sábado, 4 de fevereiro de 2012

Das razões do amor


Mas, afinal, amamos porquê? Porquê aquela pessoa e não a outra? Qual é o mecanismo? Há algum fenómeno químico, psicológico, hormonal, que leve ao amor? Não sei se António Damásio já nos poderá dar alguma resposta a tão antiga questão. Arnaldo Jabor, cineasta e jornalista brasileiro, tem uma teoria sobre isso que vale a pena ler.

Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo a porta.
O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão. O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar.
Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referenciais.
Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca.
Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera.
Você ama aquela petulante. Você escreveu dúzias de cartas que ela não respondeu, você deu flores que ela deixou a seco.
Você gosta de rock e ela de chorinho, você gosta de praia e ela tem alergia a sol, você abomina Natal e ela detesta o Ano Novo, nem no ódio vocês combinam. Então?
Então, que ela tem um jeito de sorrir que o deixa imobilizado, o beijo dela é mais viciante do que LSD, você adora brigar com ela e ela adora implicar com você. Isso tem nome.
Você ama aquele cafajeste. Ele diz que vai e não liga, ele veste o primeiro trapo que encontra no armário. Ele não emplaca uma semana nos empregos, está sempre duro, e é meio galinha. Ele não tem a menor vocação para príncipe encantado e ainda assim você não consegue despachá-lo.
Quando a mão dele toca na sua nuca, você derrete feito manteiga. Ele toca gaita na boca, adora animais e escreve poemas. Por que você ama este cara?
Não pergunte pra mim; você é inteligente. Lê livros, revistas, jornais. Gosta dos filmes dos irmãos Coen e do Robert Altman, mas sabe que uma boa comédia romântica também tem seu valor.
É bonita. Seu cabelo nasceu para ser sacudido num comercial de xampu e seu corpo tem todas as curvas no lugar. Independente, emprego fixo, bom saldo no banco. Gosta de viajar, de música, tem loucura por computador e seu fettucine ao pesto é imbatível.
Você tem bom humor, não pega no pé de ninguém e adora sexo. Com um currículo desse, criatura, por que está sem um amor?
Ah, o amor, essa raposa. Quem dera o amor não fosse um sentimento, mas uma equação matemática: eu linda + você inteligente = dois apaixonados. Não funciona assim.
 
Amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC. Ama-se justamente pelo que o Amor tem de indefinível.
Honestos existem aos milhares, generosos têm às pencas, bons motoristas e bons pais de família, tá assim, ó!
Mas ninguém consegue ser do jeito que o amor da sua vida é! Pense nisso. 

(Arnaldo Jabor, Google Images)

10 comentários:

  1. ... concluí-se pois que Jabor sabe do que fala...

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  2. E assim se escreve um texto sobre o tema mais recorrente de sempre: o Amor, de uma forma encantadora mas que não nos diz absolutamente nada de novo. Gostamos só porque nunca nos demos ao trabalho de pensar assim com tanta clareza. =)

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  3. É difícil escrever alguma coisa de novo e desconhecido sobre o amor. Também não é bem essa a ideia, mas apenas ler alguns textos que já foram escritos sobre esse tema. Provavelmente não vamos aprender nada, mas talvez nunca tenhamos pensado naquilo daquela maneira.
    Bjs

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  4. Gosto muito do Jabor mas melhor do que este não há


    Amor é um fogo que arde sem se ver,
    É ferida que dói, e não se sente;
    É um contentamento descontente,
    É dor que desatina sem doer.

    É um não querer mais que bem querer;
    É um andar solitário entre a gente;
    É nunca contentar-se de contente;
    É um cuidar que ganha em se perder.

    É querer estar preso por vontade;
    É servir a quem vence, o vencedor;
    É ter com quem nos mata, lealdade.

    Mas como causar pode seu favor
    Nos corações humanos amizade,
    Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

    Camões

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    1. Caro Anónimo
      Esta seleção de textos resulta de uma opção minha, que decidi publicar apenas textos em prosa sobre o amor. Outra fora a decisão, e de certeza que Camões ocuparia um lugar cimeiro!

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  5. E qual seria a graça de um amor matemático? Seria o mesmo que fazer um exame difícil em que só alguns seriam aprovados... E os outros, que não brilham pela beleza, inteligência ou sentido de humor?

    Muito bom, este texto! :)

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    1. Também acho, amores matemáticos não obrigada, não tinham graça nenhuma!
      Bjs

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  6. Amores Matemáticos, amores arranjados por terceiros, tipo os casamenteiros e cheios de boas intenções.
    NÃO MUITO OBRIGADO!!!!!!!!!!!!!! DISPENSO! Seria a preversão total , do que é o Amor.
    Adorei este texto.
    Bjs, Teresa.

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    1. Ainda bem que gostou, estes textos sobre o amor foram todos criteriosamente escolhidos. Claro que o critério foi meu, e portanto criticável. :)
      Bjs

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