sexta-feira, 19 de março de 2010

A propósito do Dia do Pai

Isto deve ser do meu mau feitio, mas não gosto da forma massificada e homogénea como se tratam estas efemérides, em que é suposto lembrarmo-nos de alguém, seja o pai, a mãe, o namorado, o gato, a vizinha, as bruxas, e por aí fora.
Nas escolas, por exemplo, todas as crianças fazem postais e prendinhas para pais que, tantas vezes, nem estão presentes! Há que ter alguma sensibilidade para lidar com estas situações.
Há alguns anos, eu era Directora de uma turma de 8.º ano de miúdos ditos complicados (comparados com os actuais eram uns anjos!). Muitos deles não viviam com o pai, pelas mais diversas razões: havia alguns que eram filhos de pais separados e mal viam o pai biológico; havia um que tinha o pai na prisão, outro estava numa clínica de desintoxicação; também havia um aluno cujo pai falecera, era ele ainda pequeno.
Na aula de Formação Cívica, organizámos um debate sobre o tema "Viver longe do pai", para falarmos um pouco sobre a figura paternal e o modo como aqueles jovens a olhavam. O rapazinho que era orfão (vamos chamar-lhe J.) contou-me então uma história que não mais esqueci.
No início do 1.º Ciclo, tinha o pai morrido há pouco tempo, a professora mandou-os fazer uns postalinhos para oferecer aos pais neste dia, 19 de Março, Dia do Pai. O J. também fez, sem protestar, sem dizer nada. No dia em que a professora os mandou levar o postal para oferecerem ao pai, o J. saiu da sala de aula, arranjou uns fósforos e queimou o postal no recreio da escola. Sempre sem dizer nada. Explicou-me naquela sala, anos depois, que lhe tinha parecido a única forma de entregar o postal ao pai, envolto no fumo que subia para o céu. Todos lhe diziam que o pai estava no céu, que maneira melhor iria ele encontrar?
A professora não compreendeu e castigou-o. Eu nunca mais esqueci o que o J. me contou. E aprendi que devemos sempre tentar perceber as razões que estão na raiz dos actos que nos parecem estranhos ou deslocados.
Imagem retirada de : creativescrappers.forumeiros.com

23 comentários:

  1. Grande e profunda reflexão essa.Pobres meninos que não tem mais a quem homenagear e são colocados nessas situações...beijos,tudo de bom,chica

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  2. Também hoje escolhi na aula de formação civíca este tema, e descobri coisas muito interessantes...tal como tu detesto também me aborrece nestas alturas o comércio atacar em cheio.
    Bjs

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  3. Teresa, pessoalmente também não aprecio essa forma massificada e principalmente amiga do comércio, para se lembrar que gostamos de alguém, mas uma palavra ou um gesto é uma boa forma de reforçar o nosso sentimento. O J. teve um gesto nobre e que provavelmente poucas crianças teriam. Apesar do castigo, tenho a certeza que o pai, onde quer que ele estivesse, agradeceu orgulhosamente a singela prenda. É realmente uma pena que não exista um pouco mais de sensibilidade em relação a essas crianças de pais ausentes e muitos nunca presentes. De qualquer forma, obrigada por partilhar connosco o gesto do J., creio que é por momentos como este que este dia vale a pena.

    Beijinhos :)

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  4. Olá Teresa,
    Estas coisas dos dias disto e daquilo...complicam-me com os nervos! Hoje veio-me à memória (porque estou de férias), um menino lá do colégio que perdeu o pai ainda não faz um ano... o menino só tem 3 anos! Ainda bem que não estou lá para assistir à "coisa"... supostamente deverá ter sido o avô que se apresentou no lugar do falecido (é a figura masculina que ele tem agora presente)... O que irá naquela cabeça ao ver os pais irem buscar os seus amigos? Qual será o significado que este dia terá para aquele menino?

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  5. Convite para ler

    O livro "Continuando assim...", foi maltratado...

    Resolvi por isso, e porque tanta gente não encontra o livro onde deveria estar (nas livrarias), recontar a história , lá no
    …. Continuando assim…

    Vamos em metade da história, o livro reescrito , não está igual (nem podia) ao que foi editado.
    Um obrigada especial a quem segue (pois só vale a pena assim).
    A quem chega de novo, umas boas vindas sinceras. E outro obrigada .

    Mais uma reflexão em relação a todo este assunto, e um conselho, se é que me é permitido:

    --- quando vos pedirem dinheiro para editar as vossas palavras, simplesmente digam que não ---
    Bj
    Teresa

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  6. Teresa

    Das tuas palavras, queria apenas realçar, dois aspectos extremamente importantes nos dias de hoje. Em primeiro lugar, o número cada vez maior de crianças que ficam com os cartões e as prendas "na mão", suportando em silêncio a desilusão da desvalorização do seu investimento e, mais grave ainda, interiorizando que as palavras e os actos, são coisas diferentes.
    Em segundo lugar e não menos importante, o cuidado que devemos ter quando, tão levianamente, tendemos a fazer juízos de valor sobre o que dizem ou mesmo o que fazem os outros, sem sabermos, nem sequer estarmos muitas vezes verdadeiramente interessados em saber, a razão que move tais atitudes.
    Quantas vezes, quando nos disponibilizamos para escutar o outro, nos surpreendemos sobre o que nos revela o seu coração.

    Um abraço

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  7. Uma história comovente que já me tinhas contado. De facto, com todas as mudanças sociais, é preciso ter tacto e sensibilidade para não tratar todos os meninos e meninas por igual, pois cada caso é um caso. Mexer com os sentimentos de perda ou distanciamento é difícil e doloroso.

    Beijinhos


    Bom fim-de-semana.

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  8. Chica
    A sociedade mudou, mas tendemos a perpetuar gestos e atitudes, sem percebermos que estamos a lidar com coisas diferentes.
    Bjs

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  9. Lilá(s)
    Acho que é útil, para os miúdos, abrir um espaço para eles falarem sobre o pai, ou a falta dele, especialmente hoje em dia. Parece que cada vez há menos tempo para falar com os filhos.
    Bjs

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  10. Teresa,

    Essa história do aluno J. é triste, mas traz à tona uma realidade com a qual a escola deveria saber lidar: muitas atitudes dos alunos menores são uma forma inocente de comunicar algo.

    Beijos e bom final de semana.

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  11. Helga
    Como eu tenho mau feitio, já disse, aborrecem-me todos os festejos obrigatórios, que hei-de fazer? No entanto, se estiver presente, esta é uma ocasião tão boa como qualquer outra para dar um beijinho ao pai.
    Quanto ao J., já está na Faculdade, às vezes encontro-o. Não sei se ele ainda se lembra deste episódio, eu não esqueci mais.
    Bjs

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  12. Nocas
    Pois é, fazemos um festejo muito alegre para todos, sem percebermos que estamos a magoar alguns. Porque não deixar estas coisas para a esfera privada, nesta época em que os modelos familiares são cada vez mais diversos?
    Bjs

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  13. Maria João
    Tens razão, tanta razão, no que dizes!Há que olhar para cada pessoa como um ser especial e diferente, e ouvir com o coração.
    Bjs

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  14. Estamo todos formatados, como se fossemos soldadinhos de chumbo e depois não pensamos.
    Desculpe que lhe diga, mas a professora que castigou o J devia pura e simplesmente ser demitida!

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  15. Natália
    Pois, temos de ter tacto e sensibilidade para lidar,tanto com as pessoas como com as situações.
    Bjs

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  16. Carlos
    Provavelmente tem razão, mas, como disse, estamos todos formatados. Será que alguma vez ela percebeu as razões por trás do acto do rapazinho?
    Bjs

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  17. Valdeir
    Os miúdos, por vezes, não conseguem verbalizar as suas emoções e comunicam com actos. Há que ter muita atenção e sensibilidade.
    Bjs

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  18. A sociedade precisa realmente rever seus valores de família... e repseitá-los.

    Shisuii

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  19. O pai não é para homenagear uma vez por ano, mas sim todos os dias. Tal como a mãe, a criança, a mulher...

    A sociedade, tal é a fome do consumo, adora inventar dias para isto e para aquilo e para tudo.

    As pessoas também gostam disso... no seu íntimo acreditam que, se der atenção à pessoa em causa (mãe, pai, filho...)naquele dia, fica tudo bem.

    Acreditam que todos os restantes dias em que nada se fez - em que nem uma palavra, um gesto ou um sorriso se ofereceu - desaparecem como um acto de magia.

    Eu não homenageio o meu pai, no dia do pai.

    Faço-o todos os dias...

    Um beijinho...

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  20. Shisuii
    Precisamos mesmo. A sociedade mudou, temos de compreender isso.
    Feliz de te ver de novo por aqui.
    Bjs

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  21. Susana
    Concordo com o que dizes. O amor é para dar todos os dias, e não apenas nos dias marcados. Assim, vale muito pouco. Mas descansa as consciências e dá jeito ao comércio.
    Bjs e bem vinda a este espaço de conversa. Volta sempre.

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  22. Eu já deixei expressa muitas vezes a minha discordâncias com esses dias de...(consumismo manda)...
    Mas fiquei enternecido com a história que contaste do pequeno J. e da insensibilidade da professora que o castigou (devia ter indagado o porquê da acção do miúdo.)

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  23. Teresa, não conhecia este teu post... ignorância ou falta de atenção..
    Apenas um comentário, além de comovente, fica patente a "quase estupidez " daquela professora, que demonstra uma total falta de sensibilidade..
    Embora tardios os meus parabéns, e obrigado por me teres chamado à atenção para este post.
    Bjs.

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