sexta-feira, 16 de março de 2012

Um encantamento... para sempre

O texto que se segue é uma republicação. A Luma Rosa lançou uma blogagem coletiva com o título, sugestivo, de Amor aos Pedaços. A primeira fase é sobre o Encantamento, aquele momento em que sentimos que desperta em nós um amor incondicional, sem barreiras temporais ou de qualquer outra espécie. O momento de entrega a outro ser, um momento mágico, o início do para sempre! Este texto retrata um desses momentos: o nascimento de um filho. E aquela hora em que nos encantamos... para sempre!


A mulher abriu a porta do automóvel e dirigiu-se com dificuldade para a entrada do hospital. No guichet, a funcionária perguntou-lhe:
- Está muito aflita? Traz acompanhante? Precisa de cadeira de rodas ou acha que consegue andar? Diga-me só o nome e a morada.
Respondeu às perguntas e explicou que vinha com o pai. O marido tinha ficado em casa, com os dois filhos mais velhinhos.
- Pode entrar, o elevador é ali à direita. Sai no 2.º andar, eu vou avisar, a enfermeira já vai estar lá à sua espera.
Lá foi, andando com passos pequeninos, parando a cada contracção, tentando controlar-se. Eram 4 horas da manhã, o hospital estava vazio e os seus passos hesitantes ecoavam no corredor. No 2.º andar, a enfermeira já a esperava. Com os seus evidentes anos de experiência como enfermeira-parteira, tomou logo as rédeas da situação.
- Vamos ver como está a dilatação. Já tem três dedos de dilatação, já deve estar com bastantes contracções. Dê-me os exames, as ecografias. Vai à casa-de-banho e depois directamente para a sala de preparação. Vamos ligar o CTG.
Na sala de preparação, outras duas mulheres lutavam pelas novas vidas que se preparavam para nascer. Nem se olharam, cada uma concentrada na sua própria luta.
A mulher sentiu as águas rebentarem, uma torrente de águas quentes que parecia sair da própria dor que começava a cortá-la ao meio. Sentiu, mais do que ouviu, a voz familiar da sua médica obstetra. “Esta rapariga está cheia de vontade de nascer! Quase não me dá tempo para vestir a bata!” Tentou sorrir, mas só conseguiu suspirar de alívio pela presença da médica. Percebeu que a mudavam para outra maca, percebeu que estava na sala de partos, percebeu que lhe prendiam os pés nuns suportes elevados, percebeu que a auxiliar lhe calçava umas meias. “Não sabemos o tempo que isto vai demorar, não queremos que lhe arrefeçam os pés, não é?” A auxiliar apertou-lhe a mão, com carinho. “Isso, pode gritar à vontade!” Isso não tinha percebido, que estava a gritar. Onde estava a mulher que costumava ser, sempre tão controlada?
A enfermeira exclamou: “Não faça força! Não faça força ainda!” A mulher pensou que não estava a fazer força, era a filha que estava com pressa. “Agora vamos cortar um bocadinho, para a bebé não rasgar, está bem? Vá, agora é que é para fazer força!” Mas onde estavam já as forças? Pensou: “Não consigo! Já não consigo fazer força!” Cada dor era mais violenta e não a deixava concentrar no que precisava de fazer, que era fazer força. Um último esforço. “Pronto, já está. Muito bem, mãe, portou-se muito bem!”
Olhou pela primeira vez para a filha, ao colo da enfermeira. Chorava alto e estava vermelha e enrugada do esforço que fizera para nascer. No alto da cabeça, uns tufos de cabelo escuro, desgrenhado. A mulher pensou que não se parecia com ninguém. Só daqui a algum tempo ia começar a vislumbrar parecenças. “Tem os olhos da tia Joana” ou “O sorriso é igual ao do avô Eduardo”.
A enfermeira colocou a bebé sobre o peito da mulher, o que a fez sossegar e deixar de chorar. A mulher apertou-a docemente e sentiu que uma onda de ternura a avassalava e transbordava para aquele corpinho, tão pequeno, tão vermelhusco e enrugado, tão indefeso, tão seu, tão belo! Para sempre!

17 comentários:

  1. Boa noite, Teresa

    Momentos doloridos mas também de grande encantamento quando apertamos contra o peito o pequenino ser.
    Adorei o texto e o tema é indicadíssimo para falar de um amor que nos prende para sempre, o incondicional amor de mãe.

    Esta iniciativa promete..este é o terceiro post que comento alusivo a esta blogagem colectiva.

    Beijos

    Olinda

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  2. Linda participação e esse ENCANTAMENTO é eterno realmente.Lindo! beijos,chica

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  3. Olá, querida amiga

    "Somente quem ama e se permite amar
    é que detém o tesouro do
    verdadeiro
    AMOR!
    (Kiro)

    Mais uma emoção rola no ar... que maravilha poder contar com tanta gente impregnada de amor!!!
    Encantada por assim dizer... Enamorada pela vida...
    Amando o amor...
    E pelo Amor sendo amada...

    O Encantamento do nascimento de um filho é para sempre como bem mencionou...
    Amanhã estarei em festa no coração pelos 38 do meu mais velho...
    Mãe é um puro Encanto eterno!!!
    Obrigada por nos prestigiar e enriquecer com esse tipo de Encantamento inigualável...

    "Orvalhou o próprio Céu ante a face do Senhor"...
    Bjm encantado e ótimo dia amorizado.

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  4. Miguel Ângelo Fernandes17 de março de 2012 às 13:30

    O encantamento remete-me para Manuel Bandeira, vá-se lá saber porquê...

    Madrigal

    "A luz do sol bate na lua...
    Bate na lua, cai no mar...
    Do mar ascende a face tua,
    Vem reluzir em teu olhar...
    E olhas nos olhos solitários,
    Nos olhos que são teus...
    É assim que eu sinto em êxtases lunários
    A luz do sol cantar em mim..."

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  5. Horas de dor que terminam em risos!
    -É um menino! - disse o médico...era no tempo em que não sabíamos o sexo dos seres que "construíamos" durante 9 meses...
    Ouvi esta frase duas vezes! :-))
    - É um menino! -disse-me o meu filho, com meses de antecedência...e nós chorámos os dois! :-))

    Abraço

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  6. Este é o encantamento incondicional!!!
    Estou participando com dois blogs,tentando mostrar algo mais sobre a fase do encantamento comum a todas nós!!!http://zildasantiago.blogspot.com
    http://rumoslibertadores.blogspot.com
    sigo-a

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  7. O Encantamento da maternidade. Sem dúvida que nos faltava esse momento real na nossa coletiva. Um momento tão comum a todas as mães. Gostei muito da sua forma de escrever.
    Obrigada por estar conosco nesta magnifica coletiva.
    Beijo além-mar.
    Rute

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  8. Um encanto difícil de terminar...
    Obrigado pela tua visita!
    Bjkas
    Mila

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  9. Olá Teresa,
    Em cada blog, nessa blogagem coletiva, encontramos encantos e amores bem diferentes que nos encantam.
    Só sei que estou amando participar e ler histórias e perceber que de uma forma ou de outra os encantamentos acontecem em nossas vidas.
    Tudo de bom.

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  10. Este é um dos muitos encantamentos que acontecem nas nossas vidas.
    Obrigada pelas visitas e pelos comentários, tão gentis.
    Beijinhos.

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  11. Nossa Teresa que lindo!
    Falar desse momento tão maravilhoso da vida de uma mulher.
    Não tenho filhos ainda,mas imagino que quando chegar esse momento poderei escrever até um livro,de tão intensa que sou com as coisas.
    Maravilhoso,um domingo de muita luz pra vc!
    Abraço,=)

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    1. É um momento muito especial, sim, muito intenso e marcante.
      Obrigada pela visita Suu.
      Bjs

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  12. Se há amor eterno, é esse! Nem sempre em fase de encantamento, é certo, mas sem dúvida irreversível e inesgotável! :)

    Beijocas!

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    1. Pois... há fases em que não há encantamento mesmo nenhum, mas depressa nos esquecemos delas, não é?
      Bjs

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  13. Teresa, obrigada por republicar o texto, por participar da blogagem e pelo doce momento proporcionado com a leitura do seu texto! As mães sofrem no parto, sofrem para criar os filhos e, no entanto, essa dor é construtiva, pois parece que a cada dor, o nosso amor se multiplica. :) Boa semana!! Beijus,

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    1. Luma
      Não sei como, mas parece que se multiplica mesmo!
      Bjs

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  14. Eu tenho um imenso respeito pela Mulher, mas essencialmente pela sua capacidade de sofrimento ao dar à luz.
    É magnífico.
    Um beijo para ti que quero seja transmitido a todas as Mães do mundo.

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