sexta-feira, 9 de março de 2012

As Meninas do Calendário

Provavelmente, a única vantagem de estar doente é poder ler ou ver televisão com descanso e tempo.
Ontem, dia internacional da Mulher, aconteceu, seguramente não por acaso, que passaram na televisão dois filmes muito interessantes e simbólicos da evolução da situação da mulher no último meio século.
Durante a tarde, a FoxMovies (passe a publicidade) ofereceu a quem o quis ver "O Relatório Kinsey", um filme muito menos polémico do que o livro que lhe deu origem. O Relatório Kinsey foi provavelmente o primeiro grande estudo científico sobre a sexualidade e os comportamentos sexuais humanos. Só por isso, já merecia destaque. Mas o professor Kinsey atreveu-se a dedicar todo um livro apenas à sexualidade feminina, tratando com objetividade e naturalidade temas tabus como o orgasmo ou a masturbação nas mulheres. Na época, gritou-se "Escândalo!" e foi acusado de faltar ao respeito à mulher americana, lançando sobre ela esse olhar. Mais tarde percebeu-se que quem não respeitava a mulher, eram aqueles que a consideravam simplesmente como uma procriadora ou o recetáculo do prazer masculino; havia que conhecer e dar lugar às necessidades e ao prazer feminino, também.
À noite, o canal Hollywood presenteou-nos com o filme de 2003 "Calendar Girls". Confesso que não conhecia e só fiquei a ver porque a atriz principal era a Helen Mirren, que eu aprecio imenso. Mas foi uma boa surpresa. O filme parte de uma história verídica. Em Yorkshire, Inglaterra, um grupo de senhoras respeitáveis, de meia-idade, pertencentes a um clube feminino ligado à igreja, resolve de repente fazer algo completamente inesperado: um calendário artístico, onde as estrelas que aparecem despidas são... elas próprias! O objetivo é angariar dinheiro para a unidade de tratamento da leucemia do hospital local, onde o marido de uma delas tinha morrido recentemente. Explorando com graça e leveza os problemas de aceitação das famílias, da comunidade, e até das próprias mulheres, o filme leva-nos a pôr muitas interrogações sobre a nossa relação com o corpo e sobre o que é artístico e o que não o é. Acima de tudo, mostra que uma mulher de meia-idade não tem de se contentar com a confeção de bolos ou de toalhas de renda; pode ainda assumir-se como um ícone de beleza e de desejo, tudo dependendo da forma como é olhada e da forma como ela se olha a si própria.
Parabéns a todas as mulheres pelo caminho já percorrido. Os parabéns não vêm atrasados. Se as mulheres quiserem, todos os dias são dias das mulheres.


13 comentários:

  1. Isso este ano está mesmo mau, Teresa! São uma atrás das outras!! Eu vou espreitando a programação da TV, enquanto faço testes e programo as aulinhas. Confesso que nc vi o "Relatório Kinsey", mas vou ainda vou ver se o apanho. Quanto ao "Calendar Girls", já o vi, há algum tempo. Um mimo, não é? Beijinho e as melhoras.

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    1. É verdade Ana. Este inverno tem sido terrível.
      Também achei um mimo, não conhecia o filme.
      Obrigada e beijinhos.

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  2. Até que enfim...! um post edificante sobre as mulheres neste chamado "dia da Mulher",que eu odeio. =) Nada de paneleirices de "viva as mulheres giras que andam de saltos altos e conseguem controlar os 4 bicos do fogão simultaneamente... Já não há pachorra par este feminismo barato. Gostava muito de ter visto o Calendar Girls... Não me apercebi que estava a dar... =(

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    1. Obrigada Briseis
      Também não tenho paciência para esse tipo de visão da mulher, tipo anos 50, "trabalho fora, mas sou uma ótima cozinheira, sei tirar todas as nódoas, dou banho e conto as histórias aos filhos e ainda tenho sempre um sorriso para o marido!" Não temos de ser super-mulheres, nem devemos tentar sê-lo. Ser uma Mulher já é tarefa suficiente.
      Beijinho.

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  4. Ha tempos também vi o Calendar Girls na TV, numa noite de insónia. Achei um filme interessante.
    As suas melhoras e bom fds.

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    1. Obrigada Carlos
      Também achei interessante, nunca tinha visto.

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  5. É verdade, Teresa...

    Todos os dias são nossos, se vividos plenamente na grandeza que nos pertence.

    Um beijinho e os meus votos de rápidas melhoras.

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    1. Obrigada Maria João
      Todos os dias podem ser dias das mulheres, pois claro.
      Bjs

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  6. As tuas melhoras.
    Eu sou daqueles que não comemoro o dia da Mulher; acho que é mais uma subalternização a que a Mulher é exposta.
    Todos os dias são dias da Mulher. Pela mesma razão que não há um dia do Homem.
    Sejamos coerentes e honremos a Mulher.

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    1. Obrigada João
      Eu percebo a ideia dos dias disto e daquilo, mas são tantos que se banalizou a intenção. Temos de nos respeitar uns aos outros todos os dias.
      Bjs

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  7. Miguel Ângelo Fernandes10 de março de 2012 às 17:06

    Bonito texto... Feminino e sobretudo humano... Obrigado!

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  8. Sim, humano. Se todos nos entendessemos dessa forma, não havia necessidade de dias disto ou daquilo.

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