonear, igual a ter atividades que tornem o outono mais agradável! Assim, de repente, lembrei-me de várias hipóteses!
O outono é uma época excelente para passear à beira-mar, por exemplo. Há muito menos gente, entre turistas e banhistas, e podemos ter o mar e a maresia só para nós.
Os serões são agora mais longos. Porque não recuperar um antigo prazer, pegar numas lãs coloridas e tricotar uma manta para as noites mais frias? Ou uma camisola para o sobrinho mais recente? Ou umas botinhas para o que vai nascer?
Enfim, há aquelas tardes de domingo, chuvosas, em que só apetece ficar em casa. Para essas ocasiões, fica uma proposta mais exigente: fazer umas tigelas de marmelada. Outubro é o mês dos marmelos e a marmelada é um dos sabores da nossa infância. E não é difícil de fazer... Aqui fica uma receita!
Um bolo de chocolate também me parece uma boa ideia. Ou, simplesmente, umas castanhas assadas, um dos prazeres da época. Sim, podemos perdoar-nos estes pecadilhos. Afinal, o verão ainda vem tão longe! Agora é o tempo de outonear!



Hai-Kai de Outono

Uma borboleta amarela?
Ou uma folha seca
Que se desprendeu e não quis pousar?
                                                              Mario Quintana


sábado, 24 de outubro de 2015

Quem matou as princesas da minha infância?



Eram todas lindas e inocentes. Loiras ou morenas, europeias, índias ou cheias de encanto oriental, sofriam os mais horríveis tormentos, eram abandonadas, maltratadas, humilhadas, sempre sem um pensamento de vingança. No final, a sua bondade, beleza e inocência acabavam por levar a melhor sobre a maldade do mundo que as rodeava. Encontravam um principe, ou um sapo charmoso, e viviam felizes para o resto da vida. E nós também iamos felizes para a cama. Eram as princesas da Disney.
A Branca de Neve e a Cinderela, a Mulan e a Pocahontas. Acompanharam a infância e os sonhos de gerações de meninas, desde a minha mãe à munha filha. As princesas da Disney eram as nossas heroínas e os nossos modelos.
Descobri há pouco tempo que um artista plástico decidiu pegar nessas fantásticas princesas da nossa infância e transformá-las em personagens eróticas. Eu sei, eu sei: há fetiches de todo o estilo e feitio e isto já não é novidade. Mas, até agora, não era arte. E eu senti-me verdadeiramente ultrajada por esta nova abordagem.
As princesas da Disney representavam o que havia de mais puro e inocente. Não gostei nada de ver a Branca de Neve de cuequinhas provocantes ou a Pocahontas em roupa interior insinuante. Senti-me chocada, como se a minha própria infância tivesse sido conspurcada.
A nossa sociedade e a nossa cultura são altamente sexuadas e o sexo, explícito ou implícito, está em todo o lado. Vivemos bem com isso, já estamos todos habituados. Mas algumas coisas podem ficar de fora, não? Para quê matar as princesas da minha infância?

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

A professora de Valter Hugo Mãe


Aproxima-se o início de um novo ano letivo. Já se fazem reuniões, já se planificam atividades, já se discutem estratégias. E pensamos como serão as nossas novas turmas...
Por coincidência, ou talvez não (a outra dizia que não havia coincidências...) caiu-me nas mãos este texto de Valter Hugo Mãe. E eu penso: se tiver um caso destes nas minhas turmas... basta um, apenas um aluno assim... então, tudo valerá a pena!

Houve um dia, numa aula de História do sétimo ano, em que falámos das estátuas da Roma antiga.
Respondi à professora, uma gorduchinha toda contente que me deixava contente também, que eram os olhos que induziam a sensação de vida às figuras de pedra. A senhora regozijou. Disse que eu estava muito certo. Iluminei-me todo, não por ter sido o mais rápido a descortinar aquela solução, mas porque tínhamos visto imagens das estátuas mais deslumbrantes do mundo e eu estava esmagado de beleza. 
Quando me elogiou a resposta, a minha professora, contente, apenas me premiou a maravilha que era, na verdade, a capacidade de induzir maravilha que ela própria tinha. Estávamos, naquela sala de aula, ao menos nós os dois, felizes. Profundamente felizes.
Talvez estas coisas só tenham uma importância nostálgica do tempo da meninice, mas é verdade que quando estive em Florença me doíam os olhos diante das estátuas que vira em reproduções no sétimo ano da escola. E o meu coração galopava como se estivesse a cumprir uma sedução antiga, um amor que começara muito antigamente, se não inteiramente criado por uma professora, sem dúvida que potenciado e acarinhado por uma professora. Toda o amor que nos oferecem ou potenciam é a mais preciosa dádiva possível.
Valter Hugo Mãe, Jornal de Letras, 19 de setembro 2012