sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

No tempo em que os animais falavam


A Primavera começava a chegar à quinta. Os dias eram mais longos e tudo parecia mais brilhante: a relva que despontava, os botões das prímulas do terraço, os pingos da chuva que ficavam a baloiçar nos ramos e secavam mais depressa.
O Máximo também sentia a influência da Primavera. Corria ligeiro pelos muros e pelos telhados e cofiava os bigodes cinzentos. Já não sentia vontade de brincar com os irmãos mais novos, que passavam o tempo a correr atrás dos pássaros e a encenar lutas com os outros gatos. O Máximo gostava era de fingir que preguiçava, no muro em frente da casa, enquanto olhava gulosamente as gatas que passavam. Especialmente a Tita. Ah, a Tita! Era linda, aquela gata, com as suas riscas cor-de-laranja que lhe faziam lembrar um sol, quando se bamboleava pelo terraço. O problema era que a Tita só tinha olhos para o Romeu, o gatarrão cinzento e branco. Passava-lhe à frente e voltava a passar, como quem não quer nada, ou então lançava uma frase “Hoje está menos frio, não está?” a ver se pegava a conversa. E pegava, claro, o Romeu enchia o peito e lá ficavam os dois a ronronar à esquina da varanda.
O Máximo via a cena e sentia-se triste. Começou a roer as unhas. A mãe ralhava com ele: “Onde é que já se viu? Um gato a roer as unhas? Quando cresceres, vais precisar das unhas para lutares pelos teus direitos, com os outros gatos ou os cães. Pensas que, numa luta, basta bufares? Sem unhas não vais longe!” Mas o Máximo ouvia a mãe com aquela absoluta indiferença com que os adolescentes ouvem os conselhos dos mais velhos.
Começou a isolar-se dos outros gatos. E foi assim que, um dia, se encontrou atrás do poço com um animal que não conhecia. Quatro patas e uma cabecinha saiam de uma carapaça achatada de um castanho cor-de-terra, aproveitando o sol. Intrigado, Máximo inquiriu o animal: “Olá, quem és tu?” A cabecinha castanha voltou-se para ele, mostrando dois olhitos redondos: “Olá! Sou uma tartaruga e chamo-me Marisol!” O Máximo deu uma enorme gargalhada, o nome parecia-lhe tão disparatado, tão pouco condizente com aquele ser que em nada fazia lembrar um sol! Marisol enfiou rapidamente a cabeça para dentro da carapaça. “Que nome tu tens! Porque é que te chamas assim?” Mas Máximo não obtinha resposta, só se via a carapaça, muda e parecendo uma pedra. O gato sentiu-se culpado. “Desculpa se te ofendi, não era essa a minha intenção”. A cabecita castanha apareceu de novo e inclinou-se para o lado, num gesto que o Máximo iria aprender que lhe era muito habitual, sempre que a tartaruga estava mais séria ou atenta a alguma coisa. “Já tenho pensado sobre isso. Se calhar, quando eu nasci parecia um sol para a minha mãe. Quando ela me pôs este nome, não pensou que todos iriam gozar comigo, durante a minha vida inteira!”
O Máximo sentiu-se culpado outra vez. E estendeu-lhe a grande pata cinzenta. E ela colocou em cima a pequena pata cor-de-terra. E ficaram amigos.
A partir desse dia, passaram a encontrar-se junto do poço. Conversavam muito e descobriam como era o mundo visto por outros olhos. Também brincavam. A Marisol fingia que amuava e metia-se dentro da carapaça. O Máximo rodava então a carapaça, até ela aparecer outra vez, tonta de riso. Ou então, brincavam a ver quem conseguia apanhar mais moscas. E nem sempre era o Máximo a ganhar a competição.
Já no final da Primavera, após uma tarde de insectos e brincadeira, o Máximo disse de repente: “Damo-nos tão bem, nós os dois! Podíamos casar e ser felizes!” Tão simples, dito assim! Marisol parou e olhou para ele, com a cabecita de lado: “ Não, não podíamos, somos demasiado diferentes.” O gato olhou-a surpreendido: “O que é que tem?” Marisol disse tristemente: “Ninguém nos iria aceitar! Onde é que íamos viver? Quem seriam os nossos amigos? O que diriam as nossas famílias?”
O gato ficou zangado e virou-lhe as costas. “Oh, estás a ser pessimista. O importante é sermos felizes!”  A tartaruga fitou-o novamente, com a cabecinha de lado, e depois, devagarinho, deu a volta e começou a afastar-se, na direcção do prado.
O Máximo virou-se e viu a tartaruga caminhar vagarosamente para longe do poço. Ela caminhava tão lentamente, bastavam dois saltos, três, para a alcançar. Mas não fez nada disso. Ficou a vê-la afastar-se. E voltou a roer as unhas.


18 comentários:

  1. Olá Teresa,

    que história linda e ternurenta. Adorei esta amizade entre o Máximo e a Marisol. Mas de tão amigos, nasceu o amor e... mais tarde a consequente separação.

    Marisol sabia perfeitamente que seriam desprezados, criticados, humilhados por serem tão diferentes. Máximo podia ter sido mais decidido,mas não foi porque reconheceu que Marisol tinha razão.

    Passa-se o mesmo com o ser humano. Há tanto preconceito!

    Beijinhos

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  2. Querida Natália
    Compreendes sempre o sentido do que eu escrevo.
    Obrigada e bjs :) :)

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  3. Nesta história, que muito gosto me deu ler, personagens e palavras não se meteram em deslizamentos fáceis...
    Só não simpatizei com a mãe do Máximo. Acho que não o devia ter deixado roer as unhas, se é que me faço entender...
    Bom fim-de-semana
    Bjs

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  4. Sinhã
    Esse era um belo título, não me lembrei dele! :)
    Volta sempre. Bjs

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  5. Carlos
    Obrigada pelas suas palavras.
    Também concordo que a mãe do Máximo não o devia deixar roer as unhas, mas como convencer disso um adolescente, mesmo gato?
    Bjs

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  6. A diferença é sempre muito difícil de gerir e pior é lidar com o preconceito, tal como a Natália referiu. Por vezes, tal como fez o Máximo, volta-se as costas; outras, tal como a Marisol, enfia-se a cabeça na carapaça. Mas, felizmente, também há tartaruguinhas e gatinhos que decidem lutar, enfrentar o preconceito e afirmarem a sua diferença. Seja qual for o motivo, seja qual for a diferença.
    Uma bonita história. Parabéns, Teresa.

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  7. Maria
    Tens toda a razão. Alguns reagem roendo as unhas, não é?
    Gosto de contar histórias simples para pensar em coisas complexas.
    Bjs

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  8. Teresa
    A história do Máximo e do Marisol é a história de tanta gente.
    Saberá Máximo que ao não voltar para trás partiu o coração da Marisol?

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  9. Há.dias.assim

    Acho que também partiu o dele, mas não foi capaz de fazer outra coisa. Como tantas vezes acontece connosco.
    Bjs

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  10. Olá teresa
    Lindo e encantador texto parece mesmo real! a minha Tita vaidosa tem uma amizade intensa com o amigo cágado que já hibernou e só na Primavera voltará, o que dirão um ao outro...
    Adorei
    Bjs

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  11. Lilá(s)
    Quem sabe se não tens uma história de amor no teu jardim, sem te aperceberes de nada?
    Bjs

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  12. Teresa, Teresa...
    A tua forma de abordar assuntos sérios de uma forma tão "lúdico-pedagógica" fascina-me. E sabes bem que eu conheço o peso da diferença... E orgulho-me muito, pois o "nosso" menino não roeu as unhas, não virou costas, nem meteu a cabeça dentro da carapaça.
    Sabes, no Verão ocupou as páginas centrais de uma revista especializada de Ténis! É que ele tornou-se um craque neste desporto e por tal teve direito a reportagem!! Bj

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  13. Ana
    "o nosso menino"? E não me disseste nada? Faz favor de me mostrar essa reportagem na melhor oportunidade!
    Bjs

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  14. Vim cá parar não sei sequer como... e fui lendo de baixo para cima. Sem critério que não fosse o da curiosidade e do acaso.
    Desde há alguns anos, "o peso" da diferença caiu-me em cima com uma força e um peso que não sabia existirem, por razão de uma afilhada com Asperger. Tenho pensado e repensado muita e tanta coisa que antes me passava ao lado ou passava através daquilo a que sempre me habituei a chamar como "boa consciência".
    Não sei pq estou sequer a comentar... bastava ter dito o quanto gostei do texto e seguir caminho. Bastava pensar no quanto gosto de animais e dizê-lo. Bastava talvez ter lido sem pensar.
    Talvez este não fosse o dia certo para o ler ou talvez fosse o mais certo dos dias. Na dúvida agradeço a quem o escreveu!
    Hei-de ir... voltando!
    Cumprimentos:
    Rui V.

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  15. É sempre difícil compreender e aceitar as histórias de amor que fogem às regras pré-estabelecidas; esta história , tão original como importante serve perfeitamente para exemplificar tanta situação dos nossos dias e até é curioso como há mesmo pessoas que devido à pressão social, procedem como a tartaruga, renunciando a um amor e escondendo-se na sua carapaça...
    Beijinho.

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  16. Rui
    Obrigada pelo seu comentário. São palavras como as suas que me fazem pensar que vale a pena ter um blogue, e continuar a escrever e a reflectir neste vasto espaço que é a blogosfera.
    Volte sempre.

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  17. Pinguim
    A pressão social é uma coisa tremenda. Nem imaginas (ou talvez imagines!) quantos casos existem em que é mais fácil esconder a cabeça na carapaça, ou viver a roer as unhas.
    Bjs

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