quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Ter ou não ter feriados


Continuam as negociações sobre a redução de feriados, civis e religiosos, a implementar a partir deste ano civil. Ou talvez do próximo, já que a Igreja Católica avisou o Governo de que poderá já não haver tempo útil para alterar o calendário de festividades litúrgicas definido para este ano de 2012.
Gosto tanto de um feriado como outra pessoa qualquer. E nem me passa pela cabeça tomar posição nessa controvérsia do aumento (ou não) da produtividade através da extinção dos feriados. O que realmente me deixa perplexa é o critério utilizado para escolher os feriados a extinguir.
Os feriados religiosos são da responsabilidade da Igreja. Os feriados civis são da responsabilidade do governo e resultam da necessidade de festejar alguma coisa que é importante para a comunidade. E o governo optou pelo 5 de Outubro, que assinala a implantação da República, e o 1.º de Dezembro, que celebra a Restauração da Independência de Portugal. Terá tirado à sorte? O 5 de Outubro, tal como o 25 de Abril, festejam mudanças de regime, do regime monárquico para o republicano, da ditadura para a democracia. Datas significativas, sem dúvida. O 10 de Junho foi um feriado criado no Estado Novo, para exaltar a Pátria, a Raça e o Império. Associaram-lhe Camões e tornou-se o dia de Portugal e das Comunidades Portuguesas. Mas nenhum destes feriados existiria sem a independência do país. Sem o movimento dos Conjurados que, em 1 de Dezembro de 1640, toma o poder e luta, durante vinte e oito anos, pela independência de Portugal e pela recuperação dos territórios sem os quais o país não seria economicamente viável, não haveria Portugal. Sem esse acontecimento refundador da nação, não haveria ocasião para festejar nenhum dos outros feriados. Talvez muitos não se importem. A mim, parece-me absurdo acabar com o feriado do 1.º de Dezembro. Espero que o país não se apague, juntamente com a data!


(Obelisco comemorativo da Restauração da Independência, no Largo dos Restauradores, em Lisboa - imagem da net)

Dúvidas!

Porque às vezes temos de rir, quando pensamos neste nosso mundo. Rir para não chorar!


A ONU resolveu fazer uma grande pesquisa mundial.
A pergunta era:

"Por favor, diga honestamente, qual a sua opinião sobre a escassez de alimentos no resto do mundo."

O resultado foi desastroso. Foi um total fracasso.

Os europeus do norte não entenderam o que é "escassez";
Os africanos não sabiam o que era "alimentos";
Os espanhóis não sabiam o significado de "por favor";
Os norte-americanos perguntaram o significado de "o resto do mundo";
Os cubanos estranharam e pediram maiores explicações sobre "opinião";
O parlamento português ainda está a debater o que significa "diga honestamente".


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

A propósito d' O Anjo Branco



Acabei de ler há pouco tempo o livro de José Rodrigues dos Santos O Anjo Branco, publicado pela Gradiva. Conta a história de José Branco, desde a sua infância em Penafiel, até à sua vida de médico no norte de Moçambique, em plena Guerra Colonial, passando pela sua vivência de jovem universitário em Coimbra. Confesso que não o achei uma grande obra literária. As personagens são pouco elaboradas, unidimensionais. O ritmo da ação é lento, entrecortado por diálogos às vezes repetitivos, pouco profundos. No entanto, a história de José Branco acaba por se tornar um simples pretexto para a verdadeira história do livro, que é o colonialismo em Moçambique nos anos 60 e 70 do século passado, a Guerra Colonial, os contextos sociais e políticos, as motivações, os soldados, os colonos, os funcionários. A PIDE. Os combates e o massacre de Wiriamu. Os participantes e os espectadores. Como documento de uma época, esta é uma obra que vale a pena ler. Talvez não seja um romance histórico, mas é com certeza uma página romanceada da nossa história.
Acho que este livro, tal como outros do mesmo autor, tem um valor documental bastante grande. José Rodrigues dos Santos faz um grande trabalho de pesquisa histórica e, em muitas das suas obras, pinta de uma forma acessível ao grande público um acontecimento ou uma época, integrando o seu contexto histórico: A Ilha das Trevas situa-se em Timor, levando-nos da colonização portuguesa até à ocupação da Indonésia; A Filha do Capitão retrata a sociedade portuguesa do início do século XX, particularmente a participação de Portugal na 1.ª Guerra Mundial; A Vida num Sopro mostra os primórdios da ditadura salazarista, da censura, do corte das liberdades. Com este O Anjo Branco, José Rodrigues dos Santos continua a fazer o retrato do século XX português. Só por isso, merece o meu apreço e os nossos agradecimentos.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

A burocracia da morte

Acabámos de saber que, neste mês de Fevereiro, morreram mais pessoas em Portugal do que o costume nesta época do ano, especialmente acima dos sessenta e cinco anos. O relatório aponta para o frio e a gripe como os grandes responsáveis. Não duvido, claro. Mas penso também que os aumentos dos preços, da energia elétrica às taxas moderadoras, podem ter tido um efeito na qualidade de vida de muitas dessas pessoas, que vivem com pensões e rendimentos diminutos.
Esta situação fez-me lembrar um texto terrível (pela realidade de que levanta o véu) de Maria José Morgado, que encontrei aqui. Mostra-nos um panorama triste, de uma sociedade em falência mais do que económica, de valores familiares e solidários. E faz-me pensar se os gastos com a tal burocracia da morte, de que Maria José Morgado fala, não deveriam ser direcionados para o apoio aos vivos. Enquanto é tempo!
Vale a pena ler.

Morrer em Lisboa

Num destes dias consultava atormentada uma estatística de óbitos na cidade de Lisboa. É a das comunicações da PSP ao MP, sobre cadáveres encontrados abandonados no interior de habitações, na rua ou entrados nos hospitais. Defuntos desamparados, na solidão e na miséria. Entranhas negras da cidade da luz branca onde os mecanismos do apoio social ou familiar se desfazem com a crise, com a desagregação familiar, na indiferença das grandes cidades.
Muitos destes idosos, com pensões inferiores a 500 euros, não tiveram acesso aos lares sociais nem a qualquer assistência. O apoio domiciliário está exaurido. Nas miseráveis habitações de toda uma vida humilde, chegam a descobrir os corpos caídos, putrefactos, cobertos de larvas, em avançado estado de decomposição, ausência de globos oculares, no meio de lixo acumulado e de comida seca e podre. Morte sem assistência médica. Vem descrito em certo processos. morte silenciosa dos desvalidos.
No mês de janeiro foram comunicadas 101 destas mortes, corridas na cidade de Lisboa.
Só nos dias 30 e 31 de Janeiro foram comunicadas 21 mortes solitárias. Foram ordenadas 74 autópsias e dispensadas 27. No mês e dezembro foram comunicadas 76 mortes nas mesmas circunstâncias. Ordenadas 53 autópsias e dispensadas 23.
Este serviço do DIAP de Lisboa regista uma média mensal de 70 óbitos. Cada autópsia oscila entre cerca de 700 e 3000 mil euros, consoante os casos. São ordenadas em caso de dúvida sobre a causa da morte.
O maior número de mortes situa-se entre os setenta, oitenta e nove anos. Há mais homens do que mulheres a morrer nestas circunstâncias trágicas. Segue-se a absurda burocracia da morte. A PSP comunica ao MP a existência do cadáver que só pode ser removido com autorização do MP. O delegado de saúde verifica o óbito. Um perito do Instituto Nacional de Medicina Legal faz o exame do hábito externo do cadáver.
O MP providencia o funeral digno e humilde com o apoio da Santa Casa da Misericórdia ou de outra instituição social. Quando se regista a existência de bens, ainda que sejam vasos de plástico com flores de plástico, ainda que sem valor comercial, é obrigatório participar ao tribunal cível num processo de herança jacente. Estes bens sem herdeiros e sem valor revertem para o estado que não os quer e que gastou mais nesta diligência do que se lhes tivesse dado um destino expedito.
É o zelo absurdo da burocracia da morte depois do desamparo em vida. Um esmagador silêncio rodeia tudo. As famílias, os filhos desapareceram. O estado social também.
Há uma procuradora-adjunta de turno, com um telemóvel disponível 24 horas sobre 24 horas, para que ao menos não haja atrasos na autorização da remoção dos cadáveres encontrados em casa ou na via pública. Há o trabalho da PSP e do Instituto de Medicina Legal. Fazemo-lo com o desejo de respeitar a dignidade do ser humano até ao fim. Fazemo-lo no departamento que, tendo por missão principal o combate ao crime também este estranho serviço de óbitos.
Estranho mundo, este. 




sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Se isto não é o céu, são os arrabaldes!

Aproxima-se mais um fim de semana de sol, com tudo o que tem de positivo e de negativo. Negativo, pelos problemas que a seca já está a criar no setor agro-pecuário nacional, positivo para quem vive na cidade e espera pelo fim de semana para dar uma voltinha e carregar as baterias. Por isso, deixo aqui a minha sugestão para um belo passeio, entre a serra e o mar. 

(O Portinho da Arrábida)

Não é longe. A uma hora de Lisboa, à saída de Setúbal, situa-se a serra da Arrábida. É difícil inventariar tudo o que se pode descobrir na serra, os passeios que aí se podem dar, os petiscos que se podem comer nas redondezas, do choco frito de Setúbal às tortas de Azeitão. Para passeios pedestres, aconselho uma vista de olhos às propostas da SAL (Sistemas de Ar Livre), sempre interessantes e bem organizadas. Mas, para os preguiçosos que gostam de andar de carro ou de mota, há uma rota totalmente irresistível.
A melhor hipótese é sair de Setúbal na direção das praias da Figueirinha e Portinho. O passeio é todo à beira-mar. A estrada serpenteia à beira das falésias da serra, deixando entrever o mar sereno e brilhante por entre as árvores. Se o trânsito não for muito intenso, talvez seja boa ideia parar para retemperar as forças no Portinho da Arrábida. Porque a partir daí a o caminho é sempre a subir, até ao cume da serra, por onde a estrada segue de volta, novamente, a Setúbal. Se a estrada de ida era belíssima, por entre as árvores e junto ao mar, agora, do alto da serra, a paisagem é esplendorosa. Da península de Tróia a toda a foz do Sado, até às falésias da serra que caiem sobre o mar, a vista é de cortar a respiração.

(Vista da foz do Sado a partir do alto da serra)

Conta-se que, no século XVI, um frade franciscano que por ali passeava ficou tão impressionado com a paisagem e o ambiente envolvente, que terá exclamado: "Se isto não é o céu, são os arrabaldes!" E assim se teriam ali instalado os frades franciscanos arrábidos, no convento que ainda se pode ver, meio escondido por entre o verde da serra. O próprio convento é uma pérola, com as suas instalações muito brancas no meio do arvoredo e as ermidas que se espalham para o alto da serra. 
Após a expulsão das ordens religiosas, em 1834, o convento ficou abandonado e sofreu roubos e vandalismos variados. Hoje, pertence à Fundação Oriente, foi reabilitado e aí se realizam diversos eventos e reuniões. Pode ser visitado, com marcação prévia. Mais informações aqui.


(O Convento da Arrábida)

(Fotografias de Teresa Diniz)

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Alguém viu a princesa da Tailândia?

É que eu não consegui ver. Fiz zapping por todos os telejornais e, talvez por pouca sorte minha, só apanhei as notícias do costume, que se repartem, de modo idêntico, entre a crise e o futebol. Poderá ter havido alguma reportagem,  mas pequenina, envergonhada, despercebida. Parece-me que a nossa comunicação social não percebeu bem a importância da oferta tailandesa a Portugal, a prova de respeito e amizade que, cruzando o tempo, pode constituir-se numa relação privilegiada. Mas não foi só a comunicação social. O nosso Presidente da República também não se dignou aparecer, sendo representado pela primeira-dama e pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Portas. Quem só entende a linguagem dos números não percebe como a linguagem dos afetos pode ser importante na própria economia.
Felizmente, há quem perceba. D. Duarte de Bragança esteve presente, numa representação suprapartidária e intemporal do povo que há cinco séculos se ligou ao povo tailandês. Transcrevo as palavras seguintes, surripiadas do blogue Combustões.
 SAR o Senhor Dom Duarte, Duque de Bragança, descendente dos Reis que construíram e animaram as relações entre a Coroa portuguesa e o velho reino do Sião, foi recebido pelo Chefe do Protocolo de Estado, Embaixador Bouza Serrano e pelo Embaixador Carlos Pais, responsável no MNE pela "Comissão Celebrações Ásia". Em conversa com SAR, agora regressado de Macau e Timor, falou-se na possibilidade de, em ocasião a agendar, a família real portuguesa visitar a Tailândia e ali testemunhar a perdurabilidade e profundidade da estima de que goza o nome de Portugal.



(Video da Câmara Municipal de Lisboa )
Vale a pena ver e ouvir.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

O Sião em Belém

Hoje, a princesa Maha Chakri Sirindhorn, herdeira do trono tailandês, está em Lisboa para inaugurar a Sala Thai, um pavilhão tailandês oferecido pelo seu país a Portugal no âmbito das comemorações dos 500 anos de relações diplomáticas entre os dois países.
Foi em 1511 que o navegador português Duarte Fernandes aportou a Ayuthaya, capital do Reino do Sião (atual Tailândia). Foi bem recebido pelo rei, firmando com ele uma aliança que ainda hoje se mantém. Para comemorar tão antiga aliança, o governo tailandês encomendou e construiu em Banguecoque o pavilhão que foi depois transportado de barco até ao Jardim Vasco da Gama, em Belém, onde está montado desde o final do ano passado.



Esta obra lindíssima foi concebida pelo arquitecto  Athit Limmu e acabou por representar o «símbolo da amizade» entre os dois países, por se inspirar nas linhas arquiteturais da cidade de Banguecoque e no Mosteiro dos Jerónimos. O telhado foi coberto com placas que se assemelham à pele de um dragão ou às escamas de um peixe, enquanto os pináculos são anjos estilizados. Na parte de baixo existe um quase varandim inspirado nas ogivas dos Jerónimos em tons verdes. Porém, é o dourado a cor dominante, conseguida com mil finas folhas de ouro.
Esta é a minha sugestão para um passeio de fim de semana ou, quem sabe, ainda hoje ou amanhã para quem tem a sorte de ter tolerância de ponto. É um passeio pobrezinho, até Belém, mas é bem compensado pela sumptuosidade do Pavilhão Thai. A não perder.

Mais informações aqui.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Cantar a crise

Depois das boas notícias da área da cultura, voltam as más notícias: o desemprego continua a aumentar e as previsões para este ano são tudo menos animadoras. 
Como é costume, os portugueses reagem com o humor, uma espécie de sarcasmo resignado, ou uma resignação sarcástica. No seu último trabalho Boss para os amigos, Boss AC canta a crise, a falta de emprego, a falta de dinheiro, a desesperança de uma juventude que se sente defraudada. Sempre com humor: "Ó mãe, fazias-me era rico em vez de bonito!" Com muito sentido de oportunidade, a SIC Notícias fez um spot  intercalar com esta canção e imagens da atualidade. Vale mesmo a pena ver e ouvir. E refletir.


domingo, 19 de fevereiro de 2012

Um Urso de Ouro português

Faz hoje 28 anos. Mas João Salavisa tem uma dupla razão para festejar. Ontem, na prestigiada Berlinale 2012, o Festival de cinema de Berlim, ganhou o Urso de Ouro para a melhor curta-metragem, com o seu filme "Rafa", que conta a história de um miúdo de 13 anos que deixa a sua casa nos súburbios para procurar a mãe, detida numa esquadra de polícia de Lisboa por conduzir sem carta. No seu agradecimento, perante 1600 espetadores, disse ainda que dedicaria o prémio ao governo português. "Mas só na condição de nos ajudarem nos próximos anos, porque não sabemos o que vai acontecer com o nosso cinema", acrescentou. 
João Salavisa estudou Realização na Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa e desde 2005 que vem a acumular prémios, entre os quais se distingue, já em 2009, a Palma de Ouro do Festival de Cannes com a sua curta-metragem "Arena". Foi o primeiro português a obter tal prémio.
Também o filme “Tabu”, de Miguel Gomes, foi distinguido com o prémio Alfred Bauer para a inovação, um dia depois de ter lhe ter sido atribuído o prémio especial da crítica, no mesmo Festival de Cinema de Berlim. 
Decididamente, o cinema português está de parabéns e João Salavisa pelo seu sucesso no dia em que festeja os seus 28 anos.

(João Salavisa mostrando o galardão, em Berlim)

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

A Simplesmente Maria

Comemorou-se esta semana (mais precisamente no dia 13) o Dia Mundial da Rádio. Contrariamente ao que previam os profetas da desgraça, a rádio não desapareceu com o desenvolvimento da televisão. Continua de boa saúde e a fazer companhia aos automobilistas durante as longas horas de deslocações a que todos estamos sujeitos. Mas não há dúvidas de que já não tem a importância que tinha noutros tempos. Nos dias da minha infância, tinha centralidade na vida diária, acompanhava as tarefas domésticas e todos conheciam os principais programas e cantarolavam os mesmos anúncios. 
Tudo isto fez-me lembrar a "Simplesmente Maria". Quem se recorda? Era uma rádio-novela, ou folhetim radiofónico, que passava diariamente na Rádio Renascença. Começou em 1973 e só terminou nos finais de 1974, tendo feito a transição revolucionária sem perturbações. Era transmitida a seguir ao almoço e Portugal quase parava para ouvir a "Simplesmente Maria". O nome já diz muito: era uma história para fazer chorar as pedras da calçada. A Maria era uma jovem ingénua, que vinha da província para Lisboa para trabalhar. Aí, conheceu um malandrão bem parecido, que a engana e abandona, grávida. Maria tem o apoio de outro rapaz, esse honesto e trabalhador, que a vai ajudar a subir na vida. Havia um Tony, não me lembro se era o honesto ou o malandrão. O que me lembro muito bem é que toda a gente suspirava pelas desventuras da pobre Maria, incluindo as minhas tias-avós. E só me recordo de um entusiasmo parecido, muitos anos depois, com a transmissão da primeira telenovela, "Gabriela". 



Havia também uma revista semanal, uma fotonovela, com os episódios da "Simplesmente Maria". Aqui está uma delas. São relíquias de uma época muito distante, no tempo e mentalidade.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Um momento no Tempo

Morreu no dia 11 deste mês, inesperadamente. Whitney Houston foi encontrada morta na banheira, numa casa de banho de um hotel. Excesso de comprimidos ou de qualquer outro produto? Seguramente, excesso de sonhos não cumpridos, de desilusões, de falta de esperança. É muito difícil lidar com a fama, com a exposição mediática. Não vou entrar em especulações sobre as causas da morte. Apenas quero expressar o meu pesar pela morte de uma grande cantora, possuidora de uma voz absolutamente única. 
Esta é uma das canções que eu prefiro. One moment in time. Um momento no tempo, em que encontrou a eternidade.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Das idades do amor


Termina hoje a maratona de textos sobre o amor que me propus apresentar nesta quinzena, assim como uma espécie de preparação para o Dia dos Namorados, o dia de S. Valentim, que se celebra amanhã.  Queria terminar com um texto especial, e nenhum melhor do que esta pequena reflexão de José Saramago sobre o amor. Haverá uma idade para o amor? Se o amor é a disponibilidade de entrega de uma pessoa a outra, então todas as idades são certas. 

Penso saber que o amor não tem nada que ver com a idade, como acontece com qualquer outro sentimento. Quando se fala de uma época a que se chamaria de descoberta do amor, eu penso que essa é uma maneira redutora de ver as relações entre as pessoas vivas. O que acontece é que há toda uma história nem sempre feliz do amor que faz que seja entendido que o amor numa certa idade seja natural, e que noutra idade extrema poderia ser ridículo. Isso é uma ideia que ofende a disponibilidade de entrega de uma pessoa a outra, que é em que consiste o amor. 

Eu não digo isto por ter a minha idade e a relação de amor que vivo. Aprendi que o sentimento do amor não é mais nem menos forte conforme as idades, o amor é uma possibilidade de uma vida inteira, e se acontece, há que recebê-lo. Normalmente, quem tem ideias que não vão neste sentido, e que tendem a menosprezar o amor como factor de realização total e pessoal, são aqueles que não tiveram o privilégio de vivê-lo, aqueles a quem não aconteceu esse mistério. 

José Saramago, in "Revista Máxima, Outubro 1990"


(José Saramago, imagem retirada de Google images)

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Do amor em português

O amor expressa-se em atos, emoções, mas também em palavras. Como escolher essas palavras? Os portugueses são tímidos, no que diz respeito à expressão dos sentimentos, são contidos, têm medo de parecer parolos, ou até piegas (agora que esta palavra entrou em força no nosso vocabulário...), têm receio de ser mal entendidos, gozados, expostos. E, em resultado dessa contenção, atrapalham-se nas palavras até lhes alterarem os próprios significados. Miguel Esteves Cardoso escreveu sobre isso, com a graça e a qualidade que já lhe conhecemos. Tão difícil escolher um texto de MEC, escolher só um!

Mesmo que Dom Pedro não tenha arrancado e comido o coração do carrasco de Dona Inês, Júlio Dantas continua a ter razão: é realmente diferente o amor em Portugal. Basta pensar no incómodo fonético de dizer «Eu amo-o» ou «Eu amo-a». Em Portugal aqueles que amam preferem dizer que estão apaixonados, o que não é a mesma coisa, ou então embaraçam seriamente os eleitos com as versões estrangeiras: «I love you» ou «Je t'aime». As perguntas «Amas-me?» ou «Será que me amas?» estão vedadas pelo bom gosto, senão pelo bom senso. Por isso diz-se antes «Gostas mesmo de mim?», o que também não é a mesma coisa. 

O mesmo pudor aflige a palavra amante, a qual, ao contrário do que acontece nas demais línguas indo-europeias, não tem em Portugal o sentido simples e bonito de «aquele que ama, ou é amado». Diz-se que não sei-quem é amante de outro, e entende-se logo, maliciosamente, o biscate por fora, o concubinato indecente, a pouca vergonha, o treco-lareco machista da cervejaria, ou o opróbio galináceo das reuniões de «tupperwares» e de costura. 
Amoroso não significa cheio de amor, mas sim qualquer vago conceito a leste de levemente simpático, porreiro, ou giríssimo. Quem disser «a minha amada» — ou, pior ainda, «o meu amado» — arrisca-se a não chegar ao fim da frase, tal o intenso e genuíno gáudio das massas auditoras em alvoroço. Amável nunca quer dizer «capaz de ser amado», e, para cúmulo, utiliza-se quase sempre no pretérito («Você foi muito amável em ter-me convidado para a inauguração da sua Croissanterie»). Finalmente um amor é constantemente aviltado na linguagem coloquial, podendo dizer-se indistintamente de escovas de dentes, contínuos que trazem os cafés a horas, ou casinhas de emigrantes. (O que está a acontecer com o adjectivo queridoconstitui, igualmente, uma das grandes tragédias da nossa idade.) 

Talvez a prática mais lastimavelmente absurda, muito usada na geração dita eleita, seja aquela de chamar amigas às namoradas. Isto porque os portugueses, raça danada para os eufemismos, também têm vergonha das palavras namorado enamorada. Quando as apresentam a terceiros, nunca dizem «Esta é a Suzy, a minha namorada» — dizem sempre «Esta é uma amiga minha, a Suzy», transmitindo a implícita noção, muito cara ao machismo lusitano, de que se trata de uma entre muitas. E, também assim, como se não lhes bastasse dar cabo do Amor, vão contribuindo para o ajavardamento semântico da Amizade. 



(Miguel Esteves Cardoso, imagem do Google images)

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Da economia do amor


Mas, afinal, será que o amor é viável, nos países humanos? Num mundo dominado pela economia, controlado pelos mercados, qual é o valor do amor? Não é uma mercadoria transacionável, não rende juros, não desenvolve as indústrias nem os países. Ou será que não é assim?
Gonçalo M. Tavares é um dos nossos escritores mais premiados, nos últimos tempos. Vale a pena ouvir o que ele tem a dizer a esse respeito.


138 
A vida, é certo, não será um sítio excepcional para as paixões. 
Nos países humanos, o amor mistura-se muito 
com palavras equívocas. 
0 fogo que existe numa lareira, por exemplo, 
é um fogo servil, cultural, educado. 
Uma coisa vermelha, mas mansa, 
que nos obedece. 
Só é natureza, o fogo na lareira, 
quando, vingando-se, provoca um incêndio. 
E o amor assim funciona. Mas é preferível o contrário. 

139 
É desarranjo de estratégias e planos, 
surpresa ritmada, uma ilegalidade exaltante que não prejudica 
os vizinhos. 
Mas atenção, de novo: o amor não faz bem aos países, 
não desenvolve as suas indústrias, nem a economia. 
Disso nunca tive dúvidas. E por isso é preferível não. 

140 
No entanto, qual é o país que pode impedir que o amor 
entre? Não é mercadoria traficada em caixas, 
que as caixas são objectos que se abrem ao meio 
— e é possivel, com uma lanterna, olhar lá para dentro. 

141 
0 amor não se vê como 
se fosse uma presença. 
É demasiado completo 
para ter uma forma. E como jamais 
se conseguiram obter juros de uma coisa 
que não ocupa espaço, é preferível não, 
parece-me. 

Gonçalo M. Tavares, in "Uma Viagem à Índia"


(Gonçalo M. Tavares, foto retirada do Google Images)

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Das estratégias de atração

Já se falou aqui nos exemplos dos animais, a propósito da fidelidade. Comparámos cisnes e ursos polares (a comparação vale o que vale, pois claro!). Até trouxemos aqui a louva-a-deus! Mas agora vou levar o desafio mais longe: com quem nos podemos comparar em termos de técnicas de atração? Até que ponto nos distanciámos já dos nossos primos mamíferos? Para nos ajudar, escolhi um texto de um professor universitário especializado em Bioética ou, dito de forma mais simples, alguém que passou a vida a bisbilhotar a vida privada dos animais, George Stilwell.

Os grandes criativos nas estratégias de atração são as aves - é a mudança de guarda-roupa, são as exibições divinais de canto, são os deslumbrantes passos de dança, é o voo acrobático, é a construção de apartamentos de luxo, é a proteção da companheira... e mais uma infinidade de truques para conseguir alguns segundos de glória. Realmente não há comparação com os trapalhões dos mamíferos, que se limitam a urinar contra um tronco, andar à zaragata com rivais e seguir as fêmeas com olhos esbugalhados e saliva a pender do canto da boca.

                          (George Stilwell, Quando os macacos se apaixonam)


Não encontrei uma fotografia do autor do texto, mas esta imagem do nosso primo mais próximo também me pareceu apropriada.


terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Da separação


E quando o amor se acaba? Quando chega uma separação, forçada ou intencional, prevista ou inesperada? O nosso mundo fica em ruínas para sempre... ou até ao momento em que o coração, um músculo trabalhador, recomeça a bater por outro amor. Ainda bem que é assim!
Martha Medeiros é uma jornalista, escritora e poetisa brasileira, e eu gosto muito de ler os seus textos. Neste, ela fala precisamente sobre esse trauma que, provavelmente, já sacudiu a vida que quase todos nós, a separação.

O amor, tão nobre, tão denso, tão intenso, acaba. Rasga a gente por dentro, faz um corte profundo que vai do peito até a virilha, o amor se encerra bruscamente porque de repente uma terceira pessoa surgiu ou simplesmente porque não há mais interesse ou atração, sei lá, vá saber o que interrompe um sentimento, é mistério indecifrável. Mas o amor termina, mal-agradecido, termina, e termina só de um lado, nunca se encerra em dois corações ao mesmo tempo, desacelera um antes do outro, e vai um pouco de dor pra cada canto. Dói em quem tomou a iniciativa de romper, porque romper não é fácil, quebrar rotinas é sempre traumático. Além do amor existe a amizade que permanece e a presença com que se acostuma, romper um amor não é bobagem, é fato de grande responsabilidade, é uma ferida que se abre no corpo do outro, no afeto do outro, e em si próprio, ainda que com menos gravidade. 

E ter o amor rejeitado, nem se fala, é fratura exposta, definhamos em público, encolhemos a alma, quase desejamos uma violência qualquer vinda da rua para esquecermos dessa violência vinda do tempo gasto e vivido, esse assalto em que nos roubaram tudo, o amor e o que vem com ele, confiança e estabilidade. Sem o amor, nada resta, a crença se desfaz, o romantismo perde o sentido, músicas idiotas nos fazem chorar dentro do carro. 

Passa a dor do amor, vem a trégua, o coração limpo de novo, os olhos novamente secos, a boca vazia. Nada de bom está acontecendo, mas também nada de ruim. Um novo amor? Nem pensar. Medo, respondemos. 

Que corajosos somos nós, que apesar de um medo tão justificado, amamos outra vez e todas as vezes que o amor nos chama, fingindo um pouco de resistência mas sabendo que para sempre é impossível recusá-lo.

(Martha Medeiros, fotografia do Google images)

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Das horas extrordinárias do amor


Hoje, para variar, escolhi um texto muito pequenino. Mas a quantidade não  tem de diminuir a qualidade e, nesse aspeto, é exemplar da rede social que hoje domina as relações sociais na internet, o Facebook. Este pequeníssima história de amor foi aí publicada na forma de Micro-Conto, através da página com o mesmo nome. Não posso prestar homenagem ao autor destas palavras, o conto não está assinado. Em poucas palavras, toda a intensidade do sentimento.

Desde que ela para ali fora trabalhar que era evidente a cumplicidade entre ambos. Cedo começaram a trocar olhares e palavras doces. Naquela tarde de Abril, numa reunião a dois, trocaram os primeiros beijos. Apesar de tudo ter acontecido durante o expediente, foram horas extraordinárias.
(Micro-Contos, Facebook)


(Gustave Klimt "O Beijo", 1907-1908; óleo e folha de ouro sobre tela)

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Das razões do amor


Mas, afinal, amamos porquê? Porquê aquela pessoa e não a outra? Qual é o mecanismo? Há algum fenómeno químico, psicológico, hormonal, que leve ao amor? Não sei se António Damásio já nos poderá dar alguma resposta a tão antiga questão. Arnaldo Jabor, cineasta e jornalista brasileiro, tem uma teoria sobre isso que vale a pena ler.

Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo a porta.
O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão. O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar.
Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referenciais.
Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca.
Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera.
Você ama aquela petulante. Você escreveu dúzias de cartas que ela não respondeu, você deu flores que ela deixou a seco.
Você gosta de rock e ela de chorinho, você gosta de praia e ela tem alergia a sol, você abomina Natal e ela detesta o Ano Novo, nem no ódio vocês combinam. Então?
Então, que ela tem um jeito de sorrir que o deixa imobilizado, o beijo dela é mais viciante do que LSD, você adora brigar com ela e ela adora implicar com você. Isso tem nome.
Você ama aquele cafajeste. Ele diz que vai e não liga, ele veste o primeiro trapo que encontra no armário. Ele não emplaca uma semana nos empregos, está sempre duro, e é meio galinha. Ele não tem a menor vocação para príncipe encantado e ainda assim você não consegue despachá-lo.
Quando a mão dele toca na sua nuca, você derrete feito manteiga. Ele toca gaita na boca, adora animais e escreve poemas. Por que você ama este cara?
Não pergunte pra mim; você é inteligente. Lê livros, revistas, jornais. Gosta dos filmes dos irmãos Coen e do Robert Altman, mas sabe que uma boa comédia romântica também tem seu valor.
É bonita. Seu cabelo nasceu para ser sacudido num comercial de xampu e seu corpo tem todas as curvas no lugar. Independente, emprego fixo, bom saldo no banco. Gosta de viajar, de música, tem loucura por computador e seu fettucine ao pesto é imbatível.
Você tem bom humor, não pega no pé de ninguém e adora sexo. Com um currículo desse, criatura, por que está sem um amor?
Ah, o amor, essa raposa. Quem dera o amor não fosse um sentimento, mas uma equação matemática: eu linda + você inteligente = dois apaixonados. Não funciona assim.
 
Amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC. Ama-se justamente pelo que o Amor tem de indefinível.
Honestos existem aos milhares, generosos têm às pencas, bons motoristas e bons pais de família, tá assim, ó!
Mas ninguém consegue ser do jeito que o amor da sua vida é! Pense nisso. 

(Arnaldo Jabor, Google Images)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Da razão dos ursos não terem Alzheimer

O texto sobre o amor que escolhi para hoje é provocador, tal como é provocador o seu autor, Rui Zink. Mas levanta uma questão interessante: Qual será a melhor forma de amar? Provavelmente, esta pergunta não tem apenas uma resposta, tem tantas quantas as personalidades que lhe tentarem responder. Daí que eu proponha um exercício simples. Todos conhecemos pessoas que, em matéria de amor, se assemelham ao Louva-a-deus, ao Cisne e ao Urso Polar. Qual o estilo de amor com que mais nos identificamos?


Descobri, um pouco tarde, que afinal todos os meus livros são histórias de amor. Só que as daninhas estavam tão bem disfarçadas que eu próprio não tinha reparado.  O amor não salva, nunca salva, mas alguém tem uma ideia melhor? 
Tão sensacional descoberta levou-me a cogitar no seguinte: e qual será a melhor forma de amar? Carente de modelos reais na vida humana, decidi procurá-los na natureza. Com a ajuda da televisão, claro, Canal Odisseia, National Geographic, Canal Panda, essas coisas. Pode-se lá chegar à natureza, nos dias que correm, senão pela televisão! Três modelos logo me saltaram à vista: o Amor do Louva-a-deus; o Amor do Cisne; o Amor do Urso Polar. 
Após alguma esmiuçação, concluí que qualquer um me parece bem, e tem as suas vantagens e desvantagens. 
No romance do louva-a-deus, a fêmea devora o macho depois da cópula. É natural, toda a gente sabe que a gravidez estimula o apetite. E seria bem pior se ela o devorasse antes da consumação. 
O cisne acasala para a vida. É bonito. Lembra certos parzinhos que encontramos sobretudo na noite boémia, muito perfeitos, muito encapsulados, o mundo é deles, o mundo são eles. Gosto, mas como nunca experimentei sinto-me sempre um bocadinho do outro lado da vitrina, a definhar de inveja. 
Pronto, confesso. O que, esse sim, me toca profundamente é o amor do urso polar. É esquivo, dura pouco – pelo menos a parte do encontro. Urso polar e ursa polar namoram e acasalam brevemente, e logo se apartam, cada um para seu lado, para todo o sempre, a fêmea talvez com uma cria, o macho continuando a sua caminhada, glaciares fora, de nenhures em direcção a nenhures. 
Vai solitário e triste, o nosso urso? Talvez. Eu gosto de pensar que vai de coração cheio, e que a brevidade do encontro é compensada pela intensidade da memória. Tanto quanto sei, não há ursos com Alzheimer. 

Rui Zink, in "O Amante é Sempre o Último a Saber"


(Rui Zink, imagem do Google images)

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Do prazer da partilha

Inicia-se hoje, aqui neste blogue, uma quinzena dedicada exclusivamente ao amor. O pretexto é o dia dos Namorados, que se festeja no dia 14 de fevereiro, mas é apenas isso mesmo, um pretexto, para celebrar o sentimento mais forte de que o ser humano é capaz: o Amor. Há muitas espécies de amor, maternal, filial, fraternal, mas o que aqui se comemora é mesmo esse sentimento inexplicável que faz um ser desejar outro ser, não um qualquer, mas apenas aquele, o que faz sonhar, chorar, provoca suores frios, crises de taquicardia e, eventualmente, uma sensação de felicidade e plenitude.
Muito já se disse e escreveu sobre o amor. Resolvi ir buscar alguns desses textos e reproduzi-los aqui no blogue, ao longo destes dias. A escolha é minha, e portanto criticável, são textos de que eu gosto, escritos por pessoas que gosto de ler. Cada um dá uma face diferente desse sentimento. Gostava que me dessem a vossa opinião, mesmo que seja muito crítica ou negativa. Afinal, não há sentimento que provoque reações tão diversas.
Para começar, e porque a conversa já vai longa, escolhi um pequeno texto de José Luis Peixoto, sobre as coisas ridículas que, feitas ao lado da pessoa amada, até se tornam interessantes e divertidas. Ou, simplesmente, sobre o prazer da partilha. 

"As canções e os poemas ignoram tanto acerca do amor. Como se explica, por exemplo, que não falem dos serões a ver televisão no sofá? Não há explicação. O amor também é estar no sofá, tapados pela mesma manta, a ver séries más ou filmes maus. Talvez chova lá fora, talvez faça frio, não importa. O sofá é quentinho e fica mesmo à frente de um aparelho onde passam as séries e os filmes mais parvos que já se fizeram. Daqui a pouco começam as televendas, também servem."

                           (José Luis Peixoto in Visão , janeiro de 2012)

(José Luis Peixoto, Google images)