sábado, 31 de dezembro de 2011

Entre o fim de ano e o ano novo

Nesta altura do ano, somos bombardeados com programas televisivos que fazem resumos e releituras do ano que finda e se sondam os auspícios para o ano que vai começar. É uma época de balanços, esperanças e intenções. Sonhos que se descartam, ultrapassados ou derrotados. Outros que se iniciam e firmam os primeiros passos. É uma época estranha, quase mágica. Lembrei-me de Carlos Drummond de Andrade. Tinha um conjunto de poemas chamados, bem a propósito, Poemas de Dezembro. Pesa-se o ano que termina com os olhos nos voos que já se vislumbram. 

Procuro uma alegria
uma mala vazia
do final de ano
e eis que tenho na mão
- flor do cotidiano -
é vôo de um pássaro
é uma canção. 
(Dezembro de 1968)
Mas o Poeta também nos deixou uma belíssima Receita de Ano Novo. Para quê procurar afincadamente no mundo à nossa volta o que tem de começar dentro de nós?

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Texto extraído do "Jornal do Brasil", Dezembro/1997.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Adeus Querido Líder

Hoje foi a sepultar o Querido Líder. Ou talvez a embalsamar, para se manter disponível para a adoração forçada dos seus súbditos. Confesso que me sinto aliviada. Já não suportava ligar a televisão e ver filas ordeiras de pessoas a destilar lágrimas e sofrimento à ordem de um dos regimes mais autoritários e brutais do mundo, naquele que é, ao mesmo tempo, um dos países mais pobres do mundo. Enfim, para abreviar, um país onde há dinheiro para armas nucleares mas não para aliviar a fome do seu povo.
No entanto, ao mesmo tempo, tornou-se um espetáculo fascinante assistir à escalada da ostentação da dor. Num dia viam-se as pessoas a chorar e arrepelar os cabelos, no dia seguinte eram as crianças das escolas, a histeria foi aumentando como se cada um tivesse de mostrar mais dor que o vizinho do lado. A loucura atingiu um patamar superior no dia em que um locutor anunciou (sem se rir!) que a natureza também mostrava o seu pesar pela morte do querido líder, pois os pássaros tinham parado nas árvores. Será que não há limites para o ridículo?
Esta histeria coletiva induzida fez-me lembrar a época da morte do pai do Querido Líder, em 1994. A mesma loucura, as mesmas lágrimas. As pessoas eram aconselhadas a ir várias vezes prestar homenagem e demonstrar a sua dor. Também foi dito que os grous tinham descido do céu em demonstração de pesar. E um locutor até disse (também sem se rir!) que, se as pessoas chorassem muito, o Supremo Líder poderia voltar à vida. E as pessoas obedientemente choraram. Claro que Kim Il Sung não voltou à vida, mas foi continuado pela sua sequela, Kim Jong Il, o Querido Líder.
Tudo isto tem uma vantagem. Quando, neste ano letivo, quiser explicar aos meus alunos as características dos regimes ditatoriais, e lhes falar no totalitarismo, na censura, no culto da personalidade, eles vão recordar-se desta situação tão recente e perceber muito melhor como funciona um regime que controla os corpos mas também as mentes, as consciências, da sua população.
Ultrapassaram-se os limites do ridículo. Ou talvez nem seja ridículo. Apenas triste.


terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Crónica de Natal

Quando chega esta época do ano, é irresistível fazer um balanço. O Natal é um marco importante do ano, junto ao final do ano civil, coincidente com o solstício de inverno, a época mais fria e escura de todo o calendário. Por isso temos a tendência de a encher de luzes, cores e alegria. Podemos gostar ou não. Ele aí está, pontualmente, todos os anos.
Confesso que este Natal me pareceu diferente dos anteriores. Festejei-o num contexto diferente, embora com as mesmas pessoas, os que amo e me apoiam desde sempre. Mas foi o ambiente geral que me pareceu diferente. Suponho que a culpada é a crise. E, no entanto (que me desculpem os desempregados e outras pessoas que sentem a crise de forma mais aguda), nalguns aspetos pareceu-me melhor e mais genuíno.
Comecemos pela Baixa lisboeta. Costumava rebentar de luzes e enfeites de Natal. Em Novembro já havia anjinhos e pinheiros por todo o lado, bolas vermelhas e douradas, cânticos de Natal. Este ano a contenção de despesas ditou a contenção das decorações. Por um lado tenho pena. Mas, por outro lado, quando chegava realmente o Natal, já todos sofríamos de overdose de espírito natalício. Este ano não corremos esse risco.


(Lisboa à noite, no Natal)
Depois, havia a pressão consumista. Todos competiam pelas prendas maiores, mais caras, mais vistosas. Eu via isso nos meus alunos. Todos comentavam as prendas que tinham recebido, o novo computador, a “Play-station”, o telemóvel último modelo. Se algum se atrevia a confessar um simples modelo da Lego para montar, ou um livro sobre magia, era ouvido com olhares de comiseração e risos sarcásticos. Este ano o ambiente foi diferente. A nota dominante era a compra de umas lembranças. Coisas mais simples, talvez mais sentidas e personalizadas. Ouvia-se dizer que o que era importante era estar com a família, com saúde e amizade. E isso é que é mesmo o mais importante!
Tudo tem os seus aspetos positivos e negativos. Há sempre dois lados para a mesma moeda. E se a crise nos trouxe de volta a uma realidade menos feérica e menos materialista mas mais sentida e mais de acordo com o espírito da época, então, vamos aprender, crescer e sair da crise um pouco melhores do que éramos antes.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Grácia Nasi, uma história de vida

Hoje, quarta-feira de cinzas, começou oficialmente a Quaresma. Para os cristãos é um tempo de reflexão, de pensar em coisas sérias. Dei por mim a pensar na problemática religiosa no mundo actual, na tolerância versus intolerância, nos vários tipos de fundamentalismos. E, bem a propósito, lembrei-me do último livro que li, intitulado Grácia Nasi - A Judia portuguesa do Século XVI que enfrentou o seu próprio destino. Escrito por Esther Mucznik, é um livro fascinante. Não é um romance, é antes uma biografia de uma vida tão cheia e aventurosa que parece um romance. E lê-se com a mesma avidez.
Grácia Nasi nasceu em Portugal em 1510, numa família judaica expulsa de Espanha. Em Lisboa, a família enfrenta a conversão forçada ao cristianismo, no reinado de D. Manuel, e Grácia é baptizada como Beatriz de Luna, mantendo toda a vida esta vivência ambivalente.
Fica viúva muito cedo, herdando a fortuna do marido e continuando o seu percurso como uma verdadeira mulher de negócios. Mas a época é difícil, a Inquisição instala-se em Portugal e Grácia consegue organizar a sua saída do país, viajando com a família para Antuérpia. De Antuérpia para Veneza, depois para Ferrara, daí para Istambul, Grácia vai fugindo com a família e os seus haveres, à medida que a Contra-Reforma se estende pela Europa e a Inquisição estende as suas garras cada vez mais longe. Entretanto, vai criando uma rede de contactos comerciais e financeiros e construindo um império baseado no comércio das especiarias, que acrescenta a sua já imensa riqueza. Mas Grácia também utiliza essa riqueza e essa rede de contactos para ajudar os judeus e marranos perseguidos, especialmente na Península Ibérica. 
O livro vai muito para lá da simples biografia porque nos pinta os ambientes e o contexto histórico de cada local onde Grácia se instala. É de uma grande riqueza de pormenores e baseia-se numa aturada pesquisa documental. 
Somos confrontados com documentos e imagens chocantes, que nos remetem para tragédias muito mais recentes. É o caso da ratificação, em 1555, pelo Papa Paulo IV, do Estatuto de Limpeza de Sangue, que excluía os cristãos-novos de numerosos cargos. Da criação dos primeiros guetos, como o de Veneza. E o que dizer da Bula "Cum Nimis Absurdum", publicada pelo Papa no mesmo ano, onde referia que " era absurdo e desapropriado que os judeus, cuja culpa os condenou a uma servidão perpétua, se mostrem tão ingratos... A sua insolência tem ido tão longe na nossa capital, na cidade de Roma,e noutras cidades e aldeias... que se atrevem a viver misturados com os cristãos... na vizinhança de igrejas, sem nenhuma distinção no vestuário e alugam casas nas melhores ruas e praças..." 
Podíamos continuar, os exemplos infelizmente não faltam. E quando os nossos filhos e alunos nos perguntarem onde estiveram as raízes do anti-semitismo nazi, já sabemos o que responder. 




domingo, 6 de março de 2011

Recordar Phil Collins

Hoje, o músico Phil Collins anunciou o fim da sua carreira musical. Segundo os jornais noticiavam, ele teria problemas de audição e também problemas nos nervos da mão que o impossibilitavam de tocar bateria. Agora, a preocupação dele estava centrada nos filhos. "Vejo os prémios MTV e penso: não posso estar neste negócio. Não pertenço àquele mundo e não me parece que alguém vá ter saudades minhas." Foi assim que o britânico Phil Collins anunciou o fim da carreira de 40 anos na música. Permito-me discordar. Ele pode já não pertencer àquele mundo. Tem 60 anos e os problemas físicos não perdoam. Mas não me parece que vá ser esquecido. Lembramo-nos todos bem de muitos êxitos que teve na sua carreira a solo. E lembro-me de Phil Collins desde o tempo em que era o baterista de uma das minhas bandas de eleição, os Genesis, e, depois da saída de Peter Gabriel, também o vocalista do grupo.
Não resisto a recordar o Phil Collins dessa época. Quem não se lembra de Carpet Crawlers? 
Uma música fantástica. Um Phil Collins impossível de esquecer.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Olhar para o lado melhor da vida

Nos últimos tempos, cada vez que vejo um noticiário fico deprimida. Tenho aquela sensação desagradável de que está tudo numa situação má, mas tão má que não se vislumbra solução! As famílias estão a ficar economicamente asfixiadas, o Estado pede dinheiro a juros incomportáveis, Portugal caminha alegremente para o abismo. Só o futebol mantém alguns portugueses felizes. 
Mas estamos à beira de um fim de semana um bocadinho maior, é Carnaval... enfim, vamos tentar olhar para o lado brilhante da vida, assobiar, sorrir, cantar e dançar, como nos aconselham os sempre incomparáveis Monty Python.

Bom fim de semana!

quinta-feira, 3 de março de 2011

Dias disto e daquilo...

Como toda a gente que me conhece já sabe, não sou grande adepta de dias disto e daquilo. Sim, eu sei que servem para chamar a atenção para certos problemas ou situações de discriminação, mas na maioria das vezes parece-me que a única coisa que está por trás desses dias é uma grande pressão consumista. No entanto, não me tinha apercebido da dimensão que este fenómeno atinge. Até ontem...
Ontem, quando fazia uma pesquisa na internet, deparei-me com dados que desconhecia e me espantaram. Alguém imagina quantas efemérides se comemoram em Portugal? Nada mais nada menos do que 354, quase uma para cada dia. Mas se há alguns dias sem efeméride, há outros muito cheios. A 21 de Março, por exemplo, celebra-se a Poesia, a Eliminação da Discriminação Racial, a Floresta, o Sono, a Marioneta, a Síndrome de Down e a Árvore. Há todo o tipo de efemérides e eventos comemorativos. Do estudante ao professor, das zonas húmidas aos castelos, do ovo ao sorriso, há dias para todos os gostos, passando por todo o tipo de relações familiares e por toda a espécie de doenças. Mas há alguns dias com efemérides verdadeiramente originais. Só para dar alguns exemplos: a 24 de Abril celebra-se o animal de laboratório; a 24 de Junho comemora-se o Dia do OVNI; e a 31 de Julho festeja-se o Orgasmo. Confesso que este último me espantou. Uma rápida pesquisa elucidou-me: o dia foi lançado por uma loja de artigos eróticos, mas tem sido aproveitado para campanhas de educação sexual. 
Aparentemente, basta angariar 1.000 assinaturas para levar uma proposta de criação de efeméride até à Assembleia da República. Têm lá entrado propostas bem estranhas, como a criação do Dia do Cão ou da Fruta. Não mais estranhas, no entanto, do que outras efemérides já existentes.
Dei por mim a pensar: É tão fácil apresentar uma petição! Porque não criar um dia mais adaptado à nossa realidade? Por exemplo, porque não propor a criação do Dia da Corrupção, um dia para celebrar essa actividade tão tradicional e enraízada na nossa sociedade? E haverá, com certeza, outras propostas igualmente imaginativas.



segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Cigarros, chocolates e cigarros de chocolate

Hoje fui a uma loja especializada na venda de produtos feitos de chocolate, para comprar moedas de chocolate. À saída, vi numa caixa uns pacotinhos que se pareciam mesmo com maços de tabaco. E perguntei à vendedora: "São cigarros de chocolate?" A rapariga, muito simpática, explicou-me que não, que já não havia esse produto há cerca de dois anos, que inclusivamente podiam pagar multa se fizessem e comercializassem produtos com o feitio de cigarros, charutos ou qualquer coisas que fosse fumável. Para evitar o quê? O vício? Trocámos ali umas opiniões, saltaram logo as recordações, juntaram-se mais duas pessoas. Todos tinhamos consumido furiosamente cigarros de chocolate na infância. "Lembro-me de os comprar na taberna lá da terra, o meu pai dava-me umas moeditas..." . "Eu até coleccionava os pacotinhos com as marcas!" Afinal, nenhum de nós fumava, pelo que o efeito pernicioso dos cigarrinhos de chocolate não tinha tido efeito em nenhum de nós! A vendedora até mostrou o artigo da Lei do Tabaco (Artigo 17.º) que proíbe estes produtos. Mas então, esperem lá, é proíbido vender cigarros de chocolate, mas os cigarros a sério são vendidos à vontade, não são? Sim, aqueles que têm nicotina, e alcatrão, e mais uns 400 produtos químicos, muitos deles altamente viciantes e cancerígenos. Tem muita lógica, não há dúvida, os cigarritos de chocolate são incomparavelmente mais perigosos. 
Temo pelos outros produtos de chocolate. Quem sabe se o consumo de moedas de chocolate não nos torna gastadores compulsivos? Ou as sombrinhas de chocolate, será que nos vão tirar o prazer de andar à chuva? E os carrinhos, meu Deus, os carrinhos de chocolate parecem-me tão perigosos! Podem tornar-nos condutores irresponsáveis, não é?
Enfim, o melhor é comer uma tablete de chocolate ou um bombom. Desde que não seja um Bacci ou um Mon Cheri, que me pode tornar irremediavelmente ninfomaníaca!



domingo, 27 de fevereiro de 2011

Contra ou A favor?

Este mundo da blogosfera é grande e complexo. Encontra-se muita coisa que não interessa nada. No entanto, por vezes, encontro blogues muito interessantes, que tentam fazer coisas diferentes, originais. É o caso deste blogue A favor & Contra. A ideia é lançar temas de debate, no dia 15 de cada mês. Durante trinta dias, é tempo de comentar os temas, ou mesmo comentar os outros comentários. São sempre temas fracturantes, como se diz hoje em dia. Este mês, por exemplo, o tema é a eutanásia, mas já por lá passaram o casamento homossexual, ou a legalização do haxixe. No final do prazo estipulado, os autores do blogue fazem um balanço dos comentários recebidos e dos argumentos apresentados. Não há ideias certas nem erradas; a ideia é que o blogue seja um espaço de debate, de troca de opiniões.
Resta-me dar os parabéns aos dinamizadores deste espaço, que já tinham sido responsáveis por outras iniciativas de muito sucesso, como a Tertúlia Virtual, ou a BlogGincana. E resta-me também aconselhar a todos os que por aqui param a visita a este espaço blogosférico. Visitem, que vale a pena. E, já agora, deixem a vossa opinião sobre o tema do mês. 



quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

O Facho da Bonança

Sabem os que me conhecem do meu fascínio por faróis. Gosto da parte estética dos faróis, a torre, os espelhos e luzes, mas acima de tudo gosto do simbolismo, da luz que guia na escuridão. Enfim, aproxima-se um fim de semana de sol, apetece sair de casa e passear, e não resisto a propor um passeio de descoberta. Não a um farol (já me estaria a repetir, já fiz uma vez um post sobre isso), mas a um seu antepassado, um facho.
Neste caso, é o Facho de Nossa Senhora da Bonança, erguido no alto de uma duna de areia junto à praia de Ofir.


Segundo alguns autores, teria sido mandado construir por D. João III para ajudar os navegantes a ultrapassar os perigos do litoral pedregoso junto a Fão, os famosos "cavalos de Fão". Hoje, é um pequeno edifício quase desmoronado, com uma porta estreita, em arco, encimada pelo brasão de armas de Portugal. Na parede que dá para sul ainda existe um pequeno postigo que permitia observar uma largo pedaço de mar, mas essa função de vigia deixou de ser possível quando foi construída a pequena capela que se encontra ao lado. Lá dentro, erguia-se um poste de madeira onde se içava uma lanterna ou uma caldeira acesa para aviso dos mareantes.
Nesta época de crise, trepar até ao facho é uma caminhada agradável e que substitui uma ida ao ginásio, agora mais caros com o IVA a 23%. Faz-se um pouco de exercício, respira-se ar puro, apreciam-se as vistas, e vai-se tentando manter a linha. Para os que não estão preocupados com a linha, aconselho que desçam até à praia de Ofir e comam uma clarinha. Vale a pena!

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

O assobio do amolador

Hoje de manhã passou um amolador pela minha rua. Ouvi o assobio, tão característico, e corri à janela como se corresse para a minha infância. 
Fiquei a observá-lo. Era um velhote com um velho casaco aos quadrados e um boné na cabeça. Caminhava lentamente, a bicicleta pela mão, um caixotinho com ferramentas precariamente preso na parte de trás. De vez em quando, levava à boca a pequena gaita de beiços e soltava o seu assobio. Fazia variações: umas vezes uns sons mais curtos, outras vezes sons mais longos, mais pungentes. Percorreu a rua toda, e eu, perdida no tempo, à janela, a observá-lo. Fez-me lembrar a minha infância, quando ainda morava na Penha de França, antes de mudar para Benfica. Havia muitos vendedores de rua, homens e mulheres que passavam com os seus carrinhos, onde vendiam as mais variadas coisas. Cada um tinha o seu modo característico de se anunciar, o seu pregão. E nós nem precisavamos de perceber as palavras, só pela melodia e entoação do pregão já percebíamos se era a mulher do peixe ou a da fava-rica. Ou o amolador. Melodias de uma Lisboa que já não existe, inevitavelmente engolida pelo progresso, de uma Lisboa já na altura uma tanto desfasada no tempo.
O amolador percorreu a rua até ao fim, atravessou, virou a esquina, entrou noutra rua. Nem uma pessoa se chegou para afiar uma faca ou uma tesoura, ou ao menos para puxar dois dedos de conversa. Será que hoje ainda há lugar para estas actividades ou já não se afiam tesouras? Será que ainda há espaço para o assobio do amolador?
Quem se lembra dele?

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Não quero ser Touro!

Eu sei que sou distraída. Por isso, provavelmente, só neste fim-de-semana me dei conta de que os signos tinham sido mudados. Assim, de repente! Foi um choque para mim, como provavelmente para milhões de outros seres humanos por esse mundo fora. 
Segundo parece, os astrónomos do Minnesota Planetarium Society divulgaram o que já se comentava em voz baixa há muito tempo: os antigos astrónomos da Babilónia basearam os signos na constelação na qual o Sol se encontrava na data do nascimento. Mas, ao longo dos milénios, a força gravitacional da Terra alterou o seu eixo o suficiente para originar uma diferença de quase um mês no alinhamento dos signos. Mais ainda: por qualquer razão, quem sabe uma birra, definiram só doze signos, quando deviam ser treze. E agora, para repor a verdade científica, há que redefinir o calendário do Zodíaco.
Pois, muito bonito! Considerações científicas àparte, há outras implicações e consequências igualmente pertinentes! O que fazer agora agora das medalhinhas e contas da Pandora, onde invariavelmente se incluiam os signos? E aquelas belas tatuagens das costas ou do tornozelo, com o símbolo zodiacal? Mas o que ainda me parece mais grave é a crise de personalidade. Crescemos com os astrólogos de serviço a martelarem-nos as características do nosso signo em todos os programas da manhã. Os mais aficcionados ainda liam as previsões diárias nos jornais ou mesmo na internet. Habituamo-nos a considerar que certos traços da nossa personalidade correspondiam ao nosso signo. E agora, viram-nos as convicções do avesso. Os antigos Leões deixam de ser autoritários para passarem a ser ligados à família e ao lar, isto é, Caranguejos. Os antigos Caranguejos tornam-se criaturas volúveis e criativas, isto é, Gémeos. E por aí fora. Desconfio que, com as crises de identidade que se avizinham, só os psicólogos tirarão algum benefício destas revoluções científicas e astronómicas.


Para os que são tão distraídos como eu e ainda não deram pelo novo alinhamento do Zodíaco, aqui está o  calendário dos Signos:


Capricórnio: De 20 Janeiro a 16 Fevereiro 
Aquário: De 16 Fevereiro a 11 Março 
Peixes: De 11 Março a 18 Abril 
Carneiro: De 18 Abril a 13 Maio 
Touro: De 13 Maio a 21 Junho 
Gémeos: De 21 Junho a 20 Julho 
Caranguejo: De 20 Julho a 10 Agosto 
Leão: De 10 Agosto a 16 Setembro 
Virgem: De  16 Setembro a 30 Outubro 
Balança: De 30 de Outubro a 23 Novembro 
Escorpião: De 23 a 29 Novembro 
Serpentário (Ophiuchus): De 29 Novembro a 17 Dezembro 
Sagitário: De 17 Dezembro a 20 Janeiro

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Espirros e anjos

O Inverno continua e, com ele, todas aquelas coisas desagradáveis que são o seu cortejo. Continua a chuva, que varia dos chuviscos às saraivadas de granizo. Continua o frio, mais ou menos intenso. Continuam os dias curtos, escuros, pesados. Até o trabalho custa mais a desenvolver. Continuam também as gripes e constipações. No meu caso, foi-se embora a gripe, mas ficaram alguns efeitos colaterais, que incluem espirros dispersos, dores de cabeça ocasionais, nariz vermelho. Mas temos de manter o espírito positivo e a boa disposição. Porque vem muito a propósito, aqui deixo um pequeno e delicioso poema de Nuno Júdice. 

BEATITUDE
No paraíso, na idade de ouro,
ouvindo os anjos tocarem alaúde
e flauta, as nuvens acorrem
como ovelhas
à sua beira. Então, os santos
pegam nas tesouras e começam 
a tosquia das nuvens. Lá
em baixo, nos prados onde as almas
se juntam, começa a chover: e como
já não haverá guarda-chuvas, 
na idade de ouro,
as almas constipam-se, 
amaldiçoando 
as ovelhas, as nuvens
e os santos. Só os anjos, continuando
a tocar, se riem, beatíficos, ouvindo
o bater da chuva
por entre o espirrar 
das almas.

(Nuno Júdice)

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Canções de amor para o São Valentim

Não sou muito apreciadora de dias disto e daquilo. Do Dia de São Valentim também não. Mas pode ser um bom pretexto para recordar algumas das mais belas canções de amor, e isso sim, é intemporal. Como esta canção de John Lennon...


quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Morrer sozinho

Para mim, foi o caso da semana. Chocou-me mais do que as manifestações no Egipto ou os patamares insustentáveis a que chegaram os juros da venda da nossa dívida pública. Refiro-me, claro está, à descoberta do cadáver de uma idosa em Rio de Mouro, nove anos depois da sua morte. Um cadáver rodeado de outros cadáveres, do seu cão e dos pássaros que com certeza partilhavam a solidão desta idosa e que com ela partilharam também a morte.
Não vou entrar no jogo de acusações. Realmente, se uma vizinha e um primo apresentaram uma participação de desaparecimento já em 2002, não se compreende que o Ministério Público, ou seja lá quem for, não se tenha lembrado de ir espreitar à casa onde a senhora vivia, sozinha e numa idade já avançada. No entanto, como sabemos que a Justiça funciona muito mal neste país, eu ficaria surpreendida era se tivesse havido eficácia e celeridade nesta situação.
Mas o caso faz-nos reflectir. Esta senhora ainda teve pessoas que deram pela sua falta. Mas cada vez vamos sabendo de mais situações idênticas, de pessoas que morrem sós, sem ninguém lhes estender uma mão ou sentirem o seu desaparecimentto. Parece que não existem dados estatísticos sobre este fenómeno, mas todas as entidades afirmam que está a aumentar. Compreende-se. As cidades têm populações cada vez mais envelhecidas e cada vez mais isoladas. As famílias, quando existem, vivem longe, numa vida difícil que não permite um acompanhamento dos seus idosos. Na verdade, o que me choca neste caso, como nos outros idênticos, é a imagem de solidão que nos coloca à frente dos olhos. Não podemos continuar a fechá-los. Não podemos fingir que não vemos, que não sabemos o que se passa, que não é bem assim...
Neste Ano Internacional do Voluntariado, saúdo as associações que se aperceberam do problema e tentam dar algum apoio a quem vive só. Lembro aqui a Associação Limiar ou a Coração Amarelo. Mas penso que tem de haver um plano de apoio mais estruturado, uma política de proximidade, talvez organizada pelas Juntas de Freguesia. Era, provavelmente, uma maneira de dar um rosto humano e uma utilidade mais visível a essas instituições autárquicas.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Os bonecos da Rua Sésamo

Ontem, ao fazer um zapping pelos canais televisivos, deparei com uma edição comemorativa da Rua Sésamo. Fiquei pregada à televisão, com um sorriso nostálgico e uma saudade enorme a apertar-me o coração. Os meus filhos cresceram com a Rua Sésamo. Todos os dias vibravam com as aventuras do Egas e do Becas, da Tita e do Monstro das Bolachas, do Poupas e do Conde de Kontarrr... O meu filho aprendeu a ler com a Rua Sésamo. A minha filha cresceu a cantar com a Tita. Havia sempre histórias novas, sem grandes dramatismos, mas que retratavam o quotidiano infantil e as pequenas vitórias, mas também os dramas e os medos, que povoam o dia-a-dia e o imaginário das crianças. Pegavam nos seus pequenos problemas, que podiam ir de uma ida ao médico até ao apertar dos atacadores, e tratavam-nos com graça, leveza e eficácia.
O que vêem hoje as crianças? Será que a Hanna Montana ou os desenhos animados japoneses conseguem igualar a Rua Sésamo em ingenuidade e graça? Tenho as minhas dúvidas. E tenho pena. Não sabem o que perdem!


Egas e Becas tentam dormir numa noite de trovoada...

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Paixão de Sinaleiro

Há pessoas e vidas que nos espantam, nos confrontam e nos fazem exclamar a velha frase: "Isto dava um filme!"
António Paixão é polícia sinaleiro na zona do Príncipe Real, em Lisboa. Isto é, já de si, uma raridade! Quando eu era miúda, havia polícias sinaleiros em muitos dos cruzamentos de Lisboa. Alguns eram sóbrios e contidos nos seus gestos, mas havia outros que executavam autênticas coreografias em cima das peanhas, a ponto de se juntarem pequenos grupos a observar e, às vezes, a aplaudir. Também havia alturas em que não davam conta do recado e acabavam ofendidos pelos automobilistas mais apressados. Quem não se lembra deles?
Pouco a pouco, foram substituídos pelos semáforos e por sistemas informatizados com nomes femininos, que às vezes também não funcionam, mas que já não podemos ofender directamente.
Este Paixão é dos poucos que ainda regula o trânsito. Mas tem outra paixão, além da do nome, que o torna ainda mais original: o serviço aos outros. Encara o seu trabalho como um serviço de proximidade e apoio aos habitantes da zona onde trabalha. De tal forma que se meteu a tirar um curso superior na área das Políticas Sociais. Terminou o Curso há pouco tempo e é o primeiro polícia sinaleiro com estudos universitários. Agora, tenta cruzar as suas duas paixões, a acção social e a regulação do trânsito, mostrando que ainda há espaço na cidade para a ajuda aos outros, sejam crianças que atravessam as ruas a caminho da escola, sejam idosos que precisam de auxílio para o transporte das compras do supermercado. Mostrando que em qualquer profissão, mesmo nas mais raras e improváveis, há espaço para a humanização.



sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Joan of Arc

E para começar o fim de semana da melhor maneira, apeteceu-me ir buscar ao baú das recordações preciosas uma velha canção de Leonard Cohen, Joan of Arc. Editada em 1971, no ábum Songs of Love and Hate, é provavelmente a versão mais bela e romântica da tragédia vivida por essa heroína da França medieval. Vale a pena ouvir outra vez. 


Now the flames they followed joan of arc
As she came riding through the dark;
No moon to keep her armour bright,
No man to get her through this very smoky night.
She said, "i'm tired of the war,
I want the kind of work i had before,
A wedding dress or something white
To wear upon my swollen appetite."
Well, i'm glad to hear you talk this way,
You know i've watched you riding every day
And something in me yearns to win
Such a cold and lonesome heroine.
"and who are you?" she sternly spoke
To the one beneath the smoke.
"why, i'm fire," he replied,
"and i love your solitude, i love your pride."
"then fire, make your body cold,
I'm going to give you mine to hold,"
Saying this she climbed inside
To be his one, to be his only bride.
And deep into his fiery heart
He took the dust of joan of arc,
And high above the wedding guests
He hung the ashes of her wedding dress.
It was deep into his fiery heart
He took the dust of joan of arc,
And then she clearly understood
If he was fire, oh then she must be wood.
I saw her wince, i saw her cry,
I saw the glory in her eye.
Myself i long for love and light,
But must it come so cruel, and oh so bright?

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Os Vitinhos deste país

O Vitinho apareceu nas nossas televisões e nas nossas vidas faz agora vinte e cinco anos. Um amigo meu lançou uma questão pertinente: se ele fosse real o que estaria agora a fazer? O que fizeste tu da tua vida, Vitinho?
É uma boa questão. Imagino o Vitinho crescido, agora com 26 ou 27 anos. Já só os pais e os tios o tratam por Vitinho, para o resto do mundo ele é o Vitor Qualquer-Coisa. Provavelmente, estudou, talvez até tenha entrado numa Universidade e tirado um curso superior. Talvez esteja agora à procura de emprego, ou a ganhar 700 euros por mês como funcionário num "call-center". Imagino que pode ter emigrado. Agarrou uma oferta de emprego na Inglaterra ou em Angola, em Espanha ou no Dubai, e lá foi ele. Tem saudades do sol, ou da praia, ou do bacalhau, ou dos fins de tarde na esplanada a comer caracóis e a beber cervejas com os amigos, mas sabe bem que aqui não tem futuro. Pode até ter entrado numa Juventude Partidária e estar a desbravar um futurozinho como político nesta República das Bananas.
Fazem-me reflectir, os Vitinhos deste país. Com tristeza. 
Trazíamos tanta esperança na bagagem!...

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Os inimigos públicos

Como toda a gente sabe, foram finalmente terminadas as obras de  restauro da belíssima Igreja de São Vicente de Fora. É uma igreja muito ligada à minha família, por diversas razões, e fiquei feliz com a sua reabertura ao público.
E, no entanto... houve uma notícia que, positivamente, me esmagou. Durante as obras de limpeza, foram removidas dos telhados da Igreja de São Vicente de Fora, nada mais nada menos do que quarenta toneladas de excrementos de pombo. 40 toneladas!
De repente, assaltou-me a imagem das nossas cidades cobertas de excrementos de pombo. Os nossos edifícios coroados de fezes, as nossas estátuas manchadas de descargas intestinais. Lembrei-me de uma entrevista que li, há tempos atrás, com um vereador brasileiro de Curitiba que enumerava as doenças eventualmente transmitidas pelos nossos amigos pombos, com os quais eu até simpatizo, e que iam da salmonelose à ornitose, passando pela transmissão dos piolhos de pombos, ácaros que vivem nos seus corpinhos penugentos. Afirmava ainda o dito vereador que as fezes dos pombos, contaminadas por fungos e bactérias, podem causar doenças respiratórias e afectar o nosso sistema nervoso central. 
Quantas toneladas de excrementos de pombo estarão espalhadas sobre os telhados das nossas cidades? Será que o nosso sistema nervoso central foi afectado? Poderá ser esta uma explicação para a apatia cívica que por aí encontramos?
Será por isso que a nossa Ministra do Ambiente se chama Pássaro?

domingo, 23 de janeiro de 2011

Eleições e cupcakes

Se bem me apercebi, houve hoje milhares de pessoas que tiveram dificuldades em saber o seu número de eleitor e, portanto, conhecer a sua mesa de voto. Na verdade, confesso que, por mim, não estava muito preocupada. Há trinta e três anos que sou eleitora, e uma eleitora assídua e responsável. Nunca falhei um acto eleitoral, consciente de que o meu voto, como o de todos, é importante e faz a diferença. E no entanto, este ano, a desmotivação tomou conta de mim. Seria a crise, anunciada desde há anos, e que, de tão insidiosamente instilada no nosso espírito, nos deixa sem capacidade de reacção a todos os abusos que vimos sofrendo? Seria a falta de perspectivas de melhoria, a quebra da esperança? Seria o aumento dos preços de todos os bens e serviços que não posso deixar de utilizar, por vezes sem o entender cabalmente, como no caso da gasolina? Seria a visão confrangedora do meu recibo de vencimento deste mês? Bom, talvez fosse tudo isto junto. A verdade é que não me apetecia ir votar. Pela primeira vez, em trinta e três anos.
Mas o meu filho votava pela primeira vez. E queria fazê-lo, achava importante exercer o seu direito de escolha, de expressar a sua opinião. O problema esteve no Cartão de Cidadão. Por qualquer razão inexplicável, não tem lá inscrito o número de eleitor. Nas mesas de voto, nas Juntas de Freguesia, não há um descodificador que permita conhecer esse número. O sistema informático da Comissão Nacional de Eleições bloqueou, não dando resposta. E o sistema da mensagem por telemóvel? Bem, esse funcionou, embora com horas de atraso. O meu filho lá soube o seu número de eleitor cinquenta minutos antes das urnas fecharem!
Pela primeira vez, não me apeteceu ir votar! Fui, com o meu filho, a escassos minutos do fecho das mesas eleitorais! Não me apeteceu pensar nas eleições, nem nos candidatos, nem nos resultados. 


Em vez disso, fui fazer cupcakes. E acho que foi uma boa alternativa e uma forma mais proveitosa de aproveitar o dia das eleições.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Gripe!

Pois é, tenho a  mania que sou uma mulher forte, que sou eu que determino o que me acontece, que sou o agente do meu próprio destino. Mas, de vez em quando, aí está a Natureza a mostrar quem verdadeiramente manda. 
Algures, no final da semana passada, um vírus, silencioso e dissimulado, instalou-se no meu organismo. Começou a enviar pequenos sinais, um ligeiro mau-estar, uma cabeça pesada. A partir de domingo à noite, instalou-se a gripe, daquelas à antiga portuguesa, com todo o seu cortejo de sintomas desagradáveis: uma febre persistente, dores em todos os ossos, músculos, articulações, mesmo aqueles que eu não desconfiava que tinha, ataques intermináveis de tosse!... Há anos que não me lembro de ter uma gripe assim! Por mais que quisesse, o corpo não obedecia ao espírito, também ele bastante nublado!
Só me apetece enrolar sobre mim própria, como os gatos, e ficar sossegadinha à espera que passe o mau tempo.
Então, senhora que tem a mania que é forte, afinal quem é que manda?

domingo, 2 de janeiro de 2011

Carminda

Não tinha nada que jogasse a seu favor. Era velha, preta e gorda. E cada um destes adjectivos tinha uma carga negativa colada, era um rótulo recheado de preconceitos e ideias feitas. No entanto, Carminda era muito mais do que isso. Carminda, ou Minda, como lhe tinham chamado durante tanto tempo, tinha uma história de vida, sentimentos e emoções. Tinha uma família que não lhe ligava tanto como ela desejava, tinha um senhorio que lhe vinha pedir pontualmente o dinheirinho da renda, tinha duas vizinhas com quem trocava umas conversas sobre as doenças e o estado do tempo. Tinha recordações de tempos mais felizes. Também tinha pouco dinheiro, que gastava na mercearia, na farmácia e com o doidivanas do neto mais velho, que volta e meia lá ía a casa e que a conquistava com as gargalhadas súbitas que deixava espalhadas pela casa.
Carminda arrastava os pés pela rua, na direcção da paragem do autocarro. Carregava apenas o saco que tinha ido encher à Instituição onde recebia o almoço diário, que lhe dava para o dia inteiro. Passava por pares de namorados, grupos de jovens sorridentes e ruidosos, famílias atarefadas. Gostaria de se sentar, mas era como se ninguém a visse, ninguém lhe cedia um lugar no banco de espera. Sentia-se transparente. Um rapaz levantou-se e atravessou a rua a correr, numa súbita urgência, e Carminda aproveitou para se sentar, com um suspiro. A senhora que estava sentada ao lado mudou a carteira de sítio, com um olhar desconfiado. Carminda encolheu-se, como que a pedir desculpa por ali estar.
O autocarro chegou e todos se chegaram à frente. Um miúdo mais apressado empurrou-a e logo um amigo o puxou para trás: “Cuidado com a velha, pá!”  Carminda fingiu que não tinha ouvido nada e avançou pelo corredor do autocarro, com o seu passo cansado, novamente à procura de um lugar. Não sabiam nada sobre ela; só conheciam os seus rótulos.


(Este texto foi construído para o desafio de Janeiro da Fábrica de Letras,
 com o tema "Preconceito")