segunda-feira, 28 de abril de 2014

Pausa em jeito de balanço

Este blogue comemora o seu quinto aniversário neste mês de abril. Foram cinco anos muito cheios, recheados de coisas boas e más e de muitas emoções. E em todas elas o blogue esteve presente, refletindo de forma mais ou menos explícita essas emoções. Chegou o momento de o terminar, de fechar a porta devagar e sair de mansinho.
Ao longo destes cinco anos fiz cerca de 500 posts. Em todos eles espelhei a minha forma de olhar o mundo, partilhei reflexões, falei de livros e de viagens, contei histórias, algumas fruto da minha experiência pessoal, outras fruto da minha imaginação. Diverti-me a escrever alguns posts. Chorei a escrever outros. Quase sempre senti a empatia de quem me lia. Porque um blogue não existe no vazio, vive da partilha com quem o lê. E, para ter leitores, o blogue precisa de regularidade.
Neste momento da minha vida, não consigo manter este espaço num registo regular. Sem regularidade não há partilha e cada post é como um sopro, que se perde no espaço. 
Chegou portanto o momento de terminar. Sem mágoa, mas já com saudade. É como se me estivesse a despedir de um amigo querido, com quem partilhei bons e maus momentos, sem saber se o voltarei a ver. Talvez um dia!...



Boas férias!

(Fotografia de Teresa Diniz)

quinta-feira, 10 de abril de 2014

A loira burra



Mudou o seu nome para Blondie e encontrei-a nas páginas de uma revista. Melhor dizendo, tropecei nela! Tropeçar tem uma conotação diferente, não é um encontro, com o seu encanto inesperado, remete-nos antes para alguma coisa desagradável que nos atrapalha a caminhada... Pois então, tropecei nesta Blondie! 
Trata-se de uma jovem que tem como objetivo máximo na vida assemelhar-se à boneca Barbie. Já fez tudo para alterar a sua imagem: inúmeras operações plásticas, para aumentar o peito, moldar o busto, tornear a anca... Já copiou a cor do cabelo, o penteado, o desenho das sobrancelhas... Faltava-lhe imitar a boneca Barbie na cabecinha...
Como pensará a Barbie? Esta difícil questão deverá ter ocupado muitas horas de pensamento da pobre Blondie! As prateleiras das lojas e supermercados apresentam-nos Barbies multifacetadas, elas são médicas e professoras, exploradoras e desportistas. Ah! Mas a Blondie não se deixou enganar! A Barbie verdadeira era aquela boneca que só se preocupava com vestidos, acessórios e maquilhagens, que tinha armários e cabides cor-de-rosa, que guiava um descapotável, de cabelos ao vento! Uma verdadeira boneca, para deleite do seu Ken! 
Blondie decidiu então começar a ter sessões de hipnose para, nas suas próprias palavras "esvaziar o pensamento". O seu objetivo era mesmo tornar-se uma boneca, uma loira burra! E estava muito contente porque estava a consegui-lo, afirmava já se sentir mais confusa e distraída!
Tenho um grupinho de alunas que vivem para a imagem. Levantam-se muito mais cedo para esticar o cabelo, aplicar a base, os cremes, a maquilhagem. Esquecem-se do manual ou do caderno, mas trazem dentro das malas um arsenal completo de cuidados de beleza. Não saem da sala de aula sem retocar o baton ou pentear o cabelo. Lembrei-me delas quando li o artigo da revista. Nesta época de emancipação da mulher, espero que elas não queiram apenas transformar-se em loiras burras!

segunda-feira, 3 de março de 2014

O folião

Não, não se trata de um novo elemento constituinte da matéria, agora descoberto! É uma especificidade portuguesa, talvez importada do Brasil, muito além do ião, do eletrão, ou mesmo do pelintrão!
Quando chega a época das festas do Carnaval, surge em Portugal um novo grupo de pessoas: os foliões. São-nos trazidos pelo zelo noticioso das televisões, que não reconhecem este grupo nem (que eu me tenha apercebido) utilizam este adjetivo em qualquer outra altura do ano. É assim que ficamos a conhecer os desejos e sentimentos deste subgrupo da raça lusitana. 
Os repórteres falam dos foliões como se fossem um grupo à parte, distinto dos restantes portugueses. Ficamos assim a saber que os foliões entraram nos recintos de festas ou desfilaram risonhos, apesar da chuva, ou qualquer outra coisa. O termo é tão extensivamente utilizado, que podemos ficar com a ideia de que este grupo específico, que só emerge nesta época, qual ave em migração, tem um código de conduta especial. Qualquer coisa do tipo "Chuva civil não molha folião!"
Imaginamos os restantes portugueses aborrecidos com a vida, ou o desemprego, ou os impostos, enjoados da chuva, saturados do inverno. Mas eis que surge o folião! Despreocupado e feliz, só quer brincar, rir e dançar como se não houvesse amanhã! 
Antes assim! Os portugueses agradecem um pouco mais de folia ao longo de todo o ano. Mas parem de lhes dar um nome diferente, como se fossem umas aves raras. Foliões somos nós todos! Quando calha! Ou quando podemos! Ou quando nos esquecemos do resto!

(Imagem do Carnaval de Loulé 2013)

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

A última Von Trapp

Morreu ontem Louise Von Trapp, com 99 anos, a última sobrevivente daquela família Von Trapp que todos aprendemos a conhecer e a amar com o filme "Música no Coração". Sim, eu sei que o filme era lamechas, mas todas as criaturas da minha geração cresceram com aquelas paisagens e aquela música no coração.
Vi o filme quando era pequenita. Era uma época em que a violência ainda não nos entrava em casa a toda a hora, através da televisão, nem estavamos habituados a conviver com mortos-vivos ou monstros. Foi um dos primeiros filmes que vi que retratava o nazismo, e como ele mudara pouco a pouco as pessoas. Lembro-me que nunca tinha ouvido falar dos nazis, e foi ali que percebi o perigo dos regimes que querem criar um homem novo através do medo. Chorei, claro, mas também sabia as músicas de cor!
A família de cantores tem a sua vida um tanto romanceada, no filme, como é habitual! Na verdade, eles não fugiram a meio da noite, pelas montanhas, mas fugiram realmente graças à música, aproveitando uma tournée. Aterraram em Ellis Island, New York, em outubro de 1940 e viveram o resto das suas vidas no Vermont, modestamente. Os lucros gigantescos do filme ficaram para os Estúdios de Produção, não para eles. Mas o filme tornou-os conhecidos e queridos, como afirmava Louise numa das suas últimas entrevistas. 
A família Von Trapp já desapareceu; o nazismo também, felizmente! Mas o medo continua a existir, em tantos locais deste nosso planeta. Por vezes, mesmo ao nosso lado. E continua a mudar as pessoas e as suas vidas...

(A família Von Trapp em meados de 1940)

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

A calçada lisboeta




Poucas coisas me maravilham tanto em Lisboa como os desenhos a preto e branco das nossas ruas! Damos por eles quando os pisamos, mas é quando os olhamos de cima que toda a sua beleza nos atinge. São como rendas pousadas no chão. Fazem-me lembrar aqueles bonecos que a minha mãe recortava, em papel dobrado, quando eu era pequena; eu ficava fascinada, quando ela desbobrava o papel e os bonequinhos surgiam, destacados sobre o fundo escuro da mesa, todos de mãos dadas ou a dançar numa roda perpétua...
A calçada portuguesa é bem mais antiga do que os bonecos recortados da minha mãe. Tal como a conhecemos, começou no século XIX, na Costa do Castelo, no Rossio, nos Restauradores (ao tempo, o Passeio Público). Hoje, é um traço distintivo da cidade, que todos os turistas reconhecem e apreciam e todos os lisboetas amam.
Há alguns anos, a Câmara Municipal de Lisboa criou um curso de calceteiros, para que esta belíssima arte não se perdesse. Colocou até uma estátua de um calceteiro, em jeito de homenagem, frente à Igreja de São Nicolau. 


E, no entanto... esta semana a mesma Câmara Municipal de Lisboa decidiu retirar a calçada portuguesa de vários locais de Lisboa. Não das zonas turísticas e históricas, aí não se tira, fica "para inglês ver..." Desaparece dos outros locais, como já desapareceu da Rua da Vitória ou do Largo de São Nicolau, juntamente com a tal estátua de homenagem aos calceteiros. E em nome de quê? Em nome da mobilidade dos cidadãos.
Fico estupefacta! Uma calçada portuguesa bem feita não é um obstáculo para a mobilidade e é um regalo para os olhos! Há que ter bom senso e preservar o que deve ser preservado! É algo que é só nosso, uma parte da marca Lisboa, que nós soubemos exportar para o Brasil, por exemplo, e que se confunde com a própria cultura portuguesa! 
Ainda bem que a Câmara só gere Lisboa! Já a imagino a tapar e calcetar os canais de Veneza, por exemplo. Não há dúvida de que são muito pouco cómodos para a mobilidade pedonal!


sábado, 15 de fevereiro de 2014

Vou ali ao sol e volto já!...


Fomos há pouco tempo surpreendidos com a notícia de que a Coreia do Norte teria enviado um astronauta ao sol. Nesse país de mirabolantes encenações já nada surpreende mas, mesmo assim, há notícias que são demasiado incríveis.
O locutor da Central de Notícias da Coreia do Norte teria afirmado: "Estamos muito satisfeitos em anunciar uma missão bem sucedida de colocar um homem no Sol . A Coreia do Norte tem batido todos os outros países do mundo. Partiu para o Sol Hung Il Gong  de 17 anos, é um herói. E merece uma recepção de herói quando voltar para casa mais tarde, talvez esta noite”.
O jovem herói, sobrinho do líder coreano, teria viajado de noite para evitar as queimaduras solares, trazendo comprovativos da sua viagem.
A notícia só pode ter provocado gargalhadas de troça e incredulidade. Ninguém, no seu juizo perfeito, poderia acreditar numa coisa destas. E, realmente, soube esta semana que a notícia tinha sido inventada por um site de notícias cómicas, do mesmo tipo do nosso "Inimigo Público". 
Pois, só podia ser! Ninguém acreditava naquela patranha de ir ao sol e voltar num instantinho! E, no entanto, só o facto de termos acreditado que a central de notícias coreana podia efetivamente ter criado aquela mistificação para consumo de um dos povos mais fechados sobre si próprios e pobres do mundo, já é significativo! 
Se não fosse tão triste, até dava vontade de rir!

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Fredo Mergner

De origem húngara, veio para Portugal em 1977, com 24 anos. Era um exímio guitarrista e, numa rápida pesquisa pela internet, facilmente encontramos músicos que falam de Fredo Mergner como uma referência, alguém que ouviram e que se tornou uma influência marcante na forma como tocava a guitarra clássica.
Integrou vários projetos. O mais conhecido foi o projeto "Resistência", onde tocava com músicos como Pedro Ayres Magalhães, Fernando Cunha, Tim. Ainda no último concerto da banda, no Campo Pequeno, subiu ao palco com a sua guitarra.
No sábado passado, encontrei-o nas Escadinhas do Duque, em Lisboa, a tocar guitarra. Rodeado por pessoas que o ouviam, encantadas, sem provavelmente o reconhecerem. Gostei muito de o ouvir, mas... ficam muitas perguntas por responder. O que faz Fredo Mergner tocar numa rua de Lisboa, num frio fim de tarde de fevereiro? Toca porque lhe apetece? Toca para sobreviver?
Diz Fredo: "Fiz a minha evolução em Portugal. As minhas influências, recebi-as de Portugal. Considero-me um cidadão português. Falo português... Mas é difícil ser-se português em Portugal..."




domingo, 9 de fevereiro de 2014

Chapéus de chuva

Este inverno, Lisboa ganhou um novo tipo de mobiliário urbano. Por todo o lado se veem chapéus de chuva abandonados. Partidos, virados ao contrário, meios abertos meios fechados. Brancos, pretos, amarelos, azuis, com bolas ou com riscas. De todas as cores, embora tenha começado a perceber que o bordeaux é uma cor favorita para guarda chuvas. Estes guardaram mal da chuva, ou talvez a chuva tenha sido demasiada para as suas capacidades. Por isso, jazem pelas sargetas e baldios da cidade, abandonados. Dou por mim a pensar se teriam voado das mãos dos donos, ou se teriam sido atirados pelo ar num daqueles acessos de mau humor que o efeito conjugado da chuva e do vento geralmente provocam em nós.
Seja como for, aí estão eles pelas ruas da cidade. Isolados ou em pequenos grupos, como se ainda quisessem cumprir alguma função de abrigo. E demoram tempo a ser recolhidos pelos serviços camarários. Ficam ali, encharcados e partidos, a uma qualquer esquina, a lembrar-nos que o inverno ainda está para durar...

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Depressão das festas


Ouvi pela primeira vez esta expressão, depressão das festas, no final do ano transato. Duas palavras, depressão e festas, que parecem não condizer uma com a outra. Mas talvez não seja assim tão estranho. Não preciso pensar muito para me lembrar das frases, frequentes, que antecedem o Natal: "Vai ser uma trabalheira!" ou "Tomara que já tenha passado!" O que se passa connosco, afinal?
Tenho para mim que as pessoas não se sentem bem quando há uma pressão social ou cultural muito intensa num determinado sentido. Estas alturas do ano em que, desde a publicidade até aos media, todos nos bombardeiam com imagens de famílias felizes, enormes, numa alegre confusão à volta de uma mesa cheia de iguarias, num ambiente de luzes e calor, onde se espera que todos partilhem um coração tão luminoso como as luzinhas da árvore de Natal, podem ser muito stressantes!
Por muitas razões. Assim, de repente, lembro-me de algumas:
- Morte ou desaparecimento de alguém que nos era muito querido. De repente, aquela alegria toda parece não fazer sentido!
- Falta de dinheiro para fazer face a todos os pedidos e expectativas de presentes. Tenho a impressão de que este pode ser um problema bem comum!
- Há sempre aqueles membros da família, irritantes, que não podemos deixar de convidar, mas que já sabemos que nos podem estragar a noite da Consoada, com bocas despropositadas, ou birras parvas!
- Pura e simples falta de tempo para organizar as festas! O trabalho parece que cada vez nos absorve mais tempo e energias, no que sobra bem nos apetecia era ir descansar para qualquer lado!
Provavelmente, haverá muitas outras razões!
O que fazer então? Não tenho nenhuma receita milagrosa, mas parece-me que o melhor é seguir a velha máxima: "Keep it simple!" Não tentar fazer mais do que podemos, não esperar mais do que o razoável! Se não resultar, é esperar que passe! Agora que já lá vai um mês, toda a gente retomou a sua vidinha e o stress passou.
Para o ano, há mais "Christmas Blues"!

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

O vestido do sim

Sempre me aborreceram os excessos consumistas. E, se há ocasião em que todos os sininhos emocionais são tocados para estimular o consumismo, é o dia do casamento. Acenam-nos com a tal história do "dia mais bonito da tua vida!" e vai de acumular gastos com milhentas coisas, a maior parte das quais perfeitamente dispensável para garantir a felicidade e a beleza do dia. Já soube de casos em que o divórcio chegou mais depressa do que o final do plano de pagamento da dívida contraída para pagar as despesas do casório!
Sempre fui adepta do "quanto mais simples melhor"! E tenho a certeza que a felicidade não se contabiliza por aí!
Mas todos acabamos por ceder às pequenas vaidadezinhas do dia. No nosso casamento, somos as vedetas principais e queremos estar à altura. Para simplificar as nossas contas, surgiu agora uma pequena empresa que aluga vestidos de casamento. Mas não são uns vestidos quaisquer, são vestidos de assinatura, daqueles que custam uns milhares de euros. Quem os tem e os pagou, disponibiliza-os para aluguer. Rentabiliza um bocadinho o gasto que fez. E quem quer casar com um vestido de 4000 euros e não tem dinheiro para o adquirir, já o pode fazer, por uns modestos dez por cento do valor. O anonimato é garantido para as duas partes. Acho uma ideia fantástica. E viva o pragmatismo!

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

E agora o lado pouco estético das praxes!

Tinha decidido que não escrevia mais nada sobre as praxes, mas não é possível, é um assunto incontornável! E isso leva-me a uma reflexão num patamar um pouco diferente.
Refiro-me ao lado pouco estético das praxes. Não, não estou aqui a referir-me a esses pobres coitados obrigados a rastejar na lama, a fazer flexões em roupa interior, lambuzados de excrementos... Esses são as vítimas do sistema. O tempo dirá se irão ultrapassar estas humilhações de forma saudável ou se irão fazer catarse das mesmas nas praxes que irão aplicar (aplicadamente...) no ano seguinte...
Não, não vou falar desses, mas sim daqueles que andam por ali vestidos de corvos antiquados e rabugentos, a ralhar como sargentos de filmes de série B. Já viram bem a falta de gosto daquele traje? Um fatinho preto de corte antiquado, com uma capa tipo Batman. Sinceramente, nem é bonito, nem é vintage, nem é nada! É só feio! Mas é caro, muito caro, e não posso deixar de pensar condoidamente nos pais que fizeram sacrifícios para comprar os tais fatinhos, para eles andarem por aí, salpicados de lama, cerveja ou vomitado!
Eu sei que posso ser um bocadinho suspeita. No meu tempo, só havia praxes e tradição académica em Coimbra, e os alunos universitários de Lisboa olhavam para aquilo como uma coisa um bocadinho provinciana, que não tinha lugar numa capital europeia, moderna, de ideias arejadas. Depois, como uma infeção muito contagiosa, esta coisa das praxes foi alastrando pelo país, ao ritmo a que cresciam as universidades privadas e os politécnicos. E alastrou a todo o país. Infelizmente, perdendo o que tinha de interessante em Coimbra, aprendendo apenas as partes mais fáceis e estúpidas.
Não gosto da ideia, nem dos fatinhos! E ocorre-me uma questão: o que diriam estes meninos universitários se as escolas os obrigassem a usar uniformes? E aposto que os uniformes seriam mais bonitinhos. O que não era difícil!


sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Pobres mulheres indianas

Sucedeu esta semana na India, na região de Bengala. Uma jovem de 20 anos namorava com um rapaz de uma comunidade vizinha, o que não é bem visto nesta região do globo. Detidos pelo tribunal popular da aldeia, foram multados em 300 euros. O rapaz pagou, mas a família da rapariga alegou que era pobre e não podia pagar. O tribunal da aldeia condenou-a então a uma violação coletiva. Na passada 2.ª feira, uma jovem indiana de 20 anos foi violada por treze homens da sua aldeia, como castigo por namorar com um jovem de outra comunidade. Violada por um tribunal que não é reconhecido legalmente, mas que é respeitado pelos aldeãos. Violada por homens da sua aldeia, que ela conhecia desde sempre, a quem tratava por tio ou irmão mais velho.
A violação, qualquer que seja o contexto ou a vítima, é um dos crimes mais repugnantes que existe. Há alguém que é mais forte, ou que está numa situação de poder, e a violação é a violentação física e emocional daquele que é mais fraco. É o desprezo pelo que todos temos de mais íntimo e resguardado.
Na India, a violação individual ou coletiva ainda é um castigo aplicado por esse tipo de justiça tradicional. Mas a tradição não é para manter a qualquer preço, nem é um critério de bondade em si própria.
Na India, já não se queimam mulheres nas piras onde ardem os cadáveres dos seus maridos. Mas ainda se violam mulheres por namorarem fora do que está estabelecido. 
A India pode afirmar-se como a maior democracia do mundo. Ou merecer aplausos pelo seu crescimento económico. Mas ainda precisa de percorrer um longo caminho até ao respeito pelos direitos básicos de cada pessoa, homem ou mulher. Um caminho muito longo!


segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

As humilhações consentidas das praxes


Começo por afirmar desde já que não sou contra as praxes. Até posso entender e achar engraçados e, de certa forma, úteis, os rituais e as práticas que se destinam a integrar numa comunidade os novos membros. Mas isso não tem de incluir práticas humilhantes, coercivas, degradantes, como se tem visto nestes últimos anos.
Todos já nos confrontámos com esses grupos de jovens que, no início de cada ano letivo, são arrebanhados e levados pela cidade como animais de circo. Algumas destas manifestações são apenas idiotas. Mas outras são verdadeiramente degradantes. Não pode haver nada que obrigue uma criatura a ajoelhar-se perante outras, a ser enxovalhado com produtos mais ou menos nojentos, ou com músicas ou danças de gosto muito duvidoso. Há universidades em que estas práticas se mantêm dentro de limites razoáveis. Mas há outras em que esses limites são claramente ultrapassados.
Qual de nós nunca ouviu relatos de situações abusivas, em que os jovens são obrigados a beber em excesso ou a participar em atos ou atitudes que visam apenas a sua humilhação? O que nos faz tolerar isto? O que nos faz desviar a cara, desculpabilizar, ou mesmo sorrir e encolher os ombros?
Que espécie de tolerância social é esta?
Os cinco jovens mortos na Praia do Meco talvez agitem as nossas consciências. Provavelmente envolvidos em práticas de praxe a que não souberam dizer não por receio de não serem aceites na comunidade, os jovens foram levados a tomar atitudes imprudentes que, em última análise, os levou à morte. Agora, uma suposta ética da praxe tenta impor o silêncio aos que sobreviveram ou assisitiram, ou simplesmente tiveram conhecimento da tragédia.
É tempo de educarmos os nossos jovens para serem suficientemente autónomos e confiantes para não precisarem de se submeter a práticas que não desejam. Explicar-lhes que é o seu valor e a sua capacidade que os fará ter sucesso. E que podem e devem dizer Não! se forem confrontados com atos que os ponham em situações desconfortáveis. A educação e o crescimento também passam por aqui.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

A mãe do líder

Agora que já passaram as festas e a azáfama acalmou, há finalmente tempo para ler ou reler coisas que ficaram empilhadas à espera do seu momento. Os jornais e revistas fizeram as suas revisões do ano que passou e, incontornável, realçaram a morte de Nelson Mandela.
Reli algumas coisas sobre a sua vida e a sua obra. Todos conhecemos Nelson Mandela, o seu sorriso bondoso, os seus olhos risonhos. Sabemos que passou muitos anos preso, que conseguiu ser libertado e levar o seu país a rejeitar o odioso regime do apartheid. Foi o primeiro presidente negro da África do Sul e, apesar de tudo o que passou, não alimentou atitudes de ódio ou de vingança; pelo contrário, lutou pela reconciliação nacional e pela integração. Nada disto é novo, felizmente faz parte do nosso conhecimento do que se vai passando pelo mundo.
No entanto, estamos sempre a aprender. No relato sobre a sua infância, um dos textos relatava que, embora oriundo de uma família de alguma importância no contexto tribal da África do Sul, Mandela foi o primeiro membro da sua família a ir à escola. Teria sido a sua mãe, uma das quatro esposas do seu pai, quem insistiu em que o rapazinho frequentasse a escola e foi ela mesma a levá-lo à Igreja Metodista da zona, para que ele aprendesse a ler e a escrever. 
Imaginei esta mulher, que vivia numa cabana e cozinhava numa fogueira e, no entanto, percebia o valor da instrução. Não sei se chegou a ter essa perceção mas, com o seu ato, ajudou a mudar o mundo.
Até que ponto pode ser importante a influência das mães? Mais do que o último modelo de play-station ou a camisola de marca, o melhor investimento é no crescimento dos filhos. Ajudá-los a ir sempre mais além nos estudos, mas também incentivá-los a serem sempre melhores pessoas, mais solidários e atentos aos outros. É o melhor que podemos fazer pelos nossos filhos. Quem sabe? Talvez um dia o mundo agradeça!