quinta-feira, 25 de março de 2010

As mulheres são como os pauzinhos

As mulheres são como os pauzinhos: úteis e facilmente quebráveis. 
Os homens são as traves robustas que sustentam a casa.

Esta frase chinesa, crua e incisiva, encerra em si um ensinamento que é uma maneira de ver a vida. Há mais de mil anos que os chineses absorvem esta filosofia, esta forma de olhar os dois sexos, o homem e a mulher. O homem é o ser forte, o pilar da família. E todas as famílias desejam ter um pilar. É uma festa quando nasce um rapazinho!
A História ensina-nos que a mentalidade muda lentamente. As diversas revoluções que abalaram a China, nos últimos cem anos, transformaram-na quase de alto a baixo, de um enorme império, pobre e atrasado, num colosso económico, na vanguarda de quase todas as áreas económicas e tecnológicas. Deixou de ser um país atrasado. Não sei se as pessoas deixaram de ser pobres! Não sei também se a mentalidade acompanhou o progresso tecnológico.
Nas vastas áreas rurais, tais como nas zonas sobrelotadas das grandes cidades, as pessoas não mudaram assim tanto. A China comunista atacou o problema do crescimento demográfico explosivo com a política do filho único. Podendo ter apenas um filho, a maioria dos casais espera ansiosamente que seja um menino, para ser o amparo dos seus pais. E, se surgir uma menina? Podem aceitá-la, com algum desgosto. Outras vezes, livram-se dela, das mais diversas maneiras. E continuam à espera do varão.
Esta reportagem da revista Marie Claire que me chegou às mãos reflecte este desprezo milenar pelo sexo feminino. A história é contada por quem presenciou a cena e não conseguiu ficar indiferente.

Numa manhã de fevereiro de 2001, numa cidade da província chinesa de Hunan, vê-se uma cena de crueldade e horror inimagináveis: na sarjeta de uma movimentada rua central estende-se o corpo minúsculo e contorcido de uma recém-nascida. Ela está nua, rodeada apenas de pedaços sujos de gaze hospitalar. Ônibus e bicicletas passam rapidamente ao lado do corpo da menina, espirrando lama sobre ela.

Sem nome e indesejada, a recém-nascida foi despejada na rua em pleno inverno. Poucos pedestres olham para ela uma segunda vez. Para eles, a morte dessa menina é mais uma conseqüência da cruel política chinesa que obriga os casais e terem um único filho. "Acho que o bebê tinha acabado de morrer", diz uma mulher que foi a única pessoa a tentar salvar a criança durante as três horas que ficou ali. "Toquei na pele dela, e estava quente. O sangue ainda saía pelo nariz." Ela tentou chamar o serviço de emergência, mas ninguém apareceu. "Esse bebê foi largado perto de uma repartição pública, portanto muitas pessoas do governo passaram por ele." Também passaram por ele bicicletas, homens, mulheres, crianças. Apenas depois de três horas alguém decidiu parar e tirar o corpo daquele bebê da sarjeta: um senhor de idade pegou a criança, colocou-a em uma caixa e jogou-a dentro de uma lata de lixo. Pouco depois, a polícia apareceu. Os policiais não mostraram nenhum interesse em investigar aquela morte. Ao contrário: tudo o que fizeram foi levar para a delegacia a mulher que tentara salvá-la. "Eu tinha uma câmera na bolsa e tirei algumas fotos, porque tudo foi muito horrível. O mais impressionante foi que a polícia se preocupou mais com minhas fotos do que com o bebê", diz ela. Na delegacia, ela só foi liberada depois de ter entregue os filmes. 

Será que alguma coisa mudou, desde que esta cena se passou até hoje? Pressionada internacionalmente, a China acabou com a cota de nascimentos nas zonas onde vivem minorias étnicas que possam estar em perigo de extinção (esta medida abrange cerca de 3% da população). E, em algumas regiões, permite o nascimento de um segundo filho, se o primeiro for do sexo feminino. Não chega. A única solução é ensinar aos chineses que as meninas valem tanto como os meninos. Mas sabemos como a mentalidade é lenta a mudar.
Em algumas regiões da China, o desequilíbrio demográfico é tão grande (nalgumas zonas chega a ser de seis para um) que os rapazes não encontram facilmente uma mulher para casarem e formarem família. Pobres rapazes chineses! Pobres meninas chinesas!


38 comentários:

  1. Culturalmente "a mulher como pauzinho e o homem como trave" é transversal.
    No caso chinês, está a estender-se os tentáculos políticos, para um menosprezo do sexo feminino...digo eu

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  2. Teresa, prometo passar aqui mais tarde para ler este teu post, que parece ser de muito interesse, mas agora queria apenas agradecer-te pelo comentário nas 'Crónicas do Rochedo'. Muito obrigada!

    Beijinhos :)

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  3. Infelizmente, não creio que haja grandes alterações de comportamento..., lembro-me de ver documentários sobre orfanatos chineses, cheios de meninas a viverem em condições muito pouco dignas!
    xx

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  4. Teresa

    É tão doloroso...
    É tão infame...
    É tão vergonhosamente desumano...

    Fico... ficarei sempre, sem palavras!

    Um abraço

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  5. MagyMay
    Sim, infelizmente este menosprezo pelo sexo feminino é transversal a todas as culturas. Algumas têm conseguido avançar para uma visão do mundo mais equilibrada, mas outras ainda têm um longo caminho a percorrer.
    Bjs

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  6. Helga
    Não precisas de agradecer, foi do coração.
    Bjs :)

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  7. Papoila
    Temos de ser positivas. A mulher chinesa já fez um longo caminho, pelo menos já não têm os pés atados. Digamos que ainda precisam de caminhar muito mais.
    Bjs

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  8. Maria João
    Por mais que nos custe, temos de ter palavras, porque a China só vai mudando graças à pressão internacional.
    Bjs

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  9. Que tristeza que dá ver isso, não é? Nos dias de hoje! Incrível!!um beijo,tudo de boim e linda e reflexiva postagem.Obrigado pela participação no Conto.Está andando,no que vai dar???rsrs beijos,chica

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  10. Infelizmente a frase com que inicia este texto tem ainda razão de ser na China actual.
    As mulheres chinesas que vivem fora das grandes urbes são tratadas como seres inferiores. Não lhes é facultado nem aos homens o acesso a uma "cultura" diferente. Poucas sofrem com isso, o "saber vem-lhe" das tradições milenares, através dos genes, das condições geográfias e climatéricas, da demografia,...
    Nós as ocidentais e as mulheres orientais literatas, "sofremos" por quem não "sofre"...
    Culturas muito diferentes, hábitos muito diferentes, estilos de vida diferentes,...
    Abracinho

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  11. Maria Teresa
    Concordo com o que diz, só não sei se elas não sofrem. À sua maneira, claro, sem interiorizarem outra forma de ver o mundo.
    Bjs

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  12. Sabe, as vezes me pergunto: a humanidade "evoluiu" tanto pra que mesmo? Pra destruir os recursos naturais? Para criar armas destrituvas? Para se preocupar com a economia, com o dinheiro, com a riqueza? E o interesse pela evolução das relações humanas, estacionaram? E o respeito para com o ser humano? E a busca por aceitar o próximo, combater preconceitos e costumes ruins, gente?

    Muitas interrogações!
    Bom fim de semana!
    Jr.
    Ps: Adorei o link do "caminho das borboletas", obrigado Teresa!

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  13. Olá, Teresa!
    A frase, com efeito, representa ainda a mentalidade do povo chinês, em pleno Século XXI...

    Obrigado por ter visitado o Effetus.
    Não, não desisti do Blog, mas ando muito ocupado e confesso que a inspiração não tem sido muita...
    Mas agradeço sensibilizado a sua preocupação!
    Um abraço luminoso.

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  14. Excelente post!

    Uma questão que à nossa cultura soa (porque é) extremamente desumana. Parece incrível que estejamos no terceiro milênio e tenhamos ainda que assistir, impotentes, tal prática.

    Bjs e inté!

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  15. Teresa,
    Eu estou pronta para acreditar que vai haver uma mudança! Espero-a e desejo-a!
    xx

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  16. Foi o fruto das políticas demográficas; políticas antinatalistas fortemente coercivas.
    As crianças cresceram e agora aí está o resultado.
    Por causa disto uma prostituta tem um valor elevadíssimo.

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  17. Junior
    Às vezes parece que a nossa evolução esqueceu o fundamental, o respeito pelo outro. Mas, se vormos bem, nas sociedades ocidentais já foi feito um grande caminho. Por isso estas situações nos chocam ainda mais, porque aqui já não são admissíveis.
    Bjs

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  18. Tony
    Sentia a sua falta na blogosfera, ainda bem que não desistiu.
    Bjs

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  19. Ju
    Infelizmente, mesmo no terceiro milénio, ainda temos de assistir a estas cenas terríveis.
    Obrigada pela visita. Volte sempre.
    Bjs

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  20. Papoila
    Lendo o teu blogue, eu sei que não ficas sentada à espera que as mudanças aconteçam.
    Bjs

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  21. Há.dias.assim
    É verdade, são os efeitos perversos deste tipo de políticas.
    Bjs

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  22. Oi
    Eu sempre soube que é isso
    mesmo deixar as meninas
    pra morrer.
    É o mundo é bem velho
    e cheio de muita tristeza.
    Beijos...
    Lúcia.

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  23. Li este artigo, que me impressinou imenso.
    Infelizmente isso nem só acontece na China, acontece também na Europa. A diferença é que se alguém encontra uma criança abandonada trata logo dela e as autoridades fazem tudo pelo bem da criança.

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  24. Maria Lucia
    Temos de ir mudando este velho mundo, não é?
    Bjs e volte sempre.

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  25. Ematejoca
    Tens razão, em todo o lado há crianças abandonadas. A diferença está na sensibilidade com que se tratam, depois. Mas o que me choca mais, é mesmo o menosprezo pelas meninas, pelo simples facto de serem meninas.
    Bjs

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  26. Sabia que ia ficar com este nó na garganta depois de ler este documentário. Lembro-me de uma vez ver no programa do Mário Crespo '60 Minutos', uma reportagem em que as meninas eram deixadas numa sala, sentadas e amarradas em cadeiras de madeira, simplesmente para morrer. Como pode um povo ser tão evoluído economicamente e tão atrasado mentalmente. Cultura? Não sei... eu diria antes, crueldade e ignorância.

    Beijinhos :)

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  27. Teresa
    E pensar que até os dias de hoje a China insiste nessa de limitar as famílias e ignora tantas outras dicriminações ao sexo feminino.
    Parece que o "tiro sai pela culatra" é lento a dimunição de nascimentos de meninas. Bem feito pra esse país preconceitroso e frio!Lamento pelas mortes e abortos que existem e só.
    fico meia indignada .
    Que adianta ser país de primeiro mundo? nem sei certo se é considerado assim , ajuda aí Teresa rsrs se for pra mim nao há honra nenhuma nisso. rsrs
    abraços e bom domingo

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  28. Olá, Teresa
    Com é possível?´´E o que se costuma dizer "até dói!", mas dói mesmo, literalmente!!
    É a uma das pontas do iceberg dos regimes comunistas. Enfim, ....
    Bj

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  29. Helga
    Sim, tem havido reportagens sobre estas situações chocantes, mas parece que é difícil provocar a mudança.
    Bjs

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  30. Lis
    Essa divisão começou no tempo da Guerra Fria: 1.º mundo era o mundo capitalista ocidental; 2.º mundo era o mundo comunista; 3.º mundo era o resto. Hoje, esta divisão já está desactualizada, por muitas razões.
    Bjs

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  31. Ana
    A China já não é um país comunista, é uma ditadura onde impera o capitalismo mais selvagem.
    Bjs

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  32. Lilá(s)
    Arrepia, tens razão. Parte-me o coração.
    Bjs

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  33. É preciso chamar os bois pelos nomes; apesar de a mentalidade da China ter mudado muito, este é um país com muitos problemas a resolver, e onde há imensos direitos fundamentais que puramente são ignorados.
    A história que contas, é arrepiante...

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  34. Pinguim
    A China é, de facto, um país com muitos problemas por resolver. A questão dos direitos humanos é provavelmente a mais importante, porque arrastará muitos outros aspectos.
    Bjs

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  35. Quanta crueldade! A China é um símbolo de progresso, mas não de humanidade. Além disso, os pobres continuam pobres e os operários fabris moram bem por cima em apartamentos minúsculos. Às vezes homem e mulher moram separadospor não caberem np mesmo apartamento.
    Foi isso que o meu irmão viu numa viagem de trabalho.
    A China profunda está ainda mergulhada num passado distante.

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