domingo, 2 de janeiro de 2011

Carminda

Não tinha nada que jogasse a seu favor. Era velha, preta e gorda. E cada um destes adjectivos tinha uma carga negativa colada, era um rótulo recheado de preconceitos e ideias feitas. No entanto, Carminda era muito mais do que isso. Carminda, ou Minda, como lhe tinham chamado durante tanto tempo, tinha uma história de vida, sentimentos e emoções. Tinha uma família que não lhe ligava tanto como ela desejava, tinha um senhorio que lhe vinha pedir pontualmente o dinheirinho da renda, tinha duas vizinhas com quem trocava umas conversas sobre as doenças e o estado do tempo. Tinha recordações de tempos mais felizes. Também tinha pouco dinheiro, que gastava na mercearia, na farmácia e com o doidivanas do neto mais velho, que volta e meia lá ía a casa e que a conquistava com as gargalhadas súbitas que deixava espalhadas pela casa.
Carminda arrastava os pés pela rua, na direcção da paragem do autocarro. Carregava apenas o saco que tinha ido encher à Instituição onde recebia o almoço diário, que lhe dava para o dia inteiro. Passava por pares de namorados, grupos de jovens sorridentes e ruidosos, famílias atarefadas. Gostaria de se sentar, mas era como se ninguém a visse, ninguém lhe cedia um lugar no banco de espera. Sentia-se transparente. Um rapaz levantou-se e atravessou a rua a correr, numa súbita urgência, e Carminda aproveitou para se sentar, com um suspiro. A senhora que estava sentada ao lado mudou a carteira de sítio, com um olhar desconfiado. Carminda encolheu-se, como que a pedir desculpa por ali estar.
O autocarro chegou e todos se chegaram à frente. Um miúdo mais apressado empurrou-a e logo um amigo o puxou para trás: “Cuidado com a velha, pá!”  Carminda fingiu que não tinha ouvido nada e avançou pelo corredor do autocarro, com o seu passo cansado, novamente à procura de um lugar. Não sabiam nada sobre ela; só conheciam os seus rótulos.


(Este texto foi construído para o desafio de Janeiro da Fábrica de Letras,
 com o tema "Preconceito")

16 comentários:

  1. Tua participação foi muito linda.Teresa! Um beijo,feliz 2011!chica

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  2. Muito bem retratada essa tendência que, infelizmente, muitos seres humanos têm para a indiferença ou para fazer juízos apressados e impensados.

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  3. E os preconceitos não são sempre assim? Rotulam-se as pessoas pelo que são aparentemente sem as conhecerem verdadeiramente...

    Beijocas e bom ano para ti!

    ps - gostei da nova foto de perfil, eheheh! :)

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  4. Teté

    Pois, foste tu que me tiraste a fotografia!
    Bjs

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  5. Preconceitos, não é...?
    Por vezes é pior que ter sarna, lepra ou uma dessas coisas misteriosas por descobrir a cura.
    Há o medo da transmissão através do contacto, nem que seja visual ou auditivo. Portanto o melhor mm é fingir q não exitem, q não os vemos...
    Ai, estou a começar 2011 mt amarga!
    Olha, gostei da mudança de visual, aliás já a tinha reclamado, mas gosto mais da do face.
    Bjs

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  6. Um texto muito bonito que nos faz pensar naqueles pequenos gestos de negligência que doem tão fundo naqueles que os sofrem....
    Beijinho!

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  7. E o menos preconceituoso ainda foi o que disse para ter cuidado com a velha!

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  8. O pior preconceito ainda é o que nos torna invisíveis. Muito bom o teu texto.

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  9. Feliz Ano ! com tudo aquilo que mais desejares

    beijo
    até sempre...por aqui...

    teresa

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  10. Parabéns por este seu excelente e tocante texto. Muito real infelizmente. Uma participação a merecer o meu aplauso.

    beijinhos

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  11. "(...)novamente à procura de um lugar(...)" É o que a maioria das pessoas descriminadas fazem... toda a vida.
    Está genial este teu texto!
    Parabéns,
    Beijinhos*

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  12. História tão triste como real: quantas "Mindas" não sofrerão, como a tua, todos os dias?

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  13. Como sempre, a tua história está carregada de sensibilidade e escrita de uma forma tão simples como bela, sem uma palavra a menos, sem uma palavra a mais.
    Brilhante.

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  14. Os rótulos fazem parte da nossa sociedade. É uma realidade muito triste.

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  15. Infelizmente o mundo está repleto de pessoas invisíveis tal a protagonista da sua belíssima história...

    Felizmente a sensibilidade é um colírio que a cada vez mais alcança novos olhos...

    Parabéns pelo blog, pela participação e claro, pela sensibilidade demonstrada de forma estupenda!

    Abraços renovados!

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