domingo, 12 de fevereiro de 2012

Do amor em português

O amor expressa-se em atos, emoções, mas também em palavras. Como escolher essas palavras? Os portugueses são tímidos, no que diz respeito à expressão dos sentimentos, são contidos, têm medo de parecer parolos, ou até piegas (agora que esta palavra entrou em força no nosso vocabulário...), têm receio de ser mal entendidos, gozados, expostos. E, em resultado dessa contenção, atrapalham-se nas palavras até lhes alterarem os próprios significados. Miguel Esteves Cardoso escreveu sobre isso, com a graça e a qualidade que já lhe conhecemos. Tão difícil escolher um texto de MEC, escolher só um!

Mesmo que Dom Pedro não tenha arrancado e comido o coração do carrasco de Dona Inês, Júlio Dantas continua a ter razão: é realmente diferente o amor em Portugal. Basta pensar no incómodo fonético de dizer «Eu amo-o» ou «Eu amo-a». Em Portugal aqueles que amam preferem dizer que estão apaixonados, o que não é a mesma coisa, ou então embaraçam seriamente os eleitos com as versões estrangeiras: «I love you» ou «Je t'aime». As perguntas «Amas-me?» ou «Será que me amas?» estão vedadas pelo bom gosto, senão pelo bom senso. Por isso diz-se antes «Gostas mesmo de mim?», o que também não é a mesma coisa. 

O mesmo pudor aflige a palavra amante, a qual, ao contrário do que acontece nas demais línguas indo-europeias, não tem em Portugal o sentido simples e bonito de «aquele que ama, ou é amado». Diz-se que não sei-quem é amante de outro, e entende-se logo, maliciosamente, o biscate por fora, o concubinato indecente, a pouca vergonha, o treco-lareco machista da cervejaria, ou o opróbio galináceo das reuniões de «tupperwares» e de costura. 
Amoroso não significa cheio de amor, mas sim qualquer vago conceito a leste de levemente simpático, porreiro, ou giríssimo. Quem disser «a minha amada» — ou, pior ainda, «o meu amado» — arrisca-se a não chegar ao fim da frase, tal o intenso e genuíno gáudio das massas auditoras em alvoroço. Amável nunca quer dizer «capaz de ser amado», e, para cúmulo, utiliza-se quase sempre no pretérito («Você foi muito amável em ter-me convidado para a inauguração da sua Croissanterie»). Finalmente um amor é constantemente aviltado na linguagem coloquial, podendo dizer-se indistintamente de escovas de dentes, contínuos que trazem os cafés a horas, ou casinhas de emigrantes. (O que está a acontecer com o adjectivo queridoconstitui, igualmente, uma das grandes tragédias da nossa idade.) 

Talvez a prática mais lastimavelmente absurda, muito usada na geração dita eleita, seja aquela de chamar amigas às namoradas. Isto porque os portugueses, raça danada para os eufemismos, também têm vergonha das palavras namorado enamorada. Quando as apresentam a terceiros, nunca dizem «Esta é a Suzy, a minha namorada» — dizem sempre «Esta é uma amiga minha, a Suzy», transmitindo a implícita noção, muito cara ao machismo lusitano, de que se trata de uma entre muitas. E, também assim, como se não lhes bastasse dar cabo do Amor, vão contribuindo para o ajavardamento semântico da Amizade. 



(Miguel Esteves Cardoso, imagem do Google images)

6 comentários:

  1. Maravilhoso, Teresa.
    Também eu adoro os textos de Miguel Esteves Cardoso.
    O Dia dos Namorados aproxima-se!
    :)

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  2. "Os portugueses são tímidos, no que diz respeito à expressão dos sentimentos, são contidos, têm medo de parecer parolos, ou até piegas".

    Concordo em absoluto. Exprimir emoções é quase tabu. Parece que a o amor gratuito ou o sorriso implicam sempre qualquer coisa, porque como hoje se compra tudo, entao "o que se está a pagar?" é a pergunta implícita, e daí a desconfiança, e daí a cortina de silêncio tacitamente entendida.

    Quanto o texto do MEC, ja se sabe de quem falamos :)

    Bj amigo

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  3. Sou fã incondicional do MEC, portanto sou suspeita ao dizer que adorei este texto! Que embora um bocadinho exagerado contém algumas verdades sobre as modas cá do burgo. Não conheço ninguém que se refira ao marido, mulher, namorado/a, amante ou whatever como "meu/minha amado/a". Quando muito, só em tom de brincadeira, podendo os outros rir à vontade... :)))

    Beijocas!

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  4. Gostei imenso e concordo contigo os textos dele são sempre dificeis de escolher: cada um melhor do que o outro!
    xx

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  5. Pois é, exprimir emoções é quase tabu. E, no entanto, é provavelmente das coisas mais gratificantes que podemos fazer, por nós e pelos outros.

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  6. Teresa
    um texto do MEC é quase um "dogma", passe a heresia.

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