segunda-feira, 29 de julho de 2013

Lisboa em tempo de guerra

(Sentinela da Legião Portuguesa em serviço no Terreiro do Paço)

No início dos anos 40, a Europa vivia o caos da Segunda Guerra Mundial. A Alemanha avançava em todas as frentes e temia-se um ataque também a Portugal. Sabe-se que esteve planeado, seria a Operação Félix. Salazar organiza então a defesa da cidade de Lisboa, através da Legião Portuguesa. Há monumentos nacionais protegidos por tapumes, os feixes de luz varrem os céus, os tesouros da arte portuguesa são encaixotados e resguardados.
Um país neutral no meio de uma Europa em guerra, Portugal é também local de encontro de espiões de todos os lados do conflito, e plataforma giratória de refugiados que aqui procuram um porto seguro mas, principalmente, um local de passagem para outros destinos. 
Os que aqui chegam encontram um país de contrastes, em muitos aspetos parado no tempo. À volta do eixo definido pela Avenida da Liberdade e Avenidas Novas, surgiam os bairros pobres, onde a sobrevivência era uma luta diária. Uma cidade onde coexistiam lavandeiras e vendedores de galinhas montados em burros, com o esplendor da recém inaugurada Exposição do Mundo Português, que enaltecia o Portugal Imperial. Mas os refugiados também contribuiram, com os seus costumes e as suas indumentárias modernas, para a evolução e a mudança de mentalidades do Portugal conservador e fechado sobre si próprio.
Apesar de todas as limitações, Lisboa era, naqueles tempos, a última fronteira da paz, um local cheio de luz numa Europa de trevas.
São as imagens desses tempos, de uma cidade na fronteira entre a paz e a guerra, que nos são trazidas pela exposição Lisboa em tempo de guerra, agora patente no Torreão Poente do Terreiro do Paço. Um exposição imperdível! O seu encerramento está previsto apenas em dezembro, mas eu aconselho uma visita durante o verão: as janelas abertas proporcionam vistas magníficas sobre o Terreiro do Paço, de cara acabadinha de lavar. A estátua de D. José e o Arco da rua Augusta terminaram as limpezas, já estão destapados e estão lindos! Garanto uma tarde bem passada!

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Dos Livros

(Kansas City Public Library, Missouri - fotografia do Google)

Desde sempre associei o verão aos livros e às leituras. Não sei bem porquê. Talvez porque no verão, nas férias, tenho mais tempo para ler. Ou talvez porque estar debaixo de um chapéu de sol, com uma brisa agradável e uma bebida fresca, acompanhada por um bom livro, é um dos meus ideais de bem estar! Seja como for, dei por mim a pensar em livros. E lembrei-me daquela magnífica biblioteca pública, em Kansas City, cuja fachada é composta por lombadas de livros, agrupados como numa gigantesca prateleira, enormes, poderosos! 
Isto de estar de férias é assim mesmo! Temos tempo e disponibilidade mental para pensar no que nos apetecer! E fiquei a pensar, para comigo, que livros escolheria se me fosse dada a possibilidade de organizar uma fachada assim, para uma biblioteca, uma feira do livro, ou qualquer outro sítio dirigido aos amantes da leitura.
O primeiro de que me lembrei foi o D. Quixote. Confesso aqui que tenho um fraquinho por aquele cavaleiro de Triste Figura, em luta contra moinhos de vento e gigantes que só ele vê, o campeão das causas romanescas e perdidas. Diz Cervantes que ele perdeu o juízo por pouco dormir e muito ler. Pareceu-me que merecia um lugar de honra na minha fachada!
Não podiam faltar os grandes cultivadores da língua portuguesa. Dois ou três livros de António Lobo Antunes, que amei e me doeram até hoje. Um de Saramago, talvez As Intermitências da Morte. Mais alguns exemplos, de escolha difícil, Teolinda Gersão, Hélia Correia, Vergílio Ferreira.
Aqui incluo também os que reinventam a língua portuguesa noutros locais da lusofonia, Mia Couto, Pepetela. E poesia, muita poesia, porque a poesia faz bam à alma!
Não podiam faltar os autores brasileiros que acompanharam a minha adolescência, Erico Veríssimo e Olhai os Lírios do Campo, Jorge Amado e a sua Gabriela, Cravo e Canela
E os livros que falam do amor pelos livros, também têm de lá figurar: A Sombra do Vento, de Zafón, e Firmin, de Sam Savage, por exemplo.
Acho que não ía resistir e incluía uns livros dos Cinco, e um romance policial de Agatha Christie! 
E, evidentemente, bem no centro, O Principezinho, o livro que nos ensina a olhar o mundo com os olhos do coração!
Bem, a minha escolha parece que já dava para uma fachada bem grande! Mas gostava que me ajudassem e dessem sugestões. Quais seriam as vossas escolhas para figurarem na prateleira especial dos livros da nossa vida?

quarta-feira, 24 de julho de 2013

A Fonte Luminosa - adenda!

Em novembro do já distante ano de 2009, ainda este blogue era um infante, escrevi sobre a Fonte Luminosa que, abandonada e seca, tinha deixado há muito de ser fonte, quanto mais luminosa! Está aqui, para quem quiser recordar. Está mais do que na altura de fazer uma correção a esse post. É justo e devido! Porque a fonte já foi recuperada e voltou a jorrar água, e aí está, imponente e bonita, a marcar o topo da Alameda D. Afonso Henriques, em Lisboa.
As obras de reabilitação incluíram a recuperação das estruturas construtivas, a limpeza da pedra e proteção das cantarias, o restauro da estatuária, a reparação dos sistemas hidráulicos e mecânicos. Foram introduzidas novas bombas e quadros elétricos e um sistema computorizado que permite diferentes efeitos cenicos dos jogos de água e de luz e programar as horas de funcionamento. Tudo isto custou cerca de 1,3 milhões de euros, desta vez muito bem utilizados!
A fonte, inaugurada em 1940 para comemorar a entrada das águas canalizadas na zona oriental da cidade, voltou a funcionar no dia 20 de dezembro de 2012. Estive lá nesse fim de tarde, ansiosa por rever os jogos de água da minha infância. No entanto, a inauguração atrasou-se (na verdade, quem se atrasou foram as entidades políticas que iam proceder à inauguração!) e, como a hora do jantar se aproximava, tive de lá voltar depois. Mas valeu bem a pena! 
Agora, a fonte funciona durante a hora do almoço e as primeiras horas da noite. Os jogos de luz e água são esplendorosos. E tornou-se um ponto de encontro e atração para lisboetas e turistas. Aos fins de semana, acotovelam-se os fotógrafos de ocasião. Mas, durante toda a semana, os lisboetas voltaram a usufruir de uma zona que, devido à fonte monumental, se tornou mais bela e mais fresca. Há sempre muita gente nos bancos que rodeiam a esplanada, a ler, a namorar, ou simplesmente a descansar um pouco. Há concertos na esplanada por cima da fonte, nos fins de tarde de verão. Há aulas de ginástica nos relvados fronteiros à fonte. De resto, quem quiser pode utilizar os aparelhos de ginástica que lá foram colocados. E há sempre clientes! Continuam ali os reformados a fazer os seus jogos de sueca e dominó, mas também há senhoras a treinar tai-chi sob a sombra das árvores. Há muitos miúdos a jogar à bola na relva, que para isso é que ela é mesmo boa! 
Contou-me uma amiga que, há alguns dias atrás, quando o calor esmagava a cidade, houve pessoas, novos e velhos, que se meteram dentro da fonte. Não me admiro, estava ali,  apetitosa e refrescante. Uma senhora saiu de lá com um pé cortado, porque havia vidros de garrafa partidos dentro da fonte. Temos de merecer o que a cidade nos oferece. É isso o civismo! Não vale de nada reivindicar, se não somos capazes de merecer o que temos!


(Fotografia roubada a Rafael Martins)

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Das baratas

Há qualquer antagonismo entre as mulheres e esses insetos que dão pelo nome genérico de baratas. É uma aversão atávica, ancestral, uterina... Não sei qual é o seu fundamento científico, mas não há dúvida de que é facilmente comprovável!
Aqui há dias, fui a um supermercado no interior de um centro comercial da capital. É um pequeno supermercado, dentro de um centro comercial insuspeito, e eu entrei apenas para comprar uma alface e mais alguns produtos de mercearia. Quando me dirigi à caixa e pus os produtos no tapete rolante, vi que saía do saco de plástico da alface um bicho com a aparência de uma barata. Se não era uma barata, era um membro da família que, como todos sabem, é muito vasta. A barata parou na borda do saco e ali ficou, com ar provocador. Eu sei que isso não tem problema nenhum, e que no campo há bichos, e que um bicho se pode meter num saco, e por aí fora... Mas entre a compreensão e a reação, há uma distância infinita de incapacidades! Fiquei paralisada, a olhar para a barata...
Quando chegou a minha vez, confidenciei à rapariga da caixa: "Estou com um problema! Está ali um bicho na borda do saco e eu não sou capaz de lhe pegar!" Ela olhou e respondeu: "Já somos duas! E agora?" Olhámos uma para a outra, a rir. A rapariga, então, chamou o segurança e explicou-lhe o problema. O rapaz pegou num guardanapo de papel e tirou o bicho do saco. Sem um comentário, mas com um meio sorriso que expressava tudo o que lhe ía na alma. Apenas soltou um "Já está!" que me pareceu idêntico ao que Hércules teria bradado depois de matar o leão de Neméia.
Quando ele voltou costas, e enquanto fazia as contas, a rapariga disse-me, com ar cúmplice: "Os homens sempre servem para algumas coisas!" Rimo-nos, claro, da frase, mas principalmente de nós próprias.
Abençoados sejam os homens! E que haja sempre um à mão quando é preciso!


quarta-feira, 10 de julho de 2013

Das previsões meteorológicas

Não foi assim há tanto tempo! Foi talvez no final da primavera, quando suspiravamos por uns dias de sol e calor e o S. Pedro só nos brindava com chuviscos e temperaturas invulgarmente baixas para a época. E a previsão espalhou-se: segundo os meteorologistas franceses, iamos ter o verão mais frio desde 1816! Quem tinha marcado férias lá para setembro, talvez tivesse sorte! Antes disso, era dizer adeus à praia e às esplanadas e às cervejolas geladas!
Talvez o S. Pedro se tivesse enchido de brios, não sei!
A verdade é que o calor veio em força, até com uns exageros dispensáveis! Não me apetece escrever, nem pensar muito! Só me apetece preguiçar, de preferência à beira mar, ou num local aprazível, com largos horizontes. 
Ainda bem que, nestes estranhos tempos que correm, nem as previsões meteorológicas são irrevogáveis!

(Na Herdade do Esporão - Fotografia de... Teresa Diniz)

sexta-feira, 5 de julho de 2013

A carreira de mãe

Ser mãe é uma carreira. Longa e exigente. Uma daquelas funções com isenção de horário, que exige dedicação total, mesmo que a remuneração não seja grande.
Não é uniforme, tem escalões, e nós lá vamos subindo na carreira conforme podemos. No início, quando entramos em funções, somos como um trabalhador inexperiente, inseguro. Temos medo de fazer alguma coisa mal, lemos tudo sobre o nosso trabalho, nem dormimos com medo que alguma coisa dê para o torto!
Depois, vamos adquirindo prática e tudo se torna mais fácil. Definem-se procedimentos. Estabelecem-se rotinas. A pouco e pouco, começamos a delegar tarefas, e descobrimos que, de simples trabalhadoras indiferenciadas, passámos a chefes de divisão. Damos orientações, mantemos o rumo. Quando é necessário, fazemos uma admoestação. Sempre que podemos, distribuimos elogios.
Quando damos por nós, somos uma espécie de CEO da empresa. Já tudo funciona independentemente de nós. A empresa cresceu, os funcionários seguiram o seu caminho, e trouxeram mais-valias que nós nem tinhamos imaginado. Mas não se esquecem que fomos nós que lhes demos o impulso para crescer! Quando há uma festa, fazem questão que estejamos presentes. E, se há um problema, é para nós que se voltam, em busca de conselho, de experiência, de colinho! E nós damos o ombro, claro, de braços abertos e sorriso rasgado. Às vezes, com uma lagrimazita ao canto dos olhos!
Porque aqui não há lugar para reformas antecipadas! A carreira de mãe não termina nunca!

(imagem da revista Elle)

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Seguindo os rebanhos


Desde tempos imemoriais, os pastores do interior de Portugal subiam à Serra da Estrela no início do verão, para procurar as melhores pastagens. Quando os tempos frios se avizinhavam, voltavam a descer a serra, fazendo os mesmos precursos em sentido contrário.
A este movimento pendular chama-se transumância. Gosto desta palavra. Etimologicamente, advém da junção do radical trans, que significa para além, com a palavra humus, terra. Isto é, designa o movimento que leva para lá da terra, cruzando culturas e experiências à cadência da passagem dos rebanhos.
Neste fim de semana, foi recriada a Grande Rota da Transumância, entre Seia e as pastagens na zona do Sabugueiro. E nós fomos convidados a seguir os rebanhos pela serra acima, por caminhos seculares. O momento é de festa. Cada rebanho é conduzido pelos seus pastores, vestidos a rigor. Os bodes e os carneiros são enfeitados com bolas de lã coloridas e com grandes chocalhos, que se fazem ouvir a distância. Nas aldeias, as pessoas vêm às portas e às varandas, acenar. Nas paragens, ouvem-se as concertinas, e come-se pão de centeio acompanhado de presunto e queijo da serra.
Foi um passeio pedestre, mas diferente, que aliou o gosto pela caminhada a uma tradição milenar, que teima em não desaparecer. Como um rio subterrâneo, que corre sempre, embora às vezes com pouca visibilidade, indiferente ao ritmo da modernidade, aos avanços tecnológicos, às auto-estradas e às pontes aéreas, à troika, ao FMI ou às guerrilhas partidárias.
São manifestações de um Portugal rural, genuíno, que sobrevive. Apesar de tudo.


(Fotografias de Teresa Diniz)