segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

As humilhações consentidas das praxes


Começo por afirmar desde já que não sou contra as praxes. Até posso entender e achar engraçados e, de certa forma, úteis, os rituais e as práticas que se destinam a integrar numa comunidade os novos membros. Mas isso não tem de incluir práticas humilhantes, coercivas, degradantes, como se tem visto nestes últimos anos.
Todos já nos confrontámos com esses grupos de jovens que, no início de cada ano letivo, são arrebanhados e levados pela cidade como animais de circo. Algumas destas manifestações são apenas idiotas. Mas outras são verdadeiramente degradantes. Não pode haver nada que obrigue uma criatura a ajoelhar-se perante outras, a ser enxovalhado com produtos mais ou menos nojentos, ou com músicas ou danças de gosto muito duvidoso. Há universidades em que estas práticas se mantêm dentro de limites razoáveis. Mas há outras em que esses limites são claramente ultrapassados.
Qual de nós nunca ouviu relatos de situações abusivas, em que os jovens são obrigados a beber em excesso ou a participar em atos ou atitudes que visam apenas a sua humilhação? O que nos faz tolerar isto? O que nos faz desviar a cara, desculpabilizar, ou mesmo sorrir e encolher os ombros?
Que espécie de tolerância social é esta?
Os cinco jovens mortos na Praia do Meco talvez agitem as nossas consciências. Provavelmente envolvidos em práticas de praxe a que não souberam dizer não por receio de não serem aceites na comunidade, os jovens foram levados a tomar atitudes imprudentes que, em última análise, os levou à morte. Agora, uma suposta ética da praxe tenta impor o silêncio aos que sobreviveram ou assisitiram, ou simplesmente tiveram conhecimento da tragédia.
É tempo de educarmos os nossos jovens para serem suficientemente autónomos e confiantes para não precisarem de se submeter a práticas que não desejam. Explicar-lhes que é o seu valor e a sua capacidade que os fará ter sucesso. E que podem e devem dizer Não! se forem confrontados com atos que os ponham em situações desconfortáveis. A educação e o crescimento também passam por aqui.

8 comentários:

  1. Sou contra as praxes!

    A única Universidade com tradições é a de Coimbra, pois tem séculos de existência.

    O pior da tragédia do Meco é que eram membros da organização de praxes que estavam a preparar o que deveriam aplicar aos caloiros.

    Com todo o respeito pela morte terrível que tiveram e pelo sofrimento atroz das famílias, se era para colocarem em risco a vida de outros jovens, então antes eles as vítimas.

    Pergunto : quantas humilhações, quantas tragédias, quantos Mecos serão ainda necessárias para proibir legalmente estas práticas grosseiras a que se sujeita quem entra no Ensino Superior? Até porque é esta gente que irá chegar ao Poder!!

    Bom serão

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    1. Não posso estar mais de acordo consigo São!
      :(

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    2. Eu também sou totalmente contra as praxes e não tenho praticamente duvidas de que esta tragédia se ficou a dever, directa ou indirectamente a elas.
      Proibir é algo de que não gosto, mas depois de tantas coisas pouco edificantes e algumas delas mesmo com consequências desagradáveis, se se vier a provar que esse vínculo que referi neste incidente, realmente existiu, penso que é altura de cortar o mal pela raiz e abolir, pura e simplesmente a praxe nas nossas universidades.
      Quando eu andava na faculdade, aqui em Lisboa, havia uma semana de recepção ao caloiro com manifestações culturais e outras mais divertidas, em que se não falava de praxes e nunca ninguém se sentiu pouco ou mal integrado por isso.

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    3. Com certeza João! Também me lembro dessas receções ao caloiro. Eram momentos divertidos e não pretextos para humilhações e bebedeiras! Acho esta evolução muito triste.
      Não sei se proibir é boa ideia. Mas responsabilizar as universidades e convencer os estudantes de que não precisam destas coisas para se integrarem e divertirem, é de certeza boa ideia.
      Bj

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  2. Miguel Ângelo Fernandes21 de janeiro de 2014 às 22:25

    Da parte da Faculdade não houve uma palavra, um gesto de afecto, nada, para com as famílias dos jovens... Disse a mãe de uma das vítimas desta horrenda tragédia...
    A ponta de um icebergue chamado praxes universitárias...
    Nem sequer seria necessário legislar... bastava que a Universidade impusesse regras claras... acabem com as praxes, PORRA!
    Fica a impressão que as Universidades não querem formar uma nova mentalidade, serem o motor de evolução da própria sociedade... Não! Desde que os pais paguem as propinas, a imbecilidade, a ausência de respeito próprio, a promoção do álcool... não parecem ser problema, pelo contrário... é algo a promover.
    Num dia aberto numa Universidade americana dois estudantes foram detidos por estarem a beber cerveja num dos relvados do campus universitário... foi há mais de 20 anos...

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  3. Também não entendo esta demissão ética por parte das entidades universitárias! :(
    Têm medo de quê?

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  4. Volto para dizer que só defendo a proibição porque pelo que está à vista ninguém se responsabiliza por nada!

    Aliás, as Comissões de Praxes não respondem nem perante as Universidades nem perante as Associações de Estudantes e têm um Código onde constam tribunais, penas e Relatórios sobre as Bestas( nome dado aos caloiros).

    No Brasil , existem Universidades que proíbem as praxes e se alguém não respeita essa determinação sofre expulsão.

    Quem as permite, exige responsabilização inclusivamente dos pais, que t~em que pagar caução.


    Após o que ouvi ontem à mãe da Joana e do que vi num documentário , premiado, sobre estas brutalidades a que chamam praxes , estou aterrada; que sociedade futura estamos a deixar criar , através de criaturas que não respeitam o seu semelhante e se acham superiores?

    Estamos , por acaso, interessados , na ascensão desta nova Juventude Hitleriana, onde se obedece caninamente às ordens da hierarquia?!

    Bom fim de semana

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  5. Concordo em absoluto. Mas eu cá ia mais longe - é preciso simplesmente proibir. Não digo erradicar completamente mas distinguir aquilo que é uma sã brincadeira do que viola a dignidade de cada um - cuja noção pode diferir, ainda por cima.

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