segunda-feira, 6 de abril de 2009

Aldeias de xisto - I


Longe dos resorts cheios de turistas ingleses que compram pacotes de férias em Portugal, longe dos campos de golfe e dos parques temáticos, longe das praias apinhadas e dos centros comerciais, há um Portugal genuíno, antigo, quase abandonado, que luta para sobreviver. Às vezes, encontra-se por acaso, quando se visita um familiar que ainda vive “na terra” (sempre me fascinou esta expressão!). Há uns meses, decidimos tirar um fim-de-semana para procurar esse Portugal esquecido.
Saímos das rotas habituais na vila da Lousã, depois de um bom almoço. Internámo-nos pela serra e, depois, por caminhos de terra. E encontrámos a primeira pérola: a aldeia da Cerdeira. É fácil não dar por ela. O próprio caminho de terra batida só leva até à igreja, onde também está parado um velho automóvel, talvez usado pelo padre, ou por um dos poucos habitantes. O resto do caminho faz-se a pé, por um pequeno atalho atapetado de xisto. De resto, aqui o xisto é o rei. Está nos caminhos, nas fontes e nas casas, em todo o lado.
Quando a aldeia surge, no meio dos castanheiros, é um deslumbramento. Parecem casinhas de presépio dispostas na encosta da serra, com as suas paredes de pedra de xisto em tons de castanho e as suas janelas de portadas azuis, amarelas, vermelhas. Temos de parar para absorver aquela visão tão inesperada quanto eterna. É um mergulho no tempo.
Quase ninguém já vive naquela aldeia, talvez três ou quatro pessoas, uma artista e o marido, um rapaz que cultiva e vende plantas aromáticas… Caminhamos pelas ruas desertas, ou melhor, pelas ruelas que parecem corredores, com menos de um metro de largura, pavimentadas com o mesmo xisto das paredes, das chaminés. A Junta de Freguesia afixou informações sobre a flora e a fauna autóctone. Foi uma boa ideia. Descobrimos notícias de gente que ali viveu, notícias de vida. Aprendemos que, quando das invasões francesas, que também por ali andaram, a população escondeu os seus bens mais preciosos, isto é, o seu gado e as suas crianças, numa grande árvore oca. Aprendemos que as aldeias vivem e morrem. Ou simplesmente adormecem.

2 comentários:

  1. Teresa!
    Parabéns... Gostei da forma como partilhaste esta tua experiência... talvez seja para muitos um desafio que os estímule a olharem mais profundamente para as coisas verdadeiramente importantes da vida ... Continua...
    Considero que cada vez mais os 'escapes' são fundamentais ao nosso equilibrio.

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  2. Augusta,também acho que os escapes são importantes e escrever sobre as coisas é uma maneira de as organizar na minha cabeça!
    Obrigada pela visita e pelas palavras.
    Bjs

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