sábado, 19 de dezembro de 2015

A alucinação das grelhas ou o pesadelo do diretor de turma


Chega esta época do ano e, quando toda a gente normal se preocupa com presentes, perús e rabanadas, os professores mergulham num gigantesco delírio burocrático! Se forem diretores de turma, o delírio aumenta até se transformar num verdadeiro pesadelo...
As grelhas de excel ocupam o lugar de honra. Ali, os alunos são convertidos em milhentos números parciais. Que notas teve nos testes? E nos trabalhos? Fez os trabalhos de casa? Chegou atrasado? Foi sempre educado? Trouxe o material escolar? Colaborou com os colegas? E faltas, houve? De que tipo? Presença, pontualidade, material, TPC, disciplinar? Para quem tem 200 alunos, ou mais, este exercício é um autêntico delírio, em que as minúsculas partes fazem às vezes esquecer o todo!
Mas não ficamos por aqui. Depois, há que transpor todas as informações para as variadas fichas e plataformas. Mas isso não chega: há que voltar a ir buscar as mesmas informações para elaborar outra dúzia que relatórios parciais que nunca mais ninguém vai ler...
Há mais inimigos à espreita: chamam-se PAAPI e MRI, PEI ou CEI, e multiplicam-se à nossa volta, até já os baralharmos uns com os outros e trocarmos alguma indicação, da que nos foi facultada em várias fichas de instruções, que tentam pôr alguma ordem no que é inordenável... Não faz mal, ninguém vai dar por isso...
Pronto! Finalmente, as reuniões sucedem-se e as notas finais vão sendo lançadas em pauta. As atas vão sendo escritas, penosamente, porque ainda é preciso que aí apareçam relatórios de todos os aspetos que foram já tratados noutros suportes e grelhas.
E o resultado final? Vou-vos contar um segredo! É um segredo de Polichinelo, porque todos o sabemos: o resultado é nulo! No meio de tanta grelha e de tanta papelada, o aluno ficou esquecido! Não sobrou tempo para, com calma, pensar bem nos alunos, nas suas dificuldades ou capacidades, para planear atividades que lhes permitam melhorar e gostar de aprender!
Por isso, se virem por aí algum professor, cheio de olheiras, de cabelos em pé, balbuciando frases sem nexo, tenham paciência com ele: provavelmente, acabou de ser grelhado, e levará algum tempo a recuperar!


10 comentários:

  1. Como tu sabes!...
    Depois conto-te o que ainda inventaram para complicar mais as atas, que já estavam a ficar "démodées"...

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  2. A minha irmã professora está com reuniões agora :)

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  3. Querida Teresa :
    Já estou a ver quem se lembrou de acabar com as provas do 4º ano e pretende certamente acabar com todas as seguintes...Depois deo MP ter-se " esquecido " que havia um prazo para cassar a " licenciatura " do beirão 44, já nada me espanta.
    Tenho pena é que o vosso esforço sirva para tão pouco !
    E gostei de ler as tuas reflexões sobre a falta de tempo para PENSAR, caso a caso, no ALUNO.

    Um beijo e descansa quando puderes.

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    1. Olá João
      Já aqui escrevi o que penso sobre os exames do 4.º ano: uma avaliação nunca matou ninguém, pelo contrário, prepara para a vida. O problema é que o eduquês nunca foi completamente sacudido das escolas e cai em cima dos professores todo o esforço e responsabilidade da aprendizagem. Os professores têm receio de ser confrontados com reclamações dos pais e multiplicam as grelhas e registos na tentativa de contabilizar o que não é contabilizável.
      Enfim, melhores tempos virão (será?)
      Bom Natal para ti e restante família.
      Beijinhos.

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  4. Temos que mudar esta mentalidade do que deve ser a Educação! Mais, não misturar tendências políticas com educação!

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  5. São milhares de parâmetros, quantas vezes sem sentido. Há quem seja mais papista do que o para e chegue a classificar com percentagens que incluem uma casa decimal. Isto significa a distinção de 1000 níveis e num único parâmetro.
    Estes problemas são, simplesmente, ignorados por quem devia liderar as mudanças, sobretudo os directores de escolas. Sendo assim, o melhor é mudar de profissão e se for emigrando, tanto melhor.
    Feliz Solstício e Bom Ano Novo, Teresa!

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  6. Sim, estou de acordo que temos de mudar de mentalidade: unirmo-nos para acabarmos com a burocracia e sermos mais deontológicos. Empenharmo-nos para melhorarmos as didácticas e a pedagogia. A Escola pública poderá melhorar se os pares Directores/as, os Docentes e Auxiliares unirem esforços para que as mentalidades mudem.Querer é poder.Boas Festas e um Próspero ano 2016.

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  7. Felizmente estou livre desse enorme pesadelo!!! A mim já não me grelham mais!!... sei bem o que é passar o dia de aniversário com 12 horas de reuniões, bem "grelhadas"!

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