domingo, 14 de março de 2010

A poetisa da sensibilidade

No dia que encerra esta semana dedicada à Mulher, em que estes óculos tiveram um olhar mais feminino sobre o mundo, decidi chamar aqui Florbela Espanca. Porquê? Provavelmente, porque Florbela Espanca representa uma das características mais relacionadas com o universo feminino: a sensibilidade. 
Nasceu em 1894, registada como filha de pai incógnito, e foi baptizada com o nome de Flor Bela Lobo. Aos sete anos, escreve a sua primeira poesia e começa a assinar Florbela Espanca. Faz o liceu em Évora, torna-se professora, cursa Direito em Lisboa. Casa-se, divorcia-se, apaixona-se, separa-se. A sua vida é uma sucessão de paixões e desilusões, cada vez mais presa a uma neurastenia que a levará ao suicídio. Entretanto, vai sempre escrevendo e publicando, principalmente poesia, mas também contos. 
Ficou para sempre no nosso imaginário como a poetisa do amor desmesurado. Todos conhecemos os seus sonetos:
             Eu quero amar, amar perdidamente,
             Amar, só por amar, aqui e além.
             Este, aquele, mais o outro e toda a gente,
             Amar, amar e não amar ninguém.

No entanto, a sua extrema sensibilidade abrangeu outras facetas do mundo, a paisagem sofrida do Alentejo, os animais. Como homenagem a Florbela Espanca, e porque é menos conhecida como prosadora do que como poetisa, escolhi um excerto do seu Diário, escrito no ano em que se suicidou. Esta é a entrada do dia 22 de Fevereiro de 1930:

« O olhar de um bicho comove-me mais profundamente que um olhar humano. Há lá dentro uma alma que quer falar e não pode, princesa encantada por qualquer fada má. Num grande esforço de compreensão, debruço-me, mergulho os meus olhos nos olhos do meu cão: tu que queres? E os olhos respondem-me e eu não entendo...Ah, ter quatro patas e compreender a súplica humilde, a angustiosa ansiedade daquele olhar! Afinal...de que tendes vós orgulho, ó gentes?...»

De facto, de que temos nós orgulho, afinal?

 (Florbela Espanca, por Carlos Bottelho, 2008)

23 comentários:

  1. Ela é maravilhosa e tua semana foi bem encerrada, festejando essa mulher tão legal!beijos,chica

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  2. Tinha ela razão... motivo para nos orgulharmos, não temos muitos... :) Grande poetisa, mas uma alma atormentada...Neurastenia, cá está um palavrão que já há muito não ouvia, rrsss Não é mais do que o que o povo gosta de chamar "esgotamento nervoso", e que na clínica, nem existe... evidentemente, seria uma Depressão..., possivelmente associada a outras perturbações, não faço ideia. Gostei muito desse quadro do Botelho. É óleo? beijinhos

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  3. Todo o mês de Março é aqui o mês da Mulher.

    Durante a minha adolescência amei e plagiei a poesia florbeliana.

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  4. Tinha que ser uma alentejana e ainda por cima da terra da minha mãe. Uma boa escolha e mais ainda, uma fantástica homenagem à sensibilidade feminina e ao amor, que sem ser sofrido não é amor. Florbela Espanca era e continua a ser única!

    Beijinhos :)

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  5. Chica
    Florbela Espanca é maravilhosa, sim. Não sei se é bem conhecida no Brasil.
    Bjs

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  6. Eva
    É verdade, já ninguém utiliza a palavra neurastenia. Acho que ela tinha também um problema pulmonar e, provavelmente, o que hoje se chamaria uma forte depressão.
    Também acho que não temos muitos motivos de orgulho :)
    Bjs

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  7. Ematejoca
    Tive de me rir: plagiaste a Florbela Espanca?!?
    Bjs

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  8. Helga
    Sabes que admiro as mulheres alentejanas? São fortes, determinadas, mas sensíveis e com sentido de humor. Pelo menos, as que eu conheço.
    Só uma coisa: acho que o amor não tem de ser sofrido. Temos é de tentar ser felizes!
    Bjs

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  9. Teresa, pela parte que me toca... obrigada! Sou uma alentejana muito orgulhosa de o ser. Quanto ao amor, creio que quis dizer que quem ama sempre sofre, nem que seja só um pouquinho. A Florbela sofreu demasiado, talvez por isso ela o saiba escrever tão bem. É claro que ser feliz é sempre o objectivo!

    Beijinhos :)

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  10. Fechou a semana com chave de ouro! Florbela é maravilhosa, sensível e passional! Ah, e ontem foi dia da poesia, não é? Se não sabia, foi uma feliz coincidência.
    Não sei porque o bicho homem se sente superior aos outros animais, até dizendo que somente ele possui alma. Vai saber!
    Boa semana! Beijus,

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  11. Descobri Florbela Espanca na minha adolescência e durante largos anos senti que era a minha "irmã" na dor, na solidão, no sentir tudo de forma intensa.
    Tenho a fotobiografia dela, oferecida por amigas que sabiam desta minha "ligação".
    A sua sensibilidade via a dor, a vida, o amor, o desalento... era a "castelã da tristeza", que ninguém compreendeu e que a morte do único irmão veio acentuar. Os desaires amorosos também lhe retiraram alguma paz de espírito.

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  12. Também a escolhi há dias como mulher do dia, lá no Rochedo, onde as nomeações irão até final do mês.

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  13. Luma
    Não sabia que tinha sido o dia da poesia, creio que aqui se comemora a 21 de Março (este fim de semana). Mas qualquer dia é bom para a poesia, não é?
    Bjs

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  14. Natália
    Também descobri Florbela Espanca na minha adolescência, nessa época em que nos ligamos a tudo o que é excessivo e dramático. Mas continuei a gostar muito dos seus poemas, e da sua prosa, também.
    Bjs

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  15. Teresa

    Florbela Espanca é de todas as poetas que admiro, a que maior sensibilidade revela, de facto, nos seus trabalhos. Está tão próxima de nós mulheres..., viveu por inteiro cada sentimento que revelou na sua escrita e embora em momentos diferentes, cada uma de nós revê-se nela. É uma figura incontornável... um detalhe que considero eterno.

    Um beijinho

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  16. Carlos
    Também a vi lá, mas tinha apenas um poema e eu queria dizer outras coisas dela. Nunca é demais, não é?

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  17. Maria João
    Por isso mesmo a escolhi para encerrar esta minha semana da mulher. Em algum momento da nossa vida revêmo-nos nas suas palavras, na sua sensibilidade.
    Bjs

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  18. Esse texto é lindo!
    Apesar de gostar da Florbela, confesso que a minha preferida é a SOFIA!

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  19. Olá Papoila
    Como comparar mulheres incomparáveis?
    Bjs

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  20. Adoro Florbela Espanca
    só teve um senão, a sua vida: ela nasceu antes do seu tempo...

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  21. Plagiei-a sim!!!
    Tenho andado à procura na minha papelada, se encontro algum dos meus sonetos, que são uma versão péssima dos sonetos dela.

    O encontro de ontem do Círculo Literário teve lugar em minha casa, por essa razão tenho andado fugida.

    Bom fim-de-semana!

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  22. Ematejoca
    Tens de mostrar isso ao mundo!
    Bjs

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