sábado, 13 de junho de 2009

Nos Passos de Pessoa


Hoje, 13 de Junho, é dia de Santo António, como toda a gente sabe. Neste dia, em 1888, nasceu outro português notável, a quem foi dado o nome de Fernando António, em homenagem ao Santo. Refiro-me a Fernando Pessoa, como também quase toda a gente sabe. Aproveitando esta efeméride, o SAL (Sistemas de Ar Livre) organizou um passeio pela Lisboa pessoana, a que chamou “Nos Passos de Pessoa”. Foi um passeio muito agradável, que se iniciou em frente ao Teatro de S. Carlos, junto ao prédio onde Fernando Pessoa nasceu e o seu pai ouvia os ensaios das óperas sobre as quais, depois, escrevia as suas críticas.



Passámos pelos cafés e espaços que frequentou e, a propósito deles, revisitámos locais significativos da cidade. Por muito que se conheça uma cidade, é sempre possível encontrar novos olhares, conhecer novas histórias, descobrir um recanto ou um significado diferente para o recanto onde já passámos dezenas de vezes.

Isto também acontece com Lisboa. Há muitas pessoas que dizem que conhecem Lisboa porque habitam no Cacém ou em Rio de Mouro e trabalham em Chelas ou Sacavém. Na verdade, a única coisa que conhecem é o IC 19 e a 2.ª Circular e, ao fim-de-semana, o Centro Comercial Colombo. De vez em quando, temos de ser turistas na nossa própria cidade.

Apetece-me terminar com um poema de Fernando Pessoa, relembrado hoje pelo guia da SAL.

LISBON REVISITED (1923) - ÁLVARO DE CAMPOS

NÃO: Não quero nada.
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!

Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!

Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

Álvaro de Campos

4 comentários:

  1. Que belo passeio! Fiquei com pena de não o ter feito! Ainda bem que, ao menos, o pude fazer aqui, nas suas linhas.

    Gostei muito.

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  2. Marta
    Obrigada pela visita e pelo comentário. Lisboa é tão bonita que até os lisboetas conseguem gostar dela! Agora a sério, amo a minha cidade e tenho escrito bastante sobre ela (etiqueta: Lisboa). Não posso deixar de gabar também a SAL, que organiza passeios muito interessantes, em toda a zona de Lisboa e Setúbal.
    Beijinho e volte sempre.
    Teresa

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  3. Teresa,

    adoro Lisboa! Só não é minha segunda casa porque trocar pelo mesmo não há graça!

    Obrigado pelos seus comentarios, e pela participação aqui na Tertúlia!

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  4. Olá outra vez Eduardo
    Eu costumo dizer que Lisboa é tão bonita que até os lisboetas gostam dela. Eu amo a minha cidade.
    Se procurar na etiqueta "Lisboa" tenho algumas postagens sobre Lisboa que, se calhar, lhe agradam.
    Passeie por lá e depois diga-me a sua opinião.
    Bjs
    Teresa

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