domingo, 7 de abril de 2013

Confissões e confessionários

Hoje, fui à Igreja de Nossa Senhora da Penha de França, assistir a um recital de uma amiga. Confesso que, no entanto, metade do tempo do concerto passei-o absorta, mergulhada em recordações que saltavam de cada parede e de cada imagem.
Vivi na Penha de França até aos dez anos, e foi naquela igreja que fiz a Primeira Comunhão. Assisti a missas e aulas de catequese. Depois, mudei de casa. E já ali não entrava há quarenta anos! Mas lembro-me tão bem das escadarias, das imagens, dos candelabros que oscilam sobre os altares laterais, das colunas verdes e douradas que ladeiam o altar-mor! E dos mármores, brancos, verdes, rosados, que tornavam a igreja fria e a missa mais comprida! Ficava sempre com os pés frios e apetecia-me bater com eles no chão, para os aquecer. Mas lá estava o olhar do meu pai, para me manter em sentido e bem comportada! Eu achava as missas um bocado aborrecidas, com muitas palavras e orações que eu repetia sem compreender. Porém, gostava das histórias da Bíblia e distraía-me a imaginar os santos das imagens como protagonistas.
Naquela época, a igreja parecia-me enorme. E os confessionários, aninhados por baixo dos púlpitos laterais, eram os mais assustadores. Grandes, sisudos, pesados, à espera da confissão de pecados que eu tentava recordar... Confesso que, às vezes, inventava pecadilhos para não passar a vergonha de dizer que não me lembrava de ter feito nada de reprovável, o que, no mínimo, já podia cair no domínio do pecado do orgulho!
Hoje, a igreja e os seus confessionários retomaram as suas proporções normais. Nada me pareceu tão grande, nem tão brilhante, nem tão misterioso como quando eu tinha sete ou oito anos. Apeteceu-me rir de mim própria, dessa outra mais novinha e inocente. Em vez disso, enterneci-me.
 
                                    (foto do interior da igreja, "roubada" do blog O Jumento)
 

5 comentários:

  1. belo texto, o teu. Fez-me reviver a infãncia, entre missas e terços; entre funerais e casamentos que iam dar no mesmo: duas variantes da morte. E o mais agradável de tudo: o cheiro a incenso :)

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    1. Manuel, que horror! Casamentos e funerais, duas variantes da morte?
      O cheiro a incenso, sim. E os rituais...

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  2. Há locais assim, que são um maná de recordações da nossa meninice, que nos enternecem mais do que o motivo pelo qual os visitamos no momento... :)

    Beijocas!

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  3. Espero que tenha sido a brincar porque eu dei uma boa gargalhada com o comentário do Manuel Cardoso :)))
    Quanto ao texto, gostei muito das tuas memórias.
    xx

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