sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Da economia do amor


Mas, afinal, será que o amor é viável, nos países humanos? Num mundo dominado pela economia, controlado pelos mercados, qual é o valor do amor? Não é uma mercadoria transacionável, não rende juros, não desenvolve as indústrias nem os países. Ou será que não é assim?
Gonçalo M. Tavares é um dos nossos escritores mais premiados, nos últimos tempos. Vale a pena ouvir o que ele tem a dizer a esse respeito.


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A vida, é certo, não será um sítio excepcional para as paixões. 
Nos países humanos, o amor mistura-se muito 
com palavras equívocas. 
0 fogo que existe numa lareira, por exemplo, 
é um fogo servil, cultural, educado. 
Uma coisa vermelha, mas mansa, 
que nos obedece. 
Só é natureza, o fogo na lareira, 
quando, vingando-se, provoca um incêndio. 
E o amor assim funciona. Mas é preferível o contrário. 

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É desarranjo de estratégias e planos, 
surpresa ritmada, uma ilegalidade exaltante que não prejudica 
os vizinhos. 
Mas atenção, de novo: o amor não faz bem aos países, 
não desenvolve as suas indústrias, nem a economia. 
Disso nunca tive dúvidas. E por isso é preferível não. 

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No entanto, qual é o país que pode impedir que o amor 
entre? Não é mercadoria traficada em caixas, 
que as caixas são objectos que se abrem ao meio 
— e é possivel, com uma lanterna, olhar lá para dentro. 

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0 amor não se vê como 
se fosse uma presença. 
É demasiado completo 
para ter uma forma. E como jamais 
se conseguiram obter juros de uma coisa 
que não ocupa espaço, é preferível não, 
parece-me. 

Gonçalo M. Tavares, in "Uma Viagem à Índia"


(Gonçalo M. Tavares, foto retirada do Google Images)

7 comentários:

  1. Olá Teresa. Que bom ter-te de volta à blogosfera.
    Beijinhos e bom fds

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  2. Nunca li nada do escritor... e é pena! Mas não se pode ler tudo... :)

    Apesar deste mundo tão materialista, acredito que sim, que o amor chega à mesma, até porque tem imensas formas! Às vezes, também desaparece depressa... :(

    Beijocas e bom fim de semana!

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  3. olá, Teresa

    excelente esta reflexão sobre o amor!
    afinal quem é que pode impedir que o amor entre em nossos corações? ninguém, se quisermos dar-lhe guarida...

    estive a ver os outros posts sobre o amor, lindíssimos. os meus parabéns. não tnh podido aqui vir, feri um dedo da mão direita e agr só posso escrever com a esquerda, aliás com um dedo. mas voltarei.

    bjs

    olinda

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  4. Apesar do mundo ser dominado pelas considerações económicas, estou em crer que o amor consegue trazer uma mais-valia à nossa vida. Que o digam os comerciantes, quando se aproxima o dia de S. Valentim.
    Bjs

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  5. Muito boa a poesia de Gonçalo M.Tavares , e eu aprecio muito sua escrita.
    O amor ah o amor Teresa, bem disse Ferreira Gullar em sua crônica que o amor é complicado e de contornos imprecisos, entre abraços e beijos há um contrato, negociável a qualquer momento até mesmo após a morte. E se nao serve ao mundo dos negócios ali está inserido, se há um povo feliz todo mundo amando , a economia prospera , e todo mundo é e vive feliz!( ? )
    que o amor verdadeiro prevaleça e desde já desejo felicidades nesse dia dos namorados na sua terra.
    com beijinhos

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  6. Eu não consigo gostar do Gonçalo M.Tavares.
    Mea culpa...

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