Memória de celulóide
Entrou
no bar com a fotografia na mão como se fosse uma bússola, que a orientasse na
procura do caminho. Parou um pouco à entrada, olhou as mesas cheias de gente
que bebia, ria e tagarelava. Viu uma mesa pequenina livre e dirigiu-se para lá.
“Uma Cuba libre, se faz favor.” Voltou a olhar para a fotografia, onde sorria
um belo rapaz, de cabelos encaracolados e olhos claros. O padrão e o feitio da
camisa datavam-na dos anos 70. Era a única fotografia que tinha restado de um
verão, feito de banhos de mar e beijos salgados, muita risota entre sumos
naturais na esplanada da praia, danças apaixonadas nas noites de discoteca.
Depois do verão, as aulas e o afastamento. Ficou um nome e aquela fotografia, a
demonstrar que tinha sido real.
“Olá!
És a Laura, não és?” Reconheceu logo a voz. E os olhos claros, embora agora
escondidos atrás de uns óculos de armação escura e rodeados de papos.
Trocaram
sorrisos. As palavras não saíam com tanta facilidade como no chat do facebook,
onde se tinham reencontrado há um mês atrás.
“Tu
estás exatamente na mesma!”
Claro
que não era verdade. Tinha pelo menos mais vinte quilos do que no tal verão em
que se tinham namorado. E os primeiros cabelos brancos tinham-na decidido a
tornar-se loira. No entanto, arranjou coragem para responder:
“Tu
também! Não mudaste nada!”
Claro
que também não era verdade. Os quilos a mais estavam totalmente concentrados
numa barriga que descaía sobre o cinto. O cabelo que faltava sobre a testa
sobrava-lhe atrás, enrolando-se em caracóis grisalhos. O belo sorriso de outros
tempos destapava agora as faltas de dentes laterais.
Fizeram
conversa de circunstância durante mais algum tempo. Despediram-se, com muitas
juras de encontros no facebook.
Quando
Laura saiu do bar, deu uma gargalhada tão sacudida que teve de se sentar nas
escadas que levavam à rua principal, onde tinha o carro estacionado. Depois
levantou-se, ainda a sorrir, rasgou a fotografia e deitou-a no primeiro caixote
do lixo. Não passava de uma memória de celulóide.

(Esta postagem integra-se na proposta da Fábrica de Letras para o mês de março, com o tema Fotografia)
Amores de Verão...
ResponderEliminarAhahahahah!!!!
ResponderEliminarO que vale é que o tempo passa para todos e os tais vinte quilos também se fazem notar indiscriminadamente...
Gostei muito deste texto. Tem um "je ne sais quoi..." que me fez sorrir... com agrado.
Um grande beijinho.
Muito giro o texto, Teresa. Iamgino quantas situações dessas não ocorrerão diariamente, de encontros entre pessoas que na virtualidade param o tempo, enquanto na realidade os quilos e os anos se acumulam. Beijoca!
ResponderEliminarNão tenho nada contra o facebook ou a internet, como podem calcular. Mas há muitas situações enganosas, não é?
ResponderEliminarComo vivi muitos anos fora de Portugal, tive alguns reencontros desses. Um texto belíssimo, Teresa
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