quarta-feira, 7 de abril de 2010

Postal de Lisboa XIII - As Vilas Operárias

Um dos aspectos mais interessantes de Lisboa são os antigos bairros operários, as chamadas Vilas. Os Pátios ou vilas têm origem na civilização árabe, que tanto nos marcou, e permitem uma convivialidade intimista entre vizinhos, muito típica das sociedades mediterrânicas e também da sociedade lisboeta.

(Arco de entrada da Villa Bertha)

Voltam a surgir na capital nos finais do século XIX, princípios do século XX, durante o surto de industrialização que caracterizou esse período. Na verdade, agrupavam os operários que vinham trabalhar nas novas indústrias da cidade e, por isso, encontramos estas vilas nas zonas humildes ou periféricas, como por exemplo a Graça ou Alfama.
Há várias que ainda existem, outras desapareceram. Recordo-me, quando era miúda, de brincar com amiguinhas que moravam na Vila Cândida, que se situava na mesma avenida onde eu morava. Ainda hoje existe a Vila Maia, a Vila Souza, o Bairro Grandella. 
O que têm de especial, de diferente, é o facto de serem espaços quase fechados, habitações de trabalhadores, às vezes apenas de uma empresa, com uma única entrada e saída para a rua. Podia ser um pequeno bairro, uma rua, um prédio que ocupava um quarteirão. É o caso da Villa Souza, um grande prédio de renda económica, organizado à volta de um pátio interior. Segundo parece, aqui teria sido filmado o célebre filme dos anos 30 "O Pátio das Cantigas" que também, de um certo ponto de vista, retrata a vida simples dos alfacinhas da classe operária dessa época.

(A Villa Souza, hoje prédio de habitação)

Um dos meus preferidos é a Villa Berta, com as suas casinhas caracterizadas pelas varandas e mezanines à moda italiana.

(As casinhas da Villa Bertha)

Mas, sem dúvida, o mais extraordinário é o Bairro Estrela d'Ouro. Foi construído por Agapito da Serra Fernandes, industrial de confeitaria oriundo da Galiza, para habitação dos seus trabalhadores mediante uma renda. Situado entre a Rua da Graça e a Rua da Senhora do Monte, está bem identificado pelos painéis de azulejos e pelas estrelas calcetadas nos passeios. As estrelas de cinco pontas, ou pentagramas, fazem suspeitar das simpatias maçónicas do industrial.

(O Painel de azulejos da entrada do Bairro Estrela d'Ouro)

O Bairro continha tudo o que ele achava ser necessário para uma vida simples mas com qualidade. As casinhas organizam-se em U, à volta de pequenos espaços de entrada. Havia uma escola, uma capela, e até um cinema, o Cine Royal, onde se passou o primeiro filme sonoro em Portugal. Hoje, é um supermercado!

(As casinhas do Bairro Estrela d'Ouro)

Actualmente, algumas destas antigas zonas operárias da capital estão revalorizadas e é agradável viver aqui. Muitos destes bairros e vilas continuam a ser habitados, muitas vezes pelos descendentes dos antigos trabalhadores, que compraram e remodelaram as casas. São vestígios de outro tempo, um tempo em que os grandes empresários entendiam o valor da proximidade e da responsabilidade social. Talvez, em alguns aspectos, devessemos aprender com eles.
(Fotografias de Teresa Ferreira)

32 comentários:

  1. Nunca vivi num bairro...imagino-o.
    Assim, fantasio com encanto o viver aconchegadinho e partilhado.
    Agradecida pelo momento, Teresa!

    Resto de boa semana
    Beijinho

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    1. Villasouza NUNCA FOI NEM É UM EDIFÍCIO DE RENDA ECONÓMICA,mas sim,um antigo Palacete ligado ao Convento das Mónicas,adquirido no fim do séc XIX pela família dos actuais proprietários.

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  2. MagyMay
    Enfim, viver apertadinho tem coisas positivas e outras bem negativas. São vestígios de outros momentos da nossa vida colectiva.
    Bjs e aproveita bem o restinho da semana.

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  3. Parece um lugar muito lindo de se viver , onde tudo acontece num pequeno espaço. Lindo post!beijos, ótimo dia!chica

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  4. Mais um banho cultural no "oculos do mundo"... Portugal tem tanto a ver com o meu país que admirar e saber mais sobre ele me deixa muito feliz! Quem sabe um dia ainda não percorro esses locais, não?
    Muito bom.
    Jr.

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  5. Que bonita descrição de partes tão típicas da nossa Lisboa.
    A minha trisavó materna até aos meus filhos, nascemos, crescemos e ainda vivemos (excepto a filha) em Benfica e sempre tivemos bem perto a Vila Grandela.
    Viver num lugar onde todos nos conhecem tem grandes vantagens mas também tem o seu lado negativo. Hoje passo pouco tempo na casa de Lisboa,gosto muito de estar neste meu Refúgio perto do mar e da serra, nesta aldeia onde tenho casa há 34 anos, onde todos me conhecem fisicamente, mas para os quais continuo a ser uma figura de certo modo "misteriosa".
    Abracinho

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  6. Um belo post!

    Adorei o passeio virtual por esse capítulo histórico de Lisboa. Bela, reflexiva, poética, a arquitetura dos antigos bairros operários.

    Bjs, Teresa, e inté!

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  7. A velha Lisboa de outrora. Tal como o velho Montijo de outrora, ou, se quisermos ir mais longe, o velho casario da Barroca D'Alva ou de Rio Frio... enfim... estas coisas deixam-me nostalgica.
    Bj

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  8. Teresa, Lisboa tem sem dúvida muito mais encanto quando é vista através dos teus olhos. Adorei as fotos.

    Beijinho :)

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  9. Junior
    Sim, eu acho que Portugal é assim como um tio velhote em relação ao Brasil :)
    Se aqui vier, tenho o maior prazer em lhe servir de cicerone.
    Bjs

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  10. Maria Teresa
    Também vivi em Benfica até casar, perto do Fonte Nova. Todos os dias passava frente ao Bairro Grandella, quando ia para a escola, sem saber o que aquilo era :)
    Os sítios pequenos são, como tu dizes, bons e maus, há proximidade mas também há coscuvelhice, por exemplo.
    Bjs

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  11. Ju
    É uma arquitectura bela, embora fora de moda, reflexo da estética de uma época.
    Bjs

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  12. Ana
    Sabes, eu não fico nostálgica. As coisas são o que são, é importante é que os sítios continuem a ser vividos e preservados. Só me aborrece, sinceramente, aquele supermercado dentro do velho Cine Royal.
    Bjs

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  13. Helga
    Obrigada!
    Quando precisares de guia, é só avisares :)
    Bjs

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  14. Que post tão interessante!
    Aqui há uns anos a rtp2 deu uns programas sobre arquitectura (quem falava era o arq. Graça Dias) onde se puderam visitar sitios incríveis de Lisboa. Estas Villas são os "condomínios" da época!:)
    Podes dizer-me onde fica a VILLA BERTHA???Fiquei encantada e gostava de lá passar.
    xx

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  15. Papoila
    Lisboa tem sítios incríveis, mesmo. Quanto a este "condomínio" que é a Villa Bertha: quando caminhas pela Rua da Graça (vindo do Largo da Graça na direcção de Sapadores) encontras à tua direita a Rua do Sol à Graça; começas a descer e uns 50 m à tua direita encontras o arco que dá acesso à rua, que constitui a villa Bertha. Está identificado, tal como se vê na foto. E vale a pena, é encantador.
    Olha, esta descrição só vale para quem conhece bem Lisboa.
    Bjs

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  16. Uma belíssima ideia, Teresa, esta de falares destes bairros.
    Quem, não estando ligado ao urbanismo ou à arquitectura, ou até à história das migrações para Lisboa, se lembra destes bairros.

    É certo que a Villa Bertha é o mais citado.
    A avaliar pelas fotografias, gosto deles todos.

    Boa edição.

    Bjs

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  17. JPD
    Ainda bem que gostaste. Estes bairros fazem parte daqueles tesouros de Lisboa, que já quase ninguém conhece ou visita. São encantadores e estão bem preservados. No entanto, há outros, por exemplo em Alfama, que não tiveram tanta sorte e estão bastante degradados. Esperemos pela continuação da requalificação de Alfama.
    Bjs

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  18. Adorei este post! Conheço algumas das Vilas de que fala mas, já agora fazia-lhe uma pergunta:
    sabe como se chamava a Vila que hoje dá pelo nome de Pátio Bagatela? Não consigo lembrar-me, apesar de ter trabalhado mesmo ao lado, durante dois anos.

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  19. Teresa
    Lindo post , Portugal com suas vilas operárias ou com seus belos castelos é sempre muito muito querida.Ainda sonho conhecer essa Pátria encantadora.
    Agradeço seu carinho e preocupação com as chuvas que assolam ainda a cidade , buscas e buscas ainda continuam pra encontrar vítimas dos deslizamntos de casas no morros da cidade , tanto aqui em Niteroi como ali , ao agtravessar a ponte -o Rio de Janeiro.
    Uma verdadeira tragédia, na verdade anunciada, devido a péssima situação desses casebres amontoados nos morros da cidade.A maioria dos moradores desses morros vieram do nordeste e foram se acomodando a revelia do poder público que nunca está presente onde precisa.Resultado , convivemos com o asfalto e o morro , a beleza e a miséria e na hora das adversidades quem sofre mais é quem está mal alojado.Há vítimas e sofrimento.
    Moro longe de encostas e sofri ocm a falta da energia elétrica e da água , o que nada equivale ao sofrimento de muitos.A situação vai aos poucos se normalizando ,ok?
    muitos abraços , todo o meu carinho

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  20. Carlos
    Não sei onde fica o Pátio Bagatela. Será que é conhecido por outro nome? Eu conheço melhor as vilas que se situam na Graça, mas também as há noutros locais da cidade: Benfica, Alfama, Campo de Ourique. As de Alfama, infelizmente, estão muito degradadas, como o Pátio dos Castelinhos.
    Bjs

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  21. Lis
    Tenho ouvido com muita preocupação as notícias sobre a tragédia que se abateu sobre o Rio de Janeiro. Faz-me lembrar o que aconteceu na Madeira, mas em maior escala. Também aí havia construções em leito de cheia, o que potenciou os problemas. Espero que tudo recupere rapidamente e que o Rio de Janeiro continue lindo!
    Bjs

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  22. Lembro-me de ter feito uma visita com os Amigos de Lisboa, versando precisamente estes bairos de características tão particulares. Restos de uma Lisboa de outrora, não necessariamente melhor do que a de hoje, mas certamente diferente nas suas tradições.
    Concretamente no que diz respeito ao Bairro Estrela d'Ouro, sobra-me a nostalgia desses industriais para quem os operários não se resumiam a números anónimos, descaracterizados e desuminazidados. Eram os empreendedores de outros tempos, cientes de que o bem estar dos trabalhadores acabaria por gerar mais e melhores lucros.
    Lições que os modernos tecnocratas parecem ter esquecido (isto se as estudaram nas faculdades...)!

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  23. We
    Penso exactamente assim, são vestígios de uma Lisboa que já não existe, nem melhor nem pior, diferente. E também acho que podíamos aprender uma coisita ou outra com esses empresários do passado.
    Bjs e volta sempre.

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  24. Teresa,
    Isto não é bem um post! É um agradecimento pelas informações detalhadas para eu dar com a Villa Bertha!
    Já escrevi na agenda e agora logo que tenha oportunidade vou lá.
    Muito obrigada.
    beijinhos

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  25. Sítios lindos, já estive em alguns.
    Obrigado pela "reportagem"...

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  26. Méon
    Gosto demasiado de Lisboa para permitir que alguém considere que são só prédios e filas de trânsito.
    Obrigada pela visita e volte sempre (outras reportagens no prelo!)

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  27. Obrigada! Nasci na Vila Berta à Graça (Mesmo por debaixo do Arco)...em 61...ali brinquei...e cresci...Adoro a Vila. Feliz Natal e um Magnifico Ano Novo. Jorge Mateus..Açores, São Miguel..Portugal.

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    1. Jorge
      Fico muito feliz quando o que escrevo atinge alguém, desta forma tão emocional.
      Um bom Natal para si também.

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  28. Apenas um reparo a Vila Cândida ainda existe.

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  29. Gostei muito deste excelente artigo mas não posso deixar de fazer um reparo, a Vila Cândida não está desaparecida, muito pelo contrário. Tem perfil no facebook que criou há apenas dois dias e está em desenvolvimento mas já aceita amizade de quem vier de boas intenções.
    Muito obrigado por este artigo e um bem haja.

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    1. Tem toda a razão, foi um erro que vai já ser "reparado"! Ultimamente, tenho passado frequentemente pela Av. General Roçadas e, realmente, lá se mantém a Vila Cândida, que eu tão bem recordo da minha infância.
      Bem vindos à blogosfera.

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