sábado, 7 de novembro de 2009

Os Anagramas de Varsóvia



É o título do último livro de Richard Zimler. Para quem não conhece, Zimler é um americano radicado há muito aqui em Portugal, mais precisamente no Porto. De origem judaica, toda a sua família materna morreu no vendaval nazi que varreu a Europa dos anos 30 e 40. Essa origem judaica perpassa na sua obra, desde O Último Cabalista de Lisboa, editado já em 1996, e que decorre na Lisboa do início do século XVI, no momento em que acontece o primeiro grande ataque aos judeus em Portugal. Continua com Goa ou o Guardião da Aurora, um dos livros da minha vida, que retrata a actuação da Inquisição goesa, ou com À procura de Sana, que tem como pano de fundo a angústia do conflito israelo-palestiniano.

Também o livro Os Anagramas de Varsóvia nos leva atrás no tempo, ao gueto de Varsóvia, onde milhares de judeus são encerrados, em condições cada vez mais penosas, até à Solução Final. Basicamente, é um livro policial. Erik Cohen, um velho psiquiatra, com a ajuda do seu velho amigo Izzy, tenta descobrir a causa da morte e amputação do seu sobrinho-neto de nove anos. Tudo no livro é ambíguo. Erik pode estar morto ou mentir sobre a sua identidade. Os habitantes do gueto podem não ser o que parecem. Erik interroga-se sobre tudo, até a natureza humana. E se o assassino do pequeno Adam e de outras crianças do gueto, assassinadas em circunstâncias idênticas, for um judeu, libertado de tabus pela própria ocupação alemã? Qual o valor da vida humana?

            “Não é assim tão difícil matar um homem. Uma polaca cheia de raiva silenciosa ensinou-me isso. (…)
            A polaca abriu uma fenda tão funda na testa do nazi que ainda consegui entrever um clarão de osso branco, antes de a ferida se inundar de sangue. A vida escorreu-lhe pela cara abaixo, e em seguida entrou pela terra dentro. (…) o que acha que pensará um jovem quando sabe que nunca mais verá a sua casa, e os cinquenta anos de futuro com que contava desaparecem para sempre?
            Não, também não sei. Fui ao encontro da morte quando já era velho. As expectativas são outras. (…)
            A mulher estava sozinha no mundo com o Izzy e comigo. Os três partilhávamos o crânio partido de um jovem cujo nome nunca saberíamos. Com os olhos, passámos a irreversibilidade da sua morte entre nós, como uma crosta de pão duro.”

A morte banaliza-se, no gueto, e as pessoas tentam continuar a viver a sua vida, como sabem ou podem.

            “Não perguntei ao sucateiro se sabia o nome dela, nem que profissão tivera no Tempo Anterior, nem quantos bebés pusera cá fora, embora soubesse que devia tê-lo feito, porque nenhum homem mulher ou criança deveria morrer sem ter o seu nome nos lábios de alguém que gostaria que não tivessem sofrido – mesmo que esse alguém seja um estranho.”

Apesar de, em muitos aspectos, ser um livro sombrio, Zimler tem uma escrita cativante, comovente, com muito ritmo e, até, com traços de humor.  Penso que não pretende ser um livro sombrio, pretende apenas que a memória seja preservada. Seja como for, é seguramente o melhor livro que li nos últimos tempos.

            “Diga-lhes como morri. Diga que estava no campo de trabalho quando fui enforcado. Diga-lhes que estava pronto para partir. Dê-lhes um beijo por mim e garanta-lhes que fui ao encontro da morte com as mãos nos bolsos, que não tive medo.”


            

8 comentários:

  1. Oi,Teresa
    Anotei o nome e autor pra quando for as compras, sempre gosto de parar em livrarias portando a agenda rsrs prefiro assim, pra nao dar um branco na hora e nao lembrar de nada.
    Tenho lido pouco,Teresa, ou nao, é que lendo aqui na internet nao parece a mesma coisa, gosto de sentir o livro, o útimo foi de um portugues , era fininho e li rápido.Preciso arrumar melhor meus horários , esse blog me ocupa sobremaneira.
    E pelo resumo que fez deve ser ótimo, obrigada, bem melhor ler com orientação de outra leitora, principalmente quando a leitora é voce, inteligente assim. Tenho aprendido muito.
    Boa semana. boas leituras e obrigada pela dica valiosa.

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  2. Olá Lis
    O blogue ocupa muito tempo, não é? Eu tento disciplinar-me e deixar espaço para ler, mas às vezes...
    Obrigada pelos elogios, não sei se mereço, mas gosto de sentir de digo coisas com sentido. E se os elogios vêm de uma pessoa sensível como a Lis, fico muito feliz.
    Quanto ao livro, vale mesmo a pena. De resto, eu gosto muito deste autor. Não sei se é publicado aí no Brasil. Se não encontrar, diga-me, que terei o maior prazer em lho enviar.
    Bjs

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  3. Boa Noite, Teresa

    Esta sexta-feira pela meia-noite na Antena 1 ouvi parte de uma entrevista com este escritor. Agora aqui aprendo o que provavelmente me escapou.
    Digo sempre que "este, vou ler!!" e depois aparecem sempre "cinquenta mil outras coisas e..." pode ser que aconteça a excepção...rs

    Uma boa semana e um beijo

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  4. Olá MagyMay
    Eu acho que vale a pena fazer um esforço e ler; depois diga-me o que achou.
    Boa noite e um beijinho.

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  5. Pessoalmente, gosto do Zimler; acho que absorveu na perfeição a alma portuguesa. Gostei muito do "goa ou o guardião da aurora" e recomendo.
    Boa semana, Teresa.

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  6. Manuel
    Também amei esse livro. Tornou-se um dos livros da minha vida. Agora lê este e depois diz-me o que achaste.
    Bjs e boa semana.

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  7. eu conheci ele numa palestra na minha secundária, ele é um homem fantástico,muito simpático que falou não só da experiência dele como descendente de judeus,mas tamben das suas pesquisas para os seus livros,a sua vida na América,ele estava mesmo a vontade para falar de vários assuntos e no final até consegui os anagramas de varsóvia autografados por ele.

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  8. Não se pode esquecer o holocausto, um dos maiores crimes cometidos pelos nazis contra os judeus ...

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