quinta-feira, 18 de junho de 2009

A Figueira da Foz e Jorge de Sena

Há umas três semanas atrás, fui almoçar à Figueira da Foz. Não fui de propósito, fui de caminho para outros lados, mas estorricava-se em Lisboa e soube muito bem passear pela avenida marginal figueirense com uns simpáticos 26º C. Gosto da Figueira da Foz, embora nada de especial me prenda a ela, não faz parte da geografia emocional da minha vida. Assim, foi com um olhar descomprometido que caminhei pela marginal e dei comigo a pensar em Jorge de Sena. É na Figueira da Foz que se desenrola a maior parte da história do seu livro “Sinais de Fogo”. Parece-me que vejo Jorge e Mercedes sentados num banco da avenida, combinando os seus encontros. Imagino que vejo o Rodrigues a surgir detrás de um barquito, na praia de Buarcos. Vejo as barracas na praia e relembro as saborosas descrições dos comportamentos na praia e das distinções sociais a eles associadas: alugar uma barraca significava uma coisa diferente de alugar um simples toldo! E destas considerações se alimentava a burguesia portuguesa nesses anos 30 do século XX, em que se desenrola o romance. E, embora o Jorge protagonista da história seja um alter-ego do próprio Jorge de Sena, e o romance uma espécie de parábola iniciática, para mim é, acima de tudo, uma vista panorâmica da sociedade portuguesa da época. Pelo menos, de uma fatia dessa sociedade, a burguesia que vai a banhos anualmente, para a Figueira da Foz. É a desmontagem de uma moral hipócrita e mesquinha, feita de preconceitos e desregramentos. É um retrato social do Portugal dos anos 30.

Vem isto hoje a propósito da doação feita pela viúva de Jorge de Sena à Biblioteca Nacional. É hoje, quinta-feira, a cerimónia, pela qual um importante acervo, composto de manuscritos, cartas, obras da biblioteca pessoal do escritor, passa para a posse da nossa Biblioteca Nacional. Sabendo-se que Jorge de Sena morreu em Santa Bárbara, Califórnia, onde leccionava, parece-me importante que o seu espólio volte para Portugal.

Para comemorar essa doação, aqui fica um pequeno poema de Jorge de Sena, que fui buscar ao site “Citador.pt”


Eternidade

Vens a mim
pequeno como um deus,
frágil como a terra,
morto como o amor,
falso como a luz,
e eu recebo-te
para a invenção da minha grandeza,
para rodeio da minha esperança
e pálpebras de astros nus.

Nasceste agora mesmo. Vem comigo.

Jorge de Sena, in 'Perseguição'

5 comentários:

  1. Para mim, a Figueira da Foz, faz parte da minha vida, desde os 5 anos de idade, até, pelo menos, há 9 anos. Era a praia onde eu e os meus pais passávamos mais de um mês de férias. Até hoje, quando recordo esses tempos, faço-o com carinho...
    Mas os aspectos a que te referes, das distinções sociais que se faziam sentir em alguns pequenos pormenores, como o dos chapéus na marginal, onde as senhoras se sentavam e faziam as suas rendas e os senhores liam e fumavam o seu cachimbo, eram reais e eu lembro-me perfeitamente. Havia ainda as ditas senhoras que, à tarde, mandavam as "criadas" para as esplanadas dos cafés, para guardarem a mesa, enquanto elas se arranjavam... Não podemos esquecer que a Figueira da Foz era a rainha das praias portuguesas! Tantas recordações...
    Tenho de ler esse livro.
    Bjokas

    Romicas

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  2. Teresa,

    ADOREI! ainda bem que foi à Figueira e a visita descomprometida lhe motivou este post!

    Eu gosto muito de Jorge de Sena.

    Sinais de Fogo é provavelmente um dos livros da minha vida - são tantos - mas este tb o é. Seguramente. é poderosíssimo. é belíssimo.

    obrigada :)

    beijinho

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  3. Rosa
    Eu bem sei o que a Figueira da Foz significa para ti (ainda cheguei a ir lá visitar-te, lembras-te, quando o joão nasceu?) e calculo que te lembres bem destes pormenores.
    Se ainda não leste, acho que não deves perder este livro. Não sei se há alguma edição ainda à venda, mas encontra-se nas bibliotecas seguramente.
    Bjs

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  4. Olá Marta
    É um livro excelente, não é?
    Também tenho dificuldade em identificar o livro da minha vida, porque os livros são uma componente fundamental da minha vida, sem a qual eu era muito infeliz, de certeza.
    Bjs

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