terça-feira, 16 de abril de 2013

Uma imagem luminosa

Ontem, como acontece todas as segundas feiras, lecionei seis aulas, seguidas. Terminei, como sempre, exausta. Sentia-me cansada de andar de bloco para bloco, cansada de falar, de explicar, mas também cansada de lutar contra a indiferença, os olhos vazios de curiosidade, a resistência passiva. Cansada de mandar guardar telemóveis escondidos debaixo das carteiras e "head-phones" disfarçados debaixo dos capuzes. Cansada de tentar fascinar e captar para o saber, mentes totalmente absorvidas por questões como roupas, facebook, futebol ou namoricos (que agora se chamam "curtes"). E não pude deixar de me lembrar de uma imagem que andou aí pela internet.


Olhei para esta imagem e, de repente, não a entendi. O que faziam aqueles rapazes, ali sentados, de noite, com um livro nas mãos? Depois, vinha a explicação. Aquele local era o estacionamento do Aeroporto Internacional de G'Bessi, na Guiné-Conacri. Quando começa a anoitecer, o passeio enche-se de estudantes, que se agrupam ali por ser dos únicos locais com luz artificial e, por isso, onde podem estudar depois de escurecer. Os rapazes mais velhos sentam-se nos pilares de cimento, os mais novos nos separadores da estrada. As raparigas também chegam, acompanhadas por um irmão, ou outro adulto. Às vezes, caminham durante uma hora, para poderem estudar junto a uma luz. Os que aqui estão consideram-se sortudos. Outros têm de procurar a luz de uma bomba de gasolina, ou de uma casa mais abastada. Eles percebem bem o valor da educação, do estudo!
Somente 5% da população de Guiné-Conacri, na África, conta com Eletricidade, e mesmo esse pouco sofre com cortes de eletricidade freqüentes. Segundo dados das Nações Unidas em média um Guineense consome 89 kilowatts por hora ao ano. Isto é o equivalente a ter um ar condicionado ligado durante 4 minutos por dia.
Volto a pensar na maioria dos meus alunos. Têm a mesma idade destes rapazes que estudam junto aos postes de eletricidade do aeroporto de G'Bessi. E, no entanto, há um mundo a separá-los. Falta a uns o que aos outros sobeja. Seja a luz elétrica, seja a luz do espírito.
 

20 comentários:


  1. Emocionante este tema, Teresa, e tão bem o expuseste.

    Obrigada.

    Bj

    Olinda

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  2. Fui professor; e ainda bem que nessa altura ainda não havia telemóveis nem head-phones.
    Mas já havia indiferença...
    Eu não sei se hoje aguentaria. E depois de ver e ler o que escreves sobre Conakri, tenho que me sentir ainda mais revoltado.
    Não é justo o mundo!!!

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    1. Sim, o que mais incomoda é a indiferença...

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  3. Houvesse vontade... o mundo seria outro.

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    1. Mas, assim, roda e roda e é sempre igual...

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  4. Cara Teresa,

    A indiferença de que fala é gritante nas escolas de hoje em dia. Aquilo que se passa na Escola de Alcochete é o mesmo que que se passa um pouco por todo o país. Eu não sou professor, mas tenho uma mãe professora e contacto regularmente com alguns dos meus antigos professores e todos dizem o mesmo que a Teresa.

    O exemplo da Guiné-Conacri é aquilo que os "putos" de hoje em dia deviam interiorizar. Aquilo que os nossos tomam por garantido, noutras situações pode-se considerar um luxo, e esses meninos que andam à procura de luz para poderem estudar e ser algo na vida são o tipo de aluno que as nossas escolas deviam ter. Gente ávida de "saber", de conhecimento.

    Posso concluir dizendo que, no meu tempo (não foi assim há tanto tempo, mas é o suficiente para notar uma diferença brutal de comportamentos) não havia a tecnologia que há hoje em dia e éramos felizes assim, e a escola deu-nos (a mim e aos meus colegas) as bases daquilo que somos hoje. Para nós, um professor era uma "entidade superior" cujo conhecimento nós absorvíamos e respeitávamos.

    "Oh tempo, volta para trás" :)

    Beijinhos

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  5. Olá Abel!

    Pois, sempre houve alunos melhores e piores, mais e menos atentos, mas o que se nota hoje em dia é, de facto, uma grande indiferença perante o conhecimento. E isso é muito triste e muito frustrante.

    Beijinhos.

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  6. Já diziam os antigos: "Dá Deus nozes a quem não tem dentes!"

    Que tristeza deve ser lecionar para alunos desinteressados... :(

    Beijocas! E paciência, também...

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  7. E o pior é que esse desinteresse não acontece apenas nos alunos da idade desses jovens. Começa bem cedo, logo no 5º ano, quando nós tentamos cativar a sua atenção, faltando apenas fazer o pino à frente de toda a turma. E, mesmo assim, duvido que resultasse. E já vem do 1º Ciclo, por incrível que pareça. Os professores falam e os alunos viram-se uns para os outros a conversar...
    Nem imagino o que me espera para o ano!
    Beijinhos grandes.

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  8. Gostei muito do seu texto; muito mesmo!
    Achei-lhe uma razão imensa, infelizmente, que não sendo eu professora vou notando também desde há muito.
    Apesar disso e como sou otimista, vou esperando os melhores dias que as camadas infantis e suas/seus educadoras/es nos vão prometendo, através da sua sementeira e que, talvez não propriamente para o meu tempo, nos vão presentear com Homens e Mulheres cheiinhos de vontade de aprender! E a ESPERANÇA é precisa.
    Bj.
    Maria Mamede

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    1. Obrigada Maria Mamede.
      Valha-nos a esperança, não é?
      Beijinho.

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  9. Grande texto, Teresa. Como a/te compreendo e quão comovente é esta imagem. E a injustiça que significa, a cisão completa de oportunidades e direitos. Vou postar no meu FB, já.
    Bjs

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    1. Fátima
      Se quiseres, partilha diretamente do meu facebook, também lá pus, é mais fácil.
      Bjs

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  10. Sinto exatamente o que descreve...e o pior de tudo é que sinto-me impotente e revoltado, não só com o sistema, com a sociedade, mas também com as direções das escolas que ao permitirem que tal aconteça acabam por pactuar com os alunos! É uma vergonha que as coisas tenham chegado a este estado!!! É um rumar diário contra a maré! Um verdadeiro sofrimento para aqueles que amam esta profissão!
    Estou há poucos anos no ensino, mas não me conformo. Quando entrei disseram-me "agora não vale a pena ser professor", percebo bem o porquê de tal afirmação!
    Se tivesse oportunidade ía leccionar para a Guiné Conacri!

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    1. Pois, é difícil. Não sei se a culpa é das direções das escolas, é um problema social, ou geracional, eles pouco podem fazer. Como diz, é um rumar diário contra a maré! Um cansaço!

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    2. Não disse que a culpa era das direções das escolas. O que disse, foi que elas deveriam ter um papel mais interventivo nestas situações, O QUE NÃO ACONTECE!!! Não percebo o por quê de pouco poderem fazer, se os regulamentos das escolas não permitem tal e na maior parte dos casos as regras estão afixadas nas portas das salas de aula!!! Para além disso as escolas são cada vez mais autónomas! Assim sendo, não poderão aplicar sanções mais duras para quem fôr apanhado com os malditos telélés e fios pendurados nos ouvidos???? Penso que a siuação atual requer medidas dráticas. E se não são as direções das escolas a fazê-lo, quem poderá ser então??? Fica a questão. Obrigado!

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    3. Eu sei que há escolas que aplicam medidas mais duras do que outras para as mesmas situações. Depende de muita coisa, provavelmente: do contexto social, da filosofia pessoal que quem está na direção, ou de outras coisas.
      Mas parece-me que a questão é mais profunda, tem a ver com as expectativas e interesses dos alunos. Acho eu!

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  11. Arrepiei-me com a imagem e com a explicação da mesma... De facto parece que dar valor ao que se tem é um exercicio muito dificil ao ser humano... É uma pena :/

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  12. PELO JEITO DE 2007 A 2013,POUCA COISA MUDOU....AS BATALHAS NA SALA DE AULA CONTINUAM,E QUEM QUER ESTUDAR,CONTINUA PROCURANDO A LUZ DO AEROPORTO.

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