domingo, 25 de abril de 2010

Dia de balanço

Passam hoje trinta e seis anos sobre a revolução de 25 de Abril. As comemorações ocorrerão, como de costume, no mesmo modelo estereotipado e esvaziado a que já nos habituámos. Como de costume, a população irá aproveitar o bom tempo para ir à praia ou tratar das suas coisinhas. Apenas um ou outro ouvido mais atento irá ouvir o discurso do Presidente da República, que costuma agitar um pouco as águas. 
Não é de admirar que a maioria da população não veja motivos para festejar. A maior parte das expectativas geradas pela Revolução não se concretizou. O Movimento dos Capitães, que fez a Revolução, tinha como objectivos os três Ds: Democracia, Desenvolvimento e Descolonização. Descolonizámos mal, desenvolvemo-nos pouco e a nossa democracia é o que se vê. O nosso défice público só tem comparação nos tempos da Primeira República e muitos dos nossos políticos não têm a grandeza necessária para porem os interesses do país à frente dos seus interesses pessoais ou partidários. Esperemos que, um dia destes, não haja conflitos na rua bem mais sangrentos do que a pacífica Revolução dos Cravos.
No entanto, esta Revolução restituiu-nos um bem precioso: a Liberdade. Brindemos a ela. Provavelmente, só lhe dá valor quem a não possui. 

Não hei-de morrer sem saber
qual a cor da Liberdade.
Eu não posso senão ser
desta terra em que nasci.
Embora ao mundo pertença
e sempre a verdade vença, 
qual será ser livre aqui, 
não hei-de morrer sem saber.
Trocaram tudo em maldade,
é quase um crime viver.
Mas, embora escondendo tudo
e me queiram cego e mudo,
não hei-de morrer sem saber
qual a cor da Liberdade.

(Jorge de Sena)

30 comentários:

  1. Bom dia Teresa!
    Brindemos à Liberdade, pois, com a esperança de que Abril voltará a encontrar Abril!
    Lindo o poema de Jorge de Sena.
    BJS

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  2. Bom dia Teresa, a Liberdade é o bem que mais prezo acima de todos. Era muito pequena em 74, não recordo com grande precisão os acontecimentos, apenas tenho uma vaga ideia de algo estar a acontecer, pois o meu pai era GNR e percebi uma agitação da minha mãe. Para muita gente, pessoas como eu, que não viveram a Revolução com consciência dos seus actos, pode parecer que não lhe dou valor e que não sei a importância dos acontecimentos, mas sei e dou muito valor. O meu pai esteve lá, assim como muitos outros, que hoje, 36 anos depois, não devem sentir orgulho de ver a sua luta transformada numa farsa e num circo de falsos valores. Falas dos 3 D's e do discurso do Presidente. Eu comecei a ver, mas confesso que mudei de canal, pois já nem Revolução lhe querem chamar e começaram por se agredir e acusar uns aos outros, em vez de celebrarem a data que os levou ali no dia de hoje. Por isso, e sem esquecer as causas da luta de 74, a minha geração não tem grandes motivos para celebrar. Como diria Zeca Afonso - o que faz falta é acordar a malta - pois andamos todos adormecidos, ou pior, hipnotizados.

    Um bom feriado :)

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  3. Boa Teresa, assim é que se fala!! Nem mais. Não acrescento uma vírgula ao teu post.
    Bj

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  4. Teresa,

    (...) só dá valor à Liberdade quem a não possui ou, quem a perdeu!

    Por isso é que é preciso cuidado andarem para aí a brincar com o lume (...)

    Subscrevo tudo o que escreveu.

    Abraço e bom Domingo

    César Ramos

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  5. Carlos
    Brindemos, sim, é o seu Dia.
    Bjs

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  6. Helga
    Não te preocupes, não foste só tu, provavelmente a maioria das pessoas não viu nem se interessou, há outras coisas mais urgentes na vida e, como tu dizes, a tua geração não tem muitas razões para festejar. Precisamos de voltar a ter esperança, embora não seja fácil.
    Bjs

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  7. Ana
    Como eu gostava que me mostrassem que não tenho razão.
    Bjs

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  8. César
    A Liberdade é importante demais para a pormos em causa. Mas sobre o resto, se calhar, deviamos reflectir bastante.
    Bjs

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  9. Só por isso Teresa, pela conquista da Liberdade, valeu a pena; tudo o resto, o que de bom e algo de mau trouxe é um processo que demora muito tempo a historiar.
    Mas é uma pena que só os "velhos" se lembrem desta data, pois às gerações de hoje, passa completamente ao lado,porque já nasceram em Liberdade...

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  10. Pinguim
    Concordo, só por isso já valeu a pena. Não podemos é baixar os braços e ficar a olhar para trás.
    Bjs

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  11. Minha querida Teresa,

    Belo post sobre o 25 de Abril. Os Capitães de Abril conquistaram e legaram-nos a Liberdade. Os outros ideias também, como viver em democracia. Mas será que vivemos mesmo numa democracia?

    Há muito a mudar. Muito por que lutar e os nossos governantes só olham para o umbigo deles!

    Beijinhos

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  12. Natália
    Temos de continuar a lutar por um país melhor. Todos os dias. Se for possível, com outros governantes :)
    Bjs

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  13. Teresa

    É exactamente o que afirmou no final do seu texto, relativamente à Liberdade, que me preocupa verdadeiramente...
    "só lhe dá valor quem a não possui"... será por isso que cada vez mais a "menina" de Abril é tão maltratada?

    Brindarei sempre Abril!

    Bjs

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  14. e se por mais nada for

    só o facto de podermos dizer, aqui, publicamente, isto tudo e muito mais, terá valido a pena!

    pela Liberdade!

    um abraço

    Manuela

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  15. "Esta é a madrugada que eu esperava
    O dia inicial inteiro e limpo
    Onde emergimos da noite e do silêncio
    E livres habitamos a substância do tempo."

    Que sorte a dos poetas! Poderem pôr em palavras transparentes o que nos vai na alma.
    Sim, o 25 de Abril foi mesmo isso: a certeza de podermos ser total e completamente homens e mulheres, libertos da "noite e do silêncio".
    É tempo, por isso, de não esquecermos todos aqueles e aquelas que acreditaram ser possível, oferecendo o seu sacrifício por uma causa que foi (e é!) de todos nós.
    Por muitas desilusões que o presente nos traga (e traz!), a verdadeira revolução é o sonho que transportamos connosco e a certeza de que a madrugada que tarda acabará por chegar.
    É bom que não descuremos esta responsabilidade.

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  16. O 25 de Abril de agora é diferente da ideia, do ideal, será uma nostalgia, o que quiser fazer dele.

    Eu celebro-o recordando o melhor.

    VIVA O 25 DE ABRIL!

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  17. Pois é Teresa...brindemos a ela...liberdade.
    Bjs

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  18. Concordo com tudo que se disse e reforço:
    Temos que pôr este País nos eixos!!!
    Só não sei como:)

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  19. Maria João
    Acredito que sim, só valorizamos verdadeiramente o que não possuimos. Mas acho que a Liberdade, apesar de tudo, não pomos em causa.
    Bjs

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  20. Manuela
    Concordo plenamente, que bom podermos dizer o que nos passa pela cabeça!
    Bjs

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  21. We
    Os poetas têm sempre a capacidade de exprimir o que nós não conseguimos. Até os sonhos.
    Bjs

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  22. JPD
    Mal de nós se não evoluirmos. Podemos manter a nostalgia, mas temos de avançar sempre.
    Bjs

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  23. Lilá(s)
    Pronto... sem mais... brindemos!
    Bjs

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  24. E pensar que ética e esperança tornaramm-se mais voláteis que o álcool, no mundo inteiro...


    Shisuii

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  25. Gostei de "conhecer" o poema de Jorge Sena.
    Vou continuar a brindar Abril! Mas lembro-me que nele há um dia 1, o dia das mentiras, que é comemorado "todos os dias"...
    Abracinho

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  26. Apesar de um dia depois...
    Brindo ao 25 de Abril!
    Brindarei sempre, quando mais não seja pelo que representou.

    Boa semana, Teresa
    (o texto está pleno de clarividência, parabéns)

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  27. fabuloso :)

    eu sabia. tantas saudades de vir aqui.

    um beijo, Teresa

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  28. A liberdade é praticamente a única coisa que nos resta desse sonho que Abril construiu.Preservemo-lo exigindo que nos devolvam o resto do sonho que nos roubaram.

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  29. Sempre um tema polémico, mas que nos deve encher de orgulho indepentemente de aspectos menos positivos.

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