sábado, 10 de setembro de 2016

Postal de Lisboa XXV - Os azulejos de Lisboa




Hoje, passámos a manhã a passear por Lisboa, de nariz no ar, a observar os azulejos das fachadas dos prédios. Todos deviamos fazer isto mais vezes, tirar tempo para olhar à nossa volta, com vagar. Muitas vezes, é aquilo que está ao pé de nós, que vemos todos os dias, que mais nos escapa! É o caso dos azulejos.
Todos nós, em Lisboa, nascemos e crescemos rodeados de azulejos. Eles estão nas fachadas e nos interiores. Nos cafés e nas igrejas. Nas casas de banho e nas escadarias nobres. Atapetam prédios inteiros ou são apenas frisos, à volta das janelas ou no topo dos edifícios. São multicolores ou monocromáticos. Têm padrões geométricos ou motivos florais. São tantos e tão diversificados que já não lhes damos importância nenhuma.
A arte do azulejo é uma das nossas heranças mouras. A partir do século XVI, XVII, atinge aqui em Portugal, no entanto, um esplendor quase único. Um século depois, salta do interior para o exterior e cobre fachadas inteiras. E, quando Lisboa cresce e se expande, no século XIX, esta cobertura azulejar cobre as ruas da capital.
Naquela época, havia várias fábricas de azulejos, tanto na zona de Lisboa como do Porto. Era uma cobertura relativamente barata, duradoura e termicamente adequada. A segunda metade do século XX, no entanto, assistiu a um abandono do centro da cidade e, com ele, a um desprezo por esta nossa característica decorativa.
Nós não prestámos atenção, mas os turistas sim. E começou a venda dos nossos azulejos para o estrangeiro, a altos preços, muitas vezes ilegalmente retirados dos locais a que pertenciam. Calcula-se que sairam do país milhares de azulejos por ano. Hoje, voltou a valorizar-se o azulejo como parte do nosso património, e também do património universal. Há projetos de salvaguarda e valorização, como o Projeto SOS Azulejo, que vale a pena conhecer.
Hoje, andámos a passear por Lisboa, observando essa paisagem cultural tão característica. Descobrimos pormenores em que nunca tinhamos reparado e descobrimos que alguns prédios cobertos de azulejos (geralmente dos finais do século XIX) tinham sido demolidos recentemente, desaparecendo com eles a cobertura das suas fachadas, os frisos florais, os painéis decorativos. Quem sabe onde estarão? 

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Igualdade, em pequenos lances

Arranjei um problema num ombro, complicado, doloroso. As causas são um tanto obscuras: o médico fala de situações de tensão continuada e maus posicionamentos relacionados com a atividade profissional. A consequência foi só uma: tratamentos de fisioterapia até... sabe-se lá quando!
Felizmente, a minha fisioterapeuta é muito simpática. É jovem, risonha, muito profissional. E gosta de conversar enquanto trabalha. Diz que ajuda a descontrair os pacientes... provavelmente tem razão. 
Foi assim, nessas conversas, que eu fiquei a saber que ela tem um hobby pouco vulgar: é árbitro de futebol. Não deve ser tarefa fácil, num meio em que ainda impera a testoesterona. Provavelmente, teriam de mudar o tipo de insultos que os adeptos dirigem aos árbitros. E, sinceramente, não sei se impõem mais ou menos respeito em campo.
Segundo parece, as árbitros (ou árbitras? tenho de lhe perguntar!) ainda são poucas. Arbitram principalmente jogos do Campeonato Feminino de Futebol, embora possam arbitrar também jogos masculinos. E já o vão fazendo, nos campeonatos de juvenis e juniores. E os seniores, os jogos dos grandes? Lá chegarão! 
Daqui a dez ou quinze anos, provavelmente, este meu espanto já não terá fundamento e será normal ver uma mulher nas equipas de arbitragem. Pouco  a pouco, passo a passo, qualquer mulher terá tanto direito a detestar futebol como a praticá-lo ou arbitrá-lo. E é essa igualdade de oportunidades que assim, em pequenos lances, se constrói.





domingo, 4 de setembro de 2016

Noites de música

Ontem à noite, a EGEAC ofereceu outra vez aos lisboetas, e a quem quis assistir, um espetáculo de elevadíssima qualidade. A noite estava tépida e aprazível e o Terreiro do Paço encheu-se com milhares de pessoas de todas as idades e feitios que quiseram ouvir música. Era o concerto de inauguração da temporada da Orquestra Gulbenkian. A música foi escolhida a dedo: o encanto e exotismo das danças do Prince Igor, de Borodin; o romantismo do Peer Gynt, de Grieg; e a elegância da Rhapsody in Blue, de Gershwin, tocada com o talento de Mário Laginha. Foi muito bom ouvir a música, mas também foi muito bom perceber a educação daqueles milhares de pessoas, que souberam quando aplaudir e quando estar em silêncio. Parabéns à EGEAC, é assim que se leva a música às pessoas e as pessoas à música!

Durante o serão, lembrei-me muitas vezes das quentes tardes de verão e das longas viagens de carro em que eu e os meus filhos inventavamos histórias, inspirados por algumas destas músicas. Uma delas, das nossas preferidas, era precisamente o Peer Gynt...


"Morning", de Peer Gynt, de Grieg... Morning is the victory over the night... Morning is the new beggining... Morning is the hope...

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

A alma das flores

- O que é que tem hoje, D. Adília?
Abriu a boca para dizer qualquer coisa, talvez o costumeiro "não é nada", mas ficou com o gesto suspenso. Passado um momento, meneou a cabeça, sem conseguir dizer uma palavra.
- Está aí com uns olhos tristes, a cabeça encostada na mão... passa-se alguma coisa!
- Nem sei como explicar.
Os anos, já mais de oitenta, pareciam pesar-lhe mais do que o costume. Suspirou. Como explicar o que lhe ia na alma?
- Andam a limpar a fachada do meu prédio. Fazem a limpeza com jactos de areia e temos de ter as janelas e as varandas desocupadas. Comecei a tirar os vasos de flores, mas não tenho onde os pôr. A minha casa é pequenina, não tenho sítio para as minhas flores. Já comecei a dá-las, mas acho que algumas vão morrer. Custa tanto separar-me das minhas flores! Tenho umas sardinheiras vermelhas, grandes, carnudas... e uma buganvília, linda! O que vai ser das minhas flores?
Limpou uma lágrima e voltou a suspirar.
- A minha filha já ralhou comigo, disse que era uma palermice e que me comprava outras flores novas. Mas ela não compreende. Eu tenho aquelas flores há muito tempo. A partir de uma certa idade, nós pegamo-nos às coisas, é como se elas tivessem uma alma e fossem nossas amigas.
Eu, que estou a ouvir a conversa, penso que a filha compreende, sim, mas tenta desvalorizar essa relação que nos prende aos objetos e às coisas que nos rodeiam, para ajudar a mãe. Quando os anos passam, essas relações são pequenas âncoras que nos prendem à vida. Ganham uma alma, sentidos ocultos. E não faz sentido cortar esses laços de alma.


Nota: Esta pequena história é real, como outros retalhos da vida que eu vou apanhando e trazendo para o blogue. Mas o nome da mulher é inventado. Escolhi-o em recordação de outra mulher, também já com mais de oitenta anos, e que sempre gostou de flores.

domingo, 28 de agosto de 2016

Burkini ou não, eis a questão

Mulher muçulmana, usando um burkini, faz surf numa praia da Califórnia

Durante as férias que agora vão terminando, um dos países por onde passei foi a França. Como, mesmo em viagem, mantenho o hábito de ir ouvindo as notícias logo de manhã, apercebi-me que havia dois assuntos que dominavam os noticiários franceses: um deles era a polémica do burkini. Ao outro assunto voltarei, aqui, noutra oportunidade.
Para quem anda mais distraído, o burkini é uma espécie de pijama de mangas e calças compridas, que inclui um toucado ou lenço para a cabeça e destina-se às mulheres muçulmanas que querem ir a banhos. Vou ser muito sincera: não tenho qualquer espécie de simpatia por um regime político ou uma religião que subalternize a mulher. Essa subalternização pode ser feita de muitas maneiras, desde impedindo-as de ir à escola até à obrigação de se esconderem atrás de uma fatiota disforme e uniforme, que as despersonaliza e retira da visibilidade social. Recordo-me de ter visto algumas dessas mulheres no Mar Morto, tomando banho, com os seus fatos pretos boiando à sua volta como aves de mau agouro. Face a essa imagem, tendo a simpatizar com o burkini. Afinal, é uma forma de lhes garantir alguma liberdade de movimentos, alguma alegria e até alguma personalidade diferenciada. Dominadas por uma pressão religiosa e social que não lhes reconhece o direito à alegria, o burkini fornece-lhes uma pequena arma de transgressão socialmente aceite. 
Há outro aspeto que não é negligenciável, na sociedade francesa como em qualquer sociedade ocidental: a liberdade. Esse é, provavelmente, o maior valor que as revoluções liberais nos deixaram, a intangibilidade das nossas liberdades individuais. E nós exercemos alegremente o direito a fazer o que bem nos apetece ou a vestir o que bem queremos. Lembro-me, quando era miúda, de ver as senhoras mais idosas na praia, todas vestidas mas, mesmo assim, felizes, a molhar os pés ou a dar a mão a um neto à beira-mar. Elas não usavam fato de banho. Por pudor. Por cultura. E se um polícia chegasse ao pé delas e as obrigasse a despir? Acharíamos bem? Ou a nossa defesa da liberdade é diferente, quando se aplica a outros ou a nós próprios?
O argumento dado pelos municípios franceses que proibiram o burkini também me faz confusão. Ver mulheres de burkini faz as pessoas sentirem-se inseguras, porque as associam ao terrorismo islâmico e aos atentados? Então, a melhor maneira de lutar contra o terrorismo islâmico é escondendo os muçulmanos? Nada disto faz sentido. Ou talvez só faça sentido se for integrado na grande desorientação que grassa nas nossas sociedades. Mas que não nos deve fazer esquecer os nossos valores fundamentais, aqueles que fazem a nossa diferença.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

História na paragem do autocarro


Estava calor, na paragem do autocarro. O sol batia diretamente na chapa e, naquele meio de tarde, a paragem parecia uma estufa. Um senhor idoso, de cor escura, sentou-se ao lado de uma senhora idosa, de cor clara. Mas voltou a levantar-se do banco, dizendo que estava demasiado quente. Por razões incompreensíveis, a senhora idosa sentiu-se ofendida e protestou: 
- Não estava mais calor, lá de onde veio?
O homem retorquiu-lhe sem demoras:
- E como é que a senhora sabe de onde é que eu venho? Acha que eu venho de África por causa da cor da minha pele? Eu sou tão português como a senhora! Aposto que a senhora também não sabe de onde vieram os seus antepassados! Houve muitas invasões de povos e a senhora não sabe quais são as suas origens! As pessoas não sabem História!
Comecei a ouvir atentamente aquela defesa da História, entrecortada de pronúncias e acentos variados. A senhora tentava desculpar-se com argumentos inúteis, que já iam nos seus antepassados transmontanos, o homem contra-atacava com múltiplas invasões de povos, das quais baralhava um pouco as datas.
Ao meu lado, uma senhora de meia-idade desabafava:
- Quando eu vivia em África, tratavamos os negros com mais respeito, embora eles fizessem os mesmos trabalhos que nós fazemos hoje. Eu vivia em Moçambique e tinha criados e cozinheiros. Agora, eu é que trabalho num hotel. Eu era portuguesa, vivia bem. De repente, deram-nos 48 horas para sair de Moçambique, ou perdiamos a nacionalidade. De repente, o Samora Machel era um herói e nós não pertencíamos a sítio nenhum. Nunca percebi o que foi que nos aconteceu. Mudou tudo, de repente ficámos sem nada. O que é que aconteceu?
O homem idoso de cor escura, que entretanto já tinha apanhado o seu autocarro, tinha razão: as pessoas não sabem História. E assim não se consegue perceber porque é que estamos nesta situação ou noutra, o que nos trouxe aqui, que ventos sopraram e alteraram a nossa vida. A História também nos ensina outra coisa: todos nós somos joguetes, peões, num jogo muito mais amplo, onde se jogam interesses mais abrangentes e, muitas vezes, mais mesquinhos. No século IV como no século XX ou XXI, a nossa vida é uma peça minúscula num jogo de interesses que nos manipula e nos ultrapassa. E pode ser abalada de repente, por uma simples mudança na direção dos ventos.

terça-feira, 5 de julho de 2016

Em Timor festejou-se a vitória de Portugal




Depois da emoção que foi, para muitos portugueses, a passagem da seleção portuguesa às meias-finais no Euro 2016, tivemos outro momento não menos emocionante: as imagens dos festejos em Timor Leste. Eram 6h 30 da manhã em Dili quando o jogo finalmente acabou, depois do prolongamento e dos penalties. E dezenas de bandeiras de Portugal sairam à rua, empunhadas por muitos timorenses, a pé ou de motocicleta, que percorreram as ruas de Dili festejando a vitória de Portugal, como se fora a sua própria.
Estas imagens são emocionantes, porque nos mostram a ligação emocional que ainda existe entre um território longínquo, parte de um império colonial vasto e disperso, e esta cabeça do império, tantas vezes desorganizada e pouco eficaz. 
Penso, por vezes, que sofremos de um qualquer complexo em relação ao nosso passado colonial. Umas vezes, incensamo-lo, exageramos os heroísmos e os nacionalismos. Outras vezes, deixamos pesar mais os complexos de culpa e só recordamos a exploração e a escravatura. Algures no meio estará um olhar mais limpo e descomplexado sobre a nossa história. 
Estas manifestações de alegria nas ruas de Dili fizeram-me lembrar um artigo do professor Paulo Pinto, historiador e investigador da Universidade Nova de Lisboa, sobre "Descobrimentos e Memória". Lembrava o professor Paulo Pinto o silêncio que envolveu os 500 anos da chegada dos portugueses a Timor, tradicionalmente datada de 1515. A jovem república de Timor-Leste celebrou a data, com pompa e festejos públicos, ao mesmo tempo que festejava os 40 anos da sua declaração de independência. O governo português juntou ao silêncio a ausência nas cerimónias oficiais em Dili, fazendo-se apenas representar pelo Presidente do Tribunal Constitucional.
Esta miopia na forma como se olha para o nosso passado origina estas situações. Pelo contrário, acarinhar os laços emocionais que se estabeleceram poderá potenciar laços culturais duradouros e, seguramente, valiosos.