quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Postal de Lisboa IX - A Feira da Ladra

A Feira da Ladra é parte integrante do imaginário da cidade de Lisboa. Espalha-se pelo Campo de Santa Clara e é preciso lá ir para entender Lisboa e os lisboetas.
A localização diz-nos logo algumas coisas sobre as misturas que lá vamos encontrar: a meio caminho da Graça; paredes-meias com Alfama; encostada ao Patriarcado, na Igreja de São Vicente de Fora; ao virar da esquina do Panteão Nacional, ex-obras de Santa Engrácia.



É um espaço multifacetado, onde se encontra de tudo e toda a espécie de pessoas. Há que percorrer as ruas e caminhos com vagar, observar e ouvir as pessoas. Vem-me à memória Sérgio Godinho:

É terça-feira, Feira da Ladra,
Abre hoje às cinco da madrugada
E a rapariga
Desce as escadas quatro a quatro,
Vai vender mágoas ao desbarato.
Vai vender juras falsas,
Amarguras, ilusões,
Trapos e cacos e contradições.

Continua a ser um espaço onde se podem comprar e vender todas as coisas que nos possam vir à cabeça. Há alguma organização, percebe-se isso. Há a zona dos coleccionadores, onde se encontram as bancas das moedas e dos selos, dos discos antigos e dos isqueiros. Na pastelaria em frente, um senhor de idade avançada e vetustos cabelos brancos, abre a pasta e mostra aos amigos, com orgulho, dois discos de 45 r.p.m. Afirma: “São primeiras edições, eu sei distinguir!”

Depois, há a zona do pronto-a-vestir. Não tem história, estas tendas são iguais em todas as feiras, de norte a sul do país. Dos fatos de homem aos vestidos de praia, passando pelos sapatos, podemos sair dali com a toilette completa.


A zona mais interessante, no entanto, é a da venda livre. Quando eu era jovem, tinha colegas que lá iam vender as roupas usadas para arranjar dinheiro para as férias. Hoje, não fariam grandes férias com os proventos das vendas. Há pilhas de roupas usadas, a 1 € a peça, sapatos a 5 €. Mas continuamos a encontrar senhoras idosas que chegam, com grandes sacos, e espalham no chão, sobre um lençol que já foi branco, “trapos e cacos e contradições”… São velhas molduras, travessas esbeiceladas, chávenas desemparelhadas. Alguém lhes compra aquilo? Alguns jovens mostram pilhas de livros de quadradinhos, ou atlas, livros sobre o corpo humano, Histórias de Portugal, daquela idade ingrata em que nem são novidades nem adquiriram ainda o estatuto de antiguidades. Há artesãos que vendem as suas obras, peças únicas, pedaços de sonhos.


Também há a zona das antiguidades, claro. Essa tem direito a pequenos espaços virados para a rua, no antigo mercado. Aí encontramos os alfarrabistas, onde me apetece perder. Aí se vendem velhos cadeirões, já cansados de baloiçar, manequins que exibem a sua nudez ingénua, mesas de cabeceira com tampo de mármore e portinha para esconder o bacio. Há bonés e galões da Marinha ao lado de um grande pára-quedas, encostado a uma parede, com ar perdido.
Saio do Campo de Santa Clara contente e tranquila, acompanhada pelo som de um acordeão. A cidade continua viva.

12 comentários:

  1. Teresa,
    Despertas-te em mim o desejo de ir à Feira da Ladra. Tenho saudades. Amo o passado com igual intensidade que o presente.

    (Hoje por estas minhas bandas há nostalgia, qb...rsrs...enfim...enfim)

    Abraço

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  2. Navegando sem ruma com a intenção de divulgar o meu blog, cheguei até você e gostei do que vi, tanto que pretendo voltar mais vezes. No momento estou impedida de fazer leituras muito extensas, pois a claridade da tela do computador está prejudicando um pouco a minha visão, devo tomar cuidado. Em breve resolverei esse problema. Bem, já que estou aqui aproveito para convidar a conhecer FOI DESSE JEITO QUE EU OUVI DIZER... em http://www.silnunesprof.blogspot.com
    Eu como professora e pesquisadora acredito num mundo melhor através do exercício da leitura e enauqnto eu existir, vou lutar para que os meus ideiais não se percam.
    Se gostar da minha proposta, siga-me.
    Por hoje fico por aqui, Espero nos tornarmos bons amigos.
    Que a PAZ e o BEM te acompanhem sempre.
    Saudações Florestais !
    Aqui no Rio, na Praça XV, temos uma feira dessas aos sábados. Nossa, como vendem tralha. Muito legal circular por elas e ver tantas histórias escondidas por trás daqueles objetos.

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  3. Que interessante essa Feira.Tem de tudo por lá! É um bom passeio!beijos,tudo de bom,chica

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  4. Olá MagyMay
    A feira da Ladra é um espaço um bocado nostálgico, na verdade, sobretudo para nós lisboetas. É uma boa proposta para um sábado de manhã em que não haja nada para fazer!
    Bjs

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  5. Olá Silvana
    Claro que vou visitar o seu espaço, logo que puder.
    Também é isso que me atrai, sabe, que histórias escondidas haverá por trás daqueles objectos todos!
    Bjs

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  6. BOM DIA.
    Em primeiro lugar gostaria de agradecer o carinho de suas palavras para com o meu trabalho, trabalho este que faço com muito carinho e dedicação para vocês, embora muitos e muitos problemas estejam por trás. O seu cantinho também é genial, adorei.
    Contar histórias é um exercício fantástico, eu faço isso naturalmente. Na verdade todos nós temos um pouco de contador...
    Bem, hoje a minha história para vocês é de DOM SEBASTIÃO - uma das minhas preferidas, espero que aprecie.
    Volte outras vezes,
    FOI DESSE JEITO QUE EU OUVI DIZER... terá sempre uma história para contar.
    Beijo grande.
    Que a PAZ e o BEM esteja sempre com você.
    Saudações Florestais !

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  7. Oi,Teresa
    Tem sempre muita coisa interessante nessas feiras , gosto também de apreciar e acho corajoso alguns feirantes que levam as coisas mais absurdas como dissestes bem.Acredito até que encontre quem as compre, rsrs
    Aqui no Brasil as feiras são uma constante, temos umas bem tradiconais coma feira de São Cristovão ,e ali acontece de tudo, shows, forrós noturnos e vende-se também de tudo ,principalmente artesanato da regiao do nordeste porque é quase toda de feirantes nordestinos que emigraram para o Rio de Janeiro a procura de novas oportunidades e trouxeram seus costumes. É no minimo ,muito pitoresca .Vale também o passeio.
    A Feira da Ladra me lembra outras feiras que conheço por esse Brasil querido, bom recordar
    Boa escolha na postagem ,Teresa.
    Bom final de semana e abraços

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  8. A Feira da Ladra é um espaço no imaginário de todos os lisboetas. É um espaço mágico, cheio de histórias para contar, cheio de recordações... onde eu gosto de voltar de vez em quando.
    Adorei o teu texto sobre este espaço que tanto nos diz. Foi uma boa recordação que me deu vontade de lá voltar a passear.

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  9. Lis, Chica
    Essas feiras são sempre lugares engraçados, pitorescos. Há sempre coisas para descobrir.
    Bjs e bom fim de semana.

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  10. Cristina
    Olá! Que prazer encontrar-te aqui!
    Não sabia que tinhas um blogue. Já lá vou cuscar!
    Bjs

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  11. Fiquei com uma vontadinha de dar lá um saltinho!
    Já há anos que não vou lá..
    Bjs

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  12. É giro que, ao ler o que escreveste, fizeste renascer a minha vontade de deambular pelo meio dessas bancadas ou dos artigos expostos pelo chão. Sempre tive essa vontade, mas enquanto vivia em Coimbra nunca tive a oportunidade e agora, como sabes, onde moro, não existe nada disso.
    Talvez um dia...
    Bjs
    Romicas

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