quarta-feira, 22 de julho de 2009

As Cinzas de Angela

Com 78 anos, Franck McCourt não resistiu mais a um cancro de pele de que sofria há anos e faleceu em Manhattan. Para muitas pessoas, é um nome com pouco significado. Não era um escritor que estivesse na moda, não publicava nada há algum tempo. Talvez por isso, a sua morte passou quase despercebida, nada de demonstrações públicas (ia dizer histéricas!) de pesar, como quando da morte de Michael Jackson, por exemplo. No entanto, a vida e a obra deste homem têm um valor muito particular, porque simbolizam uma época e um sonho.

Franck McCourt é conhecido principalmente pelo seu romance As Cinzas de Angela. Romance assumidamente auto-biográfico, nele McCourt narra a sua infância miserável nos bairros pobres de Limerick, na Irlanda. Filho de emigrantes irlandeses nos Estados Unidos da América, a família vê-se obrigada a regressar à Irlanda nos anos 30, na época da Grande Depressão. Mas em Limerick, nos anos 30 e 40, a vida é muito difícil, com o peso da fome, da violência, da tuberculose, da miséria. Também da humidade, que o autor considera responsável pela religiosidade da população, que se acotovelava nas igrejas à procura de um pouco de calor e de conforto. E também dos ingleses, que os irlandeses odiavam ao ponto de quase desejarem a vitória nazi, durante a 2.ª Guerra Mundial.

Diz Franck McCourt no início do seu romance:

Quando penso na minha infância, pergunto a mim próprio como consegui sobreviver. É claro que foi uma infância infeliz: se tivesse sido feliz, dificilmente teria valido a pena. Pior do que qualquer vulgar infância infeliz é a infância infeliz de uma criança irlandesa, e, pior ainda, de uma criança irlandesa e católica.

É um livro tocante, às vezes triste, muitas vezes de uma candura desarmante, porque nos mostra um mundo desapiedado pelos olhos de uma criança que faz o que pode para sobreviver e encontrar o seu caminho. Franck não desiste nunca porque tem um sonho: voltar para os Estados Unidos da América. Este sonho comanda-lhe a vida, pelo menos a partir da adolescência. Acabará por atingi-lo, e volta para Nova York com 18 anos, encerrando o período da sua vida abrangido por este livro.

A sua luta por um lugar ao sol na grande metrópole americana dará origem a outro romance Esta é a minha Terra, na minha opinião uma obra menos interessante e original do que As Cinzas de Angela. Este livro, através do qual eu presto a minha homenagem ao autor, apresenta uma prosa comovente e poética, mas ao mesmo tempo enérgica e com momentos de verdadeiro humor. Com esta obra, McCourt ganha o prémio Pulitzer de 1997, além do National Book Award.

5 comentários:

  1. Olá Teresa!

    Eu já li este livro e lembro-me perfeitamente do primeiro parágrafo. Acaba por resumir , um pouco a vida dele, muito trite e emocionante. Por vezes pensei como seria possível uma criança viver o que ele viveu...com esse início de vida, o mais certo seria acabar delinquente e nunca se endireitar. No entanto, soube contrariar o seu destino e tornou-se num grande escritor, que admiro muito. Pena ter falecido e passar desperbida tamanha perda...

    Fiquei a saber por ti, desta notícia triste...

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  2. Olá Teresa
    ainda não li mas vou ler. este teu resumo fez-me lembrar um dos melhores livros que já li: "As vinhas da ira". Acho que a literatura tem de ser socialmente interventiva, tem de nos ajudar a lutar pela felicidade do ser humano; a vida é luta!

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  3. Olá Susana
    É um livro impressionante, de facto, sem deixar de ser tocante. E também me chocou o facto de a morte deste escritor passar tão despercebida. Por isso senti necessidade de escrever este post.
    Beijinho

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  4. Olá Manuel
    Bem vindo a este meu espaço (estava difícil chegares aqui - por minha culpa, eu sei!).
    Vale a pena, realmente,ler este livro "As Cinzas de Angela", porque é um livro lindíssimo, além de ser um documento vivido de uma determinada situação social. Tal como "As Vinhas da Ira", claro. Sabes que, sempre que dou o 9.º ano, faço questão de ler com os miúdos algumas passagens dessa obra?
    Bjs

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  5. quero muito ler. muito. este e um outro comentário sobre o livro, deixaram-me uma vontade imensa de o ler.

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