quarta-feira, 31 de março de 2010

Portugueses: Heróis Adiados

O texto que se segue foi escrito por Fernando Pessoa, há quase um século, ainda nos tempos da Primeira República, que agora comemoramos. Será que é um retrato correcto dos Portugueses? Será que continuamos assim? Será que mudámos alguma coisa?

O Português é capaz de tudo, logo que não lhe exijam que o seja. Somos um grande povo de heróis adiados. Partimos a cara a todos os ausentes, conquistamos de graça todas as mulheres sonhadas, e acordamos alegres, de manhã tarde, com a recordação colorida dos grandes feitos por cumprir. Cada um de nós tem um Quinto Império no bairro, e um auto-D. Sebastião em série fotográfica do Grandela. No meio disto (tudo), a República não acaba.
Somos hoje um pingo de tinta seca da mão que escreveu Império da esquerda à direita da geografia. É difícil distinguir se o nosso passado é que é o nosso futuro, ou se o nosso futuro é que é o nosso passado. Cantamos o fado a sério no intervalo indefinido. O lirismo, diz-se, é a qualidade máxima da raça. Cada vez cantamos mais um fado.




18 comentários:

  1. Uma boa questão levantada! Um beijo e lindo dia,chica

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  2. Olá, Teresa

    Nunca me revi, ou por outra, nunca revi tanto um povo, uma nação como neste pequeno texto de Pessoa! Subscrevo.
    Já sei q me vão chamar velho de Restelo, mas não me importo. Até é chique ser-se da "linha".
    Bj

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  3. Teresa

    Fernando Pessoa é um detalhe eterno.
    Actual, sempre tão actual...

    Um abraço

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  4. Olá Teresa.
    Adorei este texto de Fernando Pessoa.
    Neste texto, Fernando Pessoa, faz um auto-retrato dos Portugueses, que ainda hoje se verifica.
    Importa referir, que o livro de Fernando Gil - Portugal, Hoje
    O Medo de Existir- no qual ele faz uma análise da actual Sociedade Portuguesa, de certa forma entronca no pensamento de Fernando Pessoa.
    Segundo, Fernando Gil, passoa a citar: " (...) Portugal é uma sociedade normalizada, onde o horizonte dos possíveis é extremamente pobre e onde a prática democrática encontra resistências ao aprofundamento."
    Também, não resisto a transcrever, um parágrafo deste seu livro, dentro de um capítulo, que tem como objectivo, responder à seguinte questão,
    " De que é que se tem medo?"
    " Um escritor italiano que conhece bem Portugal dizia há uns anos: « uma estranha semiótica rege este país. Um português pergunta a outro: " Aonde vais este fim - de- semana?" o outro responde: " Fico por aí...»
    «Por aqui», »por aí» designam lugares indeterminados, trajectos aleatórios, sem direcção nem fronteiras, mas bem precisos para os portugueses".
    Na verdade, por aí, encerra um território de deambulação, em que o sujeito vai passear ao acaso, cheirar o ar, deixar vir a si as coisas visíveis, sentar-se num café a ler o jornal, provocar encontros calmos e esperadamente inesperados com outros que também andam, por aí.
    Assim sendo, a ausência de fronteiras confere ao deambular um carácter aventuroso, mas sem risco.
    Por esta e outras razões, considero o texto de Fernando Pessoa, uma delícia, um conhecimento metafísico do Português, que ainda hoje faz todo o sentido e que o caracteriza, apesar de vivevermos num mundo globalizado e um século depois.
    Afinal, O Porteguesinho da Silva, é mesmo assim.
    Bj
    Maré alta.

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  5. Fácil para nós analisarmos se ele estava apenas confabulando com os seus botões ou se fielmente retratava aquilo que percebia. Era observador, sábio para fazer tal retrato e, quem sou eu para contradizê-lo? Eu que nem portuguesa sou! (rs*) Melhor concordar!! Beijus,

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  6. Teresa,

    As glórias passadas de Portugal refletem o presente. O exemplo disso é a língua que chegou até aqui. E sou apaixonado pela Língua Portuguesa.

    Abraços.

    P.S: Gostaria - se você puder - que desse sua opinião (em meu blog) sobre meu mais recente post. Obrigado.

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  7. Teresa,

    As glórias passadas de Portugal refletem o presente. O exemplo disso é a língua que chegou até aqui. E sou apaixonado pela Língua Portuguesa.

    Abraços.

    P.S: Gostaria - se você puder - que desse sua opinião (em meu blog) sobre meu mais recente post. Obrigado.

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  8. Chica
    É bom reflectirmos sobre nós próprios.
    Bjs

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  9. Ana
    Parece que há coisas em que não conseguimos mudar, não é? Será o nosso fado?
    Bjs

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  10. Maria João
    Até era bom se não fosse tão actual!
    Bjs

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  11. Maré Alta
    Obrigada pelo excelente comentário. Também li esse livro do filósofo Fernando Gil e é bem interessante encontrar os pontos de contacto entre o seu olhar e o do outro Fernando.
    Bjs
    (Eu também gosto de deambular sem destino. Deve ser o meu lado mais lusitano :)

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  12. Luma
    Não é portuguesa, mas é inteligente. Também acho que Fernando Pessoa falava com os seus botões. Mas ia dizendo coisas certas!
    Bjs

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  13. Valdeir
    Sim, o passado prepara o presente e o presente reflecte o passado. E nem tudo é negativo ou positivo; a prova disso é a Língua Portuguesa, pujante e afirmativa no mundo inteiro.
    Bjs
    (Lá irei ao seu blogue, é sempre um prazer)

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  14. Já agora, Teresa.
    Um engano meu, acabou por a arrastar também a si.
    Não é Fernando Gil, mas sim José Gil.
    Portugal, Hoje
    O Medo de Existir
    José Gil
    Peço desculpa pelo meu engano.

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  15. Maré Alta
    Pois claro, tem razão, já fui conferir à estante. Li esse livro há anos, mas não é desculpa desculpa, ainda há dias vi uma entrevissta com ele na televisão a propósito da sua última aula na Universidade.
    Obrigada :)
    Bjs

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  16. não conhecia Teresa, obrigada :)

    bjo

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  17. "O Português é capaz de tudo, logo que não lhe exijam que o seja"

    Precisaremos de ir mais longe para perceber que Fernando Pessoa, não só, era um grande observador, como também era um grande conhecedor da alma humana. Da alma portuguesa neste caso.

    "Somos um grande povo de heróis adiados" Sem sombra de dúvida! Desde sempre!

    Excelente post! Beijinhos :)

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