sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Postal de Lisboa XI - O Campo dos Mártires da Pátria

Já passei por aqui, seguramente, dezenas de vezes. No entanto, só hoje me deu para pensar quem poderão ser os mártires homenageados nesta praça de Lisboa. As placas toponímicas não dão nenhuma ajuda e a dúvida impõe-se. Quem serão estes mártires? Atendendo a que este campo é enquadrado pelo Hospital de São José, de um lado, e pelo Hospital dos Capuchos, do outro, poder-se-á pensar que os mártires são os doentes. Mas eles não sofreram, nem sofrem, pela Pátria. Sofrem por si próprios, sem que a Pátria lhes possa valer. Não há indicação de que os homenageados tenham sido martirizados nos mares da China, no sertão brasileiro ou nos pântanos da Guiné. Quem serão então? Sou levada a crer que estes mártires, afinal, somos nós todos. Nós, o povo comum, o Zé Povinho, tal como o retratou Rafael Bordalo Pinheiro, que trabalha, paga impostos, se desgasta…


Bem, uma rápida pesquisa esclarece as dúvidas. Este jardim é assim chamado em honra dos conspiradores (o mais famoso dos quais o general Gomes Freire de Andrade) que, em 1817, foram condenados à morte por procurarem derrubar o governo despótico do inglês Beresford. Era bem interessante se houvesse uma pequena explicação nas placas toponímicas. Sempre se ia acrescentando alguma coisa à cultura de quem não tem a mesma paciência que eu para pesquisar estas coisas!


O Campo de Santana, assim se chamava anteriormente, é grande e bonito, com o seu lago e o seu jardim bem tratado, onde passeiam patos e pavões, com o seu café com esplanada. Mas para mim o ponto mais extraordinário da praça é a estátua ao Dr. Sousa Martins, frente à entrada nobre da velha Faculdade de Ciências Médicas de Lisboa. O Dr. Sousa Martins foi um médico e professor de medicina nesta mesma faculdade, no século XIX. Ainda em vida, ganharam notoriedade as suas curas, mas ainda mais famoso se tornou depois de morto. Corria o boato de que ele efectuava curas milagrosas. Esta estátua foi levantada com dinheiros de uma subscrição pública de 1904. E ainda agora, mais de cem anos depois, o espaço em redor da estátua está coberto de flores e de pequenas placas de agradecimento pelas graças proporcionadas. São seguramente centenas de placas, algumas comoventes, que se amontoam ali. Há também uma espécie de armário para as velas, que ardem continuamente. É a expressão de uma religiosidade ingénua que não me cabe criticar, apenas registar.


Basta estar aqui, sentada num banco, durante meia hora, para me aperceber do movimento intermitente e discreto de pessoas que chegam, param frente à estátua, benzem-se e fazem uma pequena oração, antes de continuarem o seu caminho. Como atenienses frente à imagem de Esculápio, a caminho dos seus afazeres. Na verdade, não mudámos muito.

(fotografias de Teresa Ferreira)

7 comentários:

  1. Tens razão...o povo é que é o maior mártir, podes cres! Que lindas tuas fortos. a do patp , sensacional. beijos e parabéns pelo trabalho!chica

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  2. Estive no Campo Mártires da Pátria há uns 4 meses, talvez mais.

    Como partia da Baixa, o raciocínio óbvio foi apanhar o Elevador do Lavra.
    O objectivo era ir a uma loja de informática que vendia rooters a preços imbatíveis.

    Cheguei lá acima sem oxigénio nos pulmões.

    O ELEVADOR DO lAVRA ESTAVA IMOBILIZADO PARA MANUTENÇÃO.

    Desconhecia que a designação tinha a ver com o Gomes Freire.

    Saudações

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  3. Chica
    Obrigada pelas tuas palavras, sempre queridas, mas as fotos nem sairam muito bem, ficaram muito claras!
    Eu nem estava muito bem, andava por ali a tentar distrir-me, enquanto o meu filho estava a ser operado no hospital de S. José.
    Bjs

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  4. JPD
    Já me aconteceu exactamente o mesmo, mas felizmente ao contrário: queria descer do Campo de Santana para a Baixa e bati com o nariz no elevador parado! Como era a descer, até serviu de passeio!
    Bjs

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  5. Oi,Teresa
    São locais que contam histórias passadas ,se digna ou nao ,vai saber. Voltou a moda das estátuas. O Rio está cheio, rsrs
    Parece-me um local bonito e preservado, como voce disse ,há de se saber quantos verdadeiros mártires temos hoje,anônimos por aí rsrs
    Abraços

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  6. Textos bem elucidativos e com fotos a condizer.
    Gostei e aprendi...
    Abracinho

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  7. REalmente, é engraçado como o poder tende a querer a jogar a sua memória pra massa. E a toponimia (assim que escreve?) é um exemplo disso. Raros são exemplos de monumentos ou nome de ruas de populares. Mas de pessoas importantes das classes abastadas, existem aos milhares, e, às vezes, sem nenhum significado pra quem está fora desse grupo.

    Lembro de pocuos exemplos de nome de ruas com populares. Na cidade onde morava tinham algumas ruas, que até tinham apelido, por serem de pessoas que viveram nos próprios bairros, e tinham um histórico.

    Mas essa questão de patrimônio material aqui no Brasil ainda é bem recente... carece de melhor cuidado.

    Abraços!

    Shisuii

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