sábado, 1 de junho de 2013

No meu peito não cabem pássaros


Gosto muito de ler e ando sempre com um livro (ou dois, ou três) atrás de mim. Quando acabo de ler um livro, no entanto, não costumo ter esta urgência em escrever ou falar do que li. Mas este livro é diferente. Peguei nele porque o autor, Nuno Camarneiro, tinha ganho o Prémio Leya 2012. Tinha uma expectativa aberta, esperava que fosse bom sem saber bem o que me daria.
A sinopse do livro perguntava: "Que linhas unem um imigrante que lava livros num dos primeiros arranha-céus de Nova Iorque a um rapaz misantropo que chega a Lisboa num navio e a uma criança que inventa coisas que depois acontecem? Muitas. Entre elas, as linhas que atravessam os livros."
O rapaz que chega a Lisboa é Fernando Pessoa, a criança que inventa coisas e histórias é Jorge Luis Borges, o imigrante em Nova Iorque é alegadamente Franz Kafka. As histórias que ali nos surgem são imaginadas, mas consigo encontrar as palavras de Borges e os sonhos de Pessoa. De Kafka, perdoem-me a ignorância ou a falta de competências literárias, não encontro absolutamente nada no Karl que lava janelas ou limpa os copos do bordel onde também encontra o amor. Não encontrei Kafka, nem o percurso de vida nem os dilemas e os absurdos que povoam o seu  universo.
A marca temporal é dada por um cometa que passa nos céus da Terra, em 1910, causando espantos e histerias. Traz um fogo atrás de si, que talvez toque aqueles génios em construção. Mas a sua passagem no romance é tão ténue que, sem aviso na contracapa, talvez não dessemos por ele.
Poderá então concluir-se que não gostei do livro? Não, pelo contrário, gostei muito. Não precisava porém dos nomes sonantes dos pretensos protagonistas. São três histórias, de três meninos que se fazem homens. Histórias que caminham paralelas até ao final. Pequenos capítulos que se entrecruzam, cada um perfeito no seu todo e na parte que lhe cabe. A linguagem é tão perfeita que chega a ser brilhante e acutilante, como um diamante. As ideias e imagens são-nos reveladas em frases cheias de cores e de sentidos. Às vezes, tão plenas que nos chamam para nova leitura, e mais outra e mais outra. Sempre a convocar-nos para novas reflexões e emoções.
Porque hoje é Dia da Criança, deixo aqui um excerto do livro, um texto belíssimo sobre a perda de uma avó, que é como quem diz, de uma parte importante de nós próprios e da nossa infância:

"O que vai numa avó que vai: partes boas da infância chegada ao lume, uma certa forma de falar que já ninguém pratica, a memória ridícula e livre de ter sido ingénuo, insolente e parvo, cheiros de comida feita de ingredientes que nunca mais se voltarão a juntar, a face possível do passado, um calor de encher casas, nomes de pessoas que só ali permaneciam reais, as horas que não terminavam nunca.
Coisas que ficam de uma avó que vai: um epitáfio vago, a crença em deus por respeito e procuração, uma saudade inútil e imprescindível, o súbito envelhecimento de pai e mãe, um passo dado na fila do tempo.
A avó que morre é um livro deixado a meio, é todos os livros deixados a meio. Quem pode agora segurar tantos passados?"

7 comentários:

  1. Pelo excerto, fica-se com a ideia de que se gostará de ler o livro.

    Bom final de semana

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  2. Também o acabei de ler há relativamente pouco tempo!
    Acho que está uma sinopse muito bem feita e o excerto seleccionado também me marcou!

    Abraço

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  3. Tão bonito!!!
    Particularmente a parte que transcreveste sobre a perda de uma avó...
    Beijinho

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  4. Li o livro há mais de um ano, e também gostei da escrita poética. Mas o prémio Leya que o autor ganhou é pelo seu novo romance "Debaixo de algum céu". Que ainda não li, já que saiu recentemente... :)

    Beijocas!

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    1. Sim, eu sei, mas foi com essa apresentação que este livro me chegou às mãos. E agora fiquei com vontade de ler o outro que mencionas. :)
      Bjs

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  5. São já dois os livros deste novo autor, que ainda não comecei a conhecer.
    Mas, com a pilha de livros que vejo aqui para ler, nem pensar em meter-me em mais autores...por ora, claro.

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