domingo, 3 de janeiro de 2016

Pagar para visitar?



Ontem, ao princípio da tarde, quis experimentar a minha máquina fotográfica nova e fui até Cacilhas. Há muitos anos que não andava por aquelas bandas, mas a ideia era fotografar Lisboa do outro lado do Tejo. Mudei de ideias quando vi, ancorada junto ao Clube Náutico de Almada, a fragata D. Fernando II e Glória. 
Antiga fragata de guerra, construída na India portuguesa, em Damão, foi lançada às águas em 1843. Embora fosse um navio de guerra, transportava passageiros e fazia a ligação entre Portugal e os territórios portugueses na India. Já no século XX, foi transformada em Navio-Escola de Artilharia Naval e depois em sede da Obra Social da Fragata D. Fernando, recolhendo rapazes com fracos recursos económicos, que aí recebiam instrução escolar e treino de Marinharia.
Em 1963, sofreu um violento incêndio e permaneceu encalhada no rio Tejo até 1992, altura em que foi novamente posta a flutuar e reconstruída. 
Restaurada tal como era na década de 1850, a fragata D. Fernando II e Glória é hoje um navio museu, onde os visitantes se podem aperceber da forma como decorria a vida a bordo de uma fragata, naqueles tempos. A reconstituição é muito fiel e a visita é bastante interessante.


Quando nos acercavamos do passadiço para entrar no navio, não pudemos evitar ouvir a conversa do casal que ía à nossa frente. O homem olhava para o pequeno cartaz onde figuravam os preços e a mulher vociferava para quem a quisesse ouvir: "O quê? Pagar para entrar? Dar-lhes dinheiro, para irem fazer patuscadas? Por esse dinheiro, vou antes ali lanchar!" E lá foram! Fico sempre estupefacta com estas explosões de indignação. A mim, parece-me muito bem que se pague uma pequena quantia para visitar qualquer espaço museológico ou turistico. Todos estes locais precisam de manutenção, limpeza, pagamento dos salários de quem ali trabalha... O Estado paga, pois claro, com os nossos impostos! Se houver uma contribuição de quem usufrui do espaço que possa minimizar, nem que seja pouco, a necessidade de contribuição do Estado, todos ficamos beneficiados.


Os turistas estrangeiros que por ali andavam pagavam o bilhete de entrada sem estranhar, evidentemente. Havia mais uma família portuguesa. Os pais queriam ir visitar o navio. Mas a filha adolescente gritava: "Mãe, é um barco! Que seca! Não quero ir!" 
Não cheguei a perceber se essa família tinha entrado ou não. Mas tive vontade de ir chamar a outra mulher e pedir-lhe: "Vá lanchar com esta menina! Estão bem uma para a outra!"


3 comentários:

  1. Gostei imenso do que escreveste, Teresa !
    Querem tudo à borla...
    E o lanche pagarão ?
    A miúda é fruto de tanta coisa...


    Um beijo ( pelo que vejo, a máquina portou-se bem ! )

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    1. Obrigada João!
      A maquina portou-se bem, o navio é bonito, só podiam nascer boas fotografias... :)

      Beijinhos

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  2. obrigada pela "visita guiada"... eu trabalho num Museu e fervo de raiva quando me deparo com a abordagem do "tem que se pagar? então não quero visitar"... demonstra que a nossa visão do que é cultura é mesquinha. É claro que cultura devia ser acessível a todos... mas é uma utopia cara para o Estado.

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