segunda-feira, 11 de maio de 2009

Tragédia

Alguns dos meus últimos posts fizeram-me voltar atrás, aos meus tempos de estudante, na época do 25 de Abril. Isso fez-me lembrar outras coisas. Por exemplo, a poesia. Lembro-me que nessa época, com 14, 15 anos, tinha uma colega, a Graça Bento, com quem lia e trocava poesias. Era a época da descoberta da música, da cadência, da beleza das palavras. Foi nessa altura que me habituei a andar sempre com um pequeno caderno, para registar em qualquer altura o que me agradava, uma frase, um poema, um autor. E ainda hoje mantenho esse hábito. Naquela época, descobri Eugénio de Andrade, Mário Cesariny e tantos outros, entre os quais Manuel da Fonseca, mais conhecido como romancista do que como poeta. Mas eu gostava muito da forma simples como Manuel da Fonseca juntava as palavras. Fui descobrir um desses poemas, um dos meus preferidos, intitulado "Tragédia".

Tragédia

Foi para a escola e aprendeu a ler 
e as quatro operações, de cor e salteado. 
Era um menino triste: 
nunca brincou no largo. 
Depois, foi para a loja e pôs a uso 
aquilo que aprendeu 
— vagaroso e sério, 
sem um engano, 
sem um sorriso. 
Depois, o pai morreu 
como estava previsto. 
E o Senhor António 
(tão novinho e já era «o Senhor António»!...) 
ficou dono da loja e chefe da família... 
Envelheceu, casou, teve meninos, 
tudo como quem soma ou faz multiplicação!... 
E quando o mais velhinho 
já sabia contar, ler, escrever, 
o Senhor António deu balanço à vida: 
tinha setenta anos, um nome respeitado... 
— que mais podia querer? 
Por isso, 
num meio-dia de Verão, 
sentiu-se mal. 
Decentemente abriu os braços 
e disse: — Vou morrer. 
E morreu!, morreu de congestão... 

Manuel da Fonseca, in "Planície"

 

1 comentário:

  1. Sei o que é ter um caderninho desses. Não para escrever poesias, mas escrever TUDO e mais alguma coisa.
    Gostei muito do poema que escolheste.
    Um beijo

    Romicas

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