domingo, 11 de março de 2012

Memória de celulóide


Entrou no bar com a fotografia na mão como se fosse uma bússola, que a orientasse na procura do caminho. Parou um pouco à entrada, olhou as mesas cheias de gente que bebia, ria e tagarelava. Viu uma mesa pequenina livre e dirigiu-se para lá. “Uma Cuba libre, se faz favor.” Voltou a olhar para a fotografia, onde sorria um belo rapaz, de cabelos encaracolados e olhos claros. O padrão e o feitio da camisa datavam-na dos anos 70. Era a única fotografia que tinha restado de um verão, feito de banhos de mar e beijos salgados, muita risota entre sumos naturais na esplanada da praia, danças apaixonadas nas noites de discoteca. Depois do verão, as aulas e o afastamento. Ficou um nome e aquela fotografia, a demonstrar que tinha sido real.
“Olá! És a Laura, não és?” Reconheceu logo a voz. E os olhos claros, embora agora escondidos atrás de uns óculos de armação escura e rodeados de papos.
Trocaram sorrisos. As palavras não saíam com tanta facilidade como no chat do facebook, onde se tinham reencontrado há um mês atrás.
“Tu estás exatamente na mesma!”
Claro que não era verdade. Tinha pelo menos mais vinte quilos do que no tal verão em que se tinham namorado. E os primeiros cabelos brancos tinham-na decidido a tornar-se loira. No entanto, arranjou coragem para responder:
“Tu também! Não mudaste nada!”
Claro que também não era verdade. Os quilos a mais estavam totalmente concentrados numa barriga que descaía sobre o cinto. O cabelo que faltava sobre a testa sobrava-lhe atrás, enrolando-se em caracóis grisalhos. O belo sorriso de outros tempos destapava agora as faltas de dentes laterais.
Fizeram conversa de circunstância durante mais algum tempo. Despediram-se, com muitas juras de encontros no facebook.
Quando Laura saiu do bar, deu uma gargalhada tão sacudida que teve de se sentar nas escadas que levavam à rua principal, onde tinha o carro estacionado. Depois levantou-se, ainda a sorrir, rasgou a fotografia e deitou-a no primeiro caixote do lixo. Não passava de uma memória de celulóide.


(Esta postagem integra-se na proposta da Fábrica de Letras para o mês de março, com o tema Fotografia)

5 comentários:

  1. Ahahahahah!!!!
    O que vale é que o tempo passa para todos e os tais vinte quilos também se fazem notar indiscriminadamente...
    Gostei muito deste texto. Tem um "je ne sais quoi..." que me fez sorrir... com agrado.
    Um grande beijinho.

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  2. Muito giro o texto, Teresa. Iamgino quantas situações dessas não ocorrerão diariamente, de encontros entre pessoas que na virtualidade param o tempo, enquanto na realidade os quilos e os anos se acumulam. Beijoca!

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  3. Não tenho nada contra o facebook ou a internet, como podem calcular. Mas há muitas situações enganosas, não é?

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  4. Como vivi muitos anos fora de Portugal, tive alguns reencontros desses. Um texto belíssimo, Teresa

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