sábado, 20 de abril de 2013

O vagabundo na avenida

Encontro-o de vez em quando, logo de manhãzinha, a deambular na avenida. Vagueia, com um ar meio perdido, por entre os carros que se desviam, felizmente poucos naquela quase madrugada em que o encontro. Também sigo devagar, desviando o carro, se necessário. Nem sei o que lhe diria, se o atingisse, inadvertidamente.
- Onde é que mora?
- Não sei, minha senhora.
É alto mas não é forte, é mais balofo, com umas bochechas que lhe caem dos lados da cara escura. Não lhe adivinho a cor, só consigo vislumbrar um bocado da cara, escura de suja. E os olhos, uns olhos avermelhados e mortiços. Tem um gorro enfiado na cabeça, do qual se escapam umas ripas de cabelo de tom igualmente escuro e indefinido. Usa um blusão e umas calças, manchadas e com ar de não verem água há muito tempo. Tem aquele ar de não ter ninguém que se ocupe dele, uma mãe, uma mulher, uma irmã...
- Olha, não vais para a rua nessa figura, pois não?
Não, ninguém se interessa, a não ser os voluntários que, de vez em quando, talvez lhe dêem comida ou o levem a um balneário público.
Imagino o que o terá levado até àquele ponto. Pelo meio de qualquer história de carência e desespero, encontraria com certeza o álcool ou outra droga, a desolação.
Ele pára no meio da avenida, o olhar perdido em qualquer ponto dentro de si. Eu sigo, e o meu dia vai ser um pouco mais triste. Não tanto como o dele, no entanto...
O nobre vagabundo - Charlie Chaplin

6 comentários:

  1. Noto com desgosto que Lisboa tem cada vez mais gente à deriva!

    Abraço

    ResponderEliminar
  2. Vidas...
    e nunca sabemos ao certo o que está por detrás delas.

    ResponderEliminar
  3. Talvez esse seja um dos mendigos sem abrigo que e encontro no meu trabalho como voluntário...
    Bom domingo

    ResponderEliminar
  4. Isto lembra-me as duas personagens que criei no ano passado para uma peça teatral ("Metamorfases") que foi à cena 3 vezes nas Escolíadas... O Cássio e o Alberto, os "meus dois vagabundos"... que não esquecerei. Teatro, mas reais ao mesmo tempo. Infelizmente.

    ResponderEliminar
  5. A arte é um reflexo da vida, não é?
    E, realmente, cada vez se vê mais gente à deriva. Penso que não é só em Lisboa.
    Bjs

    ResponderEliminar
  6. Há de facto muita gente à deriva neste momento, e muitas pessoas infelizmente nem as conseguimos identificar pois mantêm-me limpas e minimamente apresentaveis... No entanto, à deriva...

    ResponderEliminar