domingo, 20 de junho de 2010

Modesta homenagem a Saramago

Era um homem de convicções fortes e gostava de polémicas. Podiamos não estar de acordo com ele, podiamos achar que, por vezes, raiava os limites da inconveniência. Podiamos entrar no jogo e perder tempo a discutir pormenores das suas opiniões, sobre a Bíblia, ou a união de Portugal com Espanha, ou qualquer outro assunto. Ou podiamos simplesmente abrir um livro e deixarmo-nos conduzir pela sua escrita, original e inebriante. Eu sempre optei pela segunda opção. Amei a escrita de Saramago desde as suas primeiras obras, que conheci durante os anos 80: "Levantado do Chão", "O ano da morte de Ricardo Reis", "A história do Cerco de Lisboa", "As intermitências da morte", são livros que guardo no coração, e que gosto ainda de reler. Há quem goste e refira outros, mais conhecidos. Há quem fale bem ou mal, sem nunca lhe ter lido uma linha. 

"Quer que chame um táxi para a levar ao hotel, e a mulher respondeu, Não, ficarei contigo, e ofereceu-lhe a boca. Entraram no quarto, despiram-se e o que estava escrito que aconteceria, aconteceu enfim, e outra vez, e outra ainda. Ele adormeceu, ela não. Então ela, a morte, levantou-se, abriu a bolsa que tinha deixado na sala e retirou a carta cor de violeta. Olhou em redor como se estivesse à procura de um lugar onde a pudesse deixar, sobre o piano, matida entre as cordas do violoncelo, ou então no próprio quarto, debaixo da almofada em que a cabeça do homem descansava. Não o fez. Saiu para a cozinha, acendeu um fósforo, um fósforo humilde, ela que poderia desfazer o fósforo com o olhar, reduzi-lo a uma impalpável poeira, ela que poderia pegar-lhe fogo só com o contacto dos dedos, e era um simples fósforo, o fósforo comum, o fósforo de todos os dias, que fazia arder a carta da morte, essa que só a morte podia destruir. Não ficaram cinzas. A morte voltou para a cama, abraçou-se ao homem e, sem compreender o que lhe estava a suceder, ela que nunca dormia. sentiu que o sono lhe fazia descair suavemente as pálpebras. No dia seguinte ninguém morreu.
                         (José Saramago, As Intermitências da Morte)

Na sexta-feira, José Saramago morreu. Hoje, foi cremado, no meio das homenagens nacionais. Não perco tempo com questiúnculas menores, como por exemplo, quem deveria ou não estar presente no seu funeral. O que me interessa, é o que dele fica: uma obra ímpar, que nos orgulha a todos.
José Saramago era ateu, não acreditava no Céu ou no Inferno. Por isso, desejo apenas que as suas cinzas descansem em paz.




41 comentários:

  1. Fiquei muito feliz ao encontrar esse post. Vaguei por muitos blogs, pela imprensa portuguesa, sempre tentando entender porque não conseguiam separar os rompantes do homem, fálivel como qualquer um, e a genialidade do escritor.

    Felizmente cheguei aqui e confesso: eu poderia ter escrito esse texto, porque é assim que me sinto em reação a ele.Reler suas obras sempre será um prazer.

    Um abraço e parabéns pelo irretocável post.

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  2. Só os "happy few" percebiam Saramago. Ele foi a única criatura que pegou no "establishment", baralhou-o e deu de novo para que, quem entendesse, pudesse ter outros olhares.

    Bonita, a sua Homenagem!

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  3. Muito linda tua homenagem a esse grande homem que se foi...beijos,chica

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  4. Gizelda
    Fico contente por estar em sintonia comigo. É preciso aprendermos a separar as coisas.
    Bjs e volte sempre.

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  5. Mar de Bem
    Sem dúvida, ele conseguiu dar-nos olhares bem diferentes sobre as grandes questões da Humanidade.
    Bjs

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  6. Chica
    Não podia passar em claro. Saramago foi um grande escritor e poeta, ganhou um prémio Nobel. Merece a homenagem, quer se goste, quer não.
    Bjs

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  7. MagyMay
    Pela escrita, pois claro, o resto é irrelevante :)
    Bjs

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  8. Teresa,
    Sem dúvida um grande escritor, mas tb um motivo de orgulho para Portugal. Desculpa, a minha costela patriótica.
    E, ao contrário de ti, reclamo a ausência das primeiras figuras da República na despedida ao Prémio Nobel. Quer se goste ou não, quer se esteja de acordo ou não, há que reconhecer. Ponto. Dever é dever. E patriotismo é patriotismo.

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  9. Ana
    Como podes depreender do meu post, não entro nessa polémica, que me parece mais uma questiúncula mediática. E, se falarmos em patritismo, digamos apenas que Saramago não era o seu maior expoente. Por morrerem, as pessoas não se tornam santas, como parece acontecer demasiadas vezes neste pais.
    Bjs

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  10. Olá, Teresa.
    Penso que são destas homenagens, como por exemplo, a sua, que prestigiam a figura de Saramago.
    Todos ficámos mais pobres, especialmente os Portugueses.
    Bj

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  11. Maré Alta
    Concordo, a cultura portuguesa ficou mais pobre.
    Bjs

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  12. Querida Teresa, vai-se o poeta, fica sua obra imortalizada, linda homenagem a um homem tão importante na literatura portuguesa.Tenha uma linda semana...Beijocas

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  13. Olá,
    Como bem sabes, os "intlectuais" da nossa praça, são muitas vezes arautos de questões de importância nula e vazia de conteúdos. A questã que interessa é se SARAMAGO é mesmo depois de fisicamente desaparecido um HOMEM da CULTURA não só PORTUGUÊS, mas MUNDIAL.
    Eu tenho a certeza da segunda.
    Gostei da tua Modesta homenagem a Saramago.
    Bjs.

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  14. A minha familiar alemã está admiradíssima com a homenagem, que os portugueses estão a fazer ao Saramago.
    Eu não tenho opinião, só digo, que se a Merkel estivesse em férias não regressava, caso o Grass morresse, que o caixão dele não era coberto com a bandeira alemã e os jogagores alemães não punham luto durante o jogo.
    Curioso, quando o ano passado estive cá no Porto, havia uma polémica terrível contra a Saramago, por causa do "Caim".
    Uma pessoa só precisa de morrer para que os outros nos vejam com outros olhos!!!

    Beijinhos da cidade mais bonita do mundo!

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  15. Teresa,

    Eu sou das que falam sem ter lido uma linha. Eu sou das que acha que as polémicas não adiantam, mas que também incomodam quem não perde tempo a falar delas. Eu sou das que homenageia o homem, a coragem e a frontalidade. Eu sou das que falam sem ter lido uma linha, mas sou igualmente das que condena quem as leu e não lhe soube dar valor.

    Beijinho :)

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  16. Teresa
    Saramago é eterno , pérpetuo em sua obra.
    E é como o Júnior postou lá no Contatos, um ateu mais cristao que se teve notícia ... gostava de "causar " , destemido, um gênio das letras.
    É mais um entre os portugueses que se destacaram e será sempre lembrado, um ogulho prá Portugal
    E por falar em orgulho, viu lá o que fez os portugueses com os corenanos ? rs os deixaram " a pastar " tomara nao queiram repetir essa façanha com os brasileiros... :( covardia hem? o Brasil nao vai jogando muito bem , tem é sorte!
    boa semana , abraços

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  17. Marilu
    É como dizes, vai-se o poeta, fica a obra.
    Bjs

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  18. Fernando
    Saramago, quer se goste quer não, é um Prémio Nobel. A sua marca ficará na Cultura mundial, com toda a certeza.
    Bjs

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  19. Ematejoca
    Tens toda a razão: em Portugal, basta morrer para se passar a ser excelente. O mesmo aconteceu com Saramago. Felizmente, a minha opinião foi sempre a mesma e é a que expresso neste post.
    Já estás no Porto?
    Bjs

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  20. Helga
    Só há uma solução: ler urgentemente! Não comeces pelo Memorial do Convento, que é pesado. As Intermitências da Morte, por exemplo, ou A Viagem do Elefante, são bons para começar. Tenho a certeza que vais amar.
    Bjs

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  21. Lis
    Dizes bem, Saramago é perpétuo na sua obra.

    Eu acho que era giro Portugal e Brasil empatarem (para manter a emoção).
    Bjs

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  22. Adorei a tua singela (?) homenagem a Saramago. Não foi singela, foi uma homenagem sentida e honesta. O teu texto está fabuloso e, claro, partilho plenamente das tuas ideias.

    Beijos

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  23. JS deixou-nos um legado cultural valiosíssimo.

    Louvo a sua frontalidade;
    Discordo das opções ideológicas;
    Li até ao fim e não concordei, nos termos, com
    «A Jangada de Pedra»
    «Ensaio Sobre a Lucidez»

    Bjs

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  24. O "Memorial" é um livro pelo qual tenho um imenso carinho. Quanto mais o estudo, mais gosto dele. Blimunda e Baltazar imortalizam Saramago e o sonhador que nele havia. O "Ensaio sobre a Cegueira" é genial pela trama que leva os homens a chegarem ao mais baixo da condição humana.

    O homem morreu, partiu. Mas o autor está por cá, connosco, com a humanidade, para todo o sempre. Até sempre, José Saramago!

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  25. Teresa, uma homenagem linda e mais do que justa. Foi uma grande perda. Gostei muito do texto. Esse eu ainda não conhecia. Beijão!

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  26. Sem entrar em discussões de "gosto" ou "não gosto", de defender ou atacar quem foi ou devia ter ido, há um pequeno pormenor que acho no mínimo ridículo, pelo exagero: o luto dos jogadores da selecção nacional (nem tanto ao mar...)
    Que descanse em paz.

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  27. Natália
    Foi uma homenagem sentida, nada mais. Já não posso com polémicas que nos desviam do essencial.
    Bjs

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  28. JPD
    Mesmo discordando das suas opções ideológicas (em que também não me revejo), tenho a certeza de que houve livros que o tocaram, cativaram, ou fizeram reflectir.
    Bjs

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  29. Maggie
    Concordo com tudo o que dizes, só não falei desses dois livros por serem, de qualquer forma, os mais conhecidos. Baltazar e Blimunda serão personagens eternas da literatura universal.
    Bjs

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  30. Pinguim
    Já sabes que os portugueses, nestas coisas da morte, são uns exagerados :)
    (Aposto que a maioria dos jogadores nunca leram uma linha escrita por Saramago!)
    Bjs

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  31. Não é modesta a sua homenagem, acho que Saramago a apreciaria.
    Um abraço

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  32. Olá Teresa!
    Apesar de não apreciar Saramago enquanto pessoa,ainda estou em dúvida para com a sua escrita.Indubitavelmente,marcou o Mundo.Quando penso em Saramago,penso na frase seguinte:"Falem bem ou mal de mim,mas falem".Daí,mesmo sendo ateu,será sempre eterno.

    Quanto a maioria dos jogadores nunca terem lido uma linha escrita por Saramago,olha que às tantas ainda nos surpreendem como fizeram ontem...:)

    Jocas gordas
    Lena

    P.S.:Convite: participe na Blogagem de Julho do blog aldeiadaminhavida. O tema é: “A Fruta da minha Região”. Vale tudo: texto, foto, imagens, vídeos, receitas, cartazes… dê asas à sua imaginação, enviando a sua participação para aminhaldeia@sapo.pt até dia 8 (de preferência). Esta semana, sairá 1 post com mais informação.

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  33. Muito se falou, muito se fala e muito se falará ainda sobre este grande Homem, sobre este grande Escritor. Falar-se-à bem, ou mal, mas sobre ele e sua obra não haverá silêncio. Virão os "críticos literários" apontar ao conjunto de sua obra um defeito aqui, outro ali (ah, inveja maldita!); outros desfazer-se-ão em elogios. Eu calo-me porque, como quem bem disse, Saramago levou consigo todas as palavras ... e para mim só sobraram estas:

    Por causa de Saramago ainda me orgulho muito mais de ter como minha língua-mãe o Português.

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  34. Não consigo prestar-lhe qq homenagem. Não consigo ler qq livro. É era um homem mau... Mas é apenas a minha opinião.

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  35. Sem entrar em polémicas e atendendo ao género de Saramago, pergunto se: será que Saramago queria um Funeral, para si assim?

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  36. Helena
    Quanto aos nossos jogadores, acho que não precisamos temer surpresas dessas :)
    Bjs

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  37. Anónimo
    Falou bem, porque não assina o que escreve?

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  38. Expressodalinha
    Todos temos direito à nossa opinião :)
    Bjs

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  39. Samnio
    Quem sabe o que Saramago quereria? Talvez menos hipocrisia nas conversas laudatórias a seu respeito.
    Bjs

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