sexta-feira, 24 de junho de 2016

Brexit...


E pronto, a Grã-Bretanha lá decidiu abandonar um espaço onde nunca esteve de coração, a União Europeia. Mesmo que não tivesse nenhuma ideia definida sobre o assunto (o que não é o caso), bastar-me-ia ver quem festejou os resultados do referendo inglês para temer pelo nosso futuro coletivo. Começando em Donald Trump e acabando em Marine Le Pen, passando por todos os partidos europeus, pequenos ou grandes, que não partilham dos ideais europeístas. Os extremistas e nacionalistas exultam... e o discurso demagógico vai ganhando terreno. Quando é que já vimos isto?
Há muitas questões em cima da mesa, que vão da economia à situação de regiões como a Escócia, a Irlanda, Gibraltar. Há o pano de fundo do discurso xenófobo ligado à imigração e aos refugiados. Haverá com certeza muitas coisas inesperadas nos próximos tempos. E, de repente, o nosso mundo já não parece o mesmo...
A União Europeia tem estado de costas voltadas para os problemas concretos dos cidadãos europeus. Tenho alguma esperança que este Brexit sirva de despertador para os outros vinte e sete estados e que a União Europeia se fortaleça, em vez de se fragmentar e soçobrar. Em todo o caso, penso que a União, melhor ou pior, lá fará o seu caminho.
Talvez o Reino Unido se desintegre mais depressa do que a União Europeia. E o tal Dia da Independência não passe do canto de cisne do grande Império Britânico!




terça-feira, 21 de junho de 2016

O festival de carne de cão



É na China, é claro! Inicia-se hoje o célebre Festival de Yulin, na província de Guangchi, onde o principal pitéu é a carne de cão. 
Há já anos que se organiza este festival, sempre na altura do solstício de verão e sempre acompanhado de protestos e petições vindos de todo o mundo. Como parece evidente, as autoridades de Yulin são perfeitamente indiferentes aos protestos e continuam a organizar o festival, que é um sucesso. Só nas edições de 2014 e 2015, estima-se que tenham sido mortos e consumidos cerca de 10.000 cachorros por ano. Muitos desses cães são caçados e até roubados, para serem cozinhados no festival. 
As opiniões dos chineses dividem-se: alguns dizem que comer carne de cão é um gosto, mas não uma tradição; mas muitos outros, num país conhecido pelos seus estranhos hábitos gastronómicos, consideram que é uma tradição daquela província, que não se deve quebrar.
Confesso que estou a escrever tudo isto e a sentir calafrios. O cão não é como outro animal qualquer, e mesmo em relação a qualquer animal as preocupações de bem estar já são uma constante no mundo civilizado. Mas, o cão? Acompanha-nos há milénios. Foi o primeiro animal a ser domesticado pelo homem, não como animal de criação, mas como companheiro de caça e guarda dos acampamentos. A nossa relação com o cão é uma relação especial.
Um cão compreende os nossos sentimentos e sabe expressar os seus. É o melhor amigo que se pode ter, leal, fiel, de uma dedicação a toda a prova. Um cão ama incondicionalmente o seu dono. Quem já teve um cão sabe do que falo. 
Por tudo isto, ver as imagens do festival de Yulin provoca-me os tais calafrios. E, por tudo isto, prefiro inserir aqui uma imagem de um homem, um milionário chinês, que já resgatou mais de cinco mil cachorros de serem mortos e cozinhados.
Não se pode desculpar tudo com a tradição. Se assim fosse, ainda andavamos escravizados, a arrastar grilhões.

domingo, 19 de junho de 2016

Os adeptos portugueses

Não, não vou aqui escrever sobre futebol, os meus conhecimentos sobre o assunto são risíveis. Por maioria de razões, também não vou tecer qualquer tipo de comentário sobre o jogo de Portugal com a Áustria, ontem. Deixo isso para os inúmeros "doutores do futebol", que nos massacram durante horas seguidas com previsões sobre os jogos, seguidas de outras tantas horas com análises exaustivas sobre os mesmos. Procuro seriamente não os ouvir, mas é difícil não prestar alguma atenção ao que se passa à volta dos jogos.
Não me lembro de um campeonato de futebol com tanta violência. Não dentro do campo, mas nas bancadas, à volta dos estádios, no centro das cidades onde decorrem os jogos. Quase todos os dias vemos imagens de adeptos, alcoolizados ou não, que se envolvem em tumultos. São ingleses, ou croatas, ou russos, ou ucranianos... Às vezes, são manifestações de força organizadas, protagonizadas por energúmenos de corpos tatuados e murros prontos. Vemos cargas policiais e praças vandalizadas. Suspeita-se de proteção, quando não de instigação, de alguns estados às ações dos seus adeptos. 
E os adeptos portugueses? Envolvidos em bandeiras, pintados de verde e vermelho, cantam canções pimba e fazem churrascadas. Isto é, fazem do futebol aquilo que me parece que ele deve ser: uma festa. Cantam e riem, sofrem e choram pela sua seleção, mas não andam aos murros. 
Li nas notícias que Portugal pode sofrer um processo disciplinar na sequência do jogo de ontem, porque um adepto invadiu o campo depois do jogo, para tirar uma selfie com Cristiano Ronaldo... Depois das imagens de violência a que temos assistido, isto até me dá vontade de rir... Os adeptos portugueses, às vezes, podem ser palermas, mas não passa daí.
Ontem, quando o jogo acabou, os adeptos portugueses sairam do estádio tristes, seguramente, mas com civismo. Parabéns, portugueses!



sexta-feira, 10 de junho de 2016

Outra vez 10 de junho...

Quem me conhece, sabe que não morro de amores por este feriado, muito pelo contrário! Já aqui escrevi sobre isso, há dois anos atrás. Enfim, é feriado... e isso sabe sempre bem!
Este ano, no entanto, há aspetos diferentes. Se, por um lado, as comemorações se centraram nos desfiles militares no Terreiro do Paço, a fazerem lembrar as comemorações de antigamente, por outro lado, abriram-se de novo ao povo português, e isso agradou-me muito.
Gostei de saber que os condecorados deste ano eram pessoas comuns que se tinham distinguido ao serviço dos outros, sejam militares sejam civis, como as porteiras de Paris, que ajudaram desinteressadamente todos os que lhes apareceram à porta, naquela noite terrível de atentados. Nunca aderi àquelas condecorações maciças de jovens (ou menos jovens) empreendedores. Nada tenho contra os empreendedores, sejam eles estilistas ou empresários industriais. Agem para o seu próprio lucro e benefício, no que fazem muito bem! Mas... condecorados, porquê?
Também gostei de ouvir os recados do presidente da República. Foram ao encontro do que eu penso e a História nos ensina: o povo português é resiliente, esforçado, mas as elites que nos têm governado ao longo do tempo têm deixado muito a desejar... Mais preocupados com agendas pessoais e partidárias do que com o bem comum, têm colocado o país à beira do abismo demasiadas vezes! Não me refiro apenas às elites políticas, mas também às elites económicas e culturais. Completamente centrados nos seus umbigos e nos seus egos hipertrofiados, vão fazendo os seus percursos através de jogos de interesses, satisfeitos com as suas pequenas vitórias, desinteressados do serviço à comunidade. 
Alguns elementos dessas elites estavam no próprio Terreiro do Paço, mas não tenho muita esperança de que reflitam  e interiorizem as palavras do Presidente da República.


(Imagem António Cotrim - Lusa)

domingo, 29 de maio de 2016

Pessoas que não se calam

Há um certo tipo de seres humanos que, numa viagem, são totalmente insuportáveis: as pessoas que não se calam...
Geralmente, no meio da lufa-lufa do dia a dia, não damos muito por elas. Mas, quando nos sentamos num autocarro ou num comboio para uma viagem mais ou menos longa e temos a pouca sorte de ter uma pessoa assim como companheiro de viagem, não temos escapatória. Começam por esboçar um sorriso ou tecer qualquer comentário amável e, quando damos por isso, já estão lançadas em monólogos imparáveis. Como somos, em geral, pessoas bem educadas, não temos a coragem de as mandar logo às urtigas e aguentamos estoicamente, fingindo algum interesse por todos os pormenores com que esses faladores nos vão bombardeando...
Podemos tentar, de quando em vez, transformar o monólogo em diálogo e dizer algumas palavras. Mas é um esforço inglório. Essas pessoas estão tão centradas em si mesmas que rapidamente interrompem para voltar ao seu discurso. Contam tudo, falam de uma vida que pode ser real, ou imaginada, ou ligeiramente pintada com cores mais alegres... Quem sabe? Se falarem muito, até podem acreditar no que dizem...
Regularmente, esboçamos algumas tímidas tentativas de fuga: abrimos o livro que trazíamos na mala, ou fechamos os olhos por momentos... mas a verborreia do falador regressa na primeira oportunidade.
A geração mais nova já descobriu aquela que me parece ser a defesa mais eficaz contra esses faladores: é pôr os phones e deixá-los a falar sozinhos! Bendita tecnologia!


domingo, 15 de maio de 2016

Postal de Lisboa XXIV - A Mesquita de Lisboa


A entrada principal da mesquita
A mesquita de Lisboa foi inaugurada em 1985. Construída na colina que sobe de S. Sebastião, a sua arquitetura destaca-se no meio do casario lisboeta, mas não são muitos os não-muçulmanos que lá entram.
Ontem, a mesquita abriu mais uma vez as suas portas, para uma visita aberta a todos, crentes e não crentes, organizada pela Um Outro Olhar, Divulgação Cultural. Guiados pelo Sheik Munir, há muitos anos à fente da Comunidade Islâmica de Lisboa, os visitantes puderam percorrer todos os espaços da mesquita.

A Sala de Orações
Uma mesquita é, acima de tudo, um espaço de oração. Por isso, o espaço mais importante é a grande sala de orações, de uma beleza contida, com o seu nicho apontando a direção de Meca, o seu enorme candelabro, os painéis de azulejo com versículos do Corão ou simplesmente motivos florais. Todo o chão está coberto de tapetes, já que os crentes devem rezar descalços, sobre um local limpo. Os azulejos estão muito presentes, lembrando que a nossa tradição de azulejaria é, na realidade, uma herança árabe.

Os azulejos com versículos do Corão
Mas o espaço da mesquita inclui muito mais do que a sala de orações. Há salas para conferências e palestras e espaços para as aulas corânicas. No piso inferior, situa-se a sala mortuária, com o espaço para as lavagens rituais do morto, mas também a grande sala para celebração de casamentos, já que, em qualquer dos casos, se come e se bebe. 

Na sala mortuária

No último piso, encontra-se ainda uma grande sala de conferências e um recinto desportivo, com bancadas e tudo, que pode ser utilizado pela comunidade, seja ou não muçulmana.
O centro de todo o complexo é, como em qualquer mesquita tradicional, o pátio, rodeado de colunas e ladeado pelo alto minarete.

O Pátio com o seu minarete

O Sheik Munir foi dando todas as explicações, respondendo a todas as perguntas, com paciência e sentido de humor. Agradeceu a presença de todos, frisando que é através do conhecimento mútuo que se fazem desaparecer os medos. A ignorância é a mãe de todos os radicalismos. E o Sheik Munir mostrou-nos um Islão moderno, tolerante e esclarecido, bem integrado na cidade. 

As pequenas cúpulas que ladeiam o pátio

Lisboa nem sempre foi uma cidade tolerante, mas foi sempre uma cidade feita de diversidades e é essa a sua riqueza. Espero que possamos continuar a conhecer-nos e a aceitar-nos mutuamente. E que Deus, seja qual for o seu nome, nos abençoe a todos.


Azulejos com alguns dos nomes de Deus

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Turismo vs. Vandalismo



Ontem à tarde, tive de ir à Baixa fazer umas compras. Caminhava sem pressas, a apreciar o sol, que não nos tem brindado muito com a sua presença nestes últimos tempos! Vinha do Rossio para os Restauradores e o meu olhar foi irresistivelmente atraído para o espaço vazio onde, até à semana passada, estava a estátua de D. Sebastião, antes de ser destruída pela vã glória de uma foto. Uma figura relativamente pequena, num nicho entalado entre dois arcos em ferradura, na frontaria da Estação do Rossio. Dois arcos em ferradura, talvez a lembrar-nos do cavalo branco que deveria trazer-nos de volta, numa manhã de nevoeiro, aquele pequeno rei. 
Não sou grande admiradora de D. Sebastião. Foi um rei pequeno, na estátua e na História, um rei sonhador e aventureiro, que levou Portugal para uma aventura sem lógica e sem glória, cujo final é de todos conhecido. O jovem Sebastião e os seus sonhos foram o resultado de um determinado contexto político, social, religioso e ideológico, dir-me-ão, mas... não é isso que acontece com todos nós? 
Eu caminhava, perdida nestes pensamentos, enquanto passava ao lado das colunas do Teatro D. Maria II. Aí, no meio das desvairadas gentes que por ali costumam poisar, um grupo de três homens chamou-me a atenção. Eram altos, fortes, de traços nórdicos. Um deles tinha a cabeça rapada, apenas com umas madeixas no topo, de um loiro sujo. Bebiam cerveja, em tronco nú, aproveitando também o sol. De repente, o das madeixas levanta-se e, sem qualquer problema, chega-se a uma coluna e alivia o excesso de cerveja. Mesmo ali, como um cão, e com o mesmo grau de consciência do dito animal. 
Não tenho absolutamente nada contra os turistas. Pelo contrário, trouxeram animação, euros e variedade. Mas há que ter cuidados redobrados na preservação do que é o nosso património! Penso que deveria haver mais polícias, especialmente nas zonas históricas, a vigiar discretamente e a multar exemplarmente estas atitudes idiotas. Não importa que o idiota em causa seja lusitano ou estrangeiro! Não, não se pode pendurar nas estátuas! Não, não pode urinar nos monumentos! E por aí fora...
Pelo que vejo, era uma forma eficaz de encher os cofres do Estado, que bem precisados estão...