sábado, 23 de janeiro de 2016

Uma música com trezentos anos

Ontem, mais uma vez, o Patriarcado de Lisboa ofereceu à população lisboeta um magnífico concerto, tal como já tinha acontecido no ano passado, por ocasião da comemoração do 250.º aniversário do orgão da Igreja de São Vicente de Fora. Mais uma vez, o organista João Vaz e o Coro Capella Patriarchal partilharam o palco, que é como quem diz o púlpito da igreja...
É sempre com muito prazer que assisto a um concerto na Igreja de São Vicente de Fora. A igreja é muito bela e imponente e eu perco-me a apreciar as capelas laterais ou as estátuas que se abrigam debaixo do enorme baldaquino! Mas ontem, houve outro motivo de apreço: foi interpretada uma obra de João Rodrigues Esteves, músico da corte de D. João V, chamada Vésperas de Natal. Datada de 1737, foi ontem ouvida pelo público pela primeira vez desde essa data. 
Esta belíssima peça ficou quase trezentos anos perdida nos arquivos do Patriarcado de Lisboa. Não é com certeza caso único. Sabemos que muitas partituras e peças musicais se perderam no Terramoto de 1755, assim como durante a saída precipitada da família real para o Brasil, na altura das invasões francesas. E quantas estão em arquivos, à espera de serem descobertas e decifradas!
Agora, com o apoio da Escola Superior de Música de Lisboa, alguns desses manuscritos estão a ser estudados e transcritos. É o caso desta peça, estudada no âmbito de um mestrado em Música daquela instituição de ensino superior. Que boa iniciativa! E, graças a essa iniciativa, nós podemos voltar a ouvir e a encantar-nos com uma peça musical, com quase trezentos anos de idade.






terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Ovinhos pr'ás meninas e pr'ós meninos

Tenho dois filhos naquela faixa etária que é geralmente chamada dos jovens adultos. Sendo assim, tenho cerca de vinte anos de contacto estreito com os ovinhos de chocolate da Kinder, os Kindersurpresa. Os meus filhos adoravam-nos, tal como os amiguinhos deles. E nem sei se gostavam mais do chocolate de leite do exterior, se dos bonecos que vinham no interior. Eram sempre brinquedos engraçados e estimulantes. Bonecos e objetos para montar, com várias peças, que os deixavam por ali distraídos durante um bom bocado de tempo. Pequenos puzzles, que os faziam pensar. Ou outras coisas, divertidas e, a seu modo, formativas.
Com o tempo, os brinquedos foram-se simplificando. Peças maiores, em menor número. Percebi a intenção: peças pequeninas poderiam ser ingeridas inadvertidamente pelas crianças. Os ovinhos tornaram-se menos interessantes, mas foi por uma boa causa.
Há pouco tempo, no entanto, houve outra alteração mais espantosa. Os ovinhos de chocolate deixaram de ser unissexo. Passou a haver ovinhos para as meninas e ovinhos para os meninos. O chocolate, aparentemente, é o mesmo... mas os conteúdos não! Lá dentro, os brinquedos são diferentes. Enquanto os rapazinhos continuam a ter coisas para montar, as meninas recebem pequenas bonecas, de longos cabelos lilás ou cor-de-rosa. Não entendo! Será que os criativos da Kinder acham que as rapariguinhas são menos inteligentes, ou menos motivadas para brinquedos mais complexos? Intrigante!
Numa Europa que se pauta pela luta pelos direitos da mulher e pela igualdade de género, parece que os ovinhos de chocolate marcham em sentido contrário!


quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

O Museu Interactivo do Megalitismo



E já que falamos de museus, vai também abrir ao público um novo museu no Alentejo, mais precisamente no concelho de Mora. Está já em construção junto à antiga estação dos Caminhos de Ferro, que vai também ser requalificada e integrada no complexo museológico.
O tema é o Megalitismo, o que achei muito interessante. Se há sítio apropriado para criar um museu sobre o megalitismo, é o Alentejo. É uma região rica em vestígios dessa cultura megalítica que, numa época já remota, entre 6.000 e 2.000 anos antes de Cristo, se desenvolveu no oeste da Europa, num arco atlântico que vai do nosso país até à Inglaterra. No Alentejo, encontramos inúmeras antas, algumas em excelente estado de conservação. Encontramos menires. E encontramos até um monumento extraordinário, o cromeleque dos Almendres, que eu considero ser o património edificado mais antigo da Europa e sobre o qual já escrevi aqui.
Fazia falta um museu, ou um espaço de interpretação e divulgação de todo esse património extraordinário. Em boa hora o concelho de Mora decidiu criar esse espaço. Segundo o jornal Sulinformação, o museu será baseado na interactividade, apresentando o património da região de formas variadas, que incluirão até hologramas. Parece-me uma boa aposta, que pode atrair tanto miúdos como graúdos.
A inauguração do novo museu está prevista para abril ou maio. Um bom pretexto para um passeio pelo Alentejo, tão bonito nessa época do ano!





sábado, 9 de janeiro de 2016

Um novo museu em Lisboa

Vai nascer em Lisboa um novo museu. Já está em construção, em Belém, perto do atual Museu da Eletricidade e, tal como este, pertence à Fundação EDP. Será o Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia (MAAT). 
O novo MAAT terá um enorme espaço para exposições e eventos e, segundo os planos da arquiteta britânica Amanda Levete, terá ainda um restaurante virado para o Tejo. Tem uma originalidade: poderá passear-se por cima do edifício. o que pode ser bem interessante, considerando que fica à beira-rio.
O diretor do novo museu será o arquiteto Pedro Gadanho, que exerceu o cargo de curador no MOMA, em Nova Iorque, nos últimos anos, por isso as expectativas são grandes. 
Abre ao público no próximo verão.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Um deus assassino

Faz hoje um ano que aconteceu o ataque terrorista à revista francesa Charlie Hebdo, que todos recordamos. Como é compreensível, os atuais editores fizeram uma edição que recorda esse dia terrível em que, em nome de um fanatismo religioso e ideológico sem limites, foram assassinados vários dos cartonistas e colaboradores da revista. 
Na capa do número de hoje, surge um desenho de um deus assassino, com uma metralhadora a tiracolo e as roupas manchadas de sangue. Não gosto do desenho. Não sei se existe um deus ou não, se é um velhote barbudo, uma grande mãe ou a máquina do universo. O que sei é que os deuses e as ideias não têm culpa dos dislates, exageros e violências que se cometem em seu nome.
Não gosto do desenho. No entanto, considero que os desenhadores da revista Charlie Hebdo têm todo o direito de o fazer, se lhes apetecer. A isso, chama-se liberdade de expressão. E faz toda a diferença!


terça-feira, 5 de janeiro de 2016

O professor do ano

Fim de ano, início de ano... épocas de balanço! Daqui a pouco começamos a ouvir notícias sobre os Óscares, os Emmys e... o professor do ano! Este prémio começou a ser atribuído em 2007, e o primeiro professor a ser agraciado com o título e o montante pecuniário respetivo foi Arsélio Martins, pai da nossa estimada deputada Catarina Martins.
Digo desde já que não simpatizo com este prémio. Nem me parecem muito fiáveis os seus critérios de atribuição. O que faz um bom professor? O número de vezes que falta ou não falta? Os projetos que dinamiza? As visitas que faz com os seus alunos? Se cumpre ou não os programas escolares? O que é que torna um professor importante na vida dos seus alunos? Será algum fator que possa ser medido, ou mesmo avaliado por quem está do lado de fora da sala de aula?
Li alguns artigos sobre os professores agraciados ao longo destes anos. Falavam em carinho e empenhamento. Como se isso se medisse facilmente!... Noutro caso, o repórter dizia que o professor premiado tinha pago do seu bolso viagens aos alunos. Isso não é ser bom professor, é ser bom samaritano! Enfim, os critérios parecem-me um tanto duvidosos. Provavelmente, o melhor fator é ter alguns amigos nos lugares certos...
Este ano, tenho um colega que trabalha em três escolas. É um jovem professor de Geografia, contratado. Para ter um horário completo e contar o tempo de serviço por inteiro, dá aulas na minha escola, em Lisboa, mais oito horas letivas em S. Domingos de Rana e outras tantas numa escola em Santarém!
Se ele conseguir chegar ao final do ano letivo sem ter nenhum acidente nem ir à falência à conta da gasolina... se conseguir decorar o nome de todos os seus alunos, sem confundir os de Lisboa com os de Santarém... se conseguir preparar as aulas, corrigir as centenas de testes e preencher as dezenas de grelhas e parâmetros no tempo que lhe sobra das viagens... então, o meu colega contratado de Geografia bem merecia o prémio de professor do ano! Digo eu!




domingo, 3 de janeiro de 2016

Pagar para visitar?



Ontem, ao princípio da tarde, quis experimentar a minha máquina fotográfica nova e fui até Cacilhas. Há muitos anos que não andava por aquelas bandas, mas a ideia era fotografar Lisboa do outro lado do Tejo. Mudei de ideias quando vi, ancorada junto ao Clube Náutico de Almada, a fragata D. Fernando II e Glória. 
Antiga fragata de guerra, construída na India portuguesa, em Damão, foi lançada às águas em 1843. Embora fosse um navio de guerra, transportava passageiros e fazia a ligação entre Portugal e os territórios portugueses na India. Já no século XX, foi transformada em Navio-Escola de Artilharia Naval e depois em sede da Obra Social da Fragata D. Fernando, recolhendo rapazes com fracos recursos económicos, que aí recebiam instrução escolar e treino de Marinharia.
Em 1963, sofreu um violento incêndio e permaneceu encalhada no rio Tejo até 1992, altura em que foi novamente posta a flutuar e reconstruída. 
Restaurada tal como era na década de 1850, a fragata D. Fernando II e Glória é hoje um navio museu, onde os visitantes se podem aperceber da forma como decorria a vida a bordo de uma fragata, naqueles tempos. A reconstituição é muito fiel e a visita é bastante interessante.


Quando nos acercavamos do passadiço para entrar no navio, não pudemos evitar ouvir a conversa do casal que ía à nossa frente. O homem olhava para o pequeno cartaz onde figuravam os preços e a mulher vociferava para quem a quisesse ouvir: "O quê? Pagar para entrar? Dar-lhes dinheiro, para irem fazer patuscadas? Por esse dinheiro, vou antes ali lanchar!" E lá foram! Fico sempre estupefacta com estas explosões de indignação. A mim, parece-me muito bem que se pague uma pequena quantia para visitar qualquer espaço museológico ou turistico. Todos estes locais precisam de manutenção, limpeza, pagamento dos salários de quem ali trabalha... O Estado paga, pois claro, com os nossos impostos! Se houver uma contribuição de quem usufrui do espaço que possa minimizar, nem que seja pouco, a necessidade de contribuição do Estado, todos ficamos beneficiados.


Os turistas estrangeiros que por ali andavam pagavam o bilhete de entrada sem estranhar, evidentemente. Havia mais uma família portuguesa. Os pais queriam ir visitar o navio. Mas a filha adolescente gritava: "Mãe, é um barco! Que seca! Não quero ir!" 
Não cheguei a perceber se essa família tinha entrado ou não. Mas tive vontade de ir chamar a outra mulher e pedir-lhe: "Vá lanchar com esta menina! Estão bem uma para a outra!"