sexta-feira, 12 de junho de 2009

Metropolitano


Que me perdoem os indefectíveis adeptos dos transportes automóveis, mas eu, decididamente, prefiro o metropolitano. Por muitas razões: em Lisboa nunca há um sítio para estacionar quando precisamos dele; perdemos horas infinitas em filas de trânsito igualmente infinitas; de metro, acabamos por chegar onde queremos mais depressa e com menos ansiedade. Mas tenho de confessar que há outras razões, de que eu geralmente não falo. O automóvel faz-me sentir dentro de uma cápsula, isolada dos outros. Quem vive num prédio com garagem, pode sair de manhã para a sua cápsula, estaciona no parqueamento privativo da companhia onde trabalha, faz o seu dia de trabalho, sai, vai ao centro comercial, onde volta a estacionar no parque subterrâneo, faz as suas compras, ou vai ao cinema, ou faz qualquer outra coisa, e volta para casa, para a sua garagem. Pode passar dias inteiros sem interagir com os seus concidadãos, sem mesmo sentir a brisa da tarde ou o calor do sol, a não ser filtrado pelo ar condicionado do automóvel. Confesso que só de pensar nisso tenho um ataque de claustrofobia!


(Giacomo Balla, Velocidade abstracta)

Eu, como já disse, gosto de andar de metropolitano, ou de eléctrico, ou de comboio. Gosto da mistura de gentes que se encontra nos transportes públicos. Os seres humanos são um imenso campo de observação e há sempre coisas interessantes para observar. Quando me sento numa carruagem de metropolitano, são as pessoas que me despertam a atenção. No comboio, por exemplo, as pessoas olham para a paisagem que passa lá fora. No metro não, lá fora só há escuridão, não há para onde olhar. Eu gosto de olhar para as pessoas, imaginar o que fazem, para onde vão, o que pensam, como vivem. Geralmente, as pessoas que viajam sozinhas refugiam-se no jornal, ou no telemóvel, ou fixam um ponto indefinido, à sua frente. Evitam-se os olhares, ultrapassa-se esta proximidade forçada. Cada um cria um pequeno mundo fechado à sua volta, que às vezes abre brechas.

Há uns dias atrás, eu viajava na linha verde, em direcção à Baixa. A carruagem levava muita gente, incluindo turistas espanhóis, ou sul-americanos, que comunicavam ruidosamente entre os diversos bancos por onde se espalhavam. Numa das estações, entrou um homem cego a tocar acordeão. Provavelmente por um acaso, começou a tocar uma música sul-americana, uma daquelas antigas, que toda a gente conhece. Ouviu-se uma exclamação do grupo dos turistas, que começou a cantarolar. Primeiro só alguns, depois mais, por fim todo o grupo acompanhava o acordeonista cego. Os outros viajantes entreolhavam-se, alguns riam, outros começaram a trautear também os versos conhecidos. Criou-se um ambiente engraçado, de cervejaria alemã, ou café-concerto. Nos Restauradores, o acordeonista saiu, depois de receber algumas moedas. O grupo de turistas saiu também, ainda a arrastar restos da cantoria. Os outros viajantes voltaram para os seus pequenos mundos fechados. E eu saí no Rossio, pensando com os meus botões que, se tivesse vindo de carro, tinha perdido aquele momento especial.

2 comentários:

  1. Adoro a frase que colocou no blog de Pablo Neruda.
    Cidadelhe é de facto um sítio muiot especial, para isso é necessário visitar os três pontos que eu indico: aldeia de baixo, o Poio do Gato e o Castro. Falta-me conhecer as gravuras, que estão junto ao Côa.

    Belo artigo.
    Tb. sou professor.

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  2. Obrigada pela visita e pelo comentário.
    Também gostei muito do seu texto. Na verdade, gosto muito de viajar, tanto para fora, como aqui mesmo em Portugal, onde há tanta coisa ainda para ver, como Cidadelhe.
    Apareça por aqui. Tenho alguns textos, no blog,sobre locais que vou visitando e que acho interessantes.
    Bjs

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