domingo, 31 de maio de 2009

Dormir num palácio


Fiz anos, muitos, meio século. E uma das prendas que recebi foi um fim-de-semana no Palace Hotel do Bussaco. Nunca lá tinha estado e foi, realmente, uma experiência extraordinária. O Palácio que hoje funciona como hotel foi construído em 1885 para os reis de Portugal; o rei D. Carlos gostava de o usar como pavilhão de caça. É de uma beleza e harmonia únicas. Construído no mais exuberante estilo neo-gótico, mais exactamente neo-manuelino, multiplica rendilhados, pináculos, gárgulas. Se o exterior é deslumbrante, o interior não o é menos. Aos emblemas reais, às cordas, aos motivos florais, esculpidos em todos os salões e corredores, juntam-se quadros, frescos e painéis de azulejos que evocam Camões e os Lusíadas, mas também outros episódios dos Descobrimentos. Por exemplo, a grande escadaria central está ladeada por dois grandes painéis de azulejos que representam a conquista de Ceuta e a reconquista de Goa. Mas surgem também, logo no salão da entrada, as guerras peninsulares e as lutas liberais. Para quem gosta de História, como eu, há um pormenor interessante em cada canto. À volta do hotel, estendem-se jardins onde é agradável passear, tanto de dia como ao entardecer.


A casa de jantar é dos aposentos mais majestosos. Ricamente decorada, tem uma varanda coberta, onde comemos. A noite estava amena e o ambiente era de uma grande serenidade. Só se ouviam algumas cigarras, de quando em vez um pássaro nocturno. Tudo me soube bem, desde o creme de bróculos com queijo fresco até às sardinhas marinadas com molho de framboesas e ao robalo corado com mexilhões e camarões. A acompanhar, vinho branco, Bussaco de 2003.

Sinceramente, acho que uma estadia neste hotel é uma experiência única, que vale a pena e eu aconselho.

Dormi num palácio e senti-me uma rainha! Que bom é fazer cinquenta anos!

sábado, 30 de maio de 2009

Naturalidade

"Chamais-me europeu?
Pronto, calo-me.

Mas dentro de mim há savanas de aridez
e planuras sem fim
com longos rios langues e sinuosos,
uma fita de fumo vertical,
um negro e uma viola estalando."

Rui Knopfli

sexta-feira, 29 de maio de 2009

É só um caso de uma garota!

Não tenho o hábito de trazer para este blog questões tão mediatizadas como a da pequena Alexandra, devolvida à sua mãe russa. No entanto, este caso deixa-me tantas angústias e interrogações que não consigo deixar de o comentar.
A pequena Alexandra foi retirada à sua família de acolhimento e enviada para a Rússia, onde vive a sua mãe com a restante família. Qualquer pessoa que se mantenha minimamente informada conhece os pormenores do caso, já que os media não falam de outra coisa desde ontem. Primeira interrogação: porquê só agora, se a decisão do tribunal data de há um ano atrás? 
Ao tomar conhecimento do caso, fiquei sensibilizada, claro, mas depois de ouvir o juiz responsável pela decisão fiquei revoltada. Parece então que o sr. juiz, ao ver as imagens da mãe biológica a bater na criança, teria ficado incomodado. Até o sr. ministro da Justiça se declarou incomodado. Segunda interrogação: quem assumirá o "incómodo" provocado a esta criança?
Todos os psicólogos afirmam que os laços afectivos criados nos primeiros anos de vida são fundamentais. Será do "superior interesse da criança" cortar subitamente esses laços? 
Algumas figuras importantes do nosso mundo judicial afirmam que a decisão esteve correcta, a lei é que não o está. Então de que estamos à espera para alterar uma lei que, segundo parece, está obsoleta e não corresponde à realidade social? Porque é que a lei não permite que as famílias de acolhimento adoptem as crianças que acolheram?
Não posso deixar de recordar as situações que, quase todos os anos, sacodem a nossa consciência, os casos de crianças maltratadas ou mesmo mortas depois de serem entregues às sua famílias biológicas. Quando se irá perceber que as crianças não são propriedade dos pais? Que os laços biológicos não podem prevalecer sobre os laços do coração? Enfim, que a lei deve existir precisamente para proteger a criança, que é o elo mais fraco?
São demasiadas interrogações para as quais não tenho resposta. Mas a maior angústia tomou conta de mim, quando ouvi o sr. juiz afirmar (ontem, no telejornal da SIC da hora do almoço), que, enfim, "é só um caso de uma garota!" Será que continuava a sentir assim se essa garota fosse sua filha, ou neta, ou conhecida? Cada criança é totalmente e soberanamente importante, e o que lhe acontece é responsabilidade de todos nós. E quem não o compreende não merece ter tão grande poder nas suas mãos.
 

A Turma

O Festival de Cannes é a grande montra do que de melhor se faz no mundo do cinema e, este ano, um jovem português, João Salavisa, ganhou aí o prémio para melhor curta-metragem. Parabéns ao realizador, à sua equipa e ao cinema português.
Serve isto como pretexto para escrever um pouco sobre o filme que ganhou a Palma d'Ouro no ano passado, 2008. "A Turma", no original "Entre les Murs" de Laurent Cantet, é um filme rodado numa escola dos arredores de Paris. Retrata essencialmente a relação entre um professor e um grupo de alunos, uma turma, durante um ano lectivo. A turma, a escola, é uma amostra do tecido social e dos conflitos que aí se tecem e nós, espectadores, assistimos aos esforços do bem intencionado professor de Francês no sentido de levar aquele grupo a aprender a expressar-se melhor, mas também a respeitar-se e a compreender-se. Nem sempre ele é feliz nas suas atitudes, e por vezes, as situações são levadas a extremos. No final do ano lectivo, todos cresceram um pouco.
Penso que todos os professores, especialmente os que leccionam essa terrível faixa etária do 3.º ciclo, se revêem em algumas das situações que ocorrem naquela turma. Mas, principalmente, é um filme importante para quem acha que ensinar é simples e ser professor é fácil. Acima de tudo, é um filme sobre o enorme desgaste emocional de ser professor hoje.
Para quem nunca viu, aqui vai o trailer, só para abrir o apetite. E quem não perceber francês, não precisa de se preocupar, porque existe o filme legendado em português.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Rupert and the frog

Ontem, quase sem dar por isso, de mansinho, os visitantes deste blog ultrapassaram o milhar. Ainda é um blog tão novinho, fico contente! Por isso, resolvi que o post deste dia é uma prenda para quem aqui vier.
E quem se lembra disto?



terça-feira, 26 de maio de 2009

Postal de Lisboa VI - Cais do Sodré

Cais do Sodré é um nome que evoca as mais diversas imagens. Para quase ninguém evoca o Duque da Terceira, personagem presente em estátua no centro da praça e que lhe dá o nome.
Para alguns, evoca os bares onde as noites se afogam nuns copos, bares da moda, bares de música mais ou menos alternativa, bares de prostitutas, bares de marinheiros. Nas imediações da Rua de S. Paulo, os bares, com as suas mesas e chão de mármore desgastado, ainda têm nomes evocativos como bar “Pirolito” ou bar “Salva Vidas”. O escritor Tiago Rebelo recorda o Cais do Sodré do final dos anos 60, onde, segundo se dizia, “o sangue corria nas valetas”.
Para outros, evoca o local de destino diário, o início do dia de trabalho, o grande interface de transportes urbanos, onde se cruzam os barcos que vêm da “outra banda” com os eléctricos e os autocarros que vão para Belém ou Algés ou qualquer outro destino, onde chegam o metropolitano e os comboios de Cascais, onde os carros e os táxis se atropelam. Para outros ainda, evoca apenas um fado antigo.
Há alguns dias, passava eu no dito Cais do Sodré e pensava precisamente sobre tudo isto. Não gosto de passar pela parte central, sempre cheia de gente. Atravesso sempre pelo jardinzinho, mais perto da beira-rio. Ali, as horas ainda são marcadas pelo velho relógio, protegido pela sua cobertura verde em meio cilindro, a condizer com as janelas em óculo das mansardas do prédio em frente. Tem um ambiente antigo, quase fora-de-moda, que contrasta com a grande estação ferroviária e fluvial ali mesmo ao lado. No centro, há uma escultura um pouco ingénua de homenagem ao “homem do leme”, aos marinheiros do Tejo. Nesta altura do ano, todo o jardim está pintado de branco e lilás, com as suas lantanas em flor. Num banco de jardim, está um taxista sonolento. E, mais à frente, junto a outro banco de jardim, três miúdos jogam ao berlinde. Não têm mais de doze anos e riem, enquanto discutem as jogadas. A cena parece tão fora-de-moda como o próprio jardim. No entanto, olhando à volta, parecem ser os únicos que não se preocupam com a crise, pelo menos naquele momento. Para eles, o Cais do Sodré evocará sempre outra coisa, só deles.
No meio do passeio fronteiro à Estação Ferroviária, está deitada uma mulher de idade indefinida, com uma taça de plástico à frente a induzir à esmola, que ela não pede. Que evocações serão as suas?

Estação do Cais do Sodré (Foto de Rosamelia)

domingo, 24 de maio de 2009

Pontes

Gosto de pontes!
Altas e arrojadas, ou baixas, sólidas e fiáveis, são sempre momentos de mudança, pontos de passagem para outras margens...
Às vezes, limitamo-nos a olhá-las de longe, sem nunca iniciarmos a travessia.
Às vezes, são miragens.
Às vezes, atravessamo-las e conquistamos a outra margem.

Hoje, Lisboa está envolta numa ligeira neblina e a Ponte Vasco da Gama parece dirigir-se para o infinito, ou para lugar nenhum.
E os homens que apanham mexilhão na imensa planura lamacenta que o estuário deixa a descoberto na maré baixa, parecem náufragos que regressam a terra firme.
Só as gaivotas parecem saber para onde vão.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Mães e Filhos



Uma sondagem elaborada pela Netsonda e divulgada na última semana, dá-nos conta de que as mulheres portuguesas gostariam de ter mais filhos do que têm, situando-se a média em três filhos. No entanto, não pensam ter mais de um ou dois, devido a diversas razões que sondagem tenta distinguir. Em primeiro lugar, vêm as razões financeiras; depois vêm as dificuldades em conciliar o trabalho fora de casa com o tempo para os filhos. Há também razões que se prendem com o apoio (ou a falta dele!) prestado pelo pai ou outros familiares.
Segundo a sondagem, este desejo é transversal a todas as classes sociais, variando depois as razões para a sua não realização. Sempre me pareceu que a nossa noção de família, com os seus laços de compreensão e entreajuda, é um dos traços mais positivos da nossa personalidade enquanto povo. Pelo menos, da maioria de nós, que excepções também as há e bem aberrantes. Mas os contactos que tenho mantido com jovens de outros países da Europa, particularmente do Norte, mostraram-me que geralmente a relação familiar aqui é mais forte e os jovens sentem-se apoiados e queridos. O que é muito bom: não devemos ter receio de expressar abertamente as nossas emoções positivas.
Parece-me também que, sabendo bem do problema de baixa natalidade que Portugal enfrenta (e que só é parcialmente compensado pela imigração) este nosso desejo deveria ser mais acarinhado e compreendido.
Mas não é isso que se vê: ter um filho numa creche é quase tão caro como tê-lo na Universidade. Podia começar-se por aí. Depois, havia que dar às mães condições reais para poderem acompanhar os seus filhos. Porquê às mães? Porque, com condições ou sem elas, são as mães que fazem malabarismos para conciliarem o trabalho com a vida doméstica, que ainda é do seu pelouro, são as mães que vão com os filhos ao médico, são elas que estão presentes na escola, e ainda são elas que arranjam tempo para lher ler uma história à noite. Os pais podiam partilhar tudo isso - e alguns já o fazem - mas, como sabemos, a mentalidade demora tempo a mudar!
Intervir na ajuda ao pagamento de creches e jardins-escolas, aumentar as deduções fiscais relacionadas com as despesas dos filhos, flexibilizar os horérios de trabalho para apoio à família: estes seriam investimentos a longo prazo no bem-estar das nossas famílias, provavelmente com um retorno mais elevado e mais garantido do que outros investimentos que por aí andam a encher as parangonas propagandísticas dos nossos governantes.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Imagens raras de Lisboa

Lisboa é uma cidade com muitos séculos de história, mas raramente temos oportunidade de ver, num local apenas, vestígios quase sobrepostos desse passar do tempo. O Núcleo Arqueológico da Rua dos Correeiros é um desses locais. Não é fácil a visita porque, como é evidente, nem sempre está aberto e são precisas autorizações especiais para lá entrar. Mas vale a pena! Visitei-o há alguns anos, no âmbito de uma formação que estava a fazer sobre Civilização Romana e Romanização, juntamente com outros locais que guardam vestígios da presença romana em Lisboa. Mas este sítio é especial porque, à medida que vamos descendo, vamos recuando no tempo, até àquela lareira de chão dos tempos fenícios, quando aquele lugar era uma praia fluvial. É como desfolhar um milfolhas; cada folha traz um novo tempo, uma nova presença. Para quem gosta de Lisboa, é uma viagem no tempo, quase mística. Para quem não puder ver, in loco, deixo aqui a aproximação: um documentário feito pelo Canal História, que consegue dar uma ideia da magia do local. 




quarta-feira, 20 de maio de 2009

Pontapé no Socas


Será que somos mesmo capazes?

terça-feira, 19 de maio de 2009

O Último Ano em Luanda


Acabei de ler este livro do Tiago Rebelo e gostei bastante. Embora não seja uma obra-prima, é um livro bem escrito, que prende o leitor da primeira à última página. As duas personagens centrais, Nuno e Regina, são um casal que luta para se salvar, durante os anos de 1974 /75, em Angola. Através deles, é a tragédia dos portugueses que viviam em Angola que nos é apresentada; apanhados no meio de uma tempestade que não podem controlar, entre os interesses das grandes potências e a ineficácia da administração portuguesa, no meio das lutas fraticidas dos movimentos de libertação, lutam para salvar alguma coisa de uma vida de trabalho, quando não a própria vida.
A família do meu marido estava em Angola quando eclodiu a guerra civil. Não eram ferozes colonialistas, eram simplesmente pessoas que trabalhavam numa Angola que consideravam, também, a sua terra. Talvez por isso, muitas das situações e dos episódios narrados neste livro não me foram estranhos. Já ouvi contar muitas vezes casos idênticos. A maioria desses "retornados", como eram chamados, voltou para Portugal e aqui conseguiu reorganizar a sua vida.
Para quem não conhece bem, ou não viveu, este período da nossa história, talvez seja um livro importante. Pode servir para se compreender melhor o período turbulento que se seguiu à Revolução do 25 de Abril e que, tantas vezes, é convenientemente esquecido ou branqueado nos discursos oficiais.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Ainda os eléctricos

(Estrada de Benfica)
Para qualquer pessoa, português ou turista, o eléctrico é um ícone de Lisboa, tal como o Mosteiro dos Jerónimos ou o Castelo de S. Jorge. Não é por acaso que é imagem recorrente nos quadros dos artistas de rua que vendem as suas obras junto ao Arco da Rua Augusta. Dá um traço de cor e de pitoresco às ruas antigas de Lisboa, que eu espero que seja preservado, para gozo de todos nós. Pois para quem ama os eléctricos e cresceu com eles, há um blog fantástico, o tlimtlimxabregas.blogs.sapo.pt, que conta a história de cada linha através de fotografias antigas do seu percurso  (como a que aqui se mostra e foi de lá "roubada").  É um trabalho de pesquisa e de pormenor que encantará seguramente todos os que utilizaram este transporte e, estou certa, se irão rever em muitas daquelas imagens. É um blog a seguir... até porque o autor ainda só vai na carreira n.º 5.

Escolas matam a fome

Serve este post para completar o de ontem, sobre viagens fantásticas ao alcance de quem as puder pagar. Li no Correio da Manhã que há cada vez mais crianças a chegar à escola com fome, particularmente à 2.ª feira, depois de dois dias em casa. A Câmara Municipal de Sintra começou um programa de apoio há uma semana, abrindo as cantinas escolares também ao fim-de-semana e o número de inscrições quase duplicou numa semana. Noutros pontos do país, a situação é idêntica. Não posso deixar de me interrogar: que mundo é este em que vivemos? Que país é este que construímos? 35 anos depois de uma Revolução que prometia trazer-nos o desenvolvimento, além da democracia, é este o estado em que estamos? Em que andaram os nossos políticos entretidos, além do seu próprio bolso? Também não posso deixar de fazer outra pergunta: depois de terem sido tão maltratados, ainda é com as escolas e os professores que a sociedade conta, quando se vê em situações de carência? Estranho país este!

domingo, 17 de maio de 2009

Viagens e mais viagens


Como muito bem sabe toda a gente que me conhece mais ou menos bem, eu adoro viajar. E passo algum do meu tempo livre a "navegar" por livros, revistas, sites, programas televisivos, que se relacionem com o tema. Já que não posso viajar tanto quanto gostaria, as imagens e as palavras dão-me um "cheirinho" dos locais. Ora esta semana descobri duas referências extraordinárias, cada uma à sua maneira. 
Uma foi a notícia de que reabriu a circulação turística na fronteira entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul. Fiquei a saber que, se me sujeitar a ter acompanhamento militar e prescindir de telemóvel, posso visitar o templo Singyesa, do século VI, ou apreciar as cataratas Kuryong, ou outros locais com nomes fantásticos e, para mim, até agora desconhecidos, e que me deixam na boca um exótico sabor a aventura.
Mas, se não gostar de nenhuma das sugestões disponíveis no mercado, há outra possibilidade: através do site www.handmadevacations.com, é posto à nossa disposição um serviço de organização de férias total, que trata de todo o planeamento e de toda a logística até ao mais absurdo pormenor, no local mais improvável.
(País de Gales, 2006 - Foto de Teresa Ferreira)

Nesta época de comunicação global, há cada vez mais projectos e propostas aliciantes. Só há um problema: há cada vez menos dinheiro!

sábado, 16 de maio de 2009

Varekai

Fui ontem, com a família toda, assistir à estreia do espectáculo "Varekai" que o Cirque du Soleil traz este ano a Portugal. Logo a partir dos primeiros momentos, o espectáculo prende-nos: no cume de um vulcão, ou no meio de um bosque, surge-nos um mundo feérico, de fadas e duendes, de insectos, lagartos e libelinhas, que talvez se chame Varekai. Dos céus cai um jovem de longas asas, talvez Ícaro. A aventura que se segue junta acrobacia e arte dramática a uma extraordinária beleza visual, em que os cenários e o guarda-roupa são de uma enorme beleza e criatividade. A música, ao vivo, ajuda a transportar-nos para esse mundo irreal. Em resumo, é um espectáculo a não perder. É uma noite encantada.
Só para abrir o apetite, aqui vai um bocadinho do espectáculo.


sexta-feira, 15 de maio de 2009

Postal de Lisboa V - O 25E


Passear por Lisboa num dos velhos eléctricos amarelos é quase uma experiência extra-sensorial. É como se entrássemos numa cápsula do tempo. Sentada junto a uma das amplas janelas de madeira, avançando a ritmo lento pelas ruas estreitas, sinto que posso estar aqui e agora, como posso estar nos anos 30, dentro de um dos antigos filmes portugueses. Qual Mary Poppins que salta para dentro das pinturas, no parque, assim eu entro num eléctrico, dos velhinhos, e parto para outra dimensão.
Há eléctricos famosos: o 15, que percorre a zona ribeirinha até Algés; o 28, que sobe até à Graça… Um dos meus preferidos, no entanto, é o eléctrico n.º 25E. Parte da Rua da Alfândega e sobe até aos Prazeres. Na realidade, constitui uma espécie de passeio pela estrutura social de Lisboa. Vai avançando pelas ruas da zona do Cais do Sodré, até ao Largo do Conde Barão. É a Lisboa popular, confusa, das ruas atulhadas de veículos de todo o tipo, das casas com a pintura a cair e roupa a secar nos estendais. Há carros mal estacionados, que impedem o avanço do eléctrico. O motorista toca a campainha e entra pela janela um grito de “Raio do mechibombo!”, que trai a cultura popular mas também – e recordo que o machibombo era o autocarro angolano - a ligação antiga às colónias. Olho para fora, a ver se avisto o autor do grito, mas já não vejo nada, só um rapaz que viaja pendurado na porta de trás do eléctrico. Vai ali para não pagar bilhete, ou então pelo puro prazer de transgredir, já que há muito espaço dentro do eléctrico. Troca graçolas, aos gritos, com dois rapazes que vão sentados dentro do eléctrico. Usam bonés com a pala para trás e um deles tem um “piercing” na sobrancelha. Os corpos balofos denotam excesso de fast-food, as cuecas puídas, que se vêem quase na totalidade, denotam falta de higiene. À minha frente viaja um casal de turistas. Eles não prestam atenção aos rapazes, mas em contrapartida sorriem espantados aos sacos de caracóis pendurados à porta das pequenas mercearias de bairro.
A partir do Largo de Santos, o eléctrico começa a subir a colina e a escala social. Aproximamo-nos da Lapa. Os edifícios mudam, a maioria tem as fachadas bem cuidadas, muitas delas cobertas de azulejos. São fachadas sérias, sisudas, viradas para dentro. Alguns deles são palacetes, outros são casas bem recuperadas, com belas portadas e vislumbres de jardins interiores. Há menos gente na rua, menos barulho, menos confusão.
O eléctrico chega ao Largo da Estrela e passa entalado entre a Basílica e o Jardim. A partir daí, é Campo de Ourique, ruas agradáveis sombreadas por grandes árvores, cafés com pequenas esplanadas onde avós e netos bebem chás e leites achocolatados, lojas de bairro. Sempre foi um bairro da classe média e continua a sê-lo. O eléctrico continua a viagem até aos Prazeres, nome estranho para um cemitério, ou talvez não. Há quem diga que as classes sociais também se vêem nos cemitérios, há-os mais finos e mais populares. O cemitério dos Prazeres parece ser dos mais distintos. Mas não me parece que isso seja importante para quem ali tem a sua última morada.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Haiku

Felizmente, há sempre coisas que eu não sei e mantenho o meu espírito aberto para aprender. Não conhecia, por exemplo, o haiku. É uma forma de poesia japonesa, com um número de sílabas, ou "on" definidas, que têm sempre uma referência sasonal. Em japonês, escrevem-se numa linha vertical. Em inglês, dividem-se por três linhas horizontais, para ir ao encontro da métrica japonesa. O que a seguir transcrevo é um haiku à portuguesa. Foi o meu filho que o escreveu e eu gostei.

Sopra sob o céu
Sibilante e silencioso.
O vento de verão toca-me a pele.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Tragédia

Alguns dos meus últimos posts fizeram-me voltar atrás, aos meus tempos de estudante, na época do 25 de Abril. Isso fez-me lembrar outras coisas. Por exemplo, a poesia. Lembro-me que nessa época, com 14, 15 anos, tinha uma colega, a Graça Bento, com quem lia e trocava poesias. Era a época da descoberta da música, da cadência, da beleza das palavras. Foi nessa altura que me habituei a andar sempre com um pequeno caderno, para registar em qualquer altura o que me agradava, uma frase, um poema, um autor. E ainda hoje mantenho esse hábito. Naquela época, descobri Eugénio de Andrade, Mário Cesariny e tantos outros, entre os quais Manuel da Fonseca, mais conhecido como romancista do que como poeta. Mas eu gostava muito da forma simples como Manuel da Fonseca juntava as palavras. Fui descobrir um desses poemas, um dos meus preferidos, intitulado "Tragédia".

Tragédia

Foi para a escola e aprendeu a ler 
e as quatro operações, de cor e salteado. 
Era um menino triste: 
nunca brincou no largo. 
Depois, foi para a loja e pôs a uso 
aquilo que aprendeu 
— vagaroso e sério, 
sem um engano, 
sem um sorriso. 
Depois, o pai morreu 
como estava previsto. 
E o Senhor António 
(tão novinho e já era «o Senhor António»!...) 
ficou dono da loja e chefe da família... 
Envelheceu, casou, teve meninos, 
tudo como quem soma ou faz multiplicação!... 
E quando o mais velhinho 
já sabia contar, ler, escrever, 
o Senhor António deu balanço à vida: 
tinha setenta anos, um nome respeitado... 
— que mais podia querer? 
Por isso, 
num meio-dia de Verão, 
sentiu-se mal. 
Decentemente abriu os braços 
e disse: — Vou morrer. 
E morreu!, morreu de congestão... 

Manuel da Fonseca, in "Planície"

 

domingo, 10 de maio de 2009

A grande queima de livros

Não tenho o hábito de tratar aqui de efemérides, há blogs que o fazem muito melhor do que eu. Mas, hoje, passam 76 anos sobre um episódio que não podemos esquecer. No dia 10 de Maio de 1933, na Alemanha recém mergulhada no nazismo, foram queimados cerca de 25 mil livros, considerados perigosos ou susceptíveis de distrair das suas obrigações o "homem novo" que Hitler pretendia construir. Joseph Goebbels, ministro da Propaganda do Reich, afirmava que era necessário eliminar a má influência que a literatura podia exercer. Era necessário extirpar o socialismo e o bolchevismo, o judaísmo e o pacifismo, o cosmopolitismo e o liberalismo em geral. Organizou-se uma lista de livros a destruir, que englobava obras literárias, ciências, filosofia. Foram as próprias organizações estudantis do regime que se encarregaram de procurar nas estantes tudo o que lhes parecia "não-alemão", enfiando os livros em camiões a caminho da incineração. O grande acto de fé ideológico, a fazer lembrar Savonarolas e Calvinos de outras eras, e a preconizar outros que se lhe seguiriam no século XX, realizou-se em Berlim, a capital, na Operaplatz. Arderam obras de Freud, Marx, Einstein, Remarque, Brecht, e tantos outros. Heinrich Heine, poeta e judeu, que também viu as suas obras lançadas na fogueira da intolerância, afirmou: "Onde começam a queimar livros, terminam a queimar homens." E assim foi.

(Imagens da grande queima de livros em Berlim)

sábado, 9 de maio de 2009

Durão Barroso nos seus tempos de MRPP


Finalmente, encontrei na internet um video que me faz encarar o futuro com confiança. A partir de agora, quando um dos meus filhos ou dos meus alunos debitar com ar convicto um discurso confuso, entaramelado e ininteligível, sorrirei com enlevo e esperança: posso estar em presença do futuro Presidente da Comissão Europeia.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Postal de Lisboa IV - Quartel do Carmo


Quartel do Carmo (foto de Fernando Ferreira)


Aproveitando a canonização de Frei Nuno de Santa Maria, que é como quem diz Nuno Álvares Pereira, o Quartel do Carmo festejou com redobrado fulgor esta semana que antecede o Dia da Guarda, e em que há sempre comemorações. Este ano, as comemorações integraram uma exposição especialmente dedicada a Nun’ Álvares e eu aproveitei o sábado para a visitar. Não conhecia o interior do Quartel do Carmo. Além das salas especificamente dedicadas à história da Guarda Nacional Republicana (ou das organizações militares que a antecederam, desde os quadrilheiros de D. Fernando), tem um núcleo muito interessante, dedicado ao 25 de Abril. Aí se podem conhecer os pormenores do golpe militar que nos devolveu a liberdade e a democracia, mas também alguns aspectos da vida e da personalidade de Salgueiro Maia. Caminhamos nos corredores onde esperaram os enviados dos revoltosos, visitamos a sala onde Marcelo Caetano entregou o poder ao General Spínola, vemos os livros trespassados pelas balas dos sitiantes. É um passeio pela nossa história recente.
Mas o mais fascinante é olhar para Lisboa, a partir do quartel. Situado num ponto alto e estratégico, cada janela é um novo bilhete postal, desvenda-nos uma perspectiva diferente. As janelas do lado ocidental abrem para o Convento do Carmo, cujas ruínas não costumamos ver daquela forma, já que estamos à altura das arcadas superiores. A cereja no topo do bolo é, no entanto, a grande varanda das traseiras do edifício. Ricamente ornamentada com azulejos azuis e brancos, tem uma vista panorâmica sobre toda a Baixa de Lisboa, abrangendo as colinas fronteiras, até ao rio. A cidade estende-se aos nossos pés, as casas brancas amontoam-se nas colinas, vêem-se os eléctricos e os barcos no Tejo. Vista daqui, mostra o que tem de mais belo. Apetece ser poeta!
(Fotografias de Fernando Ferreira)

quinta-feira, 7 de maio de 2009

O urso

Vale a pena ver este video. Porque acredito que o amor de mãe é a força mais poderosa do mundo. Porque concordo com o ditado judeu "Deus criou as mães porque não podia estar em todo o lado ao mesmo tempo." Porque sim.


Aos meus alunos

Mais uma vez, recebo uma fita de um ex-aluno meu, para aí escrever algumas palavras, e ser colocada na pasta, por ocasião da Queima das Fitas. Desta vez, é de um rapaz que foi meu aluno durante todo o 3.º ciclo e que agora, no final do seu curso, se lembra de mim e me faz também lembrar dele, da turma, dos tempos que com eles passei. De vez em quando, acontece uma situação destas e toca-me o coração.
O verdadeiro professor não é aquele que faz belos planos, extensos relatórios, lindas planificações de aulas assistidas, cheias de estratégias inovadoras e recheadas de novas tecnologias. Não é o que enche a boca de "eduquês" e debita metodologias importadas e pouco adaptadas às nossas realidades, na maioria dos casos. O bom professor é o que ajuda os seus alunos a crescer, a compreender o mundo e que, de vez em quando, lhes desperta "um brilhozinho nos olhos" de interesse, de descoberta. São esses professores que eles não esquecem. E é por esses alunos e por esses momentos que eu sinto que, apesar de tudo, tem valido a pena ser professora.

terça-feira, 5 de maio de 2009

A Prisão


Já há algum tempo que não faço um post sobre as minhas leituras recentes e é altura de colmatar essa falha. Li há pouco este livro, “A Prisão”. É um livro surpreendente, de um autor que eu não conhecia, um colombiano chamado Jesús Zárate. Editou peças de teatro, contos, ensaios e apenas dois romances, um dos quais “A Prisão”. Recebeu o Prémio Planeta, postumamente.

A personagem principal deste livro é Antón Castán, que está detido há três anos por um crime que não cometeu. Resolve fazer uma espécie de diário da prisão, e é pela sua mão que conhecemos os seus companheiros de cela, com quem partilha algumas experiências e muitas dissertações sobre literatura, justiça ou liberdade. Entretanto, chega à prisão um novo director que, com a sua crueldade, faz desencadear um motim que dá a Antón a oportunidade de, enfim, cometer um crime. Na sequência do motim, Antón acaba por ser libertado e é nessa altura que se interroga sobre a verdadeira essência da liberdade e da prisão.

É uma obra muito agradável de ler e muito original, em que cada capítulo se inicia com uma citação, de autores tão díspares como Giovanni Papini ou Fedor Dostoievsky, Ernest Hemingway ou Paul Valéry, mas que vem sempre a propósito. É talvez uma metáfora sobre a liberdade, ou uma sátira sobre a justiça, ou talvez apenas um ensejo para nos interrogarmos sobre o que nos torna verdadeiramente livres.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Postal de Lisboa III - Igreja da Conceição Velha


Perto do Campo das Cebolas, andando na direcção do Terreiro do Paço, um pouco escondido dos olhares mais distraídos, surge-nos o Portal da Igreja de Nossa Senhora da Conceição Velha. Juntamente com a Casa dos Bicos, é dos poucos edifícios que restaram, nesta zona de Lisboa, da época anterior ao Terramoto de 1755. Paro a admirar aquele belo portal e, como sempre, surpreendo-me por não encontrar aqui o enxame de turistas que sempre rodeiam a Casa dos Bicos. Bem sei que a Casa dos Bicos é um exemplar pouco comum de arquitectura civil, com as suas pedras talhadas em ponta de diamante, embora seja a traseira do prédio, já que a parte nobre, a frontaria, ruiu com o terramoto. Como seria?

Portal da Igreja de Nossa Senhora da Conceição Velha (foto de Fernando Ferreira)

O Portal da Igreja da Conceição Velha não lhe fica atrás em nada, com a sua riqueza escultórica, a beleza e a perfeição dos detalhes. No entanto, não chama tanto a atenção de quem passa. A mim, surpreende-me sempre e, se tenho tempo, paro e descubro sempre um novo pormenor. E não posso deixar de imaginar como seria essa Lisboa de Setecentos. Segundo fontes fidedignas, ter-se-ão perdido dez por cento das casas da cidade e muitas outras terão ficado inabitáveis. Desapareceram os seis hospitais da cidade, incluindo o famoso Hospital de Todos-os-Santos, situado no actual Rossio. Desapareceram mais de 30 palácios, mais de 50 conventos. Desapareceu a magnífica Ópera do Tejo, inaugurada meses antes, a Alfândega, a rica Igreja Patriarcal, a Casa da Índia, o Arquivo Real, o Cais da Pedra. Perdeu-se o palácio real, o emblemático Paço da Ribeira, mandado construir por D. Manuel, com um património grandioso em mobiliário, obras-de-arte, livrarias. Perdeu-se a Biblioteca Real, acarinhada por D. João V e aumentada com muitas partituras e livros de música por D. José. Fico comovida ao pensar como seria essa cidade que cresceu como centro de um império que abrangia três continentes. O Marquês de Pombal arrasou o que sobrava desta zona para construir uma cidade nova, virada para o futuro. Talvez por defeito profissional, contemplo o Portal da Igreja da Conceição Velha para me virar para o passado, como se os seus anjos talhados na pedra me apontassem um portal do tempo e, através dele, eu pudesse contemplar esse mundo que todos nós perdemos.
Pormenor - Anjos (foto de Fernando Ferreira)

domingo, 3 de maio de 2009

Postal de Lisboa II - Campo das Cebolas



Campo das Cebolas visto através do Arco das Portas do Mar (foto de Fernando Ferreira)

Há dias fui a Lisboa e o trânsito absurdo, conjugado com o actual corte do trânsito entre o Terreiro do Paço e a Ribeira das Naus, fez-me parar no Campo das Cebolas. Além da “fauna” habitual havia muitos turistas, todos de livrinho ou roteiro turístico na mão. Procuravam claramente a Casa dos Bicos, mas não a conseguiam descobrir porque se encontra totalmente tapada, com o objectivo de sofrer qualquer intervenção, talvez até simples obras de manutenção. Parece que ainda não chegou a Portugal o bom hábito, com que tantas vezes deparamos lá por fora, de tapar os monumentos que estão a ser intervencionados com um taipal onde se vê – muitas vezes em tamanho natural – a fotografia do monumento e a indicação da obra que está a ser realizada. Por cá, ninguém parece achar isto necessário, ou simpático. Deixemos os turistas a procurar em vão o objecto das suas buscas! Segui com o olhar a direcção das objectivas e das câmaras de filmar. Muitos turistas descobriram, ao lado da Casa dos Bicos de cara tapada, um restaurante que têm esse nome e fotografam-no. Alguns são mais atentos e fotografam o próprio edifício. Dou por mim a olhá-lo também. É um edifício de seis andares, que ostenta algum brilho nas suas varandas de ferro e, principalmente, nas suas belas janelas enquadradas por ombreiras de pedra esculpida. É óbvio que tem um passado de orgulho e desafogo económico. No entanto, o estado de decrepitude da pintura e das portadas das janelas, contam outra história. Na varanda do 2.º andar, há várias toalhas amarelas penduradas a secar que, apesar de tudo, lhe dão um ar alegre e luminoso. Os turistas continuam a fotografar e eu penso que fazem bem. Esta combinação do passado orgulhoso com o presente decrépito é um bom retrato do país, um bom postal de Lisboa.

(Foto de Fernando Ferreira)

sábado, 2 de maio de 2009

O cão sonâmbulo


Não resisto a partilhar este video. Achei-lhe imensa piada, especialmente porque a minha Bonnie, de vez em quando, também tem cenas destas!





Coro dos Maus Alunos

É o título de uma peça de Tiago Rodrigues proposta pela Culturgest no âmbito do Projecto Panos - Palcos Novos Palavras Novas. É uma peça sobre jovens, para ser encenada e e interpretada por jovens, embora a personagem principal seja um professor de filosofia. Coro dos Maus Alunos é a história de um velho professor de filosofia promotor do espírito crítico dos seus alunos em relação à escola. Acusado de os confundir e de manter com eles relações que ultrapassam os limites de uma relação entre professor e aluno, o professor é submetido a um processo. É uma variação contemporânea sobre o julgamento de Sócrates, ocorrido em plena democracia ateniense e, tal como em Atenas, é pela voz dos alunos que conhecemos, distorcida e interpretada, a vida do velho professor e a história do seu julgamento.
Esta semana, fui ver a peça duas vezes, porque foi encenada por dois grupos de jovens, ambos ligados à Oficina de Teatro que funciona na minha escola. Uns estão a terminar o 9.º ano e é o seu projecto final; os outros estão no Secundário e continuam a trabalhar em Teatro, porque lá ficou o "bichinho" da representação. Apoiados pelo professor de Teatro, estes jovens deram os seus tempos livres e parte das férias ao trabalho de preparação da peça. O resultado foram duas cenografias e interpretações diferentes para um mesmo texto, mas ambas de grande qualidade. Conheço bem todos estes miúdos, muitos deles foram ou ainda são meus alunos e não posso deixar de me emocionar com o seu empenhamento e a sua entrega.
São estes momentos que fazem pensar que a Escola vale a pena e que, além das aprendizagens puras e duras, ainda se conseguem transmitir outras coisas aos alunos. São momentos de partilha com a comunidade, em que os alunos ganham em concentração, procura da perfeição, confiança em si mesmos. Nesta altura em que a Escola atravessa um processo de formatação e burocratização que todos tememos, só posso desejar que, no meio do processo, não sejam estes momentos de trabalho e criatividade os grandes vencidos. Espero que, no meio da floresta de planos, relatórios e portefólios, por entre aulas assistidas e reuniões intermináveis, ainda deixem aos professores tempo e motivação para trabalharem com os seus alunos.