sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Os Caretos

Nunca fui uma pessoa muito carnavalesca, pelo menos desde as festas mascaradas da minha infância. Especialmente, não admiro as festas de Carnaval que tentam transplantar para aqui as tradições de outros países. Por exemplo, acho muito animado e entusiasmante o Carnaval brasileiro, resultado de uma síntese das festas portuguesas com as festas africanas. Têm lógica lá no Brasil, onde está um calor abrasador, nesta altura do ano. Mas já não entendo esta teimosia em pôr a desfilar meninas vestidas de penas e brilhos, a dançar o samba, nas avenidas das vilas portuguesas, quando aqui em Portugal ainda chove e faz frio.

Não compreendo esta apetência por imitar o que é de fora, especialmente quando aqui em Portugal também temos tradições muito interessantes, que se estão a perder. Uma delas, típica desta época de Carnaval, é a dos Caretos, máscaras e disfarces utilizados no norte transmontano para, a coberto de uma personagem alternativa, lidar com as tensões do ano inteiro.
Deixo aqui, com autorização do autor, as máscaras e a descrição desta tradição dos Caretos. Amável Antão é um artesão que constrói as máscaras tradicionais e mostra a sua obra no seu blogue Arte e Artesanato nas máscaras de Amável Antão. Vale a pena ir lá apreciar a sua Arte.




"Em Trás-os-Montes, o reino maravilhoso de Miguel Torga, ainda sobrevivem tradições seculares que em períodos próprios renascem como que por magia.
Em toda a região do Nordeste, que eu me lembre, desde logo de garoto, recordo sempre as festas com mascarados no natal e, noutras terras, no carnaval. Era uma coboiada para todo o povo, da criança ao velho de bengala, sem esquecer as meninas e moças casadeiras... Que me lembre, sempre foi assim... Dias de festa para todos, que às vezes acabavam mal, em anos em que as "contas" se acertavam e os vinhos se misturavam!
Quando éramos garotos diziam-nos que os caretos eram o diabo em pessoa, ou quase, e vinham a ajustar contas a este mundo e a mostrar como os vivos se deviam comportar. E quem não estivesse com eles mais valia não sair de casa nestes dias...
Coitadas das raparigas... tão perseguidas, tão apalpadas, tão chocalhadas, sempre em correria e sem terem sítio para se esconder! Nem na sua casa estavam a salvo... nem no seu próprio quarto. Os caretos chegavam a todo lado, nada lhes podia ser vedado ou impedido: se não entravam pela porta, era simples, entravam pelo telhado. Ninguém escapava à sua vontade!
Quem é que não queria ser careto nestas condições? É que esta oportunidade de gozo e poder era única durante todo o ano (o resto era sempre a trabalhar)! Portanto, passávamos os tempos livres durante o ano inteiro a fazer a careta (máscara), a alindá-la com pinturas e outros pormenores, e a arranjarmos trapos velhos para fazermos o fato. Já isto era uma festa, quanto mais os dias das correrias e dos apalpanços... "
(Amável Antão)

Para quem quiser ver os caretos em acção, está aqui um magnífico filme da Câmara Municipal de Bragança, onde se vêem as brincadeiras de Carnaval acompanhadas pela imprescindível música das gaitas-de-foles.

23 comentários:

  1. olá teresa.
    Não tenho nada contra aquilo que é nosso, até mesmo, a forma tradicional de se festejar o Carnaval. Muito pelo contrário, temos festas , romarias e costumes muito interessantes, neste nosso cantinho à beira mar plantado, Portugal.
    Mas uma coisa devo confessar, que o nosso Carnaval, nada tem a ver com o que se passa no Brasil. Salvo as raras excepções que já sofreram influências Brasileiras.
    Repare na máscara dos "Caretos", assustadora e triste, pouco criativa, séria.
    Enfim, só mesmo num carnaval Português, os Caretos.
    Desculpe-me a tradição de um povo e a sua cultura, neste caso concreto.
    Carnaval é carnaval, é alegria, humor, é criatividade, é beleza, é fantasia, é sátira, etc.
    Bj

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  2. Completamente de acordo.
    Quem viaja tem sempre na mente que o mundo tem coisas lindas (cultura,história, paisagens, etc), mas... cá, como lá, há que apreciar tudo de bom que temos, e até aproveitar para nos inspirar nos portugueses de antanho que em muitos aspectos não nos deixam envergonhados!

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  3. Adorei ver o video dos caretos, uma tradição bem diversa da daqui do Brasil, onde a graça parece ser quanto menos roupa melhor e o exibicionismo impera... Assim, no carnaval, fico em casa,. longe dos trânsitos e tudo mais.É bem melhor. É um período de muitos roubos nas casas, nas ruas e muito mais acidentes devido aos inconsequentes que bebem e vão dirigir nas estradas e cidade.beijos,tudo de bom,chica

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  4. Tão coloridos e alegres esses caretos!! :) Também concordo contigo que não percebo porque o Carnaval cada vez mais se parece com o Brasileiro e está um frio de rachar em Fevereiro... enfim... beijinho

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  5. Maré Alta
    Neste caso, peço desculpa, não posso concordar consigo. Acho as máscaras dos caretos alegres e criativas. Parecem tristes, porque isso faz parte da personagem, mas se vir o video, percebe que eles são bem alegres e interagem de uma forma saudável com a população.
    Também gosto muito do Carnaval brasileiro, mas esse tem lógica num clima quente,não aqui. Não falo dos bailes e festas de máscaras, essas são coisas bem portuguesas e o samba é bem vindo, como todos os ritmos vivos e alegres.
    Tudo tem o seu lugar, não é?
    Bjs

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  6. António
    Concordo plenamente. Quanto mais viajamos, mais valorizamos também o que é mesmo nosso!
    Bjs

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  7. Chica
    Que pena ouvir isso! O Brasil exportou uma certa ideia de Carnaval e é pena que os próprios brasileiros não o possam viver plenamente, por causa dos excessos.
    Bjs

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  8. Eva
    Temos aqui um paradoxo socio-climatérico!
    Bjs

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  9. è uma tradição bem portuguesa, os fatos são coloridos e alegres, as máscaras expressivas, mas falta-lhes qualquer coisa que nos faça indicar o Carnaval: há uma certa repetição das danças e das graças, alguma monotonia.
    Mas são sempre preferíveis aos "pacóvios" carnavais portugueses a imitar os brasileiros...

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  10. Olá Teresa,

    Nunca vi os caretos de Podence, mas sei da sua existência desde sempre. Os rapazes vestem-se a rigor, com máscaras feitas por eles ou artesãos na família e no dia de Carnaval, chocalham as raparigas casadoiras. É tudo diferente.
    O Carnaval de Torres Vedras também é diferente com as suas matrafonas e os carros alegóricos.
    Bom, vem aí o Carnaval e, tal como tu, não o aprecio.
    Ainda assim, bom divertimento para os que gostam de brincar ao Carnaval.

    Beijinhos

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  11. Pinguim
    Não sei, não acho repetitivo, talvez no video dê essa sensação, mas como os rapazes estão sempre em movimento, a "chatear" pessoas diferentes, acho que a realidade é bem mais viva.
    Bjs

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  12. Natália
    Pois tens de conhecer mesmo, como boa transmontana que és!
    Também gosto desses desfiles de Carnaval, de Torres Vedras, de Ovar, de Loulé: os carros alegóricos fazem a caricatura da actualidade e isso é bem português, desde o Rafael Bordalo Pinheiro.
    Bjs

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  13. Teresa,

    Só posso dizer que concordo em tudo. "Género, número e grau".
    Detesto as cenas tristes deste Carnavais importados...
    Bj

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  14. Oi Teresa
    Vendo os caretos , lembrei que temos aqui as carrancas, esculturas com forma humana ou de animal, geralmente de madeira que eram usados em embarcaçoes pra afugentar piratas. Gosto desse estilo de Carnaval onde apresenta-se tipos interessantes, temos no nordeste (Recfe), os bonecos gigantes, um espetáculo grandioso, muito criativo a cada ano. Em geral o Carnaval brasileiro transcorre bem , qto ao que Chica fala , penso que roubos, violencia aqui é o ano todo,e lógico com aglomeração aumenta as possibilidades.Sou suspeita de falar porque acho lindo, e concordo que brasileiro costuma exagerar bastante em tudo que faz, mas ainda ´considero o melhor carnaval já visto,Teresa, o desfile das escolas ao vivo é algo apaixonante , as musicas(enredos), a bateria que puxa a escola, as alas , cada ano mais bonito.
    Gosto de ver pela TV, a cidade fica quase impraticável.
    Madonna já está aqui, agora é figurinha fácil no Brasil rsrs
    Vou prestar atenção ao Carnaval de Portugal.A época do ano aí nao favorece por ser inverno, aqui ao calor muito forte mistura-se a doideira do brasileiro, sempre eufórico demais!! rs
    abraços Teresa

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  15. Ana
    Também é uma tradição portuguesa, imitar e achar sempre melhor o que vem "lá de fora"!
    Bjs

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  16. Oi, Lis carioca.
    Engraçado, sempre aprendemos qualquer coisa. Aqui, não chegam outras manifestações do Carnaval, sem ser o grande desfile das escolas de samba, no Rio, que é, sem dúvida, a manifestação mais vistosa do espírito carnavalesco.
    Mas é bom acarinharmos também outras manifestações, tão genuínas como essas e evntualmente mais adaptadas ao nosso clima e maneira de ser.
    Bjs e bom Carnaval.

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  17. Deliciei-me neste teu espaço. As máscaras ,que já conhecia, são muito artísticas e belas e são portuguesas! E o texto muito completo. Fiquei com mais conhecimento desta matéria, graças a ti, Teresa. Um beijo

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  18. Ângela
    Ainda bem que gostaste. Temos de valorizar também o que é nosso, não é?
    Bjs e volta sempre.

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  19. Ainda o ano passado assisti ao desfile da máscara ibérica em Lisboa (http://sebentadonando.blogspot.com/2009/05/desfile-da-mascara-iberica.html )e sem duvida foi de um interesse cultural pois desconhecia que do outro lado da fronteira tambem há mascaras.
    Quanto ao Carnaval o de Torres Vedras considero ser o que melhor pois tem resistido ás influências de fora...
    Vou aproveitar este sol para ir hoje até Torres só mergulhar um pouco naquele ambiente de pré-folia.
    Bjs

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  20. FNando
    Não assisti, infelizmente, a esse desfile, mas a nossa cultura não é estanque, especialmente nas zonas de fronteira, onde sempre houve tradições comuns.
    Carnaval de Torres Vedras, hoje? Parece-me muito bem. Bjs e diverte-te.

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  21. Estou de acordo.
    As máscaras dos caretos são alegres e divertidas.
    Sou casado com uma transmontana. Sei bem o quão divertido é o carnaval chocalhado!
    Bjs

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  22. Carlos
    E, com os caretos e outras tradições idênticas, estamos a acarinhar o que nos espelha e não tradições que têm muito pouco a ver connosco.

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