sábado, 25 de fevereiro de 2012

A burocracia da morte

Acabámos de saber que, neste mês de Fevereiro, morreram mais pessoas em Portugal do que o costume nesta época do ano, especialmente acima dos sessenta e cinco anos. O relatório aponta para o frio e a gripe como os grandes responsáveis. Não duvido, claro. Mas penso também que os aumentos dos preços, da energia elétrica às taxas moderadoras, podem ter tido um efeito na qualidade de vida de muitas dessas pessoas, que vivem com pensões e rendimentos diminutos.
Esta situação fez-me lembrar um texto terrível (pela realidade de que levanta o véu) de Maria José Morgado, que encontrei aqui. Mostra-nos um panorama triste, de uma sociedade em falência mais do que económica, de valores familiares e solidários. E faz-me pensar se os gastos com a tal burocracia da morte, de que Maria José Morgado fala, não deveriam ser direcionados para o apoio aos vivos. Enquanto é tempo!
Vale a pena ler.

Morrer em Lisboa

Num destes dias consultava atormentada uma estatística de óbitos na cidade de Lisboa. É a das comunicações da PSP ao MP, sobre cadáveres encontrados abandonados no interior de habitações, na rua ou entrados nos hospitais. Defuntos desamparados, na solidão e na miséria. Entranhas negras da cidade da luz branca onde os mecanismos do apoio social ou familiar se desfazem com a crise, com a desagregação familiar, na indiferença das grandes cidades.
Muitos destes idosos, com pensões inferiores a 500 euros, não tiveram acesso aos lares sociais nem a qualquer assistência. O apoio domiciliário está exaurido. Nas miseráveis habitações de toda uma vida humilde, chegam a descobrir os corpos caídos, putrefactos, cobertos de larvas, em avançado estado de decomposição, ausência de globos oculares, no meio de lixo acumulado e de comida seca e podre. Morte sem assistência médica. Vem descrito em certo processos. morte silenciosa dos desvalidos.
No mês de janeiro foram comunicadas 101 destas mortes, corridas na cidade de Lisboa.
Só nos dias 30 e 31 de Janeiro foram comunicadas 21 mortes solitárias. Foram ordenadas 74 autópsias e dispensadas 27. No mês e dezembro foram comunicadas 76 mortes nas mesmas circunstâncias. Ordenadas 53 autópsias e dispensadas 23.
Este serviço do DIAP de Lisboa regista uma média mensal de 70 óbitos. Cada autópsia oscila entre cerca de 700 e 3000 mil euros, consoante os casos. São ordenadas em caso de dúvida sobre a causa da morte.
O maior número de mortes situa-se entre os setenta, oitenta e nove anos. Há mais homens do que mulheres a morrer nestas circunstâncias trágicas. Segue-se a absurda burocracia da morte. A PSP comunica ao MP a existência do cadáver que só pode ser removido com autorização do MP. O delegado de saúde verifica o óbito. Um perito do Instituto Nacional de Medicina Legal faz o exame do hábito externo do cadáver.
O MP providencia o funeral digno e humilde com o apoio da Santa Casa da Misericórdia ou de outra instituição social. Quando se regista a existência de bens, ainda que sejam vasos de plástico com flores de plástico, ainda que sem valor comercial, é obrigatório participar ao tribunal cível num processo de herança jacente. Estes bens sem herdeiros e sem valor revertem para o estado que não os quer e que gastou mais nesta diligência do que se lhes tivesse dado um destino expedito.
É o zelo absurdo da burocracia da morte depois do desamparo em vida. Um esmagador silêncio rodeia tudo. As famílias, os filhos desapareceram. O estado social também.
Há uma procuradora-adjunta de turno, com um telemóvel disponível 24 horas sobre 24 horas, para que ao menos não haja atrasos na autorização da remoção dos cadáveres encontrados em casa ou na via pública. Há o trabalho da PSP e do Instituto de Medicina Legal. Fazemo-lo com o desejo de respeitar a dignidade do ser humano até ao fim. Fazemo-lo no departamento que, tendo por missão principal o combate ao crime também este estranho serviço de óbitos.
Estranho mundo, este. 




19 comentários:

  1. Minha amiga, o nosso país funciona ao contrário.
    Chego a pensar que estas medidas visam eliminar as pessoas.
    Os custos sociais da crise e da austeridade estão à vista, estes casos infelizmente, é mais uma das muitas consequências.
    Muito triste tudo isto.
    beijinhos

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    1. Eu não chego ao ponto de pensar que as medidas visam eliminar as pessoas. Acho é que há pouca racionalidade. Mas o resultado é igualmente triste.
      Bjs

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  2. Arrepio-me só de pensar no número de pessoas que estão a morrer por causa da crise e, também, por falta de afecto dos familiares.

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    1. Se calhar, a falta de afeto ainda é um facto mais triste e mortífero.

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    1. Olá Mylla! Há quanto tempo!
      É verdade, a burocracia não perdoa.
      Bjs

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  4. Um post triste e bem revelador da incerteza do nosso próprio futuro. Nenhum de nós está apto a saber se um dia iremos passar por toda esta tragédia humana. :(

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    1. É verdade, nenhum de nós pode garantir que não irá passar por esta tragédia, ignorada mas bem real, aqui à nossa volta.

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  5. Incrível isso Teresa, um texto que não só comove como arrepia.
    É tamanha a crueldade ,frieza , desigualdade nesse texto que nem dá pra acreditar!penso que só pode ser por estar a a vida tão difícil que banaliza-se assim a morte!
    Sempre digo que pra viver um tantinho melhor cuido de não ler sobre situações que não tenho controle algum e me faz adoecer só de pensar a respeito.E ficar indiferente nem sempre me faz bem,enfim só resta rezar!
    Pra onde caminhamos,não é? o mundo não é estranho, os homens que nele habita sim,estranhíssimos!
    deixo abraços e bom domingo,boa seamna!

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    1. Lis
      É um texto que comove e arrepia, de tão desumano. Mas é a nossa realidade, infelizmente.
      Beijinho e bom domingo.

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  6. O texto é terrível, mas assente numa realidade a que ninguém devia fechar os olhos...

    Tenho imensa admiração por Maria José Morgado, que nunca teme relatar os factos com toda a sua crueza, demonstrando como os valores da nossa sociedade se deterioram a olhos vistos (de quem quer ver)!

    Beijocas!

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    1. Também admiro a Maria José Morgado, como todas as pessoas desassombradas, que não têm medo de apontar as verdades, mesmo quando doem.
      Bjs.

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  7. Na verdade, neste país de brandos costumes, onde ainda paira o fantasma do fascismo, tudo é muito protegido, muito direitos, onde como vemos, os processos se arrastam anos devido aos recursos sobre recursos e todas as manobras (legais) dilatórias, nem vale a pena este tipo de denúncias, pois os senhores deputados - os legisladores - não estão, nem aí. E quando se fala em despesismo, corte nas despesas, etc. não é em desligar o ar condicionado que se baixa a fatura. Seria na redução desta, não exatamente a do post, nesta de uma forma global, inútil borucracia. Terceiro mundo? Não! Quarto, ou talvez quinto. A pena é que em Portugal, as Marias Josés Morgados têm apenas o poder de não ficarem caladas.

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    1. Eu acho que tem de haver um equilíbrio delicado entre a garantia dos direitos e a garantia da justiça. A burocracia em excesso paralisa a justiça. E o dinheiro que se gasta com ela, era muito mais bem empregado a garantir o contacto entre estes idosos e um serviço de vigilância social. Acho eu!

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  8. Isto é a face mais negra da política deste governo.
    Será que se pode poupar à custa da humanidade?
    Que tristeza.
    É revoltante...

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  9. Miguel Ângelo Fernandes28 de fevereiro de 2012 às 22:55

    Quem me dera que esta fosse apenas a face mais negra de um qualquer governo... esta é a face tenebrosa de uma sociedade impiedosamente desestruturada...

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  10. Também me parece que este problema transcende a ação deste governo ou de qualquer outro. É um problema social, de difícil solução.

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  11. Descobri o seu blogue por mero acaso, como se descobrem tantos outros blogues. Entre outras coisas que desconheço, partilho consigo o fascinío pela escrita e pela leitura.
    Voltarei para a (re)ler. Um abraço.

    Jorge

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    1. Olá Jorge
      Este é um espaço livre, de partilha. Volte sempre, há sempre um chazinho e umas palavras à espera.

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