quinta-feira, 10 de Dezembro de 2009

Se queres ser alguém...

Este ano, tenho umas turmas particularmente difíceis. Uma delas é um Curso de Formação, uma turma do ensino não regular, que me tem esgotado fisica e psicologicamente desde o início das aulas. Ali cruzam-se múltiplos problemas: famílias com baixa escolarização, desestruturadas, rendimentos mínimos, desorientação, falta de concentração, de auto-confiança... Tenho dado voltas à cabeça para conceber estratégias de trabalho com estes alunos. Muitas vezes me sinto desanimada e às vezes apetece-me desistir!
Agora, é altura de balanço. Uma das últimas actividades que fizeram foi um comentário a uma frase, retirada de um filme do qual vimos um excerto. A frase era: Se queres ser alguém, acorda e presta atenção!
Aqui estão algumas das coisas que os meus alunos escreveram. Só corrigi alguns erros ortográficos, para não estragar o sentido.


Se queres ser alguém, luta pela vida, tens de mostrar que queres mudar a tua vida. E sem educação, nunca vais ser ninguém nem chegar a lado nenhum.
Se tu queres ser alguém, tens que lutar por aquilo em que acreditas, lutar para seres feliz e lutares pelo teu sonho. Tens que ter atenção às possibilidades que a vida te dá.
Não deves desperdiçar aquilo que tens com faltas de educação, porque um dia mais tarde vais arrepender-te. Tens de acordar para a vida se queres chegar a algum lado, tens de fazer por isso, não deves desperdiçar as oportunidades que aparecem, se é aquilo que tu queres fazer, mesmo que os outros não acreditem que tu serás capaz de concretizar, porque quando se quer muito uma coisa e nos esforçamos para a ter, isso pode acontecer.
Se não fores humilde e sincero nunca terás a confiança das pessoas e se ninguém confiar em ti nunca vais poder ajudar alguém a tomar as decisões certas.
Se queres ser alguém acorda e presta atenção, acorda para a vida, abre os olhos e segue o teu caminho. Se tu decides o teu caminho, podes escolher o bem ou o mal, isso só depende de ti e das tuas razões. Não depende de outros.


Gostei muito do que li. Ainda há esperança para todos os jovens que percebem que devem aproveitar as oportunidades que a vida lhes dá mas, ao fim e ao cabo, é neles próprios que devem encontrar a força para lutar, para decidirem o seu caminho, para lutarem pelo seu sonho. Para buscarem a felicidade.





(imagem de um anúncio da Benetton)

terça-feira, 8 de Dezembro de 2009

O Bolo-Rei



A pensar no meu amigo Shisuii, resolvi fazer este post sobre uma das coisas mais agradáveis que traz cada época natalícia: o Bolo-Rei. O Bolo-Rei é um bolo de massa levedada, como o pão, recheado com os mais diversos frutos secos e coberto de açúcar e frutas cristalizadas.
Tradicionalmente, esconde na massa uma fava e um pequeno brinde. O brinde traz sorte a quem o encontra, enquanto a fava traz despesa, porque quem a apanha deve comprar o próximo Bolo-Rei.
Dizem que a sua origem é francesa, mas na verdade não se parece nada com a tradicional Galette des Rois que se come em França. O que se sabe seguramente é que começou a ser vendido em Lisboa, pela Confeitaria Nacional (essa maravilhosa pastelaria da Baixa que, por si só, mereceria um post!), cerca de 1860. O sucesso foi grande e, em 1890, é posto à venda no Porto, pela Confeitaria de Cascais.
O destino do Bolo-Rei esteve em perigo quando da implantação da República, já que o nome parecia uma ovação ao regime monárquico. Houve quem advogasse o final do fabrico deste bolo; outros propuseram mudar-lhe o nome para Bolo-Presidente ou mesmo Bolo-Arriaga, do nome do nosso primeiro Presidente da República. A maioria da população, no entanto, sabia distinguir as coisas e, por muito republicanos que fossem, ao bolo mais tradicional do Natal preferiam continuar a chamar Bolo-Rei. E o nome ficou, claro!
Hoje, o Bolo-Rei não pode faltar em nenhuma mesa, na Consoada. Mesmo os que não gostam muito, se rendem à tradição. Eu confesso que adoro!







(Algumas informações foram retiradas do livro "Cozinha Tradicional Portuguesa" da Editorial Verbo)

segunda-feira, 7 de Dezembro de 2009

10000!

Assim devagarinho, quase sem dar por isso, passou por aqui o visitante n.º 10000. Alguns passaram invisíveis, sem deixar pégadas. Mas muitos outros entraram, sentaram-se, beberam um cafezinho, deram dois dedos de conversa. Juntos, partilhámos gostos, leituras, indignações; às vezes, emocionámo-nos juntos. E tudo isso deixou marcas num blogue que cresceu, sem ter pretensões a "blogue grande". 
Eu sei que, às vezes, os meus olhares sobre o mundo não são muito felizes. Nessas alturas, sinto-me como os velhotes dos Marretas, de crítica pronta e certeira na ponta da língua. Mas, geralmente, tento trazer aqui uma leitura positiva do que me rodeia, nem que seja uma paisagem ou um poema, porque a beleza nos torna sempre melhores e mais ricos.
A todos os que por aqui passaram, um agradecimento e um convite: voltem sempre! Vai um chá e uma fatia de bolo-rei?





(Fotografia de Teresa e Fernando - Nova Iorque / Agosto de 2008)

domingo, 6 de Dezembro de 2009

1 Km de cada vez

Todos temos os nossos heróis. Alguns são heróis de toda a gente; não conheço ninguém que não admire Martin Luther King ou Gandhi. Mas, depois, há os outros. Os nossos heróis pessoais, aqueles que, sendo pessoas comuns, admiramos mais abertamente ou mais secretamente, numa admiração feita de sonhos repartidos ou afinidades e identificações inesperadas.

Gonçalo Cadilhe está nessa minha prateleira dos heróis pessoais. Porquê? Talvez porque, aos vinte e quatro anos, teve a coragem de virar as costas a um curso e um emprego para perseguir um sonho: viajar. Não o posso fazer, nunca pude, nunca poderei. Sempre houve outras urgências e contingências que condicionaram a minha vida, como a da maior parte das pessoas. Admiro-o por isso. Mas há outras razões.
Gonçalo Cadilhe escreve livros de viagens, das viagens que faz. Não são simples descrições de lugares, são esboços emocionais. Porque os lugares agem sobre nós e tornam-nos diferentes. E nós também agimos sobre os lugares, porque não os vemos sempre com os mesmos olhos.


Não é verdade que o planeta seja redondo. É armilar. Anda-se às voltas e nunca se regressa ao mesmo sítio. A estrada, sim, passa por lá; mas o tempo também passa, e leva de nós o que fomos antes. Falta-nos o mesmo momento para podermos regressar ao mesmo sítio. Regressamos já outros, e compreendemos que o sítio já não é o mesmo.
                             (Gonçalo Cadilhe "1 Km de cada vez")


Já tenho na minha mesa de cabeceira o último livro de Gonçalo Cadilhe "1 Km de cada vez". Estou a lê-lo como li todos os livros anteriores, desde "Planisfério Pessoal". Li-os de um ápice e depois, de vez em quando, releio uma passagem, um capítulo. Relembro um local, com pessoas e sensações e pequenas histórias, lá dentro.
Faço o mesmo com este novo livro. Vou lendo, saboreando cada pequeno capítulo, cada apontamento de uma viagem que parece sem rumo, mas com muito sentido. Leio outros livros pelo meio, e depois volto. Porque não há maior liberdade do que viajar ao sabor do tempo.


sexta-feira, 4 de Dezembro de 2009

Desencontrado

Dizem que Portugal é um país de poetas. Alguns morrem antes de serem reconhecidos. Rui Cacho, jornalista e poeta, faleceu em 2007, deixando alguns poemas publicados. Este é um deles.



Desencontrado


Em casa não me encontrei
Depois de procurar na sala
Na divisão onde guardo livros e papéis
E até no banheiro.
Saí à minha procura
Entrei em vários cafés
Não estava em nenhum.
Telefonei a um amigo
Perguntando-lhe por mim
Respondeu-me que não me via há dias.
Consultei o relógio
Era tarde
E estranhei o sucedido.
Reflecti onde encontrar-me
Mas não atinei…
E desinteressei-me momentaneamente
Da minha pessoa.


(Rui Cacho 1932 - 2007)





(Fotografia Teresa Ferreira)

quarta-feira, 2 de Dezembro de 2009

Natal na Quinta

(Continuação da saga iniciada na primeira edição da Fábrica de Letras)





E o Natal chegou outra vez à quinta. Já havia luzinhas penduradas no estábulo e no galinheiro e, dia sim dia não, o coro dos gatos de telhado ensaiava os seus cantares natalícios. O Preto também fazia parte do coro e chegava a casa inspirado, ainda a cantarolar “I’m dreaming of a white Christmas”, o que fazia sempre a Branca soltar uma gargalhada. “Para que queres um Natal branco? Para te verem melhor?”
A Branca, pelo contrário, não cantava, só fazia contas. “Tenho de encomendar as postas de atum fresco para a Ceia! Está tão caro o atum!” comentava com as outras gatas da quinta. Além disso, havia que comprar as prendas. Os três filhos, agora já crescidinhos, tinham feito a lista para o Pai Natal. O Máximo, o mais velho, queria uns ténis caríssimos e passava o dia a resmungar que o tempo do Gato das Botas já lá ía há muitos anos! O mais novo, o Mínimo, queria uma “Playfarm” e insistia, que todos os amigos tinham uma, que queria jogar também!... E o do meio, o Manuel António, queria uma anilha nova, topo de gama, como as dos amigos pintos. E estava a ser difícil explicar-lhe que os gatos não usam anilhas!
As vizinhas da rua de trás, do galinheiro, também não ajudavam. Cada uma queria fazer melhor figura do que a outra e então, punham-se a pendurar fitas brilhantes e bolas coloridas nos poleiros, até o galinheiro parecer mais um circo do que um galinheiro. E, enquanto penduravam as bolas e as fitas, davam bicadas umas às outras. O Galo, às vezes, fazia de conta que não ouvia as galinhas. Quando o barulho começava a ser exagerado, fugia com o gato Preto para o coro, desculpando-se: “Parece que precisam lá de um tenor!”
Até que a Branca miou mais alto: “Basta! Estou cansada desta confusão toda! Quero aqui a família toda para a ceia, mas sem confusão e sem pintos à mistura!” Ficaram todos em silêncio e em sentido, porque quando ela se zangava ficava uma leoa.
E assim chegou a noite de Natal. E comiam todos sossegadamente o seu atum, lambendo os bigodes, quando ouviram um leve arranhar na porta. O Máximo foi abrir e viu uma galinhola, deitada na soleira da porta, com uma asa e uma pata feridas. Arquejava, mas foi explicando: “Peço desculpa por incomodar, mas fiquei presa numa armadilha lá para os lados do açude e não consigo voltar para casa. Já fui bater à porta do galinheiro, porque os pintos ainda são meus primos, mas eles estão tão entusiasmados a festejar que não me ouvem!” A Branca já estava a ajeitar mais um banco, junto do lume. “Venha para aqui, está mais quentinho!” E, enquanto partilhavam os lugares e os manjares da ceia, a Branca pensava que ali o Natal estava mais vivo do que no galinheiro, todo enfeitado.

terça-feira, 1 de Dezembro de 2009

Dezembro, mês do Natal!

E pronto, chegou Dezembro!
Aproveitamos o feriado que comemora a nossa independência face a Espanha, para mergulhar no espírito natalício. As luzes já piscam nos centros comerciais há um mês, as ruas já têm também as suas iluminações de Natal. As músicas natalícias já se ouvem; são sempre as mesmas, mas isso até nos sabe bem, faz parte da época. Tudo está preparado para nos atrair para o essencial: as Compras de Natal!
Onde ficou o Natal da minha infância, simples e ingénuo, onde as prendinhas eram ainda oferecidas pelo Menino Jesus? De resto, onde ficou o próprio Menino Jesus, universalmente destronado pelo Pai Natal? Onde ficou a Missa do Galo, a Ceia sem exageros alimentares, a verdadeira alegria da partilha, que se contabiliza em amor e atenção, e não em tamanho ou preço de prendas?
Ao longo do mês, irão aparecendo umas campanhas de solidariedade. Vamos participar nelas com entusiasmo, para fingirmos que nos preocupamos verdadeiramente com os outros, os outros que nos são indiferentes durante o resto do ano. Assim, ficaremos de consciência tranquila para mergulharmos alegremente no mar de consumismo.
Esta imagem é duma loja no norte do país. Parece que até a cotação do Pai Natal está em queda!