sábado, 23 de janeiro de 2010

O melhor e o pior da raça humana

As catástrofes tendem a revelar o que de melhor e de pior tem a raça humana. A terrível catástrofe que se abateu sobre o Haiti não foi excepção.
Não sou daquelas pessoas que vêem lados negros em tudo. Emocionou-me o sofrimento tremendo de todo aquele povo e, se imaginasse que alguém me poderia dar uma resposta, apetecia-me perguntar: "Como é possível acontecer uma desgraça destas num país que já é um dos mais pobres do mundo? Adicionar uma catástrofe natural a um país que já vive em estado de catástrofe social?" Enfim, os sismos não fazem cálculos de prejuízos. Acontecem, simplesmente.
Também me emocionou a prontidão e a entrega com que as equipas internacionais se lançaram às tarefas, todas elas difíceis, de tentar resgatar sobreviventes, de levar comida, água, cuidados de saúde, a uma população carente de tudo e em estado de choque, de tentar manter a ordem e a operacionalidade no aeroporto, nas ruas, nas distribuições de alimentos. 
Todos vimos equipas multi-nacionais, espanhóis com cubanos, americanos com bolivianos, sul-africanos com australianos, abnegadamente, horas a fio, a trabalhar para salvar mais uma vida.
Esse é o lado melhor da raça humana, que nos leva a unir esforços para ajudar quem está em dificuldades.
Mas, depois, há o lado pior, que se revela também. Os gangs que já controlavam Port-au-Prince antes do sismo, continuam a espalhar o terror. As próprias equipas de resgate sofrem ataques, tenta-se roubar qualquer coisa que possa ter algum valor. 
Dei por mim a pensar no Marquês de Pombal que, após o grande terramoto que arrasou Lisboa em 1755, não só "enterrou os mortos e tratou dos vivos", como ergueu patíbulos na Praça da Alegria para castigar exemplarmente aqueles que, nessa altura como agora, se dedicavam à pilhagem.
Infelizmente, receio que o pior ainda esteja para vir. Temo que o dinheiro agora solidariamente angariado vá chegar com muita dificuldade ao seu destino, isto é, à reconstrução do Haiti. Pelo meio, como sempre, haverá mãos corruptas a desviar em seu proveito esse dinheiro.
Imagino o aumento do tráfico de crianças, nas mãos de pessoas sem escrúpulos que, a coberto da adopção internacional, irão transformar a tragédia daquelas crianças num negócio bem rentável.
Enfim, antevejo um Haiti a sobreviver a esta tragédia com os mesmos problemas de sempre. Um Estado falhado, incapaz de assegurar estruturas mínimas de apoio aos seus cidadãos. Uma população que continuará a viver nos limites da pobreza, apenas mais carente, com mais orfãos, mais mutilados, mais gente sozinha e vulnerável.
Assim que os holofotes internacionais se afastarem do Haiti, assim que a atenção dos meios de comunicação for atraída por outro assunto, tudo voltará à mesma.
Até nós, absorvidos pelo pequenino mundo à nossa volta.
Lá diziam os velhos Beatles, há mais de 30 anos: "Living is easy with eyes closed"!



Um bairro da lata, em Port-au-Prince (Fotografia de 2008)


Imagem do The New York Times

12 comentários:

  1. Infelizmente, prevejo o mesmo que tu... e é aquilo em que se revela o pior da espécie humana, que custa mais ver...
    a triste realidade de uma raça cujo grau de evolução ainda está longe do desejado. E a relativa impotência, perante esta realidade, tão cara à própria espécie...
    Beijo

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  2. Que tristeza essa constatação e é bem verdadeira, infelizmente!beijos,chica

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  3. Eva
    Sabes que estavamos a comentar os posts uma da outra ao mesmo tempo? E o mais triste é que o sentido de desencanto com a raça humana é o mesmo.
    Bjs

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  4. Olá Chica
    É vesdade, é triste termos de constatar tudo isto.
    Bjs

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  5. Independentemente da dimensão da tragédia, e sem querer imitar aqueles comentários tristes sobre a "justiça" divina no que aconteceu, sei que o povo haitiano , talvez por há muitos anos viver sem um governo decente e que imponha a ordem, sempre gostou mais de pedir do que trabalhar. E todas estas situações que começam a aparecer de assaltos, pilhagens e de gangs mostram esse lado da população haitiana.
    Ouvi há pouco uma reportagem do J.R.Santos, que referia isso mesmo; eles os haitianos já viviam na miséria antes do sismo e há questões terríveis que sempre existiram, como o da adopção de crianças orfãs, que eram aos milhares antes do sismo e agora são muitas mais.
    O Haiti era uma tragédia; mas agora a tragédia aumentou exponencialmente.
    Pode ser que a reconstrução do país seja não só das cidades e das estruturas base do país, mas também de um governo capaz e de uma população mais capacitada que tem que participar no desenvolvimento do seu país.

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  6. Pinguim
    Os problemas do Haiti são estruturais, nós sabemos isso, não é? Não derivam apenas do sismo de há 10 dias. Também ouvi essa reportagem do J.R. Santos (gosto muito das reportagens dele, vão para além dos simples factos), mas infelizmente, estou muito menos optimista do que tu.
    Espero, sinceramente, que sejas tu a ter razão.
    Bjs

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  7. Não comungo do optimismo. Não acredito que a reconstrução do país "reconstrua",também, um governo e um povo, pelo menos durante as próximas gerações.
    Os agentes do auxílio internacional vão ter que continuar no terreno, por muito e muito tempo.
    Desde a declaração de independência em 1804, o Haiti tem sido sempre um país por fazer. Sucessivos governos incapazes e corruptos e ditaduras sanguinárias, fizeram dos haitianos um povo sem nação, sem estado, sem lei nem ordem, sem infraestruturas, sem nada. Tudo perante a quietude e o silêncio cúmplices dos poderosos do mundo, que se limitaram a irem doando fundos (60% do "orçamento" era de doações internacionais!). Para não falar de outros, a França a não querer perder zona de influência geo-estratégica, os EUA a olharem para Cuba...Um dos ditadores que marcou o Haiti foi Papa Doc. Criou a sua guarda pessoal, os Tontons Macoute, que prendia, torturava e matava a seu belo prazer. Não se ficou por aqui. Instilou e fomentou, no povo, a prática vodu, fazendo dos haitianos gente violenta e com total desprezo pela vida! Degola-se um ser humano, como uma galinha...
    Veja-se o que está agora a acontecer: a sobrevivência passa pela violência!
    Sofre o povo haitiano? Claro que sim! Não deixaram de ser humanos.
    Quando virá o povo haitiano a ser diferente, dele nascendo dirigentes capazes e sérios? Esta a grande questão, que o mundo solidário (e não o dos poderosos) deverá acompanhar, atentamente, ajudando sem hesitações.
    Receio, porém, que as doações para a reconstrução (não o actual auxílio humanitário) venham a ser alvo de apetites predadores, da corrupção, não só de meia dúzia de haitianos, mas, em particular, de quem as venha a gerir, de fora. Vi tal acontecer em Angola.
    A traficância de crianças, de que temos vindo a saber, e na origem da qual parece estar um funcionário da embaixada norte-americana (segundo as notícias)não me surpreende. Quem despreza a vida, porque há-de prezar uma criança?
    Não, não estou optimista.
    Desculpa, Teresa, ter ocupado tanto espaço.
    BJS

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  8. Quando coisas destas acontecem, a raça humana tem tendência a comportar-se como o animal pré-histórico. Em que a impera a lei do mais forte. esquece-se o raciocínio e a lógica. Reina a anarquia e a entreajuda é palavra que passa a não existir.

    Os instintos animais superam a aprendizagem humana e só o mais forte tende a sobreviver. E as lutas sucedem. São reminiscências de passado remoto!

    Quanto ao dinheiro, o mundo gira em torno dele. E ganhar uns cobres à custa da desgraça, é de gente que vende a mãe até se for preciso. Nem todas as pessoas têm uma personalidade construída a pensar nos outros, mas sim no seu umbigo, somente no seu umbigo.

    E assim anda o mundo, infelizmente!

    Beijoca!

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  9. Carlos
    Não, não desculpo teres ocupado tanto espaço, agradeço-o. Porque é importante dizer as coisas, mesmo quando custam, quando são difíceis.
    Bjs

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  10. Pepita
    Pois, eu também acho que nestas alturas reina o animal irracional que há em nós. O que me parece muito perigoso: um mundo com um grau de desenvolvimento tecnológico tão elevado, nas mãos de uns animais episodicamente irracionais? Olha o resultado que dá!
    Bjs

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  11. Teresa, escreveu tudo aquilo que eu gostaria de ter escrevido, pois também penso como você. O que mais me incomodou durante a semana, foi saber que os militares, estavam se ocupando mais dos cuidados para que não houvessem tráfico de crianças - eu não tinha pensado nesta hipótese - aos haitianos também são negados asilos nos países vizinhos, dado ao número de haitianos que lá já existem. Enfim, eles estarão como sempre estiveram, isolados do mundo. Boa semana! Beijus,

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  12. Luma
    Sabe que essa questão das crianças também me impressionou imenso? Como é possível pensar em fazer dinheiro com a desgraça daquelas crianças? E serão enviadas para quem, para que situação? É demasiado ignóbil!
    Bjs

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