sexta-feira, 14 de maio de 2010

No tempo em que os animais falavam II



Quando Salomão nasceu, Salomé já tinha a idade suficiente para todos os outros animais da quinta a consolarem: “Deixe lá! Ter filhos não é a coisa mais importante do mundo!” Mas, para ela, era muito importante! Ela não sabia explicar porquê, mas sentia-se menos feminina, como se lhe faltasse qualquer coisa. Ao cair da tarde, quando se juntavam junto ao muro, todas as outras fêmeas da quinta falavam das gracinhas da ninhada. Excepto ela. Até que um dia, apareceu lá na quinta um canzarrão castanho e branco, ganiu-lhe umas frases doces ao pé da orelha, e Salomé ficou rendida. O romance não durou muito. Um dia, assim como tinha chegado, o canzarrão desapareceu. Mas Salomé não lhe sentiu a falta. Sentiu, sim, que dentro dela se agitava a vida.
Salomão nasceu num dia chuvoso. Era o maior de três irmãos, e muito parecido com o pai. Havia um pequenino, que morreu antes de Salomé se afeiçoar a ele. Também nasceu uma cadelinha, parecida com a mãe. E Salomé revia-se nos seus dois cachorrinhos. Passava o tempo a cuidar deles, a alimentá-los, a lambê-los. E a contar as suas gracinhas às outras mães, junto ao muro, ao cair da tarde.
O tempo foi passando. Salomão cresceu briguento e caprichoso. Era um cão grande, que impunha respeito a todos os animais da quinta. Quando ele ladrava, todos faziam o que ele queria. Salomé achava-o maravilhoso. Para ela, ele não era briguento, era brincalhão; não era caprichoso, tinha uma personalidade forte. Quando a Gata Branca se vinha queixar das brincadeiras violentas de Salomão, a mãe desculpava-o sempre. E, lá no fundo, sentia-se muito orgulhosa do seu rebento. Salomão liderava todas as brincadeiras e os outros jovens adoravam-no. Especialmente Lucky.
Lucky era um cachorrito pequeno, que vivia mais dentro de casa do que fora, com os outros animais. Era o “ai-Jesus” da dona da casa, que se passeava com ele ao colo, com fitinhas na cabeça, casaquinho contra o frio, coleira com bonecos e um osso de metal pendurado onde se podia ler Sou o Lucky, se me perder telefone para… Mas o que Lucky queria, realmente, era andar lá fora com os outros animais. O que ele queria era ser como Salomão. Mas Salomão não lhe dava importância nenhuma, tratava-o como um mosquito ou um adereço da dona, uma peúga, um chapéu velho, bom para abocanhar e distrair um bocado, nada mais. Lucky perdoava-lhe tudo, fingia-se forte, não gania, arreganhava os dentes a fazer de mau. E, se Salomão passava por ali, Lucky seguia-o respeitosamente, sofrendo-lhe as brincadeiras a troco de uns minutos de atenção.
Um dia, apareceu na quinta um cão amarelo, com aspecto de quem já não via um prato de ração há muito tempo. Coxeava de uma pata e ficou encostado ao muro a ver os outros comer, entre o cobiçoso e o resignado. No fim, foi rapar os restos e deitou-se a dormir. Foi ficando por ali e, ao fim de alguns dias, já tinha direito a uma malga de ração só sua. O Amarelo, como era conhecido, não pedia muito mais. Comia, dormia junto ao muro e lambia as mãos da dona da quinta, quando ela lhes levava a comida e punha água fresca. Os outros animais da quinta foram-se habituando à sua presença e não o incomodavam. Excepto Salomão, que lhe rosnava de longe. Mas o Amarelo não lhe dava conversa.
Lucky viu ali a sua oportunidade. Quando Salomão estava por perto, ladrava esganiçado todas as ofensas de que se lembrava: “Sarnento! Saco de pulgas! Vens encher a quinta de pulgas e carraças! Volta para a tua terra!” Ele sabia lá qual era a terra do outro, até podia ser ali ao lado, mas parecia-lhe que era uma boa maneira de o ofender. Às vezes, o Amarelo virava-se a ele, mas aí Lucky fugia a esconder-se entre as pernas de Salomão. E os dois encontraram ali um bom tema de brincadeira. Passavam os dias juntos, a arquitectar brincadeiras e maneiras de aborrecer o cão amarelo. Este tentava esquivar-se, mas quanto mais ele fugia mais aquela brincadeira parecia fascinante. Lucky andava feliz, junto do seu ídolo, e usufruindo de um sentimento de poder muito superior ao seu tamanho.
A pouco e pouco, as brincadeiras foram-se tornando mais duras. Era mais engraçado roubar-lhe os ossos do que rosnar-lhe ofensas. Era ainda mais divertido abocanhar-lhe a pata sã, quando ele estava a dormitar, e vê-lo fugir, a cambalear, apoiado na pata coxa. Lucky era quem tinha as ideias mais originais, passava parte do seu tempo a congeminar planos para aborrecer o outro cão e, ao mesmo tempo, agradar a Salomão.
Uma noite, gizaram um plano para meter medo ao Amarelo. Um de um lado, outro do outro, rosnavam e mostravam os dentes, enquanto o Amarelo se tentava esgueirar, encostado ao muro, de rabo entre as pernas. Quanto mais eles avançavam, mais o outro recuava, encolhido e medroso. Quando se sentiu perto do portão da quinta, o Amarelo deu um salto e correu, a coxear, pela estrada. Foi então que aquele carro apareceu. Os faróis varreram a estrada e o Amarelo voltou-se para fixar os focos de luz. Ainda teve tempo de olhar para o portão, onde os dois cães assistiam, surpreendidos, à tragédia, antes de sentir o embate do carro.
Lucky ergueu os olhos para Salomão, mas o cão só fitava a estrada, onde o Amarelo jazia, ainda de olhos fixos no portão. Lucky voltou para casa, cabisbaixo. Salomão também voltou, mas por outro caminho. Nunca trocaram palavra sobre o que se passou nessa noite. De resto, pouco falaram mais, um latido breve quando se cruzavam nos caminhos da quinta, um olhar de esguelha, e nada mais. Mas de noite, quando fechavam os olhos, era o olhar do Amarelo que os assombrava até adormecerem.


14 comentários:

  1. Brutal... e o mais assustador é que se pode tão facilmente transpor isso para o "mundo" humano... adorei.

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  2. Rita
    Obrigada :)
    A ideia é mesmo essa. Bjs

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  3. Pois é, quando os covardes se aliam aos fortes de braços, mas fracos de cabeça, os resultados podem ser desastrosos...
    E também sei que as nossas escolas estas repletas destes "sócios". Mas quero continuar a acreditar que os professores podem fazer alguma coisa para inverter a situação. Às vezes os Salomões e os Luckies também andam desorientados, eles próprios vítimas de tantas situações inimagináveis. O que não os desculpabiliza, mas implica intervenções sensatas e ponderadas.
    O problema é quando nos apercebemos de que a vida não é feita a preto e branco...

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  4. We
    Para perceberes melhor o que eu penso sobre essa relação que tu fizeste, vou confessar uma coisa: este texto faz parte de um conjunto de histórias que escrevi para serem lidas e trabalhadas em Formação Cívica. Porque também acho que devemos ter uma intervenção pedagógica. Mas não sou relativista. Há regras que têm de definir bem o que é o preto e o que é o branco.
    Bjs

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  5. Teresa,
    Esta é a quarta vez que inicio o comentário. Espero não apagar. Há assuntos que me são extraordinariamente penosos. Sempre que pude combati, de todas as formas ao meu alcance, os Salomões e os Luckys... e não só... os progenitores babados tb. E sei o qt isso foi difícil, a facturaque paguei por tamanha ousadia (e tu tb o sabes). Mas voltaria a fazê-lo.
    As lutas não têm justificação, sejam elas fruto de situações inimagináveis ou não. E aqui estou em total desacordo com a We. Então as deste tipo...
    Mais não digo.
    Bj

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  6. Ana
    Desculpa, parece que tenho o condão de puxar assuntos que te magoam. Esta violência física sobre os mais vulneráveis sempre me arrepiou. Os Salomões e os Luckys talvez não sejam os únicos culpados de actuarem como actuam, mas têm de aprender que a sociedade não lhes tolera certos comportamentos. Acho isso mais pedagógico do que passar a mão pelo pela cabeça. Isso é que os deixa sem referências éticas.
    Acho eu.
    Bjs

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  7. Queres aceitar o selinho "Este blog é um clássico", minha cara Teresa? O desafio não é obrigatório!

    Esta história arrepiou-me de tal maneira, que estou sem palavras. Vou deixar um comentário mais tarde!!!

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  8. Ematejoca
    Claro que aceito, com muito gosto.
    Obrigada. Lá vou buscá-lo :)
    Bjs

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  9. Teresa,
    Estou triste, triste com este "fim"...
    Gostei muito, muito e pouco mais posso dizer!
    beijinhos

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  10. Papoila
    Para se perceber melhor o enquadramento, posso explicar que escrevi este texto depois da morte de um sem-abrigo, assassinado por um grupo de adolescentes num prédio em construção, lembras-te?
    Não há muito mais a dizer.
    Bjs

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  11. Teresa

    Um texto extraordinariamente bem escrito. Um retrato da humanidade que aniquila, na sombra das suas próprias noites, aqueles que recusam arreganhar os dentes. Imagens de vulnerabilidade por um lado e de arrogância e cobardia, por outro.
    Uma história para nos fazer pensar, não só nas nossas atitudes, mas também nas mensagens contraditórias que transmitimos às novas gerações. É que depois, não vale a pena chamar-lhes de "geração rasca" quando a culpa foi toda nossa.

    Bjs

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  12. Maria João
    Um retrato de alguma humanidade, com muita desumanidade. É mesmo para fazer pensar. De qualquer maneira, a culpa nunca é toda nossa, temos liberdade para agir e, por vezes, filhos dos mesmos ambientes são bem diferentes uns dos outros.
    Bjs

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  13. É uma história extraordinária, pois geralmente quando lemos uma história sobre cães eles são sempre bons e heróis, o que não é o caso; e é aqui que reside a semelhança com o ser humano, infelizmente.
    Beijinho.

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  14. Pinguim
    Não sou suspeita, adoro cães e acho-os muito mais simples do que os seres humanos. Mas quis mesmo fazer essa relação.
    Bjs

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