terça-feira, 29 de setembro de 2009

Qual é a boneca má?

Este video foi-me enviado já há algum tempo, mas continua tão actual!
É um teste feito com crianças, que tenta perceber que imagens, que valores, que conceitos, as crianças ligam à cor da pele. Cada um que tire as suas conclusões. A mim, o olhar daquela última menina negra quando assume que é parecida com a boneca negra, faz-me sentir muito mal! E põe-nos interrogações prementes: o que temos andado a fazer? Que ideais temos passado para as crianças? Que preconceitos continuamos a ensinar, através dos nossos actos, dos meios de comunicação? Qual tem sido o papel da educação?
Para ver, ou rever.
E para reflectir.

domingo, 27 de setembro de 2009

Sobre os Professores



Nem de propósito. Neste dia de eleições, em que se faz o balanço de quatro anos de governação e se elege um novo governo, para mais quatro anos, recebi um convite de um professor brasileiro para participar numa blogagem colectiva, tendo como tema Os professores - a sua vida, os seus problemas e as suas experiências. Isto fez-me reflectir sobre o que foi a vida dos professores portugueses durante os últimos quatro anos. Vimos as nossas carreiras e as nossas possibilidades de progressão, congeladas. O nosso horário de trabalho foi aumentado. A carga burocrática associada às nossas funções foi imensamente aumentada. A nossa carreira foi arbitrariamente dividida em duas. A idade da reforma foi adiada. Perdemos a gestão das nossas escolas. E, para coroar este percurso, o nosso sistema de avaliação foi alterado, havendo a intenção de colocar os resultados escolares dos alunos e avaliação dos nossos colegas no centro dessa avaliação. O ambiente nas escolas degradou-se. Os professores desgastaram-se. Mas não baixaram os braços e as grandes manifestações, que levaram às ruas de Lisboa a grande maioria dos professores, fizeram oscilar o Ministério da Educação. Dir-me-ão que houve algumas reformas importantes, no campo da Educação. Até admito que sim. Mas, para as fazer, não era necessário tratar tão mal uma classe profissional inteira.
Sei que os professores brasileiros se batem também pela dignificação da sua classe profissional. Por isso, tenho muito prazer em participar nesta manifestação colectiva na blogosfera.


O discurso político no campo da educação tem-se baseado no facilitismo, na necessidade económica de fazer progredir os alunos e de garantir as estatísticas de sucesso. Como eu gostaria se, em vez disso, ouvisse um discurso de início do ano escolar, por parte de algum dos nossos dirigentes, como o que Obama fez aos alunos americanos.
Transcrevo aqui alguns excertos de um discurso que deve ser lido, atentamente, na sua totalidade:

Todos vocês são bons em alguma coisa. Não há nenhum que não tenha alguma coisa a dar. E é a vocês que cabe descobrir do que se trata. É essa oportunidade que a educação vos proporciona.

Talvez tenham a capacidade de ser bons escritores - suficientemente bons para escreverem livros ou artigos para jornais -, mas se não fizerem o trabalho de Inglês podem nunca vir a sabê-lo. Talvez sejam pessoas inovadoras ou inventores - quem sabe capazes de criar o próximo iPhone ou um novo medicamento ou vacina -, mas se não fizerem o projecto de Ciências podem não vir a percebê-lo. Talvez possam vir a ser mayors ou senadores, ou juízes do Supremo Tribunal, mas se não participarem nos debates dos clubes da vossa escola podem nunca vir a sabê-lo.

No entanto, escolham o que escolherem fazer com a vossa vida, garanto-vos que não será possível a não ser que estudem. Querem ser médicos, professores ou polícias? Querem ser enfermeiros, arquitectos, advogados ou militares? Para qualquer dessas carreiras é preciso ter estudos. Não podem deixar a escola e esperar arranjar um bom emprego. Têm de trabalhar, estudar, aprender para isso.

E não é só para as vossas vidas e para o vosso futuro que isto é importante.. O que vocês fizerem com os vossos estudos vai decidir nada mais nada menos que o futuro do nosso país. Aquilo que aprenderem na escola agora vai decidir se enquanto país estaremos à altura dos desafios do futuro.

Vão precisar dos conhecimentos e das competências que se aprendem e desenvolvem nas ciências e na matemática para curar doenças como o cancro e a sida e para desenvolver novas tecnologias energéticas que protejam o ambiente. Vão precisar da penetração e do sentido crítico que se desenvolvem na história e nas ciências sociais para que deixe de haver pobres e sem-abrigo, para combater o crime e a discriminação e para tornar o nosso país mais justo e mais livre. Vão precisar da criatividade e do engenho que se desenvolvem em todas as disciplinas para criar novas empresas que criem novos empregos e desenvolvam a economia.

As vossas famílias, os vossos professores e eu estamos a fazer tudo o que podemos para assegurar que vocês têm a educação de que precisam para responder a estas perguntas. Estou a trabalhar duramente para equipar as vossas salas de aulas e pagar os vossos livros, o vosso equipamento e os computadores de que vocês precisam para estudar.. E por isso espero que trabalhem a sério este ano, que se esforcem o mais possível em tudo o que fizerem. Espero grandes coisas de todos vocês. Não nos desapontem. Não desapontem as vossas famílias e o vosso país. Façam-nos sentir orgulho em vocês. Tenho a certeza que são capazes.


sábado, 26 de setembro de 2009

Sapatos anti-stress!


Para quem gosta de moda, aqui estão as últimas propostas dos estilistas italianos para os sapatos desta estação.

E para quem gosta de chocolate, aqui estão também umas belas propostas. É que estes sapatos são feitos de... chocolate!
Parece-me uma ideia fantástica. Atendendo às reconhecidas qualidades do chocolate, como estimulante do bem-estar, da tranquilidade, da boa-disposição, podemos utilizar os sapatos como calçado anti-stress. Perdeu o autocarro? O seu partido não ganhou as eleições? O chefe hoje estava particularmente chato? É só descalçar um sapato e dar uma valente dentada no salto!

(Imagens gaylechocolates)
Não é uma ideia genial?

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

As memórias


O meu filho disse-me:
- Quero chegar a velho, para ter memórias.
- Não as tens já, agora?
- Não, ainda só tenho lembranças.
Será que há diferenças entre memórias e lembranças? Eu tenho de me lembrar de tanta coisa, todos os dias, ir ao supermercado, pôr comida aos cães, telefonar a um amigo que faz anos, organizar as coisas para o trabalho. Mas, o que constrói as minhas memórias?
As memórias são reconstituições de factos passados, que ficam marcadas em nós, como tatuagens. São selectivas; só fica na memória o que é significativo, as descobertas, as conquistas, fragmentos de conversas, imagens recortadas, amores e desilusões, o colo da mãe, sempre, os primeiros passos dos filhos, oh, tantas coisas dos filhos!
Às vezes, as nossas memórias entrelaçam-se nas memórias da comunidade e adquirem um significado mais lato. Todos nos lembramos do que fizemos no dia da Revolução de 25 de Abril, por exemplo.
Mas a memória também é traiçoeira. Pinta as nossas memórias com as cores que quer, às vezes mais sombrias, às vezes mais intensas e coloridas. As memórias são como uma encenação. Um filme. O filme da nossa vida.

Telhado de Xisto em Piodão (Fotografia de Rosa Martins)

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Chegou o Outono


Hoje é o primeiro dia do Outono.
O Outono chega no equinócio de Setembro, quando o sol corta a linha do Equador, para Sul. O dia está lindo, cheio de sol, mas já se adivinham os ventos, as chuvas e os frios, as botas altas e os casacos compridos. os edredons e as lareiras a crepitar.

Agora vou dizer como setembro
se aproxima do fim.
E a névoa, da boca do rio.
Setembro foi sempre nas colinas
um rebanho de luzes inocentes,
um ramo de estorninhos,
um assobio
distante
desafiando o vento.

(Eugénio de Andrade)


segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Postal de Lisboa VIII - O Jardim da Estrela


Para além das casas e do trânsito, dos centros comerciais e dos engarrafamentos, Lisboa tem muitos locais aprazíveis, onde ainda apetece sentar e, simplesmente, deixar passar o tempo. Um desses locais é o Jardim da Estrela.

Fundado em 1842, é um típico jardim do século XIX, ordenadamente desordenado, em que se tenta imitar a natureza. Mas o resultado é agradável e sabe bem, nas tardes de calor, sentar num dos muitos bancos que ladeiam as áleas do jardim e comer um gelado, com todo o vagar.
No centro do Jardim, há um coreto lindíssimo, de ferro forjado, que antigamente embelezava o Passeio Público de Lisboa, onde hoje se situa a Avenida da Liberdade. Está meio abandonado, como todos. Há dois miúdos que o aproveitam como campo de futebol e vão chutando contra as belas grades enquanto gritam golo. Eu acho que era bem interessante reavivar o hábito das pequenas orquestras darem concertos, aos fins-de-semana, nos coretos. Animava os jardins e dava uma nova vida a essas estruturas que, agora, parecem barcos encalhados, sem valor porque sem utilidade.

Há muita gente no Jardim. Há um homem que fotografa os patos do lago. Há muitas crianças a brincar no parque infantil. Há senhoras de idade indefinida que conversam, sempre em grupos de três, sentadas nos bancos do jardim. Há pares de namorados, sentados na relva, ou na esplanada, a comer gelados. Há turistas que escrevem postais ilustrados. Há um grupo de jovens, de rastas no cabelo, que conversam na relva, à volta de uma guitarra. Há pessoas, de todas as idades, que lêem livros e revistas – depois percebi porquê: há um quiosque-biblioteca, que empresta livros e revistas para utilização no Jardim. Ora aí está uma bela ideia!

Também há um homem que passeia de bicicleta: na cestinha da frente traz um rádio, daqueles grandes, com colunas incorporadas. Passa e volta a passar. Da primeira vez que passou ao pé de mim, a rádio tocava “We are the world, we are the children”. Agora já só se ouve uma batida daquelas que se repete indefinidamente, hipnoticamente. Por favor, ponham outra vez a música onde ela deve estar, no coreto!

(Fotografias de Teresa Ferreira)

domingo, 20 de setembro de 2009

Posições fantásticas!







É domingo, apetece descontrair um pouco.
Até podemos admirar e imitar estas fantásticas posições na cama!





São fantásticas ou não?

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

A Árvore das Palavras


Queria já ter feito este post, mas o tempo não estica.
A partir deste mês, a obra de Teolinda Gersão internacionaliza-se um pouco mais, com a publicação da sua obra O Silêncio na República Checa. A obra será integrada na "Biblioteca Luso-Brasileira", que edita autores lusófonos consagrados, como Gil Vicente, Alexandre Herculano, Sophia de Mello Breyner Andresen e João Guimarães Rosa. Fiquei contente, gosto muito desta escritora que, no entanto, é pouco divulgada. Os escaparates das livrarias estão repletos de livros escritos por comentadores, entertainers, jornalistas, jogadores de futebol e, às vezes, há autores que passam quase despercebidos do grande público. Por isso, me congratulo com esta notícia e me apetece falar um pouco de Teolinda Gersão.

Teolinda Gersão nasceu em Coimbra, estudou Germanística e Anglística, tornou-se professora catedrática da Faculdade de Letras. Viveu na Alemanha, em S. Paulo no Brasil, e em Moçambique, na cidade de Lourenço Marques, onde decorre o seu romance A Árvore das Palavras.
As suas heroínas não são super-mulheres, nem protagonizam acontecimentos extraordinários. São mulheres normais, que cometem erros e fazem milagres no quotidiano, que tentam ir vivendo a vida conforme o que cada momento lhes apresenta. Como diz a protagonista d' A Árvore das Palavras, àcerca da sua partida de Lisboa para Lourenço Marques:

Ah, sim, a vida era falsa: dava-se por exemplo um passo, sem pensar, por brincadeira - porque às vezes dava vontade de ser louco e fazer coisas no ar, deitar cartas ou búzios, ou ossos, ler nas cinzas de cigarros, escrever cartas a desconhecidos. (...) O que não estava certo era a vida aproveitar a ocasião e levar a sério a pessoa. Agarrá-la, nesse primeiro passo, e fazê-la dar a seguir todos os outros. Não estava certo, mas a vida era assim. Por causa de um pequeno passo, dado a rir, podia a gente encontrar-se do outro lado do mundo. Sem quase saber como. E depois não se podia voltar atrás.

A Árvore das Palavras, editado pela primeira vez em 1997, é um romance belíssimo, tocante. Amélia vive dividida entre uma vida que não gosta e os sonhos de romances que não pode viver. A filha, já nascida em Moçambique, tem amigos africanos e ama um país que não pode ser o dela. Mas não é um livro triste. Teolinda Gersão tem uma escrita poética, cheia de imagens, de luz. As palavras dançam como folhas de uma árvore agitada pelo vento da vida. Decididamente, é um livro que recomendo.

(Cidade de Lourenço Marques, agora Maputo, em Moçambique)


quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Tarefas da BlogGincana



Inicia-se este mês a BlogGincana. A primeira tarefa proposta parece muito simples: escolher dois ou três blogues que nos agradam e dizer porquê. No entanto, para mim não foi assim tão fácil, porque sigo com interesse e carinho alguns blogues que não estão aqui inscritos; em contrapartida, não conheço a grande maioria destes blogues (talvez seja uma boa oportunidade para os visitar!). Estou portanto convicta de que posso cometer grandes injustiças.
Apesar desta dificuldade, aqui estão as tarefas e as minhas escolhas.

1º TAREFA - Escolha, entre os inscritos, os dois ou três blogs que mais te agradaram, e diga:

a) O por que?

b) Se já os conhecia, ou se esta visitando-os pela primeira vez?

c) Escolha uma imagem postada nesses blogs, que os represente, copie e poste junto com suas respostas.

Então, porque sou uma mulher de letras e textos:

- Escolho o Blogue Há Vida em Marta ( havidaemmarta.blogspot.com), porque todos os dias tem posts interessantes sobre os mais diversos assuntos da vida portuguesa. A Marta é alegre e positiva e gosta de poesia como eu. Escolho esta imagem, porque também adoro o humor dos Gatos.



- Escolho o Blogue Flor de Lis ( lis-costa.blogspot.com ),pelas palavras lindas que escolhe para acompanhar cada dia. Escolhi esta imagem porque é um blogue tranquilo.

- Escolho o Blogue bento-vai-para-dentro (bento-vai-pra-dentro-bento.blogspot.com ), porque gosto dos textos, originais, bem escritos e irreverentes, com que o autor nos brinda. Esta imagem ilustra essa faceta irónica e irreverente.



terça-feira, 15 de setembro de 2009

Portugal e o Mundo nos séculos XVI e XVII


Finalmente, no passado fim-de-semana, fui ver a exposição Portugal e o Mundo nos séculos XVI e XVII, que se encontra no Museu de Arte Antiga. Já me tinham dito que estava excelente. Mesmo assim, fiquei extasiada com a beleza e o significado das peças em exposição.
A exposição olha para as notáveis viagens de exploração portuguesas, mas não do ponto de vista da expansão territorial; antes evidencia o intercâmbio comercial e cultural que essas viagens proporcionaram. Começamos pela cartografia, como a Terra era concebida antes e depois das viagens portuguesas. Passamos depois às secções dedicadas a África, depois ao Oceano Índico, até à China e ao Japão, para terminar no Brasil. Maravilhamo-nos com a Câmara das Maravilhas, apercebemo-nos do fascínio provocado pelos produtos exóticos e admiramo-nos com a admiração desses povos longínquos pelos conhecimentos que os portugueses levavam consigo.
São cerca de 200 peças, provenientes de colecções privadas e públicas internacionais, acrescidas de alguns dos nossos Tesouros Nacionais, como a Custódia de Belém e os Biombos Nambam. Em conjunto, seguem as rotas traçadas pelos portugueses no seu movimento pioneiro de globalização.
Esta exposição foi organizada inicialmente pela Smithsonian Institution, para uma exposição que decorreu em Washington, em 2007. Viajou depois para Bruxelas, onde esteve patente ao público em 2008. Está agora em Lisboa, só até Outubro. E é absolutamente imprescindível visitá-la.
Não resisto a citar o texto do jornal New York Times, quando da abertura da exposição na cidade de Washington:

“ A little-known fact: A version of the Internet was invented in Portugal 500 years ago by a bunch of sailors with names like Pedro, Vasco and Bartolomeu. The technology was crude. Links were unstable. Response time was glacial. (A message sent on their network might take a year to land.)”

E esta, hem?


segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Desejos de consumo!


A Marta, do blogue Há vida em Marta, fez-me um desafio tremendo: indicar 5 desejos de consumo que me deixassem mais glamourosa. Ora eu, que até sou uma rapariga discreta e sensata, tive um imediato ataque de consumismo agudo e pensei: se é para listar desejos de consumo, se estamos no domínio dos sonhos, então vamos sonhar alto! E o resultado foi este:

1. Abastecer o meu guarda-roupa na Ann Taylor, 5.ª Avenida, em Nova Yorque.

2. Ir a Milão comprar os sapatos.

3. Comprar um perfume a condizer com a minha disposição de cada dia.

4. Adquirir relógios de pulso de todas as cores e feitios.

5. Fazer uma viagem de lazer uma vez por mês.

Pronto: talvez não sejam sonhos muito viáveis, mas sonhos são sonhos! Se fossem viáveis, eram objectivos!

A Marta ditou regras: tenho de passar este desafio a 10 blogues. Aí vão eles. Aceitam o desafio?

- Aldeia da Minha Vida
- Grãos de areia
- Suaves Murmúrios
- Fenixando
- De Onde Vem a Calma
- Crónicas da Chica
- Tout sur Nathalie
- Macaires
- Orgulho de Ser
- Lis

sábado, 12 de setembro de 2009

O 11 de Setembro (um dia depois)


Estranha data esta!
Por muito que se passem outras coisas neste dia, sempre que a escrevemos ou dizemos, fica conotada com os atentados de Nova Yorque. A expressão 11 de Setembro ganhou vida própria, como o 25 de Abril: às vezes, os miúdos já não sabem o ano, o que aconteceu exactamente nesse dia; mas não interessa, o que é significativo são os sentimentos que são evocados.
Enquanto a expressão 25 de Abril ficou para sempre ligada à liberdade, à explosão de vida, à democracia, o 11 de Setembro evoca tempos sombrios, medo, insegurança.
Ontem, na rádio, uma senhora dizia, num daqueles programas em que se ouve qualquer pessoa, que "os americanos estavam a pedi-las!" Ela assumia-se como anti-americana e, pelo meio do seu discurso, dizia outros disparates, como, por exemplo, que os americanos tinham lançado bombas atómicas na Europa! Já todos ouvimos este tipo de palavreado, onde se junta ignorância com um pouco de demagogia e muitos lugares comuns. Mas, confesso, não gosto de ouvir. Banalizar, desculpabilizar ou relativizar os actos de violência está sempre errado.

Quando visitei o "ground zero", na Baixa de Nova Yorque, senti que podia ter sido eu, ou familiares ou amigos meus, a serem atingidos por aquele acto estúpido e brutal. Foram pessoas exactamente como nós, algumas provavelmente tão contrárias a certos aspectos da vida política americana como qualquer de nós!
Por isso, revolta-me e entristece-me ouvir comentários como os da senhora da rádio. Não, os americanos não estavam a pedi-las! Ninguém, em nenhum local do mundo, merece uma coisa destas!

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Eu e os Vinhos


(Este texto integra-se na blogagem proposta pela Susana, do blogue "Aldeia da minha vida", para o mês de Setembro, com o Tema Vinhos e Vindimas)


(Imagem do site www.azeitao.net)

Confesso que não percebo nada de vinhos. E faço já esta declaração, para que me seja perdoado algum disparate ou imprecisão que eu possa cometer. Porque isto dos vinhos é uma ciência exacta, ou pelo menos muito complexa, só para iniciados. Basta ver a expressão e os trejeitos de quem vai a um restaurante, se senta a uma mesa e escolhe um vinho, de uma lista às vezes maior do que o próprio menu. Chega o criado com a garrafa, verte um pouco de vinho no copo e, nesse momento, todo o simples mortal se transforma num verdadeiro enólogo: agita um pouco o copo, cheira, observa o líquido contra a luz, prova um pouco, até dizer finalmente, com ar de entendido, ao pobre criado que espera pacientemente “Pode servir!”

O próprio vocabulário ligado ao vinho é hermético. Há vinhos de grande afinação, ou de personalidade vincada, seja lá isso o que for. Pode dizer-se de um vinho que é agressivo, ou que as arestas foram polidas, ou que tem boa prestação na boca. Pode-se verificar que os taninos ainda estão espigados, ou que a madeira está bem integrada. Fala-se da complexidade aromática e das notas licoradas. E de muitas outras coisas incompreensíveis para um leigo.

Por isso, vou apenas destacar um vinho da região onde habito e de que gosto particularmente: o Moscatel de Setúbal. Não sabia se podia incluí-lo nos vinhos, mas descobri que se integra nos vinhos generosos. Escolhi uma garrafa que tinha em casa e fiz uma busca no Guia de Vinhos do meu marido, porque não quero fazer má figura. Apresentam-no como “carregado na cor, com um aroma muito rico e de grande impacte inicial, trazendo abundantes notas de laranja em farripa e mel, alperce e algum fruto seco. Na boca, ao contrário do que o peso aromático poderia fazer supor, tem uma boa frescura, um corpo de veludo e um final macio e muito longo.”

Não sei avaliar se tem corpo de veludo nem distinguir as notas de laranja em farripa. Mas sei que me sabe muito bem, num copo alto com gelo, servido como aperitivo ou bebido com amigos, na esplanada, numa noite de Verão.

(Referências retiradas de “Vinhos de Portugal” de João Paulo Martins, Ed. Dom Quixote)

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Os Pássaros

Esta noite trovejou, mas a manhã acordou clara e lavada. No meu terraço, saltitavam melros e eu lembrei-me deste poema de Ruy Belo.

"Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a mão a inúmera mão?
Eu passo e muda-se- me o coração."

Ruy Belo

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

As aguarelas de Hitler


Mais uma vez, no sábado passado, foram a leilão aguarelas pintadas por Adolf Hitler. Desta vez, foi na cidade alemã de Nuremberga e três aguarelas atingiram a soma de 42.000 €. Não surpreende, já é a segunda vez este Verão que lemos uma notícia idêntica e os valores envolvidos vão sempre aumentando. Pelas imagens que vi, penso que este sucesso não se deve à qualidade artística das pinturas, mas sim à notoriedade do "artista". Há até quem duvide da autenticidade das obras. Enfim, a discussão à volta das pinturas cresce e o seu valor no mercado também!

Imagem retirada de blogdomrcondes.blogspot.com

Hitler terá afirmado que, durante os cinco anos anteriores à Primeira Guerra Mundial, pintou mais de mil aguarelas, desenhos e cartazes. Deambulou por Viena, vivendo da venda de alguns trabalhos e do seu sonho de ser artista. Em 1907 e 1908, candidatou-se ao concurso de entrada na prestigiada Escola de Belas-Artes de Viena. Duas vezes recusado, acaba por desistir do sonho e entrar no exército, com as consequências que são de todos conhecidas. Fica a pergunta: o que poderia ter acontecido se Hitler tivesse sido aceite na escola de Belas-Artes? Como teria sido o século XX?

domingo, 6 de setembro de 2009

Boa pergunta!


O Manoel, do Blog do Óbvio, colocou uma questão interessante. Eu recoloco-a aqui hoje, porque é uma boa reflexão de domingo.

Os tristes acham que o vento geme; os alegres acham que ele canta.
(L. F. Veríssimo)

De que lado você está? Acha que o vento geme ou canta?


(Fotografia retirada de ecoviagem.uol.com.br)

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Henri Fantin-Latour



Henri Fantin-Latour foi um pintor francês do século XIX, geralmente associado ao Romantismo. Não é muito fácil apreciar as suas obras em Portugal, mas o Museu Calouste Gulbenkian organizou uma exposição em parceria com o Museu Thyssen-Bornemisza, de Madrid, onde reúne cerca de 60 pinturas e desenhos deste artista, oriundos de vários museus europeus e americanos.

Seguindo a cronologia de produção do autor, apreciamos auto-retratos, cópias executadas no Louvre, retratos, naturezas-mortas (como eu detesto esta expressão, e como prefiro a expressão inglesa still life), e temas simbolistas. Gostei particularmente dos retratos, de grande expressividade e riqueza psicológica.
A exposição só está patente em Lisboa até dia 6, domingo. Depois, segue para Madrid. Por isso, é melhor aproveitar e dar um saltinho à Fundação Calouste Gulbenkian durante o fim-de-semana.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Desafio de aniversário


A Vanessa, do blogue Fio de Ariadne, lançou um desafio interessante: para festejar o quarto aniversário do seu blogue, tão ligado às letras e aos escritos, desafiou os seus leitores a escreverem um final para uma pequena história que ela iniciou. Aceitei o desafio e aqui está o resultado: a itálico o início do texto; depois, a minha proposta de final.
Parabéns, Vanessa.

Era um menino que adorava ler. Desde que foi alfabetizado no grupo escolar da fazenda, tinha gostado muito daquela história de juntar letras para descobrir palavras. O menino passava o dia todo procurando algo para ler. Lia os dizeres das latas de manteiga deixando a cozinheira maluca. Lia o rótulo do remédio de bicheira nos cavalos, os jornais velhos que forravam a estrebaria. Lia de tudo, o dia inteiro, mas faltavam os livros.
Um dia a coisa toda mudou...
Até que um dia tudo mudou. Houve um grande incêndio na fazenda. Foi o pânico, todos corriam de um lado para o outro, acartando água, batendo no chão com pequenos ramos para evitar reacendimentos, ou apenas gritando e atrapalhando todos os que tentavam salvar a aldeia e os campos de cultivo à volta. Ninguém ligava importância ao garoto, que fugiu pelos campos para o sítio que lhe pareceu mais seguro: a Casa Grande.
Em situações normais, aparecia logo alguém a enxotá-lo, “Sai daí, miúdo!”. Mas esta não era uma situação normal, toda a gente andava entretida com o fogo. O menino subiu as escadas a correr, sabe-se lá porquê, talvez porque lhe parecesse que mais perto do céu estava mais protegido! Deu com uma grande porta de madeira pesada, empurrou-a e sentiu-se mesmo no céu: era uma sala enorme, cheia de prateleiras até ao tecto e em cada prateleira acotovelavam-se livros de todos os tamanhos e feitios.
O garoto esqueceu-se de tudo, do fogo, do medo… Puxou um livro para si, depois outro.
Quando o dono da Casa Grande entrou na biblioteca, encontrou o menino sentado no chão, com um atlas aberto no chão à sua frente. Com o dedito, apontava sítios, seguia rios, soletrava nomes estranhos e aprendia que o mundo era muito maior do que ele pensava.
Em circunstâncias normais, o dono da Casa Grande ter-se-ia zangado com o garoto. Mas já expliquei aqui que, naquele dia, não havia normalidade em nenhumas circunstâncias.
Talvez fosse o dedito no grande atlas. Talvez fosse o olhar de descobertas e assombros do miúdo. A verdade é que o dono da Casa Grande se sentou ali no chão a falar com ele, perguntou-lhe o nome e os sonhos e convidou-o a vir à biblioteca sempre que ele quisesse. E ele foi.
Quando cresceu, tornou-se professor, das primeiras letras, pois claro!... Mas voltava sempre que podia àquela grande biblioteca, onde os livros cheiravam à sua infância.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Dormir aqui e amanhecer noutro lugar


(Post incluído na Blogagem colectiva "Dormir aqui e amanhecer noutro lugar"
Tema proposto pelo blogue Voudecolectivo)

Antigamente, cada família nobre tinha um brasão, conjunto de imagens que representava aquilo que tornava aquela família diferente das outras. Podia simbolizar algo de importante que um dos seus tivesse feito, uma conquista, uma descoberta, ou aquilo a que se dedicavam. Por baixa do brasão, uma frase completava o símbolo.
Quando li esta frase proposta para o mês de setembro, pensei: "Se eu tivesse um brasão, esta frase bem poderia lá figurar, de tal forma se aplica a mim e ao meu espírito andarilho!"
Adormecer num sítio e acordar noutro local, significa que cada dia se inicia com novas possibilidades de exploração do mundo, um mundo rico e variado, com infinitos cambiantes para conhecer. Todos os locais têm aspectos interessantes, podem ser paisagens, monumentos, tradições, as próprias gentes; há que estar atento e manter o espírito aberto ao que o mundo nos oferece.
Quando era jovem, nos meus 22 anos, fiz uma viagem de "interrail", de Lisboa até Itália. Muitas vezes dormi no comboio. Quando me dava o sono, se não havia muita gente na carruagem, punha os pés em cima do assento, apoiava a cabeça na mochila e lá ía eu, embalada pelo ruído das rodas do comboio. Quando acordava, sabia que estava noutro lugar, mas qual? Às primeiras luzes da madrugada, espreitava pela janela para tentar ver o nome de uma estação e orientar-me.
Essa viagem provocou-me um amor pelas viagens de comboio que guardo até hoje. Agora viajamos de avião, e não há tempo nem espaço para dormir, ou então viajamos de automóvel, e não convém nada adormecer.
Mas dentro de mim perdura a nostalgia das grandes viagens de comboio, em que não se ía simplesmente de um ponto para o outro, mas se gozava a própria viagem. Quando o tempo passava por nós mais devagar. Quando se adormecia aqui e se amanhecia noutro lugar!