segunda-feira, 7 de setembro de 2015

A professora de Valter Hugo Mãe


Aproxima-se o início de um novo ano letivo. Já se fazem reuniões, já se planificam atividades, já se discutem estratégias. E pensamos como serão as nossas novas turmas...
Por coincidência, ou talvez não (a outra dizia que não havia coincidências...) caiu-me nas mãos este texto de Valter Hugo Mãe. E eu penso: se tiver um caso destes nas minhas turmas... basta um, apenas um aluno assim... então, tudo valerá a pena!

Houve um dia, numa aula de História do sétimo ano, em que falámos das estátuas da Roma antiga.
Respondi à professora, uma gorduchinha toda contente que me deixava contente também, que eram os olhos que induziam a sensação de vida às figuras de pedra. A senhora regozijou. Disse que eu estava muito certo. Iluminei-me todo, não por ter sido o mais rápido a descortinar aquela solução, mas porque tínhamos visto imagens das estátuas mais deslumbrantes do mundo e eu estava esmagado de beleza. 
Quando me elogiou a resposta, a minha professora, contente, apenas me premiou a maravilha que era, na verdade, a capacidade de induzir maravilha que ela própria tinha. Estávamos, naquela sala de aula, ao menos nós os dois, felizes. Profundamente felizes.
Talvez estas coisas só tenham uma importância nostálgica do tempo da meninice, mas é verdade que quando estive em Florença me doíam os olhos diante das estátuas que vira em reproduções no sétimo ano da escola. E o meu coração galopava como se estivesse a cumprir uma sedução antiga, um amor que começara muito antigamente, se não inteiramente criado por uma professora, sem dúvida que potenciado e acarinhado por uma professora. Toda o amor que nos oferecem ou potenciam é a mais preciosa dádiva possível.
Valter Hugo Mãe, Jornal de Letras, 19 de setembro 2012

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